Esta é, e será sempre, a Epoca famoza da-Latinidade, e Gramatica. A estes trez grandes omens, seguîram em tudo e por-tudo os melhores Gramaticos, que despois ouveram: e devem seguir, os que tem juizo para conhecer, como se deve estudar a Latinidade. Por-Fransa, Alemanha, Olanda, Italia, e outras partes se-dilatou este metodo: e alguns escrevèram belisimas Gramaticas, segundo os tais principios. A razam porque nam se-propagou mais é, porque pola maior parte os estudos da-Mocidade, sam dirigidos por-alguns Religiozos, que seguem outras opinioens. Os doutisimos Jezuitas, ensinam grande parte da-Mocidade, em varias partes da-Europa: e nam querendo apartar-se, do-seu Manoel Alvares, rejeitáram todas as novas Gramaticas. Alguns destes Religiozos, que trato familiarmente, e estimo muito pola sua doutrina, e piedade; me-diseram claramente, que bem viam, que o Alvares era confuzo, e difuzo; e que as outras eram melhores: nem se-podia negar, que os principios de Scioppio fosem claros, e certos: mas que o P. Geral nam queria, se-apartasem do-P. Alvares, por-ser Religiozo da-Companhia. Este é o motivo, porque o P. Alvares se-conservou, nas escolas dos-tais Religiozos: e esta tambem a origem da-tenacidade, comque muitos seguem, aquilo mesmo que condenam.
Os outros Religiozos, aindaque nam sejam Jezuitas, tem as mesmas obrigasoens, e opinioens. A maior parte, cuida pouco niso: e vam vivendo, como seus mestres lhe-ensináram. Nam tem noticia dos-melhores autores, que á na materia: cuidam, que no-mundo nam á outra Gramatica, fóra que a do-P. Alvares. E todos estes, contentando-se de intender, um pouco de Latim bom, ou mao, nam cuidam em saber Gramatica. Os mestres Seculares, pola maior parte, sam ignorantisimos, e puros pedantes. e desta sorte de gente nunca esperou aumento, a republica Literaria. É necesario porem confesar, que fóra de Portugal, aindaque perzistam algumas destas razoens, muitisimos Religiozos, e Seculares ensinam, segundo os verdadeiros principios. Comque, considerado bem tudo isto, nam tem que se-maravilhar V. P. de que um metodo, que louvam tanto os omens doutos, tenha tido tam mao recebimento, em varias partes. Mas estas Gramaticas que tem saido, aindaque sigam os mesmos principios, nem todas se explicam com igual clareza. Eu direi o que achei nas melhores, e o como se-pode ordenar uma Gramatica, util para a Mocidade.
A Gramatica deve-se dividir, em dois volumes. No-primeiro, devem-se tratar aquelas coizas, que indispensavelmente devem estudar os principiantes. no-segundo, aquelas reflexoens, que sam mais proprias para os adiantados, e para os mestres: como sam as dificuldades de Gramatica, e as razoens daquelas regras, que parecem menos comuas. Explico agora a primeira parte. Esta primeira parte (podemos-lhe chamar pura Gramatica: porque a segunda, sam comentos sobre ela) divide-se naturalmente, em quatro partes: Etimologia, Sintaxe, Ortografia, e Prozodia. a primeira trata das-Vozes: a segunda da-Uniam delas: a terceira das-Letras: a quarta da-Quantidade das-silabas.
ETIMOLOGIA.
Na primeira parte, trata-se da-origem e diferensa das-vozes Latinas, que podem entrar na orasam, por-sua ordem. Primeiro, explica-se o Nome, e suas especies. O Nome, tem trez acidentes, que sam, Genero, Cazo, Terminasam. Os Generos, que tanta bulha fazem nas escolas, explicam-se com toda a brevidade. á regras gerais da-significasam, e particulares da-terminasam. Na primeira regra, poem-se todos os que pertencem ao Masculino. v.g. Sam do-Masculino, os nomes de Omens &c. 2. Sam do-Feminino, os nomes de Molheres, Naos &c. 3. Sam do-Neutro, os nomes de Letras, Frutas &c. Tambem as particulares, se-reduzem a trez. v. g. Sam do-Masculino os nomes em O, como Sermo: em il, como Mugil &c. Acabado isto, poem-se um escolio que diga: Nomes que sam do-Masculino, por-excesam das-outras regras. v.g. Cometa, Adria, Harpago, Splen &c. O mesmo metodo se-pode praticar no-Feminino, e Neutro. E com seis regras, se-explicam todos os Generos: e se-acaba esta grande barafunda de Cartapacios. Se pois o estudante quizer saber a razam, porque alguns nomes, que pareciam de um genero, se-atribuem a outro; pode ir ver, a segunda parte da-Gramatica.
Segue-se explicar, quantos Cazos tem o Nome. e em 3.o lugar a Declinasam: mostrando quantas á: e em cada uma delas, quais sam a Latinas, quais as Gregas. Tudo isto se-pode dizer, com muita clareza e brevidade; bastando alegar um exemplo, em cada especie de terminasoens, que podem entrar em cada declinasam. Com este metodo, em uma vista de olhos, percebe o estudante os nomes, que pertencem a cada declinasam. Despois, podem-se explicar os Nomes Compostos, os Anomalos de genero, de numero, de cazo, e de declinasam. A segunda especie de Nome, é o Adjetivo. E aqui tem lugar explicar, as diversas especies de Adjetivos: Pozitivos, Comparativos &c. as suas declinasoens, e anomalîas.
O Pronome, tem seu lugar despois do-Nome: porque tambem é, uma especie de Adjetivo. Onde deve explicar-se logo, a sua diversidade: e as declinasoens dos-Simplezes, e Compostos.
O Verbo, é a mais dificultoza parte, nas Gramaticas vulgares: e por-iso pede grande atensam. Explicadas as divizoens dos-Verbos; e apontado, que á quatro Declinasoens ou Conjugasoens: segue-se logo, explicar os Preteritos. v. g. A primeira, tem no-infinito a longo antes de re: no-Preterito faz, avi: no-Supino atum: ut amo, amavi, amatum, amâre. Tiram-se os Verbos em bo, ut Cubo: em co, ut Mico &c. E isto se-observará em todas as Conjugasoens. Desta sorte conclue-se em poucas palavras, toda aquela grande arenga de Preteritos, que nam tem fim nas escolas de Portugal. Se pois o estudante nam quer aprender, toda aquela enfiada de Verbos, nam emporta: basta que aprenda um exemplo, e saiba buscar os outros: porque a pratica ensina o demais.
Seguem-se as Declinasoens dos-Verbos, a que vulgarmente chamam, Linguagens. E aqui achamos bastantes erros, nas Gramaticas comuas, e tambem confuzoens: porque mandam aprender aos rapazes, coizas totalmente superfluas; e nam explicam as necesarias. Quanto ao Indicativo, concordamos com Manoel Alvares: só dizemos, que aquele Preterito plus quam perfeito, é uma arenga, que nenhum estudante intende; nem os mestres explicam. Deve-se explicar asim: Amavi, é Preterito perfeito proximo; que afirma uma coiza, simplezmente pasada: Amaveram, é Preterito perfeito remoto, que nam só se-intende de uma coiza pasada; mas que ja era pasada, antes de outra, de que eu falo como pasada. Dizemos mais, que aquele Futuro perfeito, nam o-á no mundo: pois esta voz, é o mesmo Futuro segundo, que ele poem no-Conjuntivo.
Alem dos-primeiros tempos do-Indicativo, tem o Verbo, segundo Prezente, que é Amem: segundo Imperfeito, que é Amarem: segundo Perfeito, que é Amaverim: segundo Preterito remoto, que é Amavissem: segundo Futuro, que é Amavero. Mas isto pode-se explicar em Portuguez, com diversas palavras. A estas segundas vozes, ou segundo modo, podemos chamar Conjuntivo: porque pola maior parte, une-se com outras partes. Daqui vem, que é erro, pòr nas Gramaticas: Modo Optativo, Conjuntivo, Potencial, Permisivo: porque por-este estilo, podem-se acrecentar muitos outros Modos: sendo certo, que, ajuntando-lhe novas particulas, nacem diferentes modos de se-explicar. Basta advertir ao estudante, que aquele Amem, pode-se tomar, em diversos sentidos: o que se-conhece, polo contexto da-orasam. tudo o mais é tempo perdido, e é ensinar uma falsidade: pois nam á tais modos separados: sendo que a linguagem, ou a voz sempre é a mesma. Amem, quando significa posibilidade, e quando significa permisam, nam se-distingue mais, que polo contexto. E isto bastava que brevemente se-advertise, apontando um exemplo: porque o mais ensina a lisam, e reflexam sobre os bons autores.