CARTA QUINTA.
SUMARIO.
Discorre-se da-utilidade, e necesidade da-Retorica. Mao metodo com que se-trata em Portugal. Vicios dos-Pregadores: que sam totalmente ignorantes de Retorica. Que absolutamente deve deixar o antigo estilo, quem quer saber Retorica.
Finalmente é tempo, de pasar-mos à Retorica: para com ela completar os estudos, das-escolas baixas. Sei que V.P. tem gosto, de ouvir-me falar dos-outros: e me-faz a merce nesta sua dizer, que imprime as minhas cartas, na memoria: mas sei tambem, que de todos os estudos das-Umanidades, de nenhum tem mais empenho, que da-Retorica. Pois se bem me-lembro das-nosas conversasoens, conheci entam em V. P. um ardente dezejo, de me-ouvir falar nesta materia; e de querer instruir-se, dos-particulares estilos de Retorica, e muito principalmente dos-sermoens, de outros paîzes: porque me-dise, que nam lhe-agradava, o estilo deste Reino: o qual muitas vezes seguîra, por-necesidade. Nesta carta direi brevemente, o que me ocorre, sobre os defeitos, e tambem sobre o modo de os-evitar.
A Retorica naceo na Grecia, como todos os outros melhores estudos: e de la se-espalhou, polas mais partes da-Europa. É mais moderna, que a Gramatica: mas teve a mesma origem. Querendo os omens na Grecia, persuadir aos Povos, varias coizas; foi necesario que observasem, como eles se-persuadiam: e quais eram os meios, comque se-moviam, as paixoens do-animo. De que naceo esta arte, a que chamam Retorica: que é quazi tam antiga, como a Filozofia; quero dizer, que comesou a florecer, despois da-metade do-quarto milenario. Agradou esta erudisam aos Romanos, que se-reguláram polo mesmo metodo: e tanto se-entregáram a ela, que, se nam excedèram aos Gregos, na ciencia; sem duvida excedèram-nos na aplicasam, e exercicio: porque na verdade chegáram a namorar-se, da-sua galantaria, e utilidade. Dos-Romanos a-recebèram os outros Povos, e Nasoens: entre as quais as que mostráram mais juizo, aplicáram-se a ela com cuidado, polos mesmos motivos.
E, na verdade, nam á coiza mais util, que a Retorica: mas nam á alguma, que com mais negligencia se-trate, neste Reino. Se V.P. observar, o que os mestres ensinam nas escolas, achará, que é uma embrulhada, que nenhum omem, quanto mais rapaz, pode intender. Primeiramente, ensinam a Retorica, em Latim. Erro consideravel: porque nada tem a Retorica, com o Latim: sendoque os seus preceitos compreendem, e se-exercitam em todas as linguas. Daqui nace o primeiro dano, que é, que os rapazes nam a-intendem, porque ainda nam intendem Latim: e nace tambem o primeiro engano, que é, persuadirem-se os ditos rapazes, que a Retorica só serve, para as orasoens Latinas. Asim me-respondèram muitos, nam sò rapazes, mas tambem sacerdotes. Do-que eu conclui, que saiem da-Retorica, como nela intráram: e examinando as Retoricas, que eles aprendem, fiquei tambem persuadido, serem elas tais, que nam podiam produzir, outro fruto.
E, valha a verdade, nam só os rapazes que estudam, mas nam sei se os mesmos mestres, vivem persuadidos desta razam: porque observo, que falando-lhe muito, em exemplos Latinos, nam se-servem dos-vulgares, para mostrar o artificio da-Retorica. Como se os preceitos só servisem, para compor Latim, e orasoens estudadas: ou como se nas linguas vulgares, nos-discursos familiares, nam pudesem ter lugar, os preceitos da-Arte! E com isto ficam novamente persuadidos os estudantes, que só para orasoens Latinas, serve a Retorica.
Mas por-pouco que se-examine, o que é Retorica, acharseá, que é Arte de persuadir: e por consequencia, que é a unica coiza, que se-acha, e serve no-comercio umano; e a mais necesaria para ele. Onde quem diz, que só serve para persuadir na cadeira, ou no-pulpito; conhece pouco, o que é Retorica. Confeso, que nos-pulpitos, e cadeiras faz a Retorica gala, de todos os seus ornamentos: mas nam se-limita neles: todo o lugar é teatro para a Retorica. Nam agrada um livro, se nam é escrito com arte: nam persuade um discurso, se nam é formado com metodo. finalmente uma carta, uma resposta, todo o exercicio da-lingua, necesita da-diresam da-Retorica. A mesma Filozofia, serve-se utilmente da-elegancia. A Teologia tem necesidade dela; porque (como adverte um omem douto) nam pode explicar as verdades espirituais, que sam o seu objeto, senam vestindo-as de palavras sensiveis, com que as-persuada. A Lei ou Civil, ou Canonica, nam se-pode dispensar, da-Retorica. Como á-de orar um Advogado, informar o Juiz, defender o Reo; se ele nam sabe, em que lugar devem estar as provas, ou de que prova á-de servir-se, para aclarar a verdade da-sua cauza, e excitar os afetos do-Juiz? Como á-de compor uma escritura, se ele nam sabe, o metodo de a-tecer, de dilatar os argumentos, e servir-se das-suas proprias razoens?