Até aqui tenho falado a V.P. em alguns abuzos, das-escolas deste Reino, que impedem saber a lingua Latina. Agora falarei nos-requizitos, para a inteligencia da-dita lingua: a falta dos-quais, nam se-deve contar, entre os menores abuzos: e tambem apontarei o modo, comque se-deve regular, o estudo do Latim; e a eleisam de livros, para o-conseguir com brevidade. Parecerá um paradoxo, se eu diser a V.P. que, ainda observando tudo quanto asima digo, nam se-pode saber Latim, (nam digo com toda a perfeisam; porque uma lingua morta, nam se-chega a saber bem: mas sabèlo no-melhor modo posivel) sem alguma noticia da-Geografia, e Cronologia, e das-Antiguidades, em que entram os Costumes, a Fabula &c. e contudo, nam á coiza mais verdadeira doque esta. Eu nam quero sair do-livro mais uzual, que nas escolas se explica, que é Quinto Curcio. Nele ocorrem todos os momentos nomes, de Gentes, de Povos, Regioens, Cidades &c. fala-se de guerras entre Nasoens e Nasoens. E que conceito á-de formar do-escritor, aquele que o-explica, se ele nam sabe, se diz bem, ou mal? porque, ignorando a Geografia, nam sabe, nem chega a compreender, em que parte do-mundo, estejam as tais Gentes, se vizinhas, ou distantes. Como á-de o leitor intender, as conquistas de Alexandre, se ele nam sabe por-onde foi, que Nasoens venceo, que dificuldades superou? Alem diso, sucede muitas vezes, que ese escritor, que o estudante le, se-enganáse nos-lugares: e isto entam é erro sobre erro, que o leitor nam poderá decifrar. Nam è isto cazo metafizico, mas engano bem comum em muitos escritores. Q. Curcio enganou-se muitas vezes, por-ignorancia da Geografia: Plinio, e alguns outros: como admiravelmente mostra o douto Jozé Escaligero, nos-Prolegomenos de Manilio. O mesmo Manilio, Virgilio, Lucano, Floro erráram algumas vezes na Geografia, e podem cauzar o mesmo erro no-juizo, de quem for ignorante dela.
Dirmeá V. P. que este conhecimento, parece ser mais necesario, para nam se-enganar na leitura dos-autores, doque para intender a lingua: para a Critica, e nam para a Latinidade. Confeso, que para a Critica, é de indispensavel necesidade: mas o que digo é, que nam pode o estudante, intender com facilidade um autor, que trata a istoria de um conquistador, sem a noticia dos-paîzes de que fala: e nem menos o-poderá intender com gosto. Polo contrario, se é informado, aindaque superficialmente, desta noticia, percebe maravilhozamente o fato: facilita-se a inteligencia do-autor: e por-este meio a da-dita lingua. Um moso, que ignora totalmente a Geografia, toma limpamente um nome de Cidade, polo de um Reino, e polo de uma Pesoa: e outros destes enganos, que vam acompanhados, da-ignorancia da-lingua. Quem nam souber v.g. que Napoles, é nome de uma Cidade, e de um Reino juntamente; nam só confundirá os termos, mas tambem as coizas, que a ambas se-aplicam. E isto nam é somente dano da-Istoria, mas tambem impedimento, para a inteligencia da-lingua Latina. Acham-se alem diso muitas Cidades do-mesmo nome, em Regioens bem distantes. v. g. a antiga Geografia mostra-nos na Azia muitas, com o nome de Alexandria, de Seleucia, de Ecbatana, e bem longe umas de outras. O que quem nam sabe, persuade-se, que se-fala somente de uma: e nam intende a materia de que se-fala. E destes exemplos, de que abunda muito a Istoria antiga, se-colhe a necesidade da Geografia, ainda para a lingua. Serîa coiza ridicula, que um omem lese Q. Curcio, para intender as palavras, e nam para o sentido da-Istoria: ou que, sem a inteligencia desta, prezumise que poderia alcansar, a propriedade das-palavras. Muito mais sendo certo, que com o socorro da-Istoria, se-intendem muitas coizas, que sem ela é imposivel intender; e a inteligencia do-contexto abre a porta, para se-intenderem muitos nomes. É bem vulgar aquele lugar de Lucano,[23] em que, falando dos-Arabios, que sairam do-seu païz, diz = Umbras mirati nemorum non ire sinistras =: o que, sem Geografia, é imposivel intender. Virgilio diz lá em certa parte[24]: Gens inimica mihi Tyrrhenum navigat æquor =: Como se-pode saber sem Geografia, que coiza é aquele mar Tirreno? quem a-ignora, pode-o tomar polo mar Baltico, ou Etiopico, ou Pacifico. De que vimos a concluir, que, alem do-sentido istorico, a mesma propriedade das-palavras Latinas, nam se-alcansa em varias ocazioens, sem Geografia.
Parece-me pois, que uma breve noticia da-Geografia, deve ser o preludio, da-lisam dos-autores. A observasam das-principais Cidades, de que fala o autor, que se-á-de ler: das-viagens, que fizeram os conquistadores: os fins e limites dos-seus imperios: isto deve primeiro observar-se. Mas porque esta noticia serîa de-minuta, se a-nam-unisem com a noticia, da-Geografia de toda a terra; deve-se aprender esta noticia brevemente em um Mapamundo: ajuntando-lhe a noticia da-Esfera Armilar: das-divizoens do-Ceo, e da-Terra &c. O que com grande facilidade se-pode fazer: pois, como diz um omem douto, este estudo nam pede mais, doque olhos, e alguma memoria. Na Esfera Armilar conhece-se, a dispozisam do-Ceo, respetivamente à Terra: no-Globo, a dos-Reinos: e em uma carta particular, a da-Provincia, ou Reino de que se-trata. Advertindo, que quando se-falar em alguma Cidade, deve-se notar, de quais delas se-mudáram os nomes antigos, em alguns modernos. Acham-se cartas, que apontam os antigos nomes, das-Cidades da-Grecia, e Italia: e estas sam, as que principalmente se-deverám notar, para intender os escritores antigos, que faláram destas Regioens. Sophianus descreveo bem, a antiga Grecia: e Cluverius, a antiga Italia. E isto é precizo saber, comparando os nomes daquelas antigas Cidades, com os das-modernas; e procurando nas cartas modernas, os sitios das-antigas Cidades, muitas das-quais ja nam existem. Celario publicou um belisimo Compendio da-antiga Geografia, em 2. volumes de 4.o Tambem compuzeram Introdusoens Latinas Cluverio, principalmente para a antiga; e Luitz. Quem quizese maiores noticias deveria ler, o Petrus Bertius==Theatrum Geographiæ Veteris. fol. &c. e este mesmo autor compoz: Veteris Geographiæ Tabulæ. fol. &c. Este autor, que escreveo nos-principios do-seculo pasado, é famozo. Oje á muitos modernos que escrevèram bem, em Francez, ou Italiano. Duplessis, e Buffier escrevèram bons Compendios; que temos oje nas ditas duas linguas. Jacobo Ode fez tambem um belo compendio Latino: e é mais moderno. Os Senhores Sanson, e de l’Isle compuzeram cartas Geograficas, nam só de todas as partes do-mundo, mas especialmente, das-antigas divizoens do-Imperio Grego, e Romano &c. E isto é o que deve fazer o mestre, e ensinálo quando é necesario: porque desta sorte, acostumando os rapazes a buscar na carta, que deve ter na escola, a dita Cidade; imprime-se a Geografia na memoria, como quem brinca.
Em segundo lugar entra logo a Cronologia, que nam é menos necesaria, para intender os autores, e fugir os anacronismos, ou confuzam de tempos. Nam é necesario nestes principios entrar, nas disputas que á, sobre os principios dos-Reinos &c. isto é negocio, que pede grande estudo, e doutrina, e se-rezerva para outra idade. Basta apegar-se ao calculo mais recebido e comum, que poem a vinda de Cristo no-ano 4000. da-criasam do-Mundo: a que chamam o calculo de Usserius por-ser este autor, o que o explicou melhor. Aqui pois é necesario ler, em um breve compendio, a serie dos-tempos, desde o principio do-Mundo, até agora: notando os maiores sucesos, em que ano acontecèram: v.g. Diluvio de Noé, Vocasam de Abram, Saida dos-Ebreos do-Egito, Destruisam do-primeiro Templo de Jeruzalem, Vinda de Cristo, Paz da-Igreja &c. Especialmente deve notar o que emporta, para a inteligencia dos-autores, que quer explicar: e sempre que mudar de autor, deve notar, em que tempo escreveo, e de que tempo escreveo. para o que nam servem pouco, os Dicionarios Istoricos de Hofman, e Moreri &c.
Quanto aos Compendios de Istoria á tantos, que é superfluo, que eu aponte nenhum. Neste principio deve-se buscar, o mais breve. Por-iso me-parece, que o Petavio é mui longo. o Celario é bom, mas tambem nam é curto. Turselino, e alguns outros escrevem bem; mas em Latim. o Bossuet parece-me melhor para o principio; e acha-se em Italiano, ou Francez. Tambem o Valemont, no-primeiro tomo, traz uma carta Cronologica geral, que pode bastar para o intento. E como este volume está traduzido em Portuguez, parece-me, que por-ele deve ler o estudante: e o mestre pode servir-se, de quaisquer dos-apontados asima, que sam dos-melhores. Em quanto nam aparece alguma istoria Portugueza, proporcionada aos rapazes, que estudam nas escolas: aos quais basta dizer, o que é somente precizo, sem tantos rodeios: o que me dizem está atualmente fazendo, um omem douto meu conhecido.
É superfluo que eu mostre, a confuzam que nace, no juizo dos-pobres principiantes, por-falta de alguma noticia de Cronologia: e quanto podem errar, se derem credito a tudo, o que dizem os antigos escritores. Eles erráram em muitas partes, por-nam terem noticia dos-tempos: e para nós nam cairmos nos-mesmos erros, é que julgam todos os omens doutos, que sam necesarios, estes requizitos. Um omem que ouve falar em Alexandre Macedonio, e nam sabe, em que tempo ele floreceo; confundiloá com muita facilidade, com Alexandre Severo Imperador dos-Romanos. Filipe Macedonio, e Filipe Romano nam se-distinguem polo nome, mas polo diverso tempo em que florecèram. os dois Romanos tambem foram Reis de Macedonia: e a diversidade está, em que foram juntamente, Imperadores Romanos, e florecèram alguns seculos despois dos-primeiros. Esta confuzam se-aumenta, quando se-fala de omens do-mesmo nome, da-mesma Nasam, e talvez do-mesmo tempo. Ouveram alguns Marcos Catoens, Marcos Antonios, Marcos Brutos, Marcos Valerios, Marcos Ciceros, Apios Claudios &c. todos Romanos, e alguns contemporaneos. E quem nam distingue isto, nam pode formar conceito das-coizas. Isto suposto, alguma tintura de Cronologia é necesaria, para intender a Istoria, e, sem a inteligencia desta, nam se-pode intender o Latim, dos-que escrevèram nesta lingua.
Para facilitar este estudo é grande segredo, ter em caza uma carta Cronologica, de que se-tem feito algumas Latinas, em duas folhas grandes de papel. Acham-se umas tiradas das-obras do-P. Petavio, Latinas: estas, com a diferensa de poucos anos antes de Cristo, uniformam-se com as de Usserius. O Delfini fez umas em Roma, segundo a Cronologia do-Usserius, em 4 folhas grandes, que eu tenho, e sam boas. Lanceloti fez outras em Pariz, segundo a Vulgata, quero dizer, segundo o Usserius: e sam otimas, principalmente despois de Cristo. O P. Pedro de S.Catarina Religiozo Bernardo, fez outras em Fransa, seguindo o Usserius: sam boas, aindaque alguma coiza extensas. O Musanzio Jezuita Italiano fez umas, em quatro folhas grandes, se me-nam-engano, porque averá anos que as-vi; em que segue a Cronologia do-Labbé Jezuita, que poem a vinda de Cristo no-ano 4053. do-Mundo: mas nam sam más. Outro Jezuita, que é o P. Cassini, acrecentou-as por-ordem de Benedito XIII. O Sanson, e Perizonio &c. compendiáram tambem taboas boas. As do-Senhor Langloit sam otimas, mas cuido que nam sam para rapazes; porque unem os trez calculos Grego, Ebraico, Samaritano: o que carrega muito a memoria. O ponto está que o estudante abráse, uma Cronologia certa: e nam mude de cartas todos os dias; mas meta umas na memoria. Toda a diversidade está, antes da-vinda de Cristo: porque despois dele todos concordam, e é rarisima a disensam. Se algum curiozo traduzise, umas destas melhores taboas, em Portuguez, para uzo da-Mocidade, emendando-as em alguma parte, e acomodando-as à necesidade do-Reino; faria grande serviso à Republica. Eu comecei á tempos este trabalho, e tinha ideiado uma carta mui facil: mas impedido com outras ocupasoens, nam pude acabála. se V. P. tiver gosto, porlheei a ultima mam. Feito isto, deve-se ler um compendio de Istoria. Neste principio basta o Valemont, que já se-acha em Portuguez: e o mestre no-emtanto pode ler um compendio da-Istoria universal: v. g. o que fez o Cluverio em 4.o que é bom: e principalmente o que se-impremio em 1672. que é mais correto: E preparar-se para saber explicar, estas noticias aos dicipulos, quando falam na Cronologia. Mas disto falaremos em outra ocaziam.
Quanto pois às antiguidades Gregas, e Romanas, ou aos Uzos, e Costumes destas Nasoens; sam indispensaveis para perceber, os autores antigos. Um destes escritores nam escrevia para nós, mas para os seus: aos quais eram notorios os costumes, nam só publicos, mas tambem privados da-sua Nasam. onde aludindo aos ditos, nam se-cansa em os-explicar. Entam intendiam-no todos: mas oje nam. e é necesario para o-intender-mos, que procuremos esta noticia naqueles, que as-recolhèram. Um Istorico que na prezente era, contando as virtudes de um servo de Deus, disèse, que celebrava Misa todos os dias, tinha Extazis &c. como falava com gente, que o-intendia, nam tinha necesidade, de se-explicar. Se pudese suceder, que daqui a mil anos nam ouvese Misa, ou aquele livro caise em maons de outra Nasam, que nam tivese noticia de Misa; é certo, que nam intenderia, o que se-dizia; ainda que intendese a lingua: e serîa necesario, que primeiro intendèse, que coiza era Misa, e outros destes nomes; para dizer, que intendia bem a istoria, em que se-achavam estas expresoens.
Os antigos escritores em quazi todas as paginas, aludem aos seus costumes civis, e ecleziasticos. Falam de Flamines, Augures, Paterpatratos, Sacrificios, Apoteozes, Vestais &c. Encontram-se mil nomes pertencentes à guerra, Tribunus Militum, Tribunus Plebis, Centurio, Quinquagenarius, Decanus, Triarius, Primipilus &c. como tambem de machinas, e aparelhos belicos de muitas especies. A cada paso se-tropesa com o nome, de Consul, Proconsul, Prætor, Proprætor, Quæstor, Legatus, Edilis &c. cada emprego dos-quais tinha seu particular exercicio; sem a noticia do-qual, nam é posivel intender, a forsa da-expresam que o-significa. Quem nam sabe, que os Consules, que prezidiam aquele ano no-Senado, eram os mesmos aquem se-distribuîam as Provincias, onde se-fazia a guerra; e a quem se-entregava o governo do-exercito; nam poderá intender, como uma dignidade, que parece civil, se-introduza nas-materias militares. Quem nam sabe, que no-tempo dos-Consules, ouveram Tribunos Militares, os quais governáram a Republica em lugar dos-Consules, com imperio consular; e continuáram muitos anos com suas interrusoens; intenderá, que Tribunus Militaris nam era magistrado; mas valia o mesmo, que Tribunus Militum: que conrespondia aos Coroneis dos-nosos Regimentos. Quem nam tem lido, que no-mesmo ano se-elegiam muitos Consules, e Proconsules, ou muitos Tribunos Militares, para abrangerem a todas as necesidades da-Republica; justamente se-persuadirá, que, em se-falando de Consul, discorre-se damesma e unica pesoa. Quem nam souber, que os Pretores mandavam-se para as provincias pequenas, com imperio consular; intenderá, que se-fala somente do-Pretor Urbano, ou Peregrino, que administravam a justisa em Roma. Finalmente só os ignorantes, é que podem negar esta necesidade: os doutos todos a-reconhecem.
Nós nam temos Istoricos Latinos que escrevesem, os seus costumes patrios: sam os Gregos de quem recebemos, o que oje sabemos: porque como os Gregos escreviam, para os seus Gregos, aos quais nam eram notos, os estilos Romanos; tinham cuidado de lhe-advertir, tudo o que era necesario, para a inteligencia da-Istoria. Polibio deixou-nos uma particular descrisam, da-Diciplina militar, dos-Costumes domesticos, das-Leis publicas dos-Romanos. Dionizio de Halicarnasso, dos-Sacrificios, Magistrados, e toda a politica da-Religiam, e do-Estado. Plutarco tambem nos-ensina muita coiza. Mas como nem todos sam capazes, de lerem estes autores, por-iso será bom recorrer, aos Compendios. Joam Rossino fez uma boa colesam das-Antiguidades Romanas, em Latim: que oje se-acha acrecentada por-Dempsterus. Estima-se pola brevidade, a Republica Romana do-Cantelio: mas eu intendo que é melhor o Neuport=Rituum qui olim apud Romanos &c. Quem quizer maiores noticias pode-as ler, no-Corpus Antiquitatum Romanarum do-Grevio, em 12. tomos fol. que compreende todos, os que escrevèram nesta materia: e onde pode consultar-se alguma dificuldade, que ocorrer.