Quando o rapaz traduz estes autores mais dificultozos, com a mesma ordem que se-acha neles, entam é precizo, que escreva a sua tradusam. A razam é, porque estes autores uzam de muitas transpozisoens, frazes, e figuras, as quais nem sempre se-podem traduzir literalmente: e asim querer que um rapaz, de repente ache o verbo, ou perifraze propria, é loucura: e vale o mesmo que ignorar, que coiza seja tradusam. Os mestres ao seu bofete, muitas vezes nam acham, a palavra propria, para a boa tradusam: como mostra bem o famozo Monsieur Huet, no-seu livro==de Claris Interpretibus==: em que, aponta os defeitos, em que caîram os omens grandes: E se isto sucede aos doutos; como é posivel, que o-fasa derepente um principiante? O que suposto, deve o mestre dar-lhe tempo, para escrever em caza a sua tradusam: ou ao menos na escola. E despois ensinar-lhe, como se-deve traduzir bem de Latim em Portuguez: porque intendido isto bem, conhece-se como se-devem converter as mesmas frazes Portuguezas, em outras Latinas: ao que chamamos, boa Latinidade. Por-esta razam digo, que o que fez aquele livro, a que chamam, Pai Velho; que poem a tradusam de Virgilio, ou o que quer que é, palavra por-palavra; merecia ser asoitado polas ruas publicas: e tambem os mestres, que se-servem dele: e o livro, queimado em prasa publica. Nam á coiza mais prejudicial para a Mocidade, que semelhantes livros: pois mostrando ensinar a traduzir, sam a cauza, de que se-nam-saiba. O pior é, que os mestres praticam o mesmo, que diz o livro, nas suas tradusoens. Cujo metodo é tal, que ou os rapazes estejam dez, ou vinte anos nas escolas, nunca intenderám Latim: como na-verdade sucede: pois traduzindo todos Virgilio, nenhum o-intende. Achei-me em certa parte, emque um celebre mestre traduzia, o principio do-quarto livro da-Eneida: At Regina gravi jamdudum saucia curæ &c. palavra por-palavra: e tam pago de si mesmo, como se fose, o melhor interprete do-mundo. Dise eu a um-discipulo, que escrevese a tradusam do-seu mestre, e despois lha-mostráse, proguntando-lhe, se era boa aquela tradusam. Asim o fez: e o mestre, cuidando que era coiza do-dicipulo, foi o primeiro que dise, que nam prestava para nada. Pois esta, replicou o discipulo, é a que V.P. ontem dise. Envergonhado o mestre, quiz saber, quem lhe-dera o conselho, e respondeo: Que uma coiza era, compor na banca, e outra, explicar na escola. Que parvoice! esta propozisam vale o mesmo que dizer: Que na banca se-deve compor bem: e na escola explicar mal. A falar a verdade quem explica a rapazes o dito livro, ou coiza semelhante, sabe mui pouco: porque pola maior parte aquelas palavras, nam se-devem tomar no-proprio sentido, mas metaforicamente: e explicálas segundo o sentido do-Poeta. E por-este motivo torno a dizer, que os Poetas, principalmente Eroicos, nam sam para rapazes, que estudam Latim. Confeso a V.P. que ainda nam ouvi um mestre, que na escola disese: Esta palavra, nam se-pode traduzir bem: é necesario explicála asim. mas todos seguem o comum estilo, que é muito mao. Onde a minha regra geral é esta: Quando ouso um mestre, que, explicando livros eloquentes, traduz asim: Petrus Pedro: Amat, ama: Joannem, a Joam: sem mais outro exame asento, que nam sabe Latim. Deve o mestre praticar outro estilo, se quer que aproveite aos estudantes: e o melhor é, o que aponto. Isto basta por-agora, sobre a tradusam.
Quando digo, que se-devem ler estes livros, nam quero dizer, que se-leiam todos: mas um, ou outro dos-que aponto; que sam os melhores, e mais proporcionados ao noso cazo. Mas tambem é certo, que, lendo-os como digo, quazi se-podem ler todos. O principal ponto está, em seguir a ordem que insinuo: porque sem ela, nacerá confuzam e impedimento, como todos os dias observamos no-metodo vulgar: sendo certo, que primeiro se-devem ler, os que faláram a lingua naturalmente, doque os que abundam muito de metaforas, e mil outros ornamentos dificultozos. Mas nem menos isto basta, se o mestre nam explicar o que deve. Onde o ponto de toda a consideram consiste, no-modo da-explicasam. Quando pois o estudante estiver adiantado, deve o mestre, alem das-coizas que asima apontei, explicar outras. v.g. a sintaxe dificultoza: a forsa das-palavras: o modo de pronunciar antigo: e notar outras coizas, que se-encontrarem. Porque os rapazes das-escolas maiores devem saber, nam só o que é Latim puro, mas tambem as outras particularidades, que constituem a elegancia. Acham-se autores, que se-servem de palavras Latinas, e contudo nam tem aquela particular grasa, a que chamam os inteligentes, boa Latinidade. Consiste esta às vezes, em uma fraze inteira: tambem em um diminutivo, ou frequentativo &c. coizas que dam infinita grasa ao estilo Latino; e frequentemente se-acham, nos-melhores autores Latinos, como Terencio, Cicero &c. Onde, este deve ser o cuidado do-mestre: mostrálas quando ocorrem: e notar a particular grasa que tem, naquele lugar. Deve tambem notar o modo, com que os bons autores comesam, ou acabam o discurso, ou os unem entre si, quando compoem uma orasam inteira. Esta uniam consiste às vezes, em uma conjunsam: às vezes, em outra particula. E este é o particular estilo da-boa Latinidade: que necesariamente se-deve ensinar aos rapazes, paraque o-executem, quando compoem. Alem disto, quando encontrar alguma expresam oscura, ou porque é fundada em uma fabula, ou coiza semelhante, deve explicála. Desta sorte se-intenderám os autores, e se-poderá tirar proveito da-sua leitura. E isto é o que um mestre douto faz, com muito gosto, porque conhece a utilidade, que daqui rezulta: e só entam pode repreender com justisa os rapazes, quando da-sua parte faz tudo o que deve, para os-ensinar.
Mas antes de concluir isto, quero dizer alguma coiza, sobre as edisoens deses mesmos autores, que tambem é noticia util. Em todo o cazo devem-se procurar, as melhores edisoens destas obras, as mais corretas, e com boas notas. Todos os livros comentados ad usum Delphini, aindaque uns sejam melhores que outros, comumente, e principalmente para o noso cazo, sam bons. mas devem ser da-edisam de Pariz, ou de Olanda: porque as de Italia modernas, nam prestam para nada. Emporta muito ter o texto correto, para se-nam-enganar, neste particular. Os Olandezes sam famozos. As edisoens de Grevio, e Gronovio, e outros omens doutos, aindaque nam tenham notas, (mas quazi todas as-tem) sam corretisimas. a edisam de Cicero por-Verburgio, cum notis variorum, em Olanda é exatisima. Em Inglaterra tambem fizeram algumas boas: e a imprensa de Inglaterra, e Pariz é mais negra, que a de Olanda: e por-iso agrada mais. Isto que digo das-edisoens, se-intenda, nam só dos-Prozadores, mas dos-Poetas. O que porem encomendo muito ao estudante é, que, nestes principios, se quer saber Latim, leia poucos livros: mas eses que escolher, leia-os tantas vezes, e com tanta atensam, como se ouvesem de ser eles, o seu unico estudo. na segunda vez achará menores dificuldades: e asim nas outras. Isto basta, para ser um grande Latino. Nem aconselharei a rapaz algum, que leia os Poetas. Para saber Latim, é escuzado, e serve de impedimento: na Retorica é melhor que se-leiam: mas é melhor quando sam grandes. Porem por-nam deixar de dar metodo, na leitura dos-autores, direi brevemente o modo: e servirá, para os que se-quizerem aplicar totalmente a isto.
Digo pois, que os que quizerem aplicar-se à leitura dos-Poetas, podem fazèlo, despois de ter feito estas preparasoens: procurando somente, os mais estimados polos doutos. Para intender estes é necesario, ler algum tratado, que explique a Mitologia dos Antigos: e que nos-de uma noticia breve das-fabulas, à que eles todos os momentos aludem. Isto posto, deve-se ler Ovidio nas Metamorfozes, e Fastos, em que explica toda a Mitologia: despois as Eroidas, que sam as suas melhores obras, e as mais facis. as outras podem-se rezervar para outro tempo. Despoîs, ler Virgilio todo atentisimamente: ao qual deve seguir Oracio, nas suas Odes; melhor direi, todo, porque é um autor inimitavel. Querem muitos, que com este se-leia, Gracio Falisco, Olimpio, e Nemesiano, Poetas Bucolicos: aindaque na verdade sejam muito inferiores, a Oracio. E finalmente, Estacio, e Lucano. Isto basta para ter, uma grande noticia de Poetas: principalmente lendo-se, com a devida atensam. E quem tiver bem estudado os ditos, pode, sem mais mestre, ler qualquer dos-outros, que se-oferecer: mas apontarei alguns. Quem pois quizer ler amores, veja Ovidio, de Arte amandi, Catûlo, Tibûlo, Propercio: que sam todos no-seu genero famozos. Os melhores satiricos sam, despois de Oracio, que é o mestre; Juvenal, e Persio. Marcial é um autor, que entre mil coizas insulsas, tem algumas boas. agradam mais aos omens inteligentes de Poezia, e Latinidade os Epigramas de Catûlo. Quanto a Lucrecio, e Manilio, sam juntamente Filozofos, e Poetas: e o primeiro sempre teve, e ainda conserva, muitos admiradores; e é um puro Latinista. Nisto se compreende, o melhor da-Antiguidade.
Sobre as edifoens á pouco que dizer. Todos estes autores foram comentados, para uzo do-Delfim de Fransa, por-ordem de Luiz XIV. Estas edisoens sam melhores que as antecedentes: e as concordancias que se-fizeram, de cada um destes autores, valem infinito, para a inteligencia dos-vocabulos da-lingua: pois mostram os diferentes uzos, e a forsa das-expresoens. Alem das-Delfinas, á outras edisoens anteriores, que tem seu merecimento. Por-pouco que um omem se-familiarize com os livros, e consulte os Bibliotecarios impresos, e trate os omens que sam verdadeiramente doutos; conseguirá todas as noticias necesarias, para se-regular na eleisam dos-livros, e edisoens. Mas quem quizer ler estes autores, advirto-lhe, que os-nam-leia seguidos, sim interrompidos: pois nem tudo neles é igualmente bom. Onde, devem-se colher as coizas melhores: porque esta sorte de leitura agrada: uma longa leitura enfastia, e só serve para um omem, que nam fasa outra coiza. Nam aconselho, que se-expliquem Poetas nestas escolas: mas que aja uma ou duas separadas, em que somente se-trate esta materia.
E ja che falamos de livros, necesarios para a inteligencia do-Latim, deve tambem o estudante saber, de quais se-deve servir, para compor &c. Nisto á muito abuzo; porque comumente alguns aconselham livros, que nam prestam. O Cardial Adriano = de Sermone Latino; Huberto Gifanio, nas suas Observasoens, Tomaz Linacer, sam autores famozos, para ensinar o modo, de escrever bem: principalmente o ultimo. Enrique Estevam, e o Vossio, escrevèram bem sobre as palavras, que nam sam Latinas, ou que o-parecem. O Ducange fez um belo Dicionario, de Infima Latinitate: que oje se-acha mui acrecentado, polos Beneditinos de S. Mauro, e cuido que sam, alguns seis tomos de folha. O Dicionario Etimologico de Vossio, pode dar grande e fundada noticia, da-Latinidade. Nizolio, e Carlos Estevam, compoz cadaum seu Dicionario, para as vozes que se-acham em Cicero: mas o ultimo é melhor, que o primeiro. Para ter noticia de toda a Latinidade, e ver o uzo dos-vocabulos, é necesario consultar, o Tezoiro da-Lingua Latina, de Roberto Estevam. 4. tom. para os rapazes, pode servir o Calepino de Facciolati, que é mais breve. Para ver as diferensas das-palavras, é utilisimo Anzonio Popma, e o P. Vavassor Jezuita, e tambem o Borrichio. Para saber o uzo, e forsa das-Particulas da-Latinidade, é famozo o Stevvechio, e despois dele o P. Turselino, da-edisam do-Facciolati. Os mestres podem ler o Tomasio, e Schvvartio, que sam amplisimos. As Fraseologias nam as-aconselho a ninguem: mas das-melhores, é a de Manucio, que compendiou as de Terencio, e Tullio: e melhor que este, o Pareo, que acrecentou as de Plauto: e fez mais outras obras utis, para a Latinidade. Acham-se mais alguns autores, como o Schorus, Cellarius &c. que escrevèram nestas materias: mas estes que apontamos, sam os melhores. E estas noticias bastam ao principiante: as outras aprenderá com o tempo.
Tenho dito o meu parecer, sobre o modo facil de aprender, a boa Latinidade. Mas antes que acabe, direi a V.P., que para conseguir este fim, e saber compor com facilidade, conduz muito, ter a memoria cheia de muitas especies. Sem ela nada vale a aplicasam: vistoque a nosa ciencia nada mais é, que a simplez memoria, do-que temos estudado. Ninguem duvîda, que a memoria com o exercicio se-aperfeisoa, principalmente nos-rapazes: e que todo o trabalho, que nisto se-poem na mocidade, serve muito, para quem á-de seguir os estudos. Mas a dificuldade está, em saber cultivar a memoria. Quem obriga os rapazes, a aprender muito verso, e muita arenga; faz-lhe mal, cuidando fazer-lhe bem. Eu comparo a memoria, cheia de semelhantes ideias, a uma livraria grande, cujos livros nam estam nas estantes, mas amontoados no-meio, e polos cantos: quem nela procura um livro determinado, nam o-encontra: mas ofrecem-se-lhe cem mil, que nada fazem ao cazo. Damesma sorte a memoria mal regulada: quando lhe-pedem uma ideia, ofrece tantas, e tam fóra do-propozito; que é o retrato da-confuzam: de que nace, que nunca se-aprendem bem, as outras Ciencias. Isto suposto, deve cuidar o mestre, em exercitar a memoria dos-principiantes, em algumas determinadas materias. Primeiro, acostumálos a dizerem em breves palavras a lisam, que ám-de explicar. Despois, explicará aos ditos, alguns pasos seletos de autores, principalmente Poetas: v.g. alguma das-fabulas de Fedro, ou Ovidio: mas curtas, e sempre agradaveis; pois só asim entram. Nestas, os rapazes devem dizer primeiro, o que contem: despois, poco a pouco ir repetindo, todas as palavras: com o tempo pode-se aumentar, o numero dos-versos. E este exercicio pode-se fazer dois, ou trez dias da-semana. Quando o rapaz tem algum exercicio; entam tem lugar, servir-se de metodo, nas coizas que decora. Onde tera cuidado de lhe-ensinar, algumas descrisoens, algumas exortasoens, ou-breves orasoens &c. mas primeiro explicar-lhas bem: pois sem iso é querer, que pronunciem como papagaios. Nisto nam devem molestar os rapazes, com pancadas: mas animálos com premios, a que decorem bem algumas coizas: remunerando ou louvando, os-que o-fazem melhor: sempre coizas utis, e que posam servir com o tempo. Mas deve cuidar muito o mestre, de nam permetir aos rapazes, a leitura destes livros de Fraseologia, antes banilos, como coiza mui prejudicial. Sam càpas de romendos, cadaum de sua cor, que nam podem fazer coiza boa. cauzam preguisa aos estudantes: e arruinam o bom gosto da-Latinidade. Devem-se escolher as descrisoens &c. nos-mesmos livros que estudam: e mandar-lhe aprender as frazes, nos-mesmos autores que traduzem. O mais é madrasaria, e ignorancia.
Tenho ainda outra reflexam que fazer: é esta, sobre o falar Latim nas escolas. Nisto á dois vicios: alguns falam sempre a sua lingua: de que vem, que saiem das-escolas, sem saber dizer, um comprimento Latino: e este é o defeito, que reina em Portugal. Outros, que pola maior parte sam Polacos, Ungaros, Alemaens, obrigam a falar sempre Latim: ainda antes de intenderem bem Latim. Tambem isto é um grande defeito: pois se os que sabemos bem Latim, nam podemos falar com dezembaraso; que fará um rapaz, que ainda o-nam-sabe! Esta é a razam, por-que vemos muitos destes Estrangeiros, (e eu vi tambem molheres) que falam Latim corrente. mas que Latim? um Latim tal, que é melhor nam intendèlo. Para falar Latim depresa, servem-se de frazes barbaras, e termos vulgares: e enchem a cabesa com aquilo, em modo tal, que em nenhum tempo podem deixar, o dito estilo. Nam sei que grasa tem cansar-se, para escrever Latim bem, e cansar-se tambem, para falar Latim mal: nem menos intendo, que necesidade aja, de falar semelhante Latim. Quem á-de fazer jornadas, por-paizes Estrangeiros, se sabe bem Latim, nunca tem dificuldade em se-explicar, se acazo tem algum uzo. que o-fale mais ou menos depresa, iso nada emporta. Nem menos aprovo, aquela afetasam de alguns Portuguezes, que, querendo falar Latim com algum Estrangeiro, estam meia ora a considerar, um periodo Ciceroniano: e desprezam as vozes vulgares. Este tambem é outro defeito consideravel. Se os que falam Portuguez afetado, nam se-podem suportar; que faram os que falam com afetasam, o Latim? O Latim das-conversasoens deve ser, o mais natural de todos. o ponto está ter palavras puras: a sintaxe delas deve ser natural, e clara. V.P. nam verá afetasoens em Terencio, ou Plauto, ou Fedro, porque falavam com estilo familiar. A lingua Latina tem isto de bom, que se-caza com a elevasam, e naturalidade. Onde, devemos saber aplicar o estilo, à materia; para conseguir o fim, de falar com muita naturalidade, e nam falar mal.
Isto supposto, parece-me que deve aver nas escolas, algum exercicio de Latim: mas requerem-se algumas cautelas. Primeiro, nam se-deve falar Latim, senam na ultima escola da-Latinidade, ou da-Retorica: quando ja os rapazes, intendem bem o Latim. Em segundo lugar, nam devem falar Latim sempre, mas em dias determinados. Primeiro, podem ensinar-lhe a dizer, alguns comprimentos de uma, e outra parte: despois, pode-se introduzir algum Dialogo, sobre a materia que se-estuda: em que de uma parte, um rapaz progunte alguma coiza: da-outra, responda outro, sempre em Latim. Mas primeiro deve o mestre explicar, como isto se-deve fazer: e ser ele o primeiro, a dar exemplo. E nam deve obrigar todos, a que falem no-mesmo dia: mas comesar polos melhores: despois por-turno os outros, em dias determinados: avizando-os primeiro, para que venham preparados. Desorteque cada estudante ousa falar muitas vezes, os outros: e asim vá aprendendo, para quando lhe-chegar a sua vez. Pode o mestre falar a miudo, algumas coizas Latinas, com algum dos-estudantes, que forem mais capazes, ainda fóra dos-dias asinados: tendo cuidado, de falar bem; e ensinar-lhe sempre, o como se-deve falar. Desta sorte pode ajudar muito, os estudantes: principalmente se souber excitar entre eles, a emulasam, louvando muito os que o-fazem bem, e remunerando-os. Este é o verdadeiro metodo, de ensinar a falar Latim. Comesando desta sorte, mais facilmente o falarám, nas escolas da-Filozofia: e deste modo aquistarám aquela facilidade, que é necesaria, a quem á-de seguir as letras.
Isto é o que me-ocorre dizer, sobre o estudo da-lingua Latina: poderia acrecentar muita coiza; mas estas bastam, para o que se-quer. Prouvera a Deus, que estas se-puzesem em execusam; entam me-diria V.P. se me-enganava eu no-meu conceito. Deixando para a vista outras razoens, com que podia persuadir, o que digo; insinuarei uma bem clara. Entre tantos que se-aplicam, ao estudo da-Lingua Latina, mostre-me V.P. quantos sam capazes de se-apontarem, como exemplo de boa Latinidade. Examine V.P. quantos autores tem cá, nos seus paîzes, que componham Latim, como milhares, que eu poso apontar, nos-Reinos estrangeiros; e ainda alguns em Espanha, que escrevéram asombrozamente. Se me-mostrar um ou dois, que nam ignoro que aja, asente que o-nam-trouxeram das-escolas; mas custou-lhe boas fadigas em caza: ou talvez porque saîram fóra do-Reino, e tratáram, com quem lhe-abrise os olhos, como o Bispo Ozorio &c. Quazi todos os outros falam Latim das-escolas. E tantas testemunhas, que todos os dias saiem das-escolas, provam bem, que esta ignorancia, é influencia do-mao metodo.