V. P. está em uma Universidade, onde é facil dezenganar-se com os seus olhos. Entre no-Colegio das-Artes, corra as escolas baixas; e verá as muitas palmatoadas, que se-mandam dar aos pobres principiantes. Penetre porem com a considerasam, o interior das-escolas: examine se o mestre lhe-ensina, o que deve ensinar: se lhe-facilita o caminho, para intendèla: se nam lhe-carrega a memoria, com coizas desnecesariisimas: e achará tudo o contrario. O que suposto, todo este pezo está fóra, da-esfera de um principiante. Ora nam á lei que obrigue um omem, a fazer mais do-que pode: e que castigue os defeitos, que se-nam-podem evitar. Nam nego, que deve aver castigo: mas deve ser proporcionado. Um estudante que impede, que os outros estudem: que faz rapaziadas pezadas &c. é justo que seja castigado: e, avendo reincidencia, que seja despedido. Serîa bom, que nesa sua Universidade, se-dese um rigorozo castigo, ainda de morte, aos que injustamente acometem os Novatos; e fazem outras insolencias. A brandura comque se-tem procedido neste particular, talvez foi cauza, do-que ao despois se-fez, e ainda se-faz. Nese particular serîa eu inexoravel: porque a paz publica, que o Principe promete, aos que concorrem para tais exercicios, pede-o asim: e em outros Reinos, executam-no com todo o rigor. Falo somente do-castigo que se dá, por-cauza de nam acertar com os estudos. a emulasam, a repreensam, e algum outro castigo deste genero faz mais, que os que se-praticam. É necesario ter muita paciencia com os rapazes, e ensinálos bem: nam seguindo a opiniam daquele Bispo de Vizeo D. Ricardo Rosel, que em um exame reprovou XVI. estudantes afio, porque pronunciáram Idolum, com a segunda breve. Isto só faz, quem nam conhece o que deve. Um omem pode ignorar, a quantidade de muitas silabas, e ser um grande Latino. Todos os dias se-oferecem duvidas na quantidade delas, aos omens doutos: principalmente naquelas palavras, que tem origem Grega: na qual lingua o O, e E sam de duas sortes, breves, e longos. Este rigor é censuravel. deve-se praticar outro estilo.
Acho ainda mais outro inconveniente, para saber Latim, praticado nas escolas: que é, compor muito naquela materia, que intendem mui pouco. Um pobre estudante ainda nam intende Latim, e ja lhe-dam varios temas, que sam certas orasoens vulgares, para traduzir na lingua Latina. ou dam a orasam Portugueza, com partes Latinas; ou uma sentensa Latina, para eles a-dilatarem, e provarem. Mas um e outro metodo, é um erro masicho. Que coiza boa á-de fazer um rapaz, que ainda nam sabe Latim? Dar as partes conrespondentes ao Portuguez, e obrigar o estudante, a que se-sirva delas em uma orasam longa; é o mesmo que querer, que ele siga os despropozitos do-seu mestre. Ainda quando o estudante acertáse com tudo, nam acertaria com os idiotismos, isto é, com os modos de falar, que sam proprios da-lingua Latina: e falaria Portuguez, com palavras Latinas. Pode-se permetir o dar as partes, em uma breve orasam; e isto a um rapaz que comesa: mas nam se-deve obrigar outro mais adiantado, a seguir tal metodo.
Devia o mestre ensinar ao dicipulo, compor bem uma orasam Portugueza breve, uma carta, um comprimento, ou coiza semelhante. Para isto tem o estudante, toda a facilidade posivel, porque o-faz em uma lingua que sabe; e na qual o mestre pode claramente mostrar-lhe os erros. Quando o estudante soubése fazer isto bem, entam lhe-aconselharia, que a-convertèse em Latim, deixando-lhe toda a liberdade da-compozisam. Emendados os erros de Gramatica, se os-ouvèse, emendaria os erros da-lingua: e lhe-mostraria, a diferensa que á, entre estas duas linguas: e a diversidade que aparece, entre escrever segundo as regras de Gramatica, e segundo o estilo da-boa Latinidade. Mas nisto procederia com advertencia. Primeiro, nam procuraria que escrevesem, senam em estilo familiar e facil. despois, segundo o adiantamento que tivesem, pasaria aos argumentes ou asumtos mais dificultozos; os quais explicaria muito bem. Desta sorte, acompanhando a tradusam com a compozisam, facilitaria muito o estudo, e conseguiria promtamente o intento.
Deste estilo rezultariam muitas utilidades. Primeiramente, sairiam os omens da-escola, nam só sabendo a lingua Latina, mas tambem a sua. É lastima, que omens que pasáram tantos anos, nas escolas pequenas, e grandes; omens que estam oje ensinando a outros, e ocupam cargos de Letras, e Politica; nam saibam escrever uma carta! Pois isto é coiza, que sucede todos os dias. Eu me lembro, que V.P. se-queixou ja disto: e me-dise, que achava muitos Religiozos, que tinham o mesmo defeito: e reconheceo comigo, que a origem destes danos era, a que aponto. Cometem-se mil erros de Gramatica, na propria lingua, e infinitos de Ortografia. Preparam-se muitos para escrever uma carta, como para fazer um ato publico. Procuram palavras bem dezuzadas, ou estrangeiras; e verbos que nam á no mundo. E com isto compoem uma carta, sumamente afetada, e de um estilo, que é mais declamatorio, que epistolar. Estes sam os que sabem mais: e os que sabem menos, pedem a estes, que lhas-componham. E tudo isto provèm, de nam terem uzo de compor na sua lingua: e de nam terem quem lhe-ensine, qual é o estilo de Carta, qual o de Orasam: e nam aver uma alma cristan, que lhe-persuada, que a afetasam deve-se evitar, em todos os generos de eloquencia, mas muito principalmente, no-estilo familiar.
A segunda utilidade é, sobre a inteligencia da-lingua Latina. Um rapaz que de sua cabesa escreve uma carta, ou comprimento, ou oferecimento Portuguez, com palavras proprias; ja sabe, o que á-de dizer em Latim: só lhe-falta, ter as palavras Latinas, para as-colocar. A isto pois deve suprir o mestre. Suponho, que lhe-tem ja ensinado a Gramatica: e tambem a traduzir de Latim, em Portuguez, para intender os termos: e supondo estes principios, facilmente o rapaz intenderá, quais sam as palavras, de que á-de uzar: ou ao menos será facil ao mestre, mostrar-lhas. Eu no principio seguiria esta regra. Comporia diante dele em Latim, parte da-dita carta, ou toda: e lhe-daria a razam do-que fazia: explicando-lhe, porque uzo daquele verbo, e nam de outro: porque uzo daquela fraze, mais doque outra. Capacitando-o, que a todas as palavras Portuguezas, nam pode conresponder uma Latina: mas é necesario uzar de perifraze, ou rodeio de palavras, para as-poder explicar. Este é o defeito que nós achamos, no-metodo de dar as partes: porque nam conrespondendo elas sempre umas a outras, por-forsa á-de sair uma embrulhada. Sabido tudo isto, darlheîa a incumbencia, de escrever a dita carta em Latim, sem lhe-mostrar, a que eu tinha composto: e pedirlheia a razam, de tudo o que tinha feito.
Alem disto, com este metodo aprende-se o que significa, escrever Latim com propriedade. Um mestre que se-contenta, com a Arte do-P.Alvares, e com a noticia do-Dicionario do-P.Bento Pereira, nam sabe distinguir entre muitos sinonimos, qual é o proprio, para o que quer explicar. Figuro um exemplo. Tenho necesidade de uzar, do-Verbo Pedir: para isto ocorrem logo mil Verbos: Postulo, Posco, Peto, Flagito, Efflagito, Oro, Rogo, Precor, Obsecro, e alguns outros. Quem sabe pouco, intende que sam rigorozos sinonimos; e nam tem dificuldade, de servir-de indiferentemente de todos: mas quem sabe mais, conhece que nem todos o-sam: porem que alguns daqueles Verbos, significam mais, ou menos. v.g. Postulo significa pedir aquilo, que se-me-deve: postulare jure. Flagito significa pedir com instancia, e injuriozamente. Efflagito pedir com grande instancia; e acrecenta sobre Flagito, alguma coiza. O mesmo dos-outros com sua proporsam. Do-que fica claro, que querendo eu explicar, que peso com instancia; direi muito mal: Vehementer postulo. cum clamore & magna instantia obsecro. basta que diga, Flagito. O mesmo digo, em diversas outras materias. Isto nam ensina o Alvares, nem o Pereira: mas isto deve ensinar o mestre, mostrando ao estudante, quais sam os vocabulos proprios, para explicar o que quer. Desta sorte acostuma-se o rapaz desde o principio, a servir-se de termos proprios, e frazes naturais à Lingua: E com isto insensivelmente toma o gosto da-boa Latinidade, e da-sua mesma lingua: e aprende as leis da-Tradusam, mui necesarias a quem á-de ler, e servir-se de autores estrangeiros.
Dirmeá V.P. que eu peso muito: e que isto nam é facil, praticálo nas escolas: porque nem todos os mestres, tem a erudisam que aponto; e nem todos os estudantes, sam capazes desa doutrina: E eu respondo, que nam á coiza mais facil de se-executar. Ponha-me V. P. nas escolas outra Arte: um bom Calepino dos-modernos, reduzidos à grandeza do-Dicionario do-P. Pereira; que tudo se-remedeia. Estas duas coizas sam sumamente necesarias. A Arte comua, ensina muita coiza má: e a Prozodia, tem muito erro. Nam distingue as idades dos-vocabulos: mas com uma simplez estrelinha quer, que nós suspeitemos mal, de tudo o que dezagradou ao corretor: o qual às vezes erra, como ouvi queixar os mesmos Jezuitas. Alem diso, desterra da-Latinidade muitos nomes, que sam Latinos; e introduz outros, puramente barbaros. Nam explica a forsa das-vozes: nem mostra com exemplos, os significados proprios, e figurados de cada palavra: alem de muitas outras coizas, que se-podem notar. E asim serîa necesario, compor um Dicionario pequeno para os rapazes; ou servir-se de algum estrangeiro. v.g. o de Danet, ou ainda melhor, o que ultimamente se-compoz em Turin, por-ordem d’El-Rei de Sardanha, para uzo das-escolas: que sam dois tomos in 4o. Italiano e Latim, Latim e Italiano: e traduzir as palavras Italianas em bom Portuguez. Establecido isto, conheso eu entre os doutisimos Jezuitas, mosos de toda a erudisam, e capacidade, proprios para executarem dignamente, este emprego. Comque, tire V.P. das-escolas, os que sabem pouco; e em seu lugar ponha estoutros: prescreva-lhe o metodo apontado: fasa com que o executem sem epikeas, (como fez ultimamente o dito Duque de Saboia aos seus suditos, determinando-lhe o metodo, de ensinar Latim, e Leis &c.) e verá, com que facilidade se-reformam as escolas. Todos os estudantes, asim como sam capazes de sofrerem, aquele mao metodo, com mais razam receberám outro, que seja mais claro e facil, e seguiloám com mais boa vontade. O dano desta era consiste em quererem, que um estudante, que sabe pouco, e a quem nam ensinam a saber mais, mostre que sabe muito; e, para o-mostrar, componha muito. Eu nam peso tanto. Suponho que tem ja, um bom ano de Gramatica, e que tem pasado parte do segundo ano, traduzindo de Latim em Portuguez: onde nam me parece que peso muito, se quero que no-resto do-ano, se-empreguem em compor Latim, polo metodo que asima digo. Este tal estudante nam è noviso, mas adiantado; e pode com fruto aplicar-se a este estudo. Falando-lhe em Portuguez, e compondo polo metodo que aponto; muda-se de sistema. Nas escolas comuas sabe-se pouco, quando os-obrigam a compor: v.g. na quarta, e terceira, em que comesam a traduzir de Latim, em Portuguez; nesa mesma clase, e no-mesmo tempo comesam a fazer tema. E isto nam pode produzir bom efeito. Mas neste sistema, quando se-compoem, ja o negocio está adiantado: e vai-se adiantando mais, com a dita compozisam.
Acha-se tambem outro inconveniente bem grande, nestas escolas, sobre isto da-compozisam; que é, obrigar os estudantes a fazerem, ou indireitarem versos rotos: e castigálos rigorozamente, se os-nam-fazem. desorteque ou sejam, ou nam aptos para a Poezia, todos ám-de fazer, o mesmo numero de versos. Mostra pouco intender de versos, quem pratîca isto: porque nam é facil, obrigar o entuziasmo a que venha, quando quer o mestre. Mas o que mais é para rir é, que fasam isto omens, que prezumem muito de ser Poetas, e matam gente com as suas poezias. Falando com alguns mestres neste particular, responderam-me que o-faziam, para que os estudantes tivesem alguma erudisam, dos-Poetas Latinos. Proguntei-lhe, que necesidade avia desa noticia: responderam-me: Que era necesaria, para a inteligencia da-lingua Latina. Poisque, continuei eu, quando V.V.P.P. intendesem bem Cicero, Cezar, Cornelio Nepote, Livio, Paterculo &c., e pudesem explicálos com facilidade, e escrever como eles; tinham medo de nam saber Latim; ou serîa necesario, recorrer a eses Poetas? Aqui nam souberam que responder mais, doque recorrer ao costume, das-Universidades da-Europa. Mas eu, que nam queria deixar fugir a preza, pedi-lhe, que me-provasem, que nesas Universidades, emque se-sabe ensinar, (avemos de concordar, que á algumas que seguem, o estilo de Portugal, aindaque mais moderado) explicavam os Poetas, só para intender a lingua: ou que obrigavam os estudantes, a que fizesem versos como eles. Aqui ficáram calados. E, na verdade, era dificil coiza, que quem nunca saîra de Portugal, ou nam tinha examinado com grande atensam, os estudos estrangeiros, discorrese fundadamente sobre eles.
Mas a verdade é, que nam á coiza mais contraria à boa razam, que esta pratica de fazer versos. Os omens nam tem capacidade igual; e nem todos sam capazes de tudo: antes às vezes acham-se mosos tam rudes, que dificultozamente podem intender o Latim. E como ám-de estes compor versos elegantes? Asentamos, que, para a inteligencia da-lingua Latina, é loucura, obrigar a fazer versos. O mais que podem fazer, e que eu nam reprovo, é, quando o estudante sabe bem a lingua Latina, mandar-lhe traduzir, alguns dos-Poetas antigos melhores, como Lucrecio, Virgilio, Ovidio, Oracio, Catûlo, e algum outro: mas raro; porque nisto se-compreende o melhor. E isto para mostrar, as frazes particulares dos-Poetas, e tambem o bom gosto da-lingua. sendo certo que alguns destes escrevèram, com purisima Latinidade, como Virgilio nas Georgicas, e Eglogas: Oracio nas Epistolas, e Satiras: Ovidio nas Epistolas às Damas ilustres.
Quanto ao Verso, é querer perder tempo, obrigar os omens a fazèlos: e serîa melhor, empregar aquele tempo, em coiza mais util. Ouveram omens doutisimos, e os-á prezentemente, que nam sabiam fazer versos. No-tempo de Cicero avia omens, que faziam versos, com grande facilidade, e insignes na dita profisam: e contudoiso estavam mui longe, do-merecimento de Cicero. Este grande omem nam ignorava, o como se-faziam os versos: e com efeito alguns fez, cujos fragmentos ainda oje existem: mas o seu talento, e a sua maior propensam era, para a Retorica. Nam que eu julgue, que os versos de Cicero sejam maos; como muitos ignorantes, e que querem falar do-que nam intendem, se-persuadem. Os versos de Cicero, principalmente os Fenomenos de Arato, sam tam elegantes e tam belos, como os de Lucrecio: nem eu acho diversidade sensivel entre uns, e outros: e igualmente admiro ambos, principalmente olhando para a materia, sobre que compuzeram. Pois se todos admiram em Lucrecio, explicar com tanta naturalidade, coizas tam dificultozas, conservando a elegancia, e o espirito de Poeta; o mesmo louvor, e polas mesmas razoens, compete a Cicero: o qual com a frequencia de ler, e emendar Lucrecio, tinha aquistado a mesma facilidade, e estilo. Para conhecer o que nisto podia Cicero, basta lelo nas partes, em que nam é violentado, pola esterilidade da-materia. Nam sei se se-podem achar na Antiguidade, versos mais armoniozos, que os que ainda oje lemos, do-livro segundo do-seu Consulado. Este bocado somente mostra bem, na minha estimasam, o que Cicero podia. Nem obsta, que Marcial, Juvenal, Quintiliano, zombasem de um certo verso de Cicero: isto, como nota bem o doutisimo Turnebo[21], nada prova. O que nam agradava a estes, agradava no-tempo de Augusto: e muitos omens grandes, (como advertio um grande critico daqueles tempos) estimavam mais os Antigos, que outros bem nomiados[22]. Se em muitas partes, Cicero nam se-asemelha a Virgilio, nem por-iso perde nada do-seu merecimento. Nem menos é semelhante Oracio nas suas Satiras, e Epistolas: nem em tudo Lucrecio; e com tudo sam famozos Poetas: e a naturalidade com que se-explicam, e acomodam o verso exametro, a tudo o que querem, é mais estimada, entre os criticos de bom gosto, doque a elevasam de Virgilio. O estilo daquele tempo pedia, grande naturalidade nas-compozisoens. E nam falta quem censure Virgilio, em ser tam elevado e artificiozo nos-versos: no-que alguma coiza se-desvia de Omero. Contudo ninguem nega, que, se na Eneide, e Georgica observou bem o decoro; e sustentou a dignidade do-argumento; nas Eglogas pecou muito, porque nam observa a simplicidade natural no-estilo pastoril: mas procura que falem os pastores, com toda a civilidade, e arrogancia de cidadoens: o que nam é verosimel. Mas, tornando a Cicero, ficaria prejudicada a Republica de tam grande talento, se, pola Poezia, deixáse a Oratoria. Conheceo aquele grande omem o seu talento: cultivou-o: e saio aquele oraculo, que entam venerou Roma, e oje admira o mundo. Esta, é uma grande lisam para os Modernos, consultar o talento; e nunca violentar a natureza. Onde neste particular, deve-se consultar, a inclinasam dos-rapazes: e avendo-a, explicar-lhe brevemente, as diferentes sortes de compozisoens metricas: nam os-ocupando senam em asumtos brevisimos: deixando-lhe toda a liberdade no-compor: mas emendando-os, e dando-lhe distintamente, a razam da-emenda.