Isto suposto, vendo os doutores, que os pontos dos-Gramaticos eram utis, para conservar a antiga maneira de ler; adotáram os ditos pontos, e comesáram a servir-se deles, pouco mais ou menos, no-seculo quinto de Cristo. Muitos suspeitam, que se-deve isto aos doutores, da-escola de Tiberiades. Seja como for, o que sabemos de certo é, que desde ese tempo, comesáram a escrever certos sinais, debaixo, e desima das-consoantes; paraque todos os Ebreos, pronunciasem as vozes Ebraicas, segundo a antiga tradisam. De entam para cá é, que á noticia expresa, das-vogais[29]. Mas como os Ebreos sempre foram misteriozos; para ocultar o verdadeiro sentido do-texto Ebreo, inventáram tanta vogal que nam se-le, entre outras que se-lem; que esta é oje a maior dificuldade, desta lingua. Umas vezes a mesma vogal le-se: outras, nam se-lé: umas vezes converte-se em outra; e talvez nam se-converte: e isto embarasa muito os principiantes.
Intendido isto, o metodo de aprender o Ebraico é, a prender a conhecer, e unir as letras, e proferir as disoens: porque a pronuncia diligente somente é necesaria, aos que querem falar, nam aos que somente a-querem intender. Deixando ao principio, aquela infinidade de excesoens, sobre a mudansa de pontos, &c. deixados os infinitos acentos, que para nada servem: basta ter noticia, das-regras gerais, para saber ler, e pronunciar facilmente. Daqui pasa-se às declinasoens dos-Nomes, e seus diversos estados. A maior dificuldade está, nos-Verbos: porque tem terminasam masculina, e feminina, o que ao principio parece imbarasado: aindaque com o tempo, ajude muito para intender, com quem, e de quem se-fala; se com omem, ou com molher. Deve pois saber distintamente, quais sam os verbos quiescentes, e defetivos. As anomalias deles podem-se deixar, porque se-aprendem com o uzo. Esta lingua nam tem sintaxe particular: e todos os idiotismos aprendem-se em meia ora. Daqui deve pasar a ler a Biblia, tendo sempre prezente um Dicionario, v.g. o Compendio Hebraico Chaldaico de Buxtorfio. É utilisimo servirse do-texto Ebreo, com a versam literal de Pagnino, correta por-Montano: porque alem-de que se-aprende, a propria significasam dos-vocabulos, tem à margem, boas notas de Gramatica, e aponta as raizes. O que ajuda muito um principiante, principalmente se a-quer buscar, no-Lexicon: e é muito necesario saber, quais sam as raizes, para ter suficiente noticia, da-lingua. Com o tempo observa-se a Sintaxe da-lingua, e os idiotismos, ou maneiras proprias de se-explicar, diferentemente das-outras linguas: o que se-reduz a poucos pontos, e se-aprende do-contexto.
Os livros que primeiro se-devem ler, sam os mais facis, como o Pentateuco, os livros dos-Juizes, e Reis, Paralipomenon. Os Profeticos, e Sapienciais podem rezervar-se, para outro tempo, por-serem mais oscuros. Mas para intender estes livros, é necesario preparar-se com a lisam, das-antiguidades Ebraicas. O Senhor de Fleury publicou um tratadinho, dos-costumes dos-Israelitas, em Francez, que tambem se-acha em Italiano: que me-parece proporcionado, para um principiante: e é escrito com grande atensam. Podem tambem servir, a Politia Judaica==de Bertramo: Respublica Hebræorum==de Sigonio, ou de Cuneo; que sam muito boas. Nam aponto livros de maior erudisam, porque nam servem, para estes principios. Se a isto que dizemos, ajuntar cada dia, a lisam de um capitulo da-Escritura, e consultar nas coizas em que duvidar, a versam Grega dos-LXX.; ou as Concordancias de Conrado Kirker; poderá conseguir facilmente, bastante noticia da-lingua Ebraica. Isto digo, para um principiante: porque para os Teologos de profisam, a seu tempo direi, que mais é necesario, nesta materia. Este estudo, como tambem o da-lingua Grega, uma vez que se-intendeo, pode continuar-se em dias alternados, por-todo o tempo dos-outros estudos, sem perturbasam alguma: porque a estas linguas basta consagrar, as oras menos preciozas do-dia.
Isto é, o que muita gente nam intende, ou nam quer intender, nestes paîzes: porque quando nam tem, outra razam que dar, alegam a dificuldade da-dita lingua, e a pouca utilidade, que dela se-tira: aqual nam basta, para compensar o trabalho, que se experimenta em aprendèla. Seguro a V. P. que com grande admirasam minha, ouvi isto a alguns, de quem formára bom conceito; e que totalmente se-desvaneceo, com este discurso. Nam acho que falasem asim, alguns antigos-Portuguezes, que cuido sabiam um pouco mais, do-que estes, que agora respondem asim: antes polo contrario acho, que alguns Religiozos antigos, aplicáram-se a estas linguas com cuidado, e por-iso sam mais conhecidos, no-mundo literario, do-que estes, com quem prezentemente conversamos. Eu atribûo isto, à maior comunicasam que entam avia, com os doutos das-Nasoens estrangeiras: pois só acho vestigios de maior erudisam, quando a este Reino vinham ensinar, os Estrangeiros: ou quando os Portuguezes îam aprender, e ensinar, fóra dele. Polo contrario despoisque se-deixou, este comercio literario, vejo as coizas mui mudadas.
Nam podem ser ocultos a V. P. os nomes de alguns deles: O P. Jeronimo Oleastro, Dominicano Lisboense, que cuido se-chamáse Jeronimo da-Zambuja, compoz um comentario Ebraico ao Pentateuco, e cuido que a outros livros mais, se-nam me-engano; poisque averá anos, que vi esta obra. Acho tambem citado um certo D.Pedro, Conego Regular, e um Fr.Eitor Pinto, Jeronimiano, ambos Portuguezes, por-omens mui versados, na lingua Ebraica: ainda-que eu nam poso, formar juizo das-tais obras, porque as-nam-vi. Mas tenho motivo para suspeitar, que fosem omens doutos, vistoque aprendiam as linguas originais, para comentarem a Escritura. Tambem achei um Religiozo meu, quero dizer Observante, chamado Fr.Francisco de S.Luiz, Lisboense, posterior aos ditos; que floreceo no-tempo do-Concilio de Trento, e alguns anos despois. Este tal compoz em Italia,uma Gramatica Ebreia, com o titulo = Globus Canonum & Arcanorum Linguæ Sanctæ, & Sacræ Scripturæ =: que é um livro bem voluminozo em 4.ᵒ e que dedicou ao Cardial de Medici, impreso em Roma 1586. Este tal autor, (que, segundo diz, fora no-seculo leitor de Leis em Coimbra, e Salamanca; e se-metèra Frade em Espanha) dá a intender, que compuzera o livro em Italia: declarando, que de cincoenta anos aprendèra o Ebraico, que ao despois foram as suas delicias. Onde persuade com muitas palavras, a necesidade da-dita lingua; e se-enfastia, contra os que a-regeitam. Com efeito o omem parece bem informado, da-dita lingua: aindaque caise no-defeito, dos-Gramaticos do-seu tempo; quero dizer, em fazer uma confuzisima e mui enfadonha Gramatica; na qual quiz epilogar, quanto achou em Elias Levita, e outros Rabinos: como tambem em vários autores, que o precedèram. Mas este era defeito daquele tempo, em que nam sabiam, que coiza era bom metodo. Contudo é verdade, que o dito P. fez um grande progreso, na dita lingua, em uma idade maior; naqual tambem estudou Teologia: e entre ocupasoens de predicas, e outras semelhantes, segundo diz, nunca deixou, este estudo tam util.
Esta noticia que dou do-tal autor, é porque ignoro, se V. P. tem noticia dele, visto escrever longe de Portugal. Acrecento a este, o P. Macedo, Portuguez, e da-mesma Religiam: omem de prodigioza memoria, (aindaque nam de igual juizo) segundo mostrou nas suas famozas concluzoens, que defendeo em Veneza, de que V. P. tem boa noticia: que sabia a lingua Grega, segundo me-diseram alguns dos-seus Religiozos, da-mesma Provincia.
Do-Grego tambem no-seculo 16.ᵒ avia mais noticia, que nam á oje, neste Reino. Polos tempos do-Concilio de Trento, um tal Joam Vaz, que foi mestre de Umanidades em Salamanca, sabia bem Latim, e Grego: e no-mesmo tempo Fernando Soares, (que compoz uma Gramatica Latina, para uzo do-Duque de Bragansa, impresa em Evora no-ano 1572.) era suficientemente informado, do-Grego. Ajunto a estes, o Bispo Jeronimo Ozorio, o qual nam só aprendeo fóra de Portugal Latim bem, mas teve bastante noticia do-Grego, e Ebreo: e podia nomiar alguns outros, que agora nam me-ocorrem. Doque se-segue, que naqueles tempos, os mestres Portuguezes, nam seguiam o parecer, que agora vejo tam comum, deque estas linguas Orientais devam desprezar-se. Onde, com estes exemplos, podiam muitos aplicar-se, a coizas mais utis à Republica. Eu apontei algum exemplo: pode ser que ajam muitos mais, e de linguas peregrinas: porque eu nam escrevo esta istoria.
Serîa tambem justo, que o estudante com o tempo, aprendèse Francez, ou Italiano, para poder ler as maravilhozas obras, que nestas linguas se-tem composto, em todas as Ciencias; de que nam temos, tradusoens Latinas. Antigamente intendiam os doutos, que era necesario saber Latim, para saber as Ciencias: mas no-seculo pasado, e neste prezente, dezenganou-se o mundo, e se-persuadio, que as Ciencias se-podem tratar, em todas as linguas. Parece-me que com muita razam: porque a maior dificuldade das-Ciencias consiste, em serem escritas em Latim, lingua que os rapazes nam intendem bem. Onde nam só sabem mal a materia, mas o tempo que deviam empregar, em a-estudar, ocupam em perceber a lingua. Com esta advertencia, os Inglezes, Olandezes, Francezes, Alemaens &c. comesáram a tratar todas as Ciencias, em Vulgar. Esta oje é a moda. Os melhores livros acham-se escritos, em Vulgar: e qualquer omem que saiba ler, pode intender na prezente era, todas as Ciencias. Nam que isto seja totalmente, ideia nova: porque me-lembro, ter lido uma carta de Paulo Manucio, escrita a Diogo Hurtado de Mendonsa Embaixador Cezareo, dedicando-lhe os livros Filozoficos de Cicero; emque se-diz, que o maior impedimento das-Ciencias é, serem tratadas em linguas estrangeiras, digo, Latina &c. O que o dito Manucio, com toda a paixam que tinha à lingua Latina, nam dezaprova. Desorteque ja no-seculo 16.ᵒ, emque o mundo comesou a abrir os olhos, em muitas coizas, pensavam asim: o que porem somente se-executou, nestes ultimos tempos. De certo tempo a esta parte, os nosos Italianos comesáram a seguir, o método dos-Transmontanos. Comesou isto, traduzindo os livros Inglezes, e Francezes: despois, pasáram a compor originalmente. Desorteque quem oje quer ter, muitas noticias boas com facilidade, deve intender Francez, ou Italiano. Este estudo nam pede grande tempo, podendo servir-se dos-livros Latinos, que tem a tradusam literal Franceza; como sam o Terencio, e Oracio, de Madame D’Acier, e de um Jezuita &c. E estes mesmos autores Latinos, se-acham traduzidos em verso Italiano, defronte do-Latim, por-dois omens mui doutos de-Italia. O Italiano é mais facil. Mas nam intenda V. P. que eu sou tam inexoravel, que queira carregar os pobres rapazes, com tanto pezo. nada aponto, que nam vise executar a muitos rapazes: e poso afirmar a V. P. que estes estudos, nam sam dificultozos em si mesmo: o mao metodo os-pinta dificultozos. Contudo nam obrigo: aponto somente a utilidade. Quando o estudante nam se-ache, com este dispozisam, pode rezerválo para tempo mais descansado. Fico às ordens de V. P. como seu criado &c.
NOTAS DE RODAPÉ:
[29] Veja-se Ludovicus Cappellus in Arcano punctuationis, contra J. Buxtorf. Filium.