Tambem é bom, ter alguma noticia das-Religioens diversas dos-Antigos: e para isto pode servir, Alexander Sardi = de Moribus, & Ritibus Gentium. 12.o ou Joannes Bohemus Aubanus de eodem 16.o ou Van-Dalen = de Oraculis Ethnicorum. 4.o o mesmo de Idolatria 4.o obra moderna: ou o Barclai = Icon Animorum; para os costumes das-Nasoens: ou o P.Pomei = Pantheon Mythicum. Nam aponto outros livros, porque sam em linguas vulgares estrangeiras: aindaque estes, talvez sejam os melhores, porque expoem tudo com clareza, e brevidade. O mesmo digo da-Fabula, a que aludem todos os momentos, os Antigos. É necesario saber, esta mitologia dos-Antigos, para os-intender; e buscar autores que a-expliquem, sem a qual noticia, falarám muito, e nam saberám nada. Dos-Modernos é melhor, o Jovet = Istoria de todas as Religioens do-Mundo = 3. tomos de 4ᵒ que se-acha em Francez, ou Italiano.
Esta noticia é necesaria, senam aos rapazes, que se-divertem com outras coizas, ao menos aos mestres, que explicam os ditos autores: e, se a-nam-tiverem, por-forsa ám-de dizer muito des-propozito: e mostrarám ensinar, o que nam chegáram a intender. Ja sei, que chegando V.P. a este emportante ponto, me-proguntará, qual mestre conheso eu, que tenha toda esta erudisam: ou se me-persuado, que um rapaz, que saie das-escolas, e que nam tem no-corpo mais, que quatro anos de Filozofia, asim ou asado, quando entra a ensinar nas escolas baixas; seja capaz desta doutrina tam necesaria, para fazer bem a sua obrigasam? A isto respondo, que quanto à capacidade, ninguem lha-pode negar: pois este pezo nam é maior, que as suas forsas. Bastaria que o-obrigasem, e ensinasem a estudar isto que digo, mostrando-lhe a necesidade que á de o-intender, para poder fazer a sua obrigasam; que ele faria tudo, o que era necesario. E se acazo introduzisem, este metodo nas escolas, e o-protegese quem pode fazèlo, continuarseîa, damesma sorte que se-conserva, o metodo ordinario. Reconheso, que serîa alguma coiza dificultozo, persuadir a muitos omens mosos, que, aindaque ensinem o Latim, nam só tem pouca noticia dele, mas nem menos tem noticia, do-que é necesario, para o-saber: o que serîa facil provar-lhe, fazendo-lhe uma exata lista dos-requizitos; e proguntando-lhe, se os-posuiam. Mas emfim tudo se-vence, tratando-se com pesoas de juizo, piedade, e docilidade: e as razoens que apontamos, poderiam obrar muito, se tivesem a paciencia, de as-quererem ler, e intender.
Suponho pois que o estudante, tem alguma noticia, do-que asima apontamos, ou que polo menos a-tem o mestre, que seja capaz de lhe-explicar em poucas palavras; e apontar-lhe os livros, onde se-podem beber estas noticias: (as quais podem-se ir aprendendo no-mesmo tempo, que se-explicam os autores, explicando uma ora cada menham, alguma parte delas) Apontarei agora o modo, com que se-deve regular, no-estudo da-Latinidade. Em primeiro lugar, deve somente procurar de saber, a propriedade dos-vocabulos: para o que deve buscar autores, que falasem mui naturalmente, e com estilo familiar. Para isto nam á melhores autores que Plauto, e Terencio: porque ainda-que em alguns lugares sejam, ou paresam oscuros; falam porem com estilo familiar, e com fraze naturalisima, e longe de ornamentos: que é toda a dificuldade na inteligencia da-lingua. Certamente Terencio é um autor, que nam tem preso, pola pureza da-lingua: e tambem é certo, que estes Comicos parecem mais Prozadores, que Poetas. Onde nam poso asás rir-me, quando ouso a alguns mestres responder, que Terencio nam é para rapazes, porque é oscuro. Os que asim falam, nam leram Terencio, nem sabem Latim. Proguntára-lhe eu, se é mais oscuro Terencio, que Oracio: ou se prezumem eles, que este, e Virgilio sejam mais claros, e proprios para rapazes, doque um Comico. Se bem considerasem estes, quanto é necesario para dizer, que intendem Oracio, e a Eneide; certamente julgariam diferentemente. Mas com estes omens nam falamos. O certo é, que Cicero julgou,[25] que a poezia Comica, nam se-distinguia da-Proza, senam em ser escrita como verso: mas nam na dificuldade. e tambem ninguem duvîda, que a Proza é mais facil, que qualquer Poema.
Em todo o cazo devem-se ler estes autores, com os Comentarios: e o mestre deve suprir com a explicasam; nam traduzindo muito; mas ese pouco com tal clareza, que nam fique dificuldade alguma ao rapaz. Quem nam souber explicar bem Terencio, pode contentar-se com Fedro. Este autor tratou argumentos simplezes, que sam certas fabulas, com uma disam pura e natural: e, aindaque Poeta, parece Prozador; e para principiantes é famozo. É estimada a edisam, que o douto Gronovio nos-deu, de Plauto. Sobre Terencio muitos tem escrito, mas nem todos bem. Com razam se-dise, que Farnabio, e-Minelio, afetando brevidade, deixáram mil coizas emportantes. Madame le Fevre publicou a mais bela tradusam, e notas sobre Terencio, que até o seu tempo tinha aparecido: mas é em Francez, lingua que nem todos intendem: como tambem Monsieur le Fevre seu Pai, tinha ilustrado eruditamente Fedro. No-estado prezente servirmeîa da-edisam de qualquer deles, ad usum Delphini, &c. que parece ser a mais toleravel, das-modernas.
Estes primeiros autores nam se-devem ler correndo, como muitos fazem; mas devem-se ler, e reler atentisimamente. v.g. lendo Fedro deve o mestre, nam deixar de explicar coiza alguma, que seja necesaria, para intender a lingua. Onde deve notar e explicar, todas as dificuldades de Sintaxe: porque aindaque na Gramatica se-expliquem, somente lendo os autores se-intendem bem. E terá cuidado, de reduzir a construisam embarasada e figurada, ao modo de falar natural: explicando a Figura, em que se-funda. Despois, notará a propriedade das-palavras. E quando encontrar algumas, que paresam sinonimas, deve ensinar, se verdadeiramente o-sam, ou que coiza acrecentam. Em terceiro lugar deve ensinar-lhe, a pronunciar bem o Latim: que é o que comumente nam sabem em Portugal: pois ainda os mesmos mestres, pronunciam as palavras corrutamente. v. g. Em Omnis nam proferem o m: os tt finais pronunciam como dd: o m final pronunciam como n: e entre e, e a sempre pronunciam superfluamente um i. v. g. Meam, Deam &c. os ss finais como x. O que sem duvida é grande defeito da-pronuncia: deixando por-agora outros erros, que se-podem notar. Alem diso oferecendo-se-lhe algum termo, do-Latim antigo, deve ensinar, o modo antigo de pronunciar. v.g. Maxumus, Militiai &c. Estas noticias dam muita erudisam, a quem estuda o Latim: e como muitos nam fazem cazo delas, por-iso ignoram, o que é Latim, e todos os momentos encontram, dificuldades novas. Isto que digo de Fedro, deve-se intender de qualquer outro autor: Mas isto é o que muitos nam intendem: antes querem ler muito, intendendo poco; doque saber bem a lingua, com um só livro. De que vem, que a Mocidade nam aprende nada, com o seu metodo: pasam-se os anos nas escolas baixas, que se-deviam empregar, em coizas mais utis: pois na verdade quem nam reflete, como deve, no-que le, tanto emporta que leia Cicero, como os atos de Maria Parda.
O que emporta muito no-principio é, nam dar aos rapazes livros, que tenham periodos longos: mas breves, e com fraze natural. Por-esta razam alguns Italianos doutos, e despois deles os Francezes, aconselham, que no-principio devem-se fugir, as istorias difuzas, os Oradores, e coizas semelhantes: especialmente os Poetas Eroicos &c. e que é melhor, tirar de Cicero, e outros autores elegantes e claros; tirar, digo, alguns paragrafos melhores: indireitar as frazes, e transpozisoens dos-Verbos: e polas na ordem natural. Sendo breves, e elegantes, podem os rapazes intendè-las, e tirar daî grande utilidade. A experiencia mostrou-me, que diziam bem: pois vendo eu, que alguns rapazes nam intendiam, os discursos compridos, e as figuras da-orasam; feita esta experiencia, intendèram tudo facilmente.
Mas isto que a estes aconselho, acha-se feito ja por-omens doutos: os quais escolhèram entre os autores, as coizas mais facis, e melhores, e reduziram-nas a capitulos diferentes: v. g. às quatro virtudes principais: para que os rapazes, nam só aprendam a lingua, mas tambem o moral das-asoens. A maior parte sam de Cicero: mas tambem se-acham de outros autores. Sam trez livrinhos pequeninos, impresos em Pariz: e tambem se imprimîram em Italia na Cidade de Pezaro, em 1740. Estes livros valem um mundo, e tem aproveitado a infinitas pesoas: e quem ajudáse com eles os seus dicipulos, conheceria a verdade do-que dizemos. E por-esta mesma razam digo, que a leitura dos-Comicos, é infinitamente util aos rapazes: v. g. a de Terencio. todos os periodos sam breves: rarisima vez se-acha transpozisam mui oscura: e os modos de falar, sam tirados do-estilo comum: motivo polo qual, sem trabalho se-intendem. Plauto tambem serîa bom: mas como tem bastantes palavras antigas, ou escritas no-antigo modo, nam é tam proprio, para principiantes. Oracio nam o-aconselho: nem outros semelhantes, que pedem maior erudisam. Em lugar de Oracio nestes principios, aconselharia Catúlo, que é nam só purisimo Latinista, mas mui natural, e com infinitas grasas. Devem-se separar, os poemas impudicos, e explicar os outros, com todo o cuidado, e diligencia.
Mas, supondo que o mestre, nam tem os ditos livros, direi o que deve fazer, despois da-leitura de Fedro, e Terencio. Deverá pois explicar em outra clase, as cartas de Cicero, a que chamam Familiares, com os comentários de Manucio, ou ad usum Delphini, que sam otimas: nam todas juntas, mas saltiadas. Onde deverá preferir, as que escreve a sua molher Terencia, e a seu liberto Tiro: como tambem as de recemendasam. Estas sam as mais naturais, breves, e claras: desorteque nam enfadam o estudante: porque sam compostas naquele estilo familiar, que todos intendem. Vi nam á muito tempo uma pequena colesam, destas mais facis epistolas de Cicero, cuido que impresas em Padova; que eram otimas, para estes principios. Despois, na mesma clase pode ler, os Istoricos mais facis: como sam Caio Cezar, Cornelio Nepote, Veleio Paterculo. Estes trez escrevèram no-seculo da-mais pura Latinidade, e sam incomparaveis: principalmente os dois primeiros, que sam sumamente naturais, e claros. Mas estes autores nam se-devem ler seguidos: sim interrompidos, e tirando deles os lugares mais singulares. Se o estudante, tiver feito aproveitamento no-Terencio, e tiver ja lido alguns extratos, reduzidos à ordem natural; basta explicar-lhe estes autores, sem mudar a ordem das-palavras: paraque pouco a pouco das-coizas facis, vá intrando nas dificultozas. E terá o mestre a advertencia, de nam obrigar sempre os rapazes, a que traduzam de repente: mas em dias alternados. E comumente deve ordenar-lhe, que escrevam em caza a sua tradusam: e quando vierem à escola, fará que dem a razam, de tudo o que traduzîram. Este modo de ensinar, aproveita muito, e imprime as coizas na memoria. polo contrario o metodo comum, de dizer de cór, é falar como papagaio, e exposto a mil enganos. Onde deverá o mestre cuidar muito, em que escrevam as suas tradusoens; pois com o tempo serve isto, para ensinar a traduzir bem: que é o que muitos nam sabem.
Quando o estudante chega a este estado, pode-lhe ordenar, que componha alguma coiza: mas sempre asumtos breves: pola maior parte tirados das-obras, que traduz: o que pode fazer trez vezes na semana. Eu comecaria polas cartas: que é um modo de compor facil. Uma ou duas vezes darlheîa as partes: tendo cuidado de escrever primeiro, uma carta Portugueza pequena, e com ordem natural. Ou traduzir uma pequena de Cicero, que serîa o mais acertado: obrigando-os a que compuzesem outra semelhante, sem porem se-servir em tudo, das-mesmas palavras, e fraze. Despois, daria outra carta facil, sem partes: obrigando-o a que as-buscáse: e ensinando-lhe o modo. Em 3.o lugar daria uma carta mais elegante, sem a ordem natural: porque se acazo se-acostumam, a escrever o Latim conrespondente ao Vulgar, nunca saberám fazer outra coiza. Despois diso, pasaria a outro asumto mais dificultozo, e sempre breve. v.g. a discrisam, ou carater, de uma pesoa determinada: no-que é singular Velleio Paterculo. ou obrigalosîa a referir, algum pequeno suceso: dando-lhe primeiro o Portuguez; e deixando-lhe a incumbencia, de pòr o Latim. Isto é quanto pode fazer um rapaz, no-dito tempo: e se o-chega a fazer, nam faz pouco. Com o tempo, e quando for lendo outros autores mais dificultozos, é que lhe-podem dar outros asumtos: porque o rapaz, em quanto estiver na Latinidade, deve fazer duas coizas, compor, e traduzir. Deve porem o mestre fugir, de lhe-dar pensamentos e sentensas oscuras, por-tema; porque as-nam-intendem: e neste tempo nada mais se-procura, que ensinar-lhe que coiza é, pura Latinidade. Quando o mestre ler as compozisoens, deve emendálas, e dar-lhe a razam, de tudo o que faz. Ao principio somente cuidar, na propriedade: com o tempo ensinar-lhe tambem, o que é elegancia, e particular idiotismo da-lingua Latina: mostrando-lhe como se-deve traduzir, tanto de Latim em Portuguez, como de Portuguez em Latim. Serîa bom que o mestre algumas vezes, traduzise ele mesmo, algum paso de Cicero &c. e o-propuzese ao estudante por-tema: nam lhe-deixando ver o original, senam despois de feita a compozisam: paraque asim reconhecese o moso a diversidade, entre o que tinha feito, e devia fazer. Mas isto somente se-pode fazer, nas clases altas, e quando ja o rapaz tem noticia bastante, da-Latinidade: porque desta sorte, é que se-aprende, qual é o estilo dos-bons autores.
Pode, despois dos-ditos autores, explicar os Istoricos mais dificultozos: que sam Tito Livio, Salustio, ou tambem Quinto Curcio. O qual Curcio, aindaque se-suponha ter escrito, no-reinado de Vespaziano, que era a idade de prata; ou, como diz Scioppio, o principio da-idade de bronze da-lingua Latina; contudo, é escrito com a mais pura Latinidade do-seculo de Augusto: e o estilo é belisimo. Livio é mais copiozo, e magestozo, e digno da-grandeza do-Imperio Romano. Quanto a Salustio, convem todos, que as suas frequentes Ellipsis, e o demaziado laconismo, fazem-no duro, e oscuro: mas é escritor de sumo pezo, e singular eloquencia. Nam me-parece porem, proprio para rapazes, polas muitas e mui fortes metaforas, e bastante oscuridade. Onde o meu parecer serîa, que dos-dois primeiros, se-tirasem alguns lugares escolhidos, para se-explicarem aos principiantes. Na mesma ultima clase podem-se explicar, alguns extratos das-orasoens de Cicero, principalmente das-mais facis, que sam: Pro Archia Poeta: Pro lege Manilia: Pro Marcello: e as Catilinarias. Mas obrigar um rapaz, a que as-vá traduzindo seguidamente, e inteiramente, como costumam muitos, é intender mal o negocio. Nenhum omem pode ler com gosto, uma inteira orasam de Cicero, se nam é um grande Latino, e Retorico: e á orasoens de Cicero tam longas, v.g. as Verrinas, que ainda um omem douto, nam as-le, sem se-cansar. Ler uma pagina oje, e no-seguinte dia outra; é ainda pior: porque se-perde o sentido, e nam se-intende o que se-explica: de que nace o enfado, nam só nos-rapazes, mas nos-grandes. Onde o melhor é, procurar alguns pasos breves, e escolhidos: uma descrisam: um inteiro argumento: um inteiro periodo do-exordio. O mesmo digo, daqueles que explicam, o Somnium Scipionis, o livro de Senectute, Amicitia, &c. quem faz isto, nam intende o que faz. Os ditos livros nam se-podem intender, sem saber a istoria: da-antiga Filozofia: o que nam deve, nem pode um rapaz. Eu, tendo lido algumas vezes Cicero inteiramente, só o-cheguei a intender, (se é que o-intendo) quando li em Laercio, e Plutarco, a istoria das-setas dos-Filozofos. Os que introduziram o estilo comum, e que achamos no-livro a que chamam, Selecta, certamente ou nam refletîram, ou nam intendiam isto: porque dam aos rapazes, livros muito diferentes, e que só sam para omens adiantados. Salustio nam é para rapazes. Ouvîram dizer, que os livros pequenos de Cicero, eram perfeitisimos no-seu genero; e sem mais reflexam os-traduzem. Mas polo mesmo principio deviam explicar, os livros de Oratore ad Q. Fratrem: Orator ad M. Brutum: e os trez de Officiis: que sam a melhor coiza que ele fez, neste genero. Acho porem outras razoens, que se-devem atender, quando se-fala com principiantes.