Mas, colhamos as velas, parece a V. P. que este modo de pregar é louvavel, ou toleravel? parece-lhe, que está fóra da-jurisdisam, de uma arrezoada critica? O nam proporcionar as provas ao auditorio, ou seja dizendo-lhe, o que eles nam chegam a intender; ou falando-lhe com ideias, de que ninguem se-pode persuadir; é erro da-primeira esfera. Temos outro modo de pregar, aos Ebreos idiotas, deixando de parte, toda a verdade especulativa, e servindo-se unicamente, de exemplos sensiveis: os quais, bem discorridos, produzem efeitos, que talvez se-nam-alcansam, com erudisam mui exquizita.

De todos os argumentos, que se-oferecem para persuadir, a extinsam da-Antiga igreja, deve o orador escolher, os menos embrulhados; e persuadilos, com a forsa da-sua eloquencia. Niso é que consiste a arte, em dilatar os argumentos, que nam sam reconditos. A vinda de Cristo ao mundo, é oje bem clara: e para o-ser mais, é necesario ter cuidado, em dispor os-argumentos, e fugir das-sutilezas. Nam á verdade mais notoria, que a existencia de um Deus: e é observasam dos-melhores Filozofos, e Teologos, que os antigos Padres para a-provarem, nam se-serviam de sutilezas inauditas: mas contentavam-se com a prova mais trivial, que é, a existencia do-Mundo, e principalmente deste noso globo terreste. Esta unica prova, bem explicada e esmeusada, convenceo o intendimento umano muito mais, doque nam fizeram, despois do-undecimo seculo, todas as sutilezas dos-Dialeticos: e ainda oje os melhores Filozofos asentam, que só nela nam se-acham sofismas. Isto é ao que nós chamamos, saber conhecer o merecimento das-provas, e saber manejar a eloquencia. Mas os nosos Pregadores, intendem o contrario: e só cuidam em procurar ideias, que a ninguem tenham ocorrido: e por-iso nacem aqueles sermoens, de que o mundo Literario se-ri.

A outra especie de sermoens, em que com mais facilidade, se-dizem despropozitos, sam os Panegiricos de Santos. Esta especie compreende, muitas sortes de sermoens: nos-quais á infinitas coizas, que condenar. Ouvirá V. P. coizas, que cauzam orror. v.g. Devem pregar um sermam de S. Antonio: em que deviam referir, as virtudes do-Santo: ilustrálas com o artificio da-Retorica; para animar os fieis a imitálo. Mas isto, que era a obrigasam do-Panegirista, parece coiza mui trivial, aos Pregadores modernos. Julgariam que ficavam dezacreditados, se-dizesem só esta verdade. É necesario levantar machina: e fazer uma trepesa, composta de mil ridicularias. Dividem pois o sermam, nas-trez partes solitas: em cada uma das-quais prometem provar coizas, que nada tem de verosimel. v.g. Que S. Antonio nam foi omem, mas anjo: e a este seguem-se outros pontos, damesma especie. Concluem pois, que se a Fé nam estudáse cautelas, chegariam a dizer, que se equivocava com Deus. Eu tenho ouvido isto, algumas vezes: e contou-me pesoa de muita autoridade, que ouvira ele mesmo, em certa Cidade do-Reino, propor estes trez pontos: Que o Santo de que pregava, era grande omem: grande anjo: e grande Deus. e que tudo isto avia de sair, do-Evangelho. E segurou-me a dita pesoa, que, ouvindo isto, saîra da-igreja, sem querer esperar polas provas: tam escandalizado ficou!

Lembra-me ao intento, o que escreve um autor, mui acreditado em Portugal. Pregava ele de S. Antonio, com o costumado tema, Vos estis lux mundi: e querendo dizer alguma coiza singular, tirou este asumto: ==Que uma vez que S. Antonio naceo em Portugal, nam fora verdadeiro Portuguez, se nam fora luz do-mundo. porque o ser luz do-mundo nos-outros omens, é só privilegio da-Grasa: nos-Portuguezes, é tambem obrigasam da-Natureza==.Pareceo-me argumento nam só singular, mas inaudito, querer fazer que os Portuguezes, fosem Apostolos por-natureza: muito mais, porque se o Pregador prováse o que prometia, tam longe estava, de fazer ao Santo um Panegirico, que lhe-preparava uma Satira: e desmentia com as suas provas, aquelas singularidades, que queria descobrir no-Santo: pois quando muito se-diria, que pregava de todos os Portuguezes. Com esta opiniam examinei as provas: as quais se-reduziam a isto. Que Cristo constituira os Portuguezes, Apostolos das-Nasoens estrangeiras: e que asim o-prometèra, a El-Rei D. Afonso I. e, como se nam ouvèse, quem negáse tal coiza, chama-lhe verdade autentica. A isto acrecenta, uma profecia de S. Tomé, (nam sei em que archivo a-achou) que os Infieis se-conquistariam na India, com as armas de Portugal: nam com as de ferro, mas com as do-escudo, que sam as Quinas: as quais Cristo, diz ele, deu aos Portuguezes, por-armas. E como S. Antonio era Portuguez, avia conquistar Infieis, como fez: e avia conquistálos com as Quinas: que nam só de Portugal, mas tambem sam as armas, da-minha Religiam.

Pareceo duro ao Pregador dizer, que os Indios se-aviam conquistar com as Quinas, e nam com as espadas: mas a isto, achou ele genuina solusam, na saida que os Ebreos fizeram, do-Egito. Pondéra, que, sendo-lhe proibidas as armas, diga a Vulgata[32]: Armati ascenderunt filii Israel de terra Aegypti==. Examina pois, que armas eram estas: e logo as-acha, no-original Ebreo, que diz: Ascenderunt filii Israel quini, & quini== A sim, diz o Pregador, saîram os Ebreos com quinas; pois esas lhe-servirám de armas, ascenderunt armati. Confirma isto, com as cinco pedras de David, das-quais afirma, que eram as cinco chagas de Cristo, tiradas da-torrente do-seu sangue, com as quais derrubou o gigante. Esta é a virtude das quinas. Por-iso S. Antonio seguio as bandeiras das-quinas, para mostrar que era Portuguez, derrubando com elas, o Filisteo da-Erezia. Até aqui o Pregador.

Esta em sustancia é a primeira prova do-dito sermam; na qual achará V. P. materia, para mil reflexoens. Deixo as istoricas, pois é bem claro, que sam mui ligeiras provas, para afirmar tal paradoxo. Esta aparisam ao Rei D. Afonso: a redoma de vidro cheia de olio, que veio do-Ceo a Clodoveo: e outras destas coizas, que se-acham nas istorias, sam boas para divertir rapazes: e os Criticos as-conservam todas, no-mesmo armario, em que guardam as penas da-Fenix. Mas nam poso perdoar-lhe, a má interpretasam, e aplicasam do-texto. Este autor certamente nam leo o texto Ebreo, ou se o leo, nam o-chegou a intender: porque o texto diz uma coiza, muito diferente, doque ele supoem. É verdade, que o texto Ebreo serve-se de uma palavra,[33] que em Latim quer dizer, Quintati: como se diseramos, de cinco em cinco: mas este modo de falar nam é proprio; é translato, e deduzido do-estilo belico. Donde vem, que explicando os antigos Ebreos, a dita expresam, asentam todos que quer significar, armados. Só diversificam, para explicar particularmente, a forsa da-dita palavra. Kimchi diz asim: Cingidos de armas, na quinta costa. outros explicam: Cingidos com cinco generos de armas. Sepharadi verte: Quinque turmis ascenderunt, sub quatuor vexillis. Nam Moises cum senioribus Israel, in medio quatuor turmarum manebat. Alem diso, todos os omens mais doutos na lingua Ebreia, expondo a dita expresam, despois de porem o termo proprio e literal, que é Quintati, acrecentam, id est, Accinti, Expediti: que é o mesmo que, Armati, Parati. Desorteque com grandisima advertencia, o tradutor da-Vulgata dise, Armati. E quer dizer o Ebreo, que os Israelitas saîram armados, e em fórma de batalha; promtos para acometerem, e se-defenderem. E isto é coiza certa, entre os doutos.

O que suposto, veja V. P. que parentesco tem isto, com as quinas. Alem diso, suponhamos que verdadeiramente se-devia intender, de cinco em cinco: que tiramos daqui para o intento? poderia dizer o texto, que îam quini, & quini: mas nunca dise: ideo armati, quia quini & quini: e é pesima Logica aquela, que de duas coizas sem conexam, tira tal consequencia. Tambem é falso dizer, que os Ebreos saîram dezarmados: quando lemos o contrario: pois nam só as batalhas que deram, mas as obras que fizeram no-campo, mostram bem, que nam só armas, mas toda a sorte de instrumentos, leváram do-Egito. Ja nam falo na aplicasam da-profecia, a S. Antonio: pois se S. Tomè falou das-Indias, que tem isto que fazer, com S. Antonio, que pregou na Europa? Nam falo nas pedras de David, cuja aplicasam tem tanta proporsam, como á entre um, e cinco.

Isto que unicamente disemos, basta paraque V.P. intenda, o conceito que se-deve fazer, de semelhantes sermoens: os quais nada mais sam, que um mero jogo de palavras, sem verdade, nem verosimilidade alguma: e que se-desfazem em vento, quando, se-examinam de perto. Eu parei no-primeiro ponto: avia ainda quatro que examinar: mas eses deixo eu, à sua considerasam. Ora intende V.P. que o Santo fica elogiado, com tal panegirico: que o auditorio ficará persuadido: que o Orador merece ser louvado, por-tal sermam? Sei a resposta que V.P. me-á-de dar, porque sabe dar às coizas, a sua justa estimasam: mas nem todos sam do-seu parecer. e apostarei eu, e V.P. nam mo-negará, que mais gente estuda, polo tal autor, doque pola Escritura, e SS. Padres.

O mesmo autor em outra parte, devendo pregar de S. Bartolomeo, e sucedendo isto em uma Cidade, em que se-estava para eleger, um grande Prelado, que nam tinha conexam com a festa; tomou por-tema estas palavras, de S. Lucas: Elegit duodecim ex ipsis, quos & Apostolos nominavit: e em vez de pregar de S. Bartolomeo, pregou das-obrigasoens das-eleisoens: sem dizer em todo o corpo do-sermam, uma só palavra de S. Bartolomeo. No-ultimo paragrafo, lembrou-se da-sua falta: e, para remediar o cazo, diz mui secamente, que tudo o que disera, se-devia aplicar, ao dito Santo. Porque sendo ele o sexto Apostolo, estava no meio, que é o lugar de mais autoridade: E a razam disto era, porque conrespondendo ele à 6.a pedra da-nova Jeruzalem, que era o Sardio; esta no-Racional de Aram, era a primeira: onde ficava claro, que o sexto Apostolo, devia ser o primeiro. Acha nova semelhansa entre S. Bartolomeo, e o Sardio: porque esta, segundo Plinio, é de cor de carne viva: e conseguintemente, um belo retrato de S. Bartolomeo, que ficou em carne viva, e sem pele. E tornando das-peles vivas, às eleisoens, acaba o sermam, damesma sorte que o-comesou.

Progunto agora: que outra coiza avia ele dizer, se pregáse das-eleisoens? Nam ignora V.P. que os sermoens panegiricos, pertencem ao genero demonstrativo; e quem jamais pode sofrer, que um Orador, que deve elogiar Pedro, faláse de Paulo? Julga V.P. que se-pode chamar justa digresam, nam falar uma palavra no-asumto, para se-meter em materîa alheia; e que por-titulo nenhum pertencia ao Pregador? Mas examinemos ese pouco que diz, de S.Bartolomeo: eu nam acho ali coiza, que nam seja inverosimel. Aquilo de querer, que S. Bartolomeo fose criado Apostolo na 6.ᵃ eleisam, é falso; porque tal nam diz o Evangelho. O que eu acho no-Evangelho é, que Cristo, despois do-jejum de 40. dias, pasando defronte de Joam, e dizendo este: Ecce Agnus Dei: dois seus dicipulos seguîram Cristo: um deles era André, que incontrando de tarde, seu irmam Simam, o-conduzio a Cristo. No-dia seguinte Cristo chamou Filipe: e este, incontrando Natanael, convidou-o para seguir Cristo. Pouco despois, tornando Cristo de Cafarnaum, tornou a chamar Simam, e André; que provavelmente se-tinham apartado de Cristo, para exercitarem o seu oficio: e nunca mais se-apartáram dele: e no-mesmo caminho chamou Jacob, e Joam. Se pois Natanael é o mesmo que Bartolomeo, como alguns doutos modernos[34] conjeturam, com muito fundamento; em tal cazo é o 4.ᵒ eleito: ou o segundo, fazendo outra contra. Se Natanael é diferente de Bartolomeo, como diz S. Agostinho[35], e Gregorio Magno[36], neste cazo devemos confesar, que nam sabemos, quando foi chamado Bartolomeo. O certo é, que o Evangelho nam explica, circunstancia alguma da-sua vocasam, e da-sua vida, com o nome de Bartolomeo. Nem menos da-Istoria temos, como morreo Bartolomeo; avendo grande disparidade de pareceres: aindaque a mais comua é, que morrèse esfolado. O motivo que teve o Pregador foi, ver que em S.Lucas, despois das-ditas palavras, nomeia-se em 6.ᵒ lugar Bartolomeo: e asim intendeo, que foram todos eleitos, naquela ocaziam. Um bocadinho que soubèse mais de Istoria, lhe-pouparia este erro, tam censuravel em um Teologo. Mas aindaque isto asim fose; nam bastava para lhe-chamar, a 6.ᵃ eleisam, por-ser uma só: e muito menos deveria esta circunstancia, dar materia a um sermam.