O discurso de um omem despido de todo o artificio, nam pode menos, que ser um Cahos. Poderá ter boas razoens: excogitar provas mui fortes: mas se as-nam-sabe dispor com ordem, quem poderá intendèlo? quem se-persuadirá delas? A dispozisam das-partes, dá nova alma ao todo: convida a conhecer as proporsoens: mostra a relasam e dependencia, que umas tem das-outras: coloca na sua justa proporsam, o que de outra sorte nam se-poderia intender. Os diamantes, os rubis, e outras pedras preciozas sam belas, e servem de grande ornamento: mas segundo o lugar em que estam. Encastoadas com artificio, mostram toda a sua galantaria, e dam novo lustre à mesma prata, e oiro que as-rodeia; e ornam muito as pesoas, que as-trazem: postas porem sem ordem em um monte, ou misturadas com outras pedras, nam parecem preciozas, mas ou pedras groseiras, ou cristais. Os astros, que compoem a beleza do-Universo, nam tem em si mesmos, beleza alguma: mas a proporsam os-faz vistozos. Quem vise a Lua de perto, acharia um globo, sem diversidade alguma deste terreste: o mesmo digo, dos-outros planetas opacos. Quem examináse de vizinho o Sol, nam veria mais, que uma fogueira: o mesmo digo, dos-outros igneos. Mas todos estes vastos globos, postos na sua justa proporsam, fazem tal efeito, mostram tam extraordinaria beleza; que é um famozo argumento, para ver, a suprema mam que os-criou. O Sol posto no-centro do-Universo, segundo a ipoteze (que agora suponho) de Copernico, dá luz aos mais planetas, alma ao Mundo, vigor à terra, utilidade aos omens, e gloria ao seu criador. Se se-chegáse mais vizinho a nós, queimaria tudo: e acabava-se o Mundo. E eisaqui o efeito, da-boa proporsam e ordem.

Um omem douto advertidamente chamou à Retorica, a Perspetiva da-razam: porque na ordem inteletual faz o mesmo, que a Perspetiva, nas distancias locais. Em uma taboa liza, ideia a pintura um palacio, com imensa profundidade: e muitas vezes com tal artificio, e tam semelhante ao natural, que se-enganam os olhos. Nam sam as cores que originam, esta delicioza equivocasam; porque com uma só cor, se-consegue o mesmo intento: mas a dispozisam das-partes, o saber pór cada uma na sua justa distancia, o saber-lhe dar as sombras, com proporsam da-arte, produz este maravilhozo efeito: e faz que eu veja, reconhesa, e admire, o que de outra sorte nam poderia ver. Este mesmo é o cazo da-Retorica. Ela tem forsa tal, que me-obriga a descobrir, o que eu de outra sorte nam verîa. Os materiais podem ser simplezes, as razoens mui singelas; mas a dispozisam delas fará efeitos tais, que sem ela nam se-conseguiriam. eu verei, e intenderei, o que sem ela nam é facil intender. Ora de toda esta doutrina se-conclúe, a extensam da-Retorica: porque sendo ela a que dá alma, a todos os discursos; e novo pezo, a todas as razoens; fica claro, que tem lugar em toda a parte, em que se arrezoa e discorre.

Dirmeám, e ja mo-diseram alguns, que este discurso é dirigido, a introduzir um estilo afetado nas conversasoens; e carregar todos com o pezo, de falar por-tropos e figuras: nam proferir discurso, que nam seja segundo as regras da-arte: cuja afetasam é pior, que falar sem Retorica. Mas esta objesam é igualmente distante, da-boa razam, que do-meu intento; e é unicamente fundada, em nam saber, que coiza é Retorica. Permita-me V.P. que eu me-dilate alguma coiza, neste particular, para explicar o que digo, o que devo, e livrar a muita gente, deste prejuizo.

Os rapazes, que estudam nestes paîzes, nam sabem nada de Retorica, porque lha-nam-ensinam: Os que sam adiantados, e continuáram os estudos, sabem ainda menos; porque bebèram principios, tam contrarios à boa razam, que ficam imposibilitados, para se-emendarem. Em todo este discurso protesto, que nam falo daqueles omens, que com raro juizo, e fina critica se-dezenganáram, das-preocupasoens comuas, e seguem outra estrada: dos-quais eu conheso alguns: falo somente do-Comum, e falo fundado nas suas obras: nas quais se-reconhece a verdade, de quanto digo. Estam todos persuadidos, que a Eloquencia consiste na afetasam, e singularidade: e, por-esta regra, querendo ser eloquentes, procuram de ser mui afetados nas palavras, mui singulares nas ideias, e mui fóra de-propozito nas aplicasoens. Tem V.P. mui belo exemplo nos-sermoens: que eu, para maior clareza, dividirei em varias especies.

Encomenda-se um sermam v.g. de Exequias, de um General. O meu bom Pregador mostra aqui, todo o seu ingenho, e eloquencia. Saie logo um texto da-Escritura, para tema: e á-de ser do-testamento Velho, porque á-de ser profetico. No-sermam mostra o Pregador, que estava revelado, na escritura da-Antiga igreja, que aquele General avia fazer famozas asoens: e nam só asoens in genere eroicas, mas especialmente estava revelado, que avia ganhar a batalha do-Canal, ou das-Linhas de Elvas. E isto estava profetizado, com tanta individuasam, que nam se-podia dezejar mais. Despois, vai recolhendo as outras profecias, da-vida daquele General. Mostra, que a batalha de Saul contra os Filisteos, era figura da-grande batalha, que o seu eroe ganhou. Se sucedeo, que nesta batalha algum piquete, dése principio à asám; se era em partes montuozas; nam deixa de observar, que tudo iso tinha ja sucedido a Jonatas, e ao seu escudeiro: onde vem, que até aquela circunstancia, estava profetizada. Pasa adiante, e comesa a levantar, e requintar pensamentos. Diz, que o seu eroe, era maior que Saul, nam só de corpo, mas tambem de animo: que era mais afortunado que David: mais prudente que Salamam: E se nam á logo um texto claro, com que se-prove isto, nam falta um expozitor, que diga uma palavra, da-qual o Pregador conclue manifestamente, que o texto nam se-pode intender, de outra sorte.

Daqui pasa um pouco mais para baixo. Mostra, que Alexandre Magno, em sua comparasam, era um ridiculo: que o seu eroe tinha um corasam, ao menos, como metade da-America: que fez coizas, que a ninguem vieram à imaginasam: e que somente a ele se-pode aplicar o, Siluit terra in conspectu ejus. Se tem alguma noticia de-Istoria, nam deixa de mostrar, que Julio Cezar, Paulo Emilio, Quinto Fabio, Anibal, Pirro, &c. podiam ser seus dicipulos. E outras coizas destas, que se o dito General fose vivo, e as-ouvise, nam podia deixar de envergonharse, de tal panegirico. Isto quanto ao asumto. Quanto à dispozisam: Despois de um grande exordio, e comumente improprio, divide o sermam em trez pontos: raras vezes em dois: rarisimas conclue com um só discurso. Promete mostrar em cada um, que o seu eroe teve uma singularidade, a maior do-mundo: o que tudo quer tirar, da-Sagrada escritura. Pede a grasa, paraque Deus lhe-inspire, o que deve dizer, em materia de tanta importancia: e prosegue o sermam, na fórma dita.

Se pois as exequias sam de Molher, saie logo, o Mulierem fortem quis inveniet? e nam a-tendo achado o Sabio, afirma ele, que a gloria de achar esta mulher, estava rezervada à sua diligencia. E, aindaque a Senhora fose Religioza, e de animo pacifico; nam pode deixar de intrar, o fato de Judita; em que ele mostra, que a dita Senhora é Judita: a sua espada eram as diciplinas, e cilicios: Olofernes era a figura do-mundo, que ela matou, e prostrou com facilidade, &c. Mas como na escritura Antiga, á poucos exemplos de molheres eroicas, recorre logo à Nova, e la vai buscar, a Molher do-Dragam, e outras destas figuras. Finalmente, discorre das-virtudes da-dita Senhora, polo estilo das-do-General.

Nam me-negará V.P. que esta é a pratica deste Reino: porque lhe-mostrarei, muitos livros impresos, em que se-acham estes sermoens; e de omens que tiveram, e conservam grande fama. Progunto agora: acha V.P. que isto é pregar? que é saber discorrer? que é ser eloquente? Em primeiro lugar, o tema da-Escritura, e as provas tiradas dela, sam erro de toda a considerasam. Estes Pregadores nam devem ter lido, o concilio de Trento[30], que proibe, uzar das-palavras sagradas, aplicadas a coiza profana: nam devem saber, que é expresamente proibido, explicar a Escritura, senam segundo a expozisam, dos-SS.PP. da-Igreja. Concedo, que um expozitor moderno, disèse alguma propozisam, que se-pudese aplicar ao asumto: por-iso ei-de seguila? quantos destes expozitores, nam vemos todos os dias, que nam sabem o que dizem? que omem prudente faz cazo, de semelhantes escritores, que nam fundam a sua expozisam, na doutrina da-Igreja? Despois diso, quem poderá defender aquelas provas, tiradas da-Escritura? Ou quer o Pregador dizer, que os fatos da-Antiga igreja, eram figura do-seu asumto; e esta é uma propozisam temeraria, por-nam lhe-dar outro nome; e contraria à comua doutrina dos-Padres, e da-Igreja: ou nam se-persuade disto; e nam se-livra da-censura, fulminada por-muitos canones, por-abuzar imprudentemente, de palavras sacrosantas. Porque eu nam acho, que semelhante aplicasam seja outra coiza mais, que aplicar com grande irreverencia, umas palavras santas, a um sentido, para que nam foram proferidas: e a um sentido indigno, profano, e falso: que é o mesmo, que condena o Concilio.

Respondem alguns, que isto quando muito prova, que a aplicasam nam é boa; por-ser de coiza sagrada, a uma profana: mas nam prova, que no-sermam nam se-observáram, os preceitos da-Oratoria. Mas esta mesma resposta mostra, que nam intendem, que coiza é Retorica. Se a Retorica é arte de persuadir, quem mais se-persuadio com provas, que nam fazem ao cazo? Que omem de juizo á-de intender, que aquele General foi grande, porque Saul o-foi tambem? que parentesco tem uma coiza, com outra? E como a obrigasam daquele panegirista seja, mostrar, e engrandecer, as virtudes do-seu eroe; todas as provas que tirar da-Escritura, nam concluem para o seu intento. Conheso, que alguma vez se-pode alegar, um paso da-Escritura, damesma sorte que se-cita um paso, da-istoria Profana: porque a istoria da-Escritura, tambem na materia de Politica ensina muito: mas neste sentido nam se-servem, os Oradores deste Reino, como é coiza notoria: porem sim, no-sentido de profecia. Se pois aquele paso, nada faz ao cazo, com que razam o-alega? Pode-se chamar Orador, um omem que se-funda em razoens, que nam conduzem, para o seu intento? Temos ja, que a este omem falta, a principal parte de Orador, que é Inventio: o saber buscar razoens proprias, para o seu intento, e que pròvem o que ele quer. Peca logo na aplicasam: e niso mesmo peca, contra a Retorica.

Suponha V.P. que da-outra parte estava outro Orador, que respondèse aos argumentos. suponha que o cazo sucedia no-Egito, aonde antigamente se-expunham os cadaveres, diante dos-juizes, para serem julgados. Um publico acuzador, referia todos os defeitos, e respondia aos louvores, que nam eram fundados. Se o omem era de boa fama, dava-se a sentensa a seu favor, e enterrava-se com onra e panegirico, acompanhado de grandes louvores do-Povo: se era condenado, privava-se de sepultura, e a sua memoria ficava abominavel[31]. Que coiza julga V.P. que diria o noso Pregador, neste cazo? parece-me, que ficaria convencido de falsidade, o Orador; e envergonhada a fama do-eroe, que ele nam soubera defender.