CARTA TERCEIRA.
SUMARIO.

Abuzos que se-introduzîram em Portugal, no-ensinar a lingua Latina. Mao modo que os mestres tem, para instruir a Mocidade. Propoem-se o metodo, que se-deve observar, para saber com fundamento, e facilidade o que é pura Latinidade. Necesidade da-Geografia, Cronologia, e Istoria, para poder intender os livros Latinos. Apontam-se os autores, de que os mestres se-devem servir na Latinidade: e como devem servir-se deles; e explicálos com utilidade: e as melhores edisoens. Aponta-se o modo de cultivar a Memoria, e exercitar o Latim nas escolas.

Meu amigo e senhor, Tardei em escrever a V.P. porque tive legitimas ocupasoens. Continuando pois o fio das-minhas reflexoens, da-Gramatica paso para a Latinidade: porque me-persuado, que este mesmo caminho deve seguir o estudante, que quer ter perfeita noticia, da-lingua Latina. Esta noticia certamente nam se-consegue, com a pura Gramatica: mas com a continua lisam de bons autores, e reflexam sobre as suas melhores obras. Aliud est grammatice, aliud latine loqui: advertio ja no-seu tempo Quintiliano. e com muita razam: porque a escrupuloza sugeisam às regras da-Gramatica impede, saber falar a lingua. A Gramatica é a porta, pola qual se-entra na Latinidade: e quem pára no-vestibulo, nam pode ver as singularidades do-Palacio. Quantos omens acha V. P. que, com terem sido mestres de Gramatica muitos anos, saibam pegar na pena, e escrever uma pagina em bom Latim? responder a uma carta com facilidade? e fazer qualquer outra coiza, em que seja necesario, uzar da-lingua Latina? Eu conheso infinitos sugeitos, que pasáram a sua vida neste exercicio, e quando ám-de escrever Latim, servem-se de expresoens em tudo barbaras, e indignas do-seu exercicio. Outros, aindaque tenham eleisam de palavras, nam se-despem dos-idiotismos da-sua lingua: que é o mesmo que falar Portuguez, com palavras Latinas. Uma vez que observam, aquela regencia gramatical que estudáram, parece-lhe que fazem a sua obrigasam. Os que se-querem apartar deste uzo, declinam para outro extremo viciozo, que é a afetasam: e nam buscam, senam palavras grandes e sonoras, sesquipedalia verba, com as quais atroem os ouvintes, ou leitores. E daqui entam nace, aquele estilo ridiculo, que tanto dominou nos-seculos da-ignorancia; e oje em Italia chamamos, estilo do-seculo XVI.

A estes ultimos chama o comum dos-Gramaticos, grandes Latinos. É um louvar a Deus, ver a prezunsam de uns, e a ignorancia de outros. Achei-me prezente em algumas orasoens Latinas, que se-recitáram sobre diversos asumtos; e nam podia asás admirar, a afetasam, e estilo dezigual, que reinava em toda a orasam. Despois diso, li muitas compozisoens, feitas por-eses mesmos: li muitas postilas de diversos leitores, que tinham pasado com louvor, por-aqueles bancos: e em tudo notei o mesmo defeito. E tudo isto provèm, de se-contentarem com a erudisam de quatro temas, que lhe-mandam compor: e de nam se-internarem na lisam dos-bons autores, e que escrevèram no-tempo da-mais pura Latinidade. É coiza imposivel, que um omem que tenha tomado o gosto, à verdadeira Latinidade, com facilidade o-perca. Ainda quando trata asumtos umildes, e argumentos em que è obrigado servir-se, de expresoens barbaras, v.g. na Filozofia, ou Teologia Peripatetica; ou ainda quando despreza o falar elegante; la mostra sempre, o conhecimento que posûe daquela lingua. Nos-seus escritos conhecem muito bem os omens inteligentes, o que ele podia fazer. caiem-lhe da-pena palavras proprias. um estilo facil e natural é o carater das-suas obras. Mostra a experiencia o que digo: e convem nisto os omens de alguma doutrina. Daqui vem, que os que querem fazer progreso na Latinidade, procuram logo um autor facil e elegante, como qualquer dos-que na minha ultima apontei; e desorte se-familiarizam com ele, que tomam e imitam a sua fraze, e modo de falar. Quem quer falar uma lingua, deve conversar com os omens que a-falam bem. ora os que oje falam bem Latim, sam eses quatro livros, que nos-deixou a Antiguidade: e com eles é necesario conversar tanto, que aprendamos o que se-pode aprender.

Pode tambem aver perigo, na lisam deses mesmos bons livros: e pode suceder, que com bons livros, se-saiba mal Latim: Digo isto, polo que tenho observado, em grande parte deste Reino. Omens á, que lem indiferentemente, todos os livros antigos; e pola vaidade de quererem saber tudo, nam sabem nada. Formam um estilo dezigual, que nam é de seculo algum: e com grande trabalho, nam conseguem o fim que queriam. Neste defeito, nam só caiem os pouco doutos; mas chegáram a cair, omens de grande doutrina. Erasmo, que foi um omem tam douto como V.P. sabe, é censurado neste ponto. A grande lisam que tinha, dos-antigos autores, e Padres, impedio-lhe formar um estilo determinado. Contudo iso, nam sei se achará V.P. muitos no-seu Reino, que escrevam como ele. O certo é, que Erasmo nam lia os Antigos por-vaidade, mas por-necesidade dos-seus estudos: mas estes de quem eu falo, nam se-livram deste pecado. Outros, furtam indiferentemente, de todos os autores que lem; para poderem encher as suas compozisoens: servido-se imprudentemente, destes livros de Fraseologia: sem advertirem, que sempre á-de ser capa de romendos: e que os diversos mantimentos primeiro se-ám-de digirir, para se-converterem em uma sustancia, que seja uniforme e simplez.

A outra razam que á, para que se-posam enganar, é a diversidade de estilo, e merecimento deses mesmos Antigos. Quanto ao estilo, é certo que os querem ser Istoricos, faram mal em ler as Filipicas de Cicero, as Comedias de Terencio, os Epigramas de Catúlo, e outras semelhantes compozisoens: porque nam conduzem ao seu fim; aindaque sejam escritas, no-seculo da-bela Latinidade. omesino digo das-outras proporcionadamente. Podem-se ler estes autores: mas cada um deve aplicar-se ao que é insigne, na materia que ele trata. Se bem ouso dizer, que Terencio serve-se das-expresoens, no-seu proprio significado: que Cezar falou melhor, que nenhum dos-Romanos: nem por-iso ei-de logo meter Cezar, e Terencio em toda a parte. para o conhecimento da-lingua, todos me-podem servir: nam asim para o exercicio particular, que eu quero. Quanto ao merecimento é certo, que nem todos os Antigos sam iguais. antes muitos que escrevèram no-seculo de Augusto, e em tempo de Tiberio, fizeram-no com tal negligencia, que mal tem lugar, na idade de prata da-lingua Latina: e sem injuria se-podem colocar, na idade de bronze.

Esta advertencia é mais necesaria em Portugal, que em outros Reinos: porque os mestres aqui, tem pouca noticia destas coizas. Nas escolas da-Latinidade, verá V.P. traduzir livros, de merecimento mui dezigual: e pasar de um para outro sem eleisam, nem advertencia, somente para encher tempo, e completar o ano. Na 3. e 4. em que os rapazes comesam a traduzir, explicam pola menhan, as Filipicas de Cicero &c. e de tarde, a Eneide, ou Ovidio de Trist. Na 2. e 3. pola menhan, Suetonio; de tarde Oracio. Mas eu vi mais: vi um mestre que explicava aos dicipulos, as Orasoens de Cicero, Marcial, e o Thesaurus Poeticus. E que coiza boa pode sair daqui? Nam ensinam aos estudantes, qual é o merecimento de cada autor, que lhe-mandam traduzir: e como pode o estudante advinhálo? Alem diso, aquilo de explicar no-mesmo tempo, proza, e verso, e isto a principiantes, nam pode menos, que produzir monstruozidades. O pobre estudante, com a memoria cheia de tam diferentes especies, nam pode distinguir o branco, do-negro: nem chegar a conhecer bem, qual é o estilo da-proza, e qual o do-verso. Muito pior ainda é, comesar por-tais livros: porque as Filipicas, e Eneide, nam é Latim para rapazes, mas para omens feitos. por-estes livros devem acabar o estudo, e nam principiálo. Tambem o Suetonio, nam é livro proprio da-Escola, porque nam escreve com a pureza dos-outros da-idade de oiro. era melhor Livio, Nepote &c. que, alem da-pureza de lingua, sam perfeitos modelos de eloquencia. Outros mandam traduzir lisoens do-Breviario, ou Concilio de Trento: dizendo que sam necesarias, para quem á-de seguir a Igreja. E isto tambem é uma solenisima loucura. Cada lisam do-Breviario é de seu autor, e de estilo diferente. Ainda das-que se-tiram da-Escritura, se-deve dizer o mesmo: umas sam oscuras, que sam as dos-livros profeticos; outras mais claras, que sam as dos-istoricos: e o Latim delas nam é bom, porque a fraze é barbara. E querer, que um estudante traduza isto, é querer, que nam saiba Latim. Tambem o Concilio nam é próprio, para dar boa doutrina: porque se-serve de um estilo Forense proprio de Roma, que nam é Latino. Se o-fazem para intender estes livros, é superfluo explicálos. Nam á omem nenhum tam decepado, que, se intende bem Latim, nam intenda as Bulas; aindaque nunca as-tenha lido. Estar o verbo vizinho ou distante, nam muda, ou dificulta o sentido, a quem le todo o periodo: e quem tem alguma pratica delas, intende-as maravilhozamente, aindaque seja mao Latino, como vi muitas vezes em Roma. O que suposto, é muito mao emprego, obrigar o estudante a traduzir Bulas, ou Constituisoens: e principalmente a traduzilas palavra por-palavra, como fazem estes mestres. O Ecleziastico, nam é necesario que traduza; basta que as-intenda. Antes é muito mal feito, obrigálos a traduzir asim: porque o tal Latim nam se-deve traduzir ad verbum, mas ad sensum. O que bastava que o mestre advertise, quando quizese dar-lhe alguma noticia diso: pois em tal cazo bastaria, que mandáse ler alguns periodos, e explicar o sentido. Isto basta: o mais é perder tempo.

Contudo iso sam poucos os que conhecem, que com isto se-perde o tempo: antes blazonam, quando procuram embrulhar os rapazes, com coizas oscuras. Achava-me eu em uma parte, em que certo M. de Filozofia, para examinar um rapaz, mandou-lhe traduzir aquelas palavras de S. Paulo ad Cor. Aemulor enim vos Dei æmulatione &c. que era o capitulo da-Ora, que estava rezando. O rapaz, que nam era mao estudante, traduzio literalmente: mas como nam fazia bom sentido, o mestre dito deu grandes rizadas, e fez escarneo do-rapaz. Eu calei-me por-prudencia: mas tive meus impetos de lhe-dizer, V.P. ri-se de um pobre rapaz, que nam é obrigado a saber, o sentido da-Escritura, nem os ebraismos, que se-acham na Vulgata: e eu apostarei, que V.P. é o primeiro que nam intende, o que nisto diz S. Paulo. Com efeito se eu apertava os negalhos, estava certo, que serîa mui mao interprete, da-dita Epistola. O certo é, que nam á maior parvoice, que mandar traduzir palavras oscuras: e que esta pedanteria se-devia desterrar de lugares, onde se-sabe falar. Alem disto, é obrigado o estudante, a compor varios periodos, a que chamam orasoens: repetir uma quantidade de regras Latinas, e Portuguezas: e se o pobre rapaz nam pode responder a tudo, em vez de lhe-aliviar o pezo, e mostrar-lhe a estrada, e animálo a proseguila; dam-lhe muita palmatoada; e obrigam-no a odiar, todo o genero de estudos. De que nace, aquela grande ignorancia, que se-observa nestes paizes.

Daqui fica claro, que com tal metodo, pouco se-pode saber de Latim. É lastima que os Profesores, nam cheguem a conhecer por-uma vez, o ridiculo deste costume. Todos os primeiros estudos naturalmente dezagradam, porque sam cansados: e paraque avemos enfastiar mais os pobres rapazes? Um omem consumado nos-estudos, quando estuda uma lingua estrangeira, v.g. Grego, Ebraico, ou Caldaico, nam pode menos que enfastiar-se, daqueles primeiros elementos. Tem grande dezejo de sabèla: conhece o metodo de aprender a dita lingua: reconhece a necesidade que tem dela, para intender as Escrituras Santas: contudo iso quando se-aplica a ela, mil vezes deita fóra os mesmos livros: e nam-se-acha com rezolusam, de tornar a servir-se deles. Falo pola experiencia propria, e pola de alguns amigos, que se-aplicáram às linguas estrangeiras. E nam acha V.P. que é uma crueldade, castigar rigorozamente um rapaz, porque nam intende logo a lingua Latina? que de si mesmo é dificultoza, e ainda o-parece mais, na confuzam comque lha-explicam. Isto é o mesmo, que meter um omem, em uma caza sem luz, e dar-lhe pancadas, porque nam acerta com a porta.