Trata-se da Filozofia. Mao metodo com que se-trata em Portugal. Advertencia das outras Nasoens, em procurar a Ciencia. Necesidade da istoria da Filozofia, para se-livrar de prejuizos. Ideia da serie filozofica. Danos e impropriedades da Logica, que comumente se-explica. Dá-se uma ideia, da boa Logica. pag. [276].
CARTA PRIMEIRA.
SUMARIO.
Motivo desta conrespondencia: e como se-deve continuar. Mostra-se, com o exemplo dos-Antigos, a necesidade de uma Gramatica Portugueza, para comesar os estudos. Dá-se uma ideia, da-melhor Ortografia Portugueza: e responde-se aos argumentos contrarios. Que o Vocabulario do-Padre Bluteau se-deve reformar, para utilidade da-Mocidade.
Meu amigo e senhor: Nesta ultima carta, que recebo de V. P. entre varias coizas que me-propoem, é a principal, o dezejo que tem, de que eu lhe-diga o meu parecer, sobre o metodo dos-estudos deste Reino: e lhe-diga seriamente, se me-parece racionavel, para formar omens, que sejam utis, para a Republica, e Religiam: ou que coiza se-pode mudar, para conseguir o dito intento. Alem disto, quer tambem, que eu lhe-dé alguma ideia, dos-estudos das-outras Nasoens, que eu tenho visto. Quanto às outras proguntas, parece-me que bastantemente respondo, inviando-lhe o papel incluzo: no-qual achará, tudo o que queria saber. Mas polo que respeita ao negocio, dos-metodos diferentes de estudos, duvidei por-algum tempo, se obedeceria a V. P. e tinha algumas razoens, que me-pareciam forsozas; suposta a grande pratica que tenho, deste mundo, e deste Reino. Eu sou Estrangeiro: e com dificuldade me-explicarei em uma lingua, que nam mamei no-berso. Que nas minhas cartas particulares, eu cometa erros, a bondade de V. P. mos-desculpa. mas se eu escrever em materia, que se-posa mostrar a outrem; e me-fugir da-boca, alguma expresam menos propria; averá censores tam dezumanos, que me-condenem, por-escrever em lingua alheia, talvez sem advertirem, que iso está sucedendo todos os dias, aos mesmos nacionais, que frequentemente os-cometem. Alem disto, sempre foi coiza odioza, dar regras em caza alheia: e lembrando-me eu de alguns, que me-diseram muito mal, do-grande serviso que fez ao Reino o P. Bluteau, compondo o seu Vocabulario; via de longe, a tempestade que se-levantaria contra mim, se este meu parecer tivese a infelicidade, de sair das-maons de V. P. Mas a maior razam era, porque isto, de emendar o mundo, e principalmente o querer arrancar certas opinioens, do-animo de omens envelhecidos nelas, e consagradas ja por-um costume, de que nam à memoria; é negocio, que excede as forsas de um só omem: e principalmente de um omem, de tam pouco merecimento, e autoridade como eu. E V. P. que é tam versado na Istoria, pode trazer à memoria, mil exemplos destes, que deram, e ainda oje dam, ao mundo Literario, materia de grande admirasam. Lembrou-me tambem, que eu sou Religiozo, em uma Religiam, em que geralmente florecem pouco os estudos: e que, por-este principio, nam faltariam omens, ainda prezados de doutos, que, se chegasem a saber, de quem eram as cartas, as-desprezasem; sem terem a paciencia, de examinar as minhas razoens: por se-persuadirem, que certos acidentes exteriores, de emprego, vestido, &c. conduzem muito, para o merecimento das-obras: e que, sem pizar os ladrilhos de certas Universidades, nam se-pode fazer coiza boa.
Estas, e outras coizas, que se me-ofereceram à memoria, me-tiveram, como lhe-dise, duvidozo. Finalmente as repetidas instancias que V. P. me-faz: a sua grande autoridade: e as plauziveis razoens que me-alega, me-fizeram pegar na pena, para escrever o meu parecer. V. P. segura-me certas coizas, que nam sam de pouca considerasam. Diz-me, que oje á muita gente do-seu parecer, nam só entre os Seculares, mas tambem entre os Regulares: de que me-cita bons exemplos. Diz-me, que o bom gosto nas Artes, e Ciencias, se-comesou a introduzir em Portugal, no-feliz reinado deste Augusto Monarca: o qual nisto, tem ajudado mais o Reino, que todos os seus antecesores. Finalmente promete-me, que as minhas cartas, nam sairám da-sua mam, ao menos em meu nome. Com, estas condisoens, obedeso a V.P. e me-gloreio muito, que um omem da-sua literatura, nam despreze o parecer, de um sugeito de tam pouca doutrina. Dividirei o argumento, em varias cartas: e como as minhas ocupasoens, e molestias mo-permitirem, irei comunicando a V. P. as minhas reflexoens. Devo porem, nesta primeira carta, fazer algumas protestas. Primeira: Que eu nam acuzo, ou condeno, pesoa alguma deste Reino. Se às vezes nam me-agradam as opinioens, nem por-iso estimo menos os sugeitos, e autores, distingo muito o merecimento pesoal, do-estilo de cada um, ou metodo que observa: e poso fazer esta separasam, sem ofender pesoa alguma.
Esta reflexam para V. P. é superflua, pois conhese mui bem o meu animo; e sabe, que eu só pego na pena, para lhe-dar gosto. Mas porque poderá ler esta carta, a algum ignorante, ou malevolo; que intenda, que eu, dizendo o que me-parece dos-estudos, com isto digo mal, da Religiam da-Companhia de Jezu; que neste Reino, é a que principalmente ensina a Mocidade: devo declarar, que nam é ese o meu animo. Eu venero esta Religiam doutisima, por-agradecimento, e por-justisa. Por-agradecimento, porque ese pouco que sei, eles mo-ensináram: e aindaque nas escolas nam aprendese tudo, aprendi-o conversando com eles particularmente, e lendo os seus autores. Sempre conservei com eles, intrinseca amizade: e disto conservarei uma memoria sempiterna. Por-justisa, porque sendo todas as Religioens veneraveis; esta o-é mais que todas, segundo a minha opiniam. Parece que mandou Deus à Igreja estes Religiozos, unicamente para utilidade dos-proximos, pois eles ensinam a doutrina, e piedade, com grande amor, e trabalho: sacrificam-se polos Fieis, em todas as ocazioens: e sam perpetuos defensores da-Igreja Catolica, como confesam os mesmos Erejes. Estes sam os motivos da-minha venerasam, e parcialidade por-eles. Mas asimcomo nem todos os Jezuitas, seguem as mesmas opinioens de doutrina, mas permitem aos seus mesmos, a liberdade de filozofar, dentro dos-limites do-justo; e uns sam contrarios de sentimentos a outros: Asimcomo alguns Jezuitas Estrangeiros, tem reprovado diante de mim, o metodo de Portugal; e alguns Portuguezes me-confesáram, que o-seguiam por-necesidade, e nam por eleisam; e confesáram limpamente, que se-podia, e devia emendar em muitas coizas: (achará V. P. muitos, que lhe-digam, que aquela Logica Carvalha, e Barreta, nam se-deviam explicar nas escolas, mas coizas mais utis: o que eu ouvi muitas vezes) Asim tambem nam será maravilha, que eu me-desvie em muitas coizas, do-estilo que seguem, os Religiozos da-Companhia neste Reino: e reprove outras, que observam alguns dos-seus autores. Para tudo teria exemplos na mesma Companhia, e tambem em Portugal. Mas nam me-é necesario tanto: porque os mesmos Jezuitas, reconhecem de antemam esta verdade; e sabem, que, sem injuriar uma Religiam, pode um omem, ser de contrario parecer. Conhecem muito bem estes doutos Religiozos, que nestas diferensas de pareceres, nam deve entrar o corasam, porque estam fóra da-sua jurisdisam: e se-podem dar entre pesoas, mui unidas de inclinasam. Os Jezuitas todos sam prudentes: e nenhum omem prudente ignora, e contrareia estas coizas. Os individuos de uma comunidade, nem todos sam de igual talento: e as comunidades de uma Religiam, nem todas seguem o mesmo metodo. Alem diso, aqui em Portugal, á muita outra gente que ensina. os outros Religiozos, ensinam os seus, e os de fóra. os mestres seculares, tambem ensinam. E asim as minhas opinioens, podem ter por-objeto, nam uma só pesoa. Isto me-basta advertir, a estas pesoas, que querem saber mais que os autores: e quererám explicar, e interpretar mal as minhas palavras. Onde concluo, que a todos venero, e estimo mui particularmente: somente direi, o que me-parece se-devia fazer, para poder instruir com fruto. A segunda coiza é: que eu nam me-cansarei, em escrever Portuguez elegante: mas me-servirei das-palavras, de que comumente me-sirvo, no-discurso familiar. Nas materias de doutrina, por-forsa devo servir-me, de algumas palavras, que nam sam Portuguezas: o que tambem fazem os Latinos, quando tratam semelhantes pontos. porque no-estado em que as coizas estam, nam se-servindo das-ditas palavras, nam é posivel, explicar bem as materias. E asim deve V. P. estar preparado, para nam se-admirar, de alguns termos novos; e para me-desculpar, os erros que posa cometer. Ocorre-me ainda terceira: e vem aser, que eu suponho, que V.P. me-dispensa, de citar todos os momentos autores, de que tiro algumas das-noticias, que lhe-diser. com tanto que eu aponte, o que é necesario, nam emporta quem o-diz. Basta que eu diga, uma vez por todas, que a major parte do-que digo, experimentei eu mesmo: outras coizas, observei em terceira pesoa; ou li em autor aprovado. V.P. olhe para a razam, em que eu me-fundo: porque esta deve valer mais, que a autoridade extrinseca. Tambem incidentemente digo, nam a V. P. que sabe conhecer as coizas; mas a algum, que posa ler estas cartas: que, se algumas vezes apontar como optimos, alguns autores Erejes; nam louvo neles a sua particular religiam, mas a erudisam, ou metodo. Comumente avizarei, quais sam os Erejes, paraque nam se-leiam, sem licensa devida. Mas se acazo me-esquecer entam advertilo, aqui o-advirto para sempre.
Comeso pois nesta carta, pola Gramatica: que é a porta dos-outros estudos: da-qual depende, a boa eleisam dos-mais. Porque muitos nam intendem, o que significa este nome, por-iso nam fazem, grande progreso na Gramatica. Eu, ainda que falo com V. P. que o sabe, falarei daqui emdiante, como se faláse, com quem o-nam-soubese.
A Gramatica, é a arte de escrever, e falar corretamente. Todos aprendem a sua lingua no-berso: mas se acazo se-contentam com esa noticia, nunca falarám como omens doutos. Os primeiros mestres das-linguas vivas, comumente sam molheres, ou gente de pouca literatura: de que vem, que se-aprende a propria lingua com muito erro, e palavra impropria, e pola maior parte palavras plebeias. É necesario emendar com o estudo, os erros daquela primeira doutrina. Uma razam, aindaque boa, um pensamento exquizito, exposto com palavras toscas, ou que nam signifiquem, o que se quer; dezagrada muito, e comumente nam persuade. Contudo iso por-muitos seculos, se-contentàram os Omens, de falar, como primeiro lhe ensináram. Nam foi senam despois do-terceiro milenario, que os Omens se-aplicáram a falar bem. Foram os Gregos os primeiros, de que a Istoria nos-aponta, que se-aplicasem a este estudo: e tal vez os unicos, entre todos os Orientais. A sua Gramatica consistia, em conhecer bem as diferensas das-letras: ler, escrever, e falar bem. Explicavam tambem os Poetas; nos-quais aprendiam a Politica, e Religiam. O governo da-Grecia, que era quazi todo de Republica, (nas quais as publicas asembleias do-Povo, deliberavam nos-maiores negocios) lhe-inspirou este dezejo. conhecéram eles, quanto emportava falar bem, para falar em publico: e se-aplicáram tanto a iso, que deram, e ainda oje dam, documentos a todo o mundo. Talvez niso foram mais escrupulozos doque convinha: porque, para conservar a sua lingua pura, nam queriam aprender, lingua alguma estrangeira. Estavam tam satisfeitos, das-belezas da-sua lingua, que quazi desprezavam as outras todas. desorteque quando os Romanos, despois de vencidos os Gregos, os-transportáram a Roma; avendo nesta tantos, e de diferentes gerarchias, se-observou (como nota um autor de bom juizo) que os Romanos, aprenderam o Grego: mas nenhum Grego, estudou a lingua Romana: aindaque com o uzo, alguma coiza intendese. E este costume, durava ainda nos-tempos de Cicero.