Ora esmeuce V.P. as mais partes daquele sermam, e verá quantas faltas de Retorica, ali se-incontram. Que má dispozisam dos-argumentos! que arrastada confirmasam das-provas! Isto é supondo, que o paso que ele cita, tenha alguma semelhansa, com o que quer provar. Mas nam ve V. P. quantas coizas os Pregadores inculcam, que de nenhum modo se-seguem, do-texto? Este é o segundo ponto, que nam me-parece de pouco momento, nesta materia: e isto melhor se-conhece, quando querem esquadrinhar, as palavras dos-Profetas, ou dos-livros cientificos. Primeiramente tomam umas palavras troncadas, (que se fosem inteiras, eram contrarias ao asumto) e delas deduzem o seu pensamento. E que diz V.P. a este modo de comentar? parece-me que isto é aquilo mesmo, a que, em bom Portuguez, se-chama, impostura: porque é tirar pensamentos de um texto, que nam diz tal coiza. Despois, recorrem a um expozitor, ou S. Padre, o qual talvez guiado do-furor do-seu zelo, ou com exceso retorico, dise alguma propozisam, que, para nam ser erezia, é necesario tomála muitos furos abaixo, do-que soa: no-que concordam todos os Criticos, e Teologos. Aqui o meu Pregador, sem perder nem menos uma silaba, traduz a propozisam como se-acha: e nela Levanta uma machina de paradoxos, com que pertende provar, coizas mui verdadeiras, e sezudas. Nam cito exemplos, porque falo com V.P. que sabe mui bem, de quem eu falo. E averá quem me-negue, que isto é faltar à Retorica? averá quem se-atreva a dizer, que isto é saber elogiar? Se os argumentos sam verdadeiros, sempre sam fóra do-asumto: se o-nam-sam, nam deixam de ser imposturas: e nam sei qual destas, é pior falta de Retorica. Mas prosigamos o exame, e vejamos o que fazem, nos-outros asumtos.
Saie um sermam de asám de grasas a Deus, por-algum grande beneficio concedido; como saude, batalha &c. ou por-alguma asám má castigada, com gloria de Deus; como o roubo do-Sacramento em S.Engracia, Ato da-Fé &c. Intende V.P. que por-mudarem de asumto, mudam de metodo? nam senhor: e a pratica mostra o contrario. O argumento dos-primeiros dois sermoens deve ser, dar grasas a Deus, por-tam especial beneficio: e excitar a piedade dos-Fieis, para que o-louvem, por-este favor que fez. Este é o asumto: e a este fim deve o Pregador dirigir, todos os seus particulares argumentos. Mas iso é o que ele nam faz. O que ele cuida é, buscar algum conceito sutil, e singular, com que posa dizer alguma novidade, e mostrar o seu ingenho. Eu li um sermam do * * * que pertencia a uma destas clases: em que o Pregador, por-querer dizer uma novidade teologica, dise uma erezia: que somente o-nam-foi na sua boca, porque nam intendeo, o que dise: aindaque tivese bastantes anos, ensinado Teologia. La achou porem um S.Padre moderno, que cuido fose S. Bernardo, que lhe-deo materia ao conceito. Mas a verdade é, que o dito S. que frequentemente uza de iperboles, nam dise literalmente, o que ele supoz. Mas fose o que fose, o sermam teve mil aplauzos, e impremio-se com onra * * *. Ja se-sabe, que a saude ou batalha, á-de ser profetizada, na Escritura do-Antigo testamento, ou polo menos do-Evangelho, e com sinais mui particulares: porque segundo estes autores, nam á sermam sem tema sagrado; seja o que for. Se o tema nam calsa bem, nam falta quem o estenda: que este é o comum refugio, de todos estes senhores.
Contou-me pesoa mui verdadeira, que, achando-se em certa Cidade deste Reino, sucedèra, que a molher de um tangedor de rabeca, fazendo voto por-uma infermidade perigoza; quando se-vîra livre, quizera agradecer ao Santo, o tal beneficio, com uma festa estrondoza, e com sermam. O dito amigo conhecia o Pregador: e incontrando-se com ele, dise-lhe: Que tema toma vosè? ao que ele respondeo, Ja tenho escolhido as palavras: Surge, ascende Bethel; fac ibi altare &c. Reproguntou o meu amigo, Que conexam tem iso, com o que vosè quer dizer? ao que o Pregador respondeo seriamente: O texto é otimo: porque que Jacob era rabequista, iso provo eu logo, com dez expozitores. E com efeito o sermam, saio semelhante à promesa.
Eu mesmo asisti uma vez a um sermam, de asám de grasas, porque Deus concedèra chuva, despois de uma grande esterilidade. É necesario advertir, que se-tinham feito varias procisoens, com imagens milagrozas, semque Deus ouvise, os clamores do-Povo. Na ultima, leváram um Cristo com a cruz; e sucedeo, que pouco despois choveo alguma coiza. O meu Pregador, que tinha fama de grande letrado, prometeo mostrar no-sermam, que a chuva nam podia vir, por-outro estilo. E provou isto, com a nuvem de Elias: a qual asimque a pareceo, desfez-se o ceo em tempestades. Mostrou pois, com dois expozitores modernos, que aquela nuvem, era Cristo com a cruz às costas. Faltavam algumas circunstancias, entre as quais era, a da-tempestade seguida; que ca nam tinha exemplo. Remediou o omem a isto, prometendo em pouco tempo, a tempestade. (o que podia seguramente profetizar; porque despois de uma grande elevasam de vapores, uma vez que estes comesam a mover-se, é claro, que ám-de cair) Sucedeo o cazo da-grande chuva: e o meu Pregador, alem da-fama de Orador, saio com a de Profeta; que lhe-frutou muito bem. Os que sabiam pouco, estavam pasmados, da-felicidade de ingenho do-omem: mas um dos-que estavam no-confeso, e tinha pezado bem o sermam, falou-me em diferente maneira. E destes sermoens, pudera eu citar infinitos.
Se o sermam é do-dezagravo do-Sacramento, ja se sabe, que somente pregará bem, quem mostrar, que á textos expresisimos, em que se-declara, que no-ano N. sendo Bispo N. Mordomo da-festa N. às tantas oras do-dia, avia suceder a dita coiza. Mas nam basta isto, é porem necesario, algum novo pensamento, que comumente prova tudo o contrario, do-que quer persuadir. E aqui devem intrar, todas as outras circunstancias, que apontámos. Nam se-lembra o Pregador, que o asumto sempre é o mesmo: que é, dar grasas a Deus, por-descobrir, com altisima providencia, os sacrilegos: e com iso mostrar, a sua mizericordia, mansidam, e justisa: e que este asumto sempre se-deve inculcar, variando unicamente as palavras, com mais ou menos ingenho, segundo o cabedal de quem fala. Nam adverte, que faria muito maior impresam, pintar a atrocidade daquele delito, de uma parte; e da-outra, as infinitas virtudes, que Deus quiz mostrar, naquele castigo. Nada disto lembra ao Pregador. o que emporta é, subtilizar bem. Mas o que dali se-segue é, sair o auditorio tam persuadido, da-pouca capacidade do-Pregador, como pouco persuadido, do-que ele determinára persuadir-lhe.
E que nam diz um destes amigos, quando se-lhe-encomenda um sermam de Intrada, ou Profisam de Freira! Aquele sermam nada mais é, doque um panegirico da-eleisam, e perseveransa da-Freira, e outras boas qualidades; acompanhado de uma exortasam, para perseverar na virtude. Isto é o que deve dizer o Pregador: mas isto é o que nenhum diz. O que importa é, mostrar, que esta Freira era tanto do-agrado de Deus, que mandou ao mundo um, ou muitos escritores Sagrados, para lhe-comporem a vida, muitos seculos antes de nacer. Um amigo meu teve a incumbencia, de um destes sermoens: e logo lhe-advertîram, que teria mui boa paga, se acháse na Escritura, toda a vida da-Freira. Ela era Dominicana, e mui devota do-Rozario: tinha sido Pupila alguns anos, no-dito Convento: o sermam era na oitava da-festa do-Rozario. Ele, que somente queria um bom prezente, tomou as palavras do-capitulo IV. do-Cantico: Veni de Libano sponsa mea, veni de Libano, veni: coronaberis. Mostrou, que a Freira tivera tres estados, de Pupila, Novisa e Profesa: e que a cadaum conrespondia sua vocasam, e seu veni, com que Deus a-chamava, por-boca de Salamam. Que o Libano, reprezentava o Mundo, donde Deus a-chamava para o Claustro. Coronaberis, explicava a Religiam, que é toda consagrada ao Rozario: e que no-mesmo Rozario, que é uma coroa de rozas, achava o premio da-sua eleisam, e obediencia. Acomodou novamente isto ao Rozario, dividido em misterios dolorozos, gozozos, e gloriozos; cada especie dos-quais conrespondia, aos seus trez estados: o que ele provou, com textos expresisimos. Desorteque a concluzam do-negocio foi, que todas as circunstancias da-vida da-Freira, estavam profetizadas com tanta clareza, por-Salamam; que qualquer cego reconheceria, que aquele texto somente falava, da-Senhora D. Fulana, filha de Fulano, moradora em tal parte, Freira em estoutra, &c. O que eu sei é, que toda esta metafizica frutou, cinco moedas, e um bom prezente: e que as Freiras nam cabiam na pele de contentes. E isto sucede todos os dias: e alguma vez eu o-tenho prezenciado, nestas festas.
Se o sermam é do-Ato da-Fe, comumente declinam para dois extremos: ou nam chegam a dizer, o que devem; ou dizem muito mais, do-que nam devem. O Santo Oficio justamente manda pregar, àqueles omens penitenciados, para os-alumiar na sua cegueira: e esta é uma ideia sacrosanta. Mas eu nam sei, se os tais Judeos ficam persuadidos: o que sei é, que os sermoens que eu leio, nam sam proprios, para os-persuadir. Avemos asentar em primeiro lugar nisto, que estes Judeos Portuguezes, sam ignorantisimos diso mesmo, que querem profesar. Nam sabem mais, senam que o Sabado se-deve guardar: e outras noticias gerais. de lingua Ebraica nada sabem: menos de Caldaica: que sam as duas linguas, em que estam escritos, os ritos e costumes Judaicos. Isto é sem duvida: e quem ouve os procesos, conhece claramente, qual é a sua ignorancia neste ponto. Quanto à ignorancia dos-ritos Judaicos, nam é necesario alegar, testemunhas Orientais, nem ir buscar os Rabinos, Maimonides, Jacob Baal-aturim, Joseph Caro &c. basta que V. P. leia o Sigonio, Menochio, Cuneo, Reimero, Spencero, que escrevèram eruditamente, de Republica Hebræorum: ou algum dos-outros, que tratáram das-escolas, e ritos, como Selden, Godvvin &c. e ficará mui bem persuadido, que estes seus Portuguezes, nam sabem que coiza é ser Judeo: e sam Judeos, mais por-genio depravado, que por-erudisam.
Isto suposto, alguns Pregadores, como o Cranganor, para mostrarem a sua erudisam Rabinica, entram em certas materias dificultozas, e procuram noticias mui particulares, tiradas dos-que impugnáram os Rabinos; para mostrarem aos Judeos, o seu ingano. Copeiam fielmente, toda a noticia que se-lhe-oferece, na tal materia: nam sem se-inganar algumas vezes, como sucedeo ao dito Cranganor; que por-nam ter inteligencia, das-ditas linguas, nem da-istoria Judaica, nem ter nunca aberto o Talmud; servio-se algumas vezes de argumentos, que tem mui boas respostas. (devemos confesar em obzequio da-verdade, que entre os Ebreos ouveram sempre, omens mui doutos, que propuzeram tais dificuldades sobre a Escritura, que fazem suar muitos Catolicos doutisimos, para lhe-responder. onde sem exquizita erudisam, é melhor nam tocar, semelhantes materias) Finalmente à forsa de ajuntarem noticias, em lugar de um sermam, fazem um tratado Contra Judæos. O que digo, com boa paz do-dito Arcebispo, e seus apaixonados: porque nam quero diminuir-lhe a estimasam: mas somente trazelo para exemplo, do-que aponto.
O que se-segue daqui é, que com todo este trabalho, nem fazem sermam, nem podem persuadir; pois nam proporcionam as provas, ao asumto. Porque inculcar erudisam Rabinica, a omens totalmente ignorantes destas materias, é manifestamente zombar do-seu emprego, e do-auditorio: e tanto vale isto, como se lhe-pregasem em Persiano, ou discorresem em diferente materia. Alem diso, á grande diversidade, entre uma disputa, e um sermam; entre uma disertasam, e uma exortasam: e perde o seu tempo e a sua fama, quem confunde estes dois nomes, e o significado deles. Ora eisaqui tem V. P. o que fazem estes, com quererem dizer muito.
Os outros, que asima apontamos, seguirem diversa estrada, nam sei se os-chame, mais condenaveis. Estes sam aqueles, que querem pregar aos Judeos, polo estilo dos-outros sermoens, com conceitos sutis, e pensamentos exquizitos. E nam é necesario muito para intender, que se os Catolicos Romanos, que estudamos aquela doutrina, que eles inculcam; os-nam-intendemos, e nos-dezagradam muito; que coiza sucederá, aos Judeos? Ouve às vezes V. P. propor um asumto, que parece ao intento: segue com o pensamento, o Pregador no-seu discurso: e quando nam se-precata, este o-dezempára, e infere uma consequencia tal, que obriga a rir. Seguro a V. P. que, tendo lido alguma coiza nesta materia, e tendo observado muito; somente neste genero achei, um sermam Portuguez, que se-pudese ler: aindaque tambem carregava no-silogismo, e intrava bem dentro na Metafizica: mas foi o que vi menos mao.