Com a lingua pasou da-Grecia para Roma, a inclinasam para a Gramatica. porque se-observou, que a lingua Latina se-comesou a aperfeisoar, desde o tempo dos-Cipioens, e continuou até o seculo de Augusto. que é justamente o tempo, em que os Gregos, destruido o seu imperio, comunicáram a sua lingua aos Romanos. Pois aindaque, desde o tempo da-guerra com os Sanitas, e outros Povos da-Magna Grecia, polos anos de Roma 471. algum Romano comesáse a intender, e falar o Grego; foi raro: e somente para poder intendelos nas Embaixadas, e coizas semelhantes, é que o-aprendiam. nam era vulgar este estilo: o que só sucedeo ao despois. Foram os Romanos os primeiros, que aprenderam voluntariamente lingua estrangeira. o que nam consta, que Povo algum, antes deles, tivese feito. E nisto mesmo, me-parecem mais racionaveis: porque conhecendo a necesidade dela, para o estudo da-Filozofia, Matematica, e belas Letras, nam se-envergonháram de receber lisoens, daqueles mesmos a quem tinham vencido, e davam leis. Este é um grande elogio, para uma Nasam tam considerada, como a Romana: conhecer que é vencida em merecimento; e confesar publicamente ese vencimento; e pór o remedio a esa falta. Paolo Emilio, aquele grande omem, que destruio na pesoa de Perseo, o imperio de Macedonia, antes de tornar para Roma, pedio aos Ateniezes, que lhe-buscasem um excelente Filozofo, para acabar de instruir, seus dois filhos. Outros omens grandes, que por-brevidade nam aponto, seguiram o seu exemplo. Lelio, e Cipiam Emiliano, que tanto rafináram a lingua Romana, eram inseparaveis, dos-seus mestres Gregos: dos-quais nam só aprendiam a Filozofia, mas tambem a Gramatica; e o modo de falar bem, e aperfeisoar a sua lingua. Os Filozofos daquele tempo, nam se-ocupavam somente, com discursos aereos de Logica; mas estendiam o seu conhecimento, para muitas outras coizas.

Mas, é necesario confesar uma verdade; em todo o tempo ouve dificuldade, em se-receberem costumes novos, aindaque fosem utis. os Velhos nam querem ceder dos-costumes, que uma vez espozáram. Isto vimos em Roma, no-consulado de Estrabo, e Messala: que publicáram um decreto, em que ordenavam aos Filozofos, e Retoricos, sairem de Roma[3]. Catam o velho, que temia, que os Romanos, pola vaidade de quererem falar bem, servisem mal à Republica no-oficio das-armas; foi um grande protetor disto. Mas a Verdade, por-mais que se encubra, sempre transpira. Trez Embaixadores Ateniezes, que, cinco ou seis anos despois do-tal decreto, vieram a Roma, namoráram todos com os seus discursos. e, nam obstante a repugnancia de Catam, e de alguns outros, os estudos das belas Letras se-introduziram em Roma, e cada dia mais se-aumentáram[4]. A Grecia foi reconhecida por-mestra: e Atenas foi sempre reputada, a Universidade de Roma: aonde se-mandavam os nobres Romanos, para aprenderem o bom gosto. Os dois celebres Antonios, Atico, Cicero pai, e filho, e muitos outros lá foram aprender o que souberam. e o que mais cauza admirasam, é, irem em tempo, que as letras tinham descaido na Grecia. tal era a boa opiniam que tinham dela! Outros muitos Gregos vinham a Roma, e publicamente ensinavam, os estudos Gregos.

Com este exemplo, pouco mais de um seculo antes de Cristo, se-abriram escolas Latinas em Roma. as quais, ainda que com alguma contrariedade, felizmente e com grande concurso se-continuáram. Delas sairam omens mui grandes, que apuráram, quanto puderam, a lingua propria. Tais foram Cota, Sulpicio, Ortensio, Marco Cicero, Caio Cezar, Marco Bruto, Messala, Asinio Pollio, e muitos outros que entam, e oje veneramos, como mestres da-lingua Latina. À imitasam dos-Gregos, comesáram os Romanos a aprender, a Gramatica da-sua lingua, no-mesmo tempo que aprendiam a Grega. A Gramatica, nam se-reputava, coiza de pouca emportancia: mas a-consideravam como baze da-Eloquencia: e por-iso a ela se-aplicavam omens grandes; e nela empregavam um tempo consideravel, os que queriam, fazer figura na Republica. Os livros Retoricos de Cicero, principalmente os trez de Oratore ad Quintum Fratrem, especialmente o ultimo: o livro intitulado: Orator ad Marcum Brutum: e o de Oratoriis Partitionibus: nam só ensinavam Retorica, mas principalmente falar a sua lingua, com toda a pureza, e grasa: que era uma parte principal da-Retorica. Caio Julio Cezar, aquele grande omem em armas, e letras, nam se-envergonhou, de escrever dois livros, sobre a Analogia da-lingua Latina[5]. Marco Terencio Varram escreveo comentarios doutisimos sobre a sua lingua, e uma Gramatica. Continuou este costume, até o tempo de Quintiliano, e seu dicipulo Plinio o moso: o qual Quintiliano, alem de nos-explicar, como se-ensinava a Gramática Latina; ele mesmo nos-deixou uns Elementos dela, no-primeiro livro das-suas Instituisoens. E é de crer, que se-continuase este estilo, até os principios do-quinto seculo de Cristo; em que os Godos entráram em Roma: ou um pouco despois, em que os Ostrogodos se-estableceram na Italia, e arruináram o imperio Latino: abrindo com isto a porta aos Longobardos, que nela domináram tantos anos. Desorteque com o Imperio no-Occidente, se-pode dizer, que se arruinou a lingua Latina: porque comesando a destruir-se, com a mescla de outras palavras, foi necesario emendála com o estudo, e fazer Gramatica dela.

Este metodo de ensinar aos nacionais, a Gramatica da-sua lingua, nam só praticáram os Antigos; mas até em um seculo barbaro, qual foi o de Carlo Magno, foi conhecido, e praticado: e o mesmo Carlo no-dito VIII. seculo, escreveo uma Gramática Tudesca, que era a lingua da-sua corte. Nos-seguintes seculos até o duodecimo, em que a ignorancia tanto dominou, nam foi ignoto este uzo. Mas alguma Gramatica que se-fazia, era para intender o Latim. os livros eram rarisimos. a critica nenhuma. e asim nam é maravilha, se nam se-aplicáram ao que deviam. Desde o seculo duodecimo até todo o seculo decimosexto, reinou outra particular ignorancia, sobre o metodo. Muitos se-aplicáram as letras, mas muito mal. só reinavam as agudezas, e o estilo ridiculo. No-seculo pasado, é que resuscitou este metodo, de ensinar a Gramatica da-propria lingua.

E, na verdade, o primeiro principio de todos os estudos deve ser, a Gramática da-propria lingua. A razam porque nos-parece tam dificultozo, o estudo da-Gramatica Latina, (alem de outros motivos que em seu lugar direi) é porque nos-persuadimos, que toda aquela machina de regras, é particular da-lingua Latina: e nam á quem nos-advirta, quais sam as formas particulares desa lingua, a que chamam Idiotismos: quais as comuas com as outras. Se a um rapaz que comesa, explicasem, e mostrasem na sua propria lingua, que á Verbo, Cazo, Adverbio &c. que á formas particulares de falar, deque se-compoem, a Sintaxe da-sua lingua: Se sem tantas regras, mas com mui simplezes explicasoens, fizesem, comque os principiantes refletisem, que, sem advirtirem, executam as regras, que se-acham nos-livros: e isto, sem genero algum de preceitos, mas polo ouvirem, e exercitarem: Seguro a V. P. que abririam os olhos por-uma vez, e intenderiam as coizas bem: e se-facilitaria a percesám das-linguas todas.

Isto suposto, julgo que este deve ser, o primeiro estudo da-Mocidade. e que a primeira coiza, que se-lhe-deve aprezentar é, uma Gramatica da-sua lingua, curta, e clara: porque neste particular, a voz do-Mestre, faz mais que os preceitos. E nam se-devem intimidar os rapazes, com mao modo, ou pancadas, como todos os dias sucede: mas, com grande paciencia, explicar-lhe as regras: e, sobre tudo, mostrar-lhe nos-seus mesmos discursos, ou em algum livro vulgar, e carta bem escrita, e facil; o exercicio, e a razam, de todos eses preceitos. Se me-tocáse o-fazelo, regularia tudo desta maneira. Primeiro, explicaria brevemente as regras: e obrigalosîa a repetir, as mesmas noticias gerais. Despois, darlheîa um livro de Cartas, vg. as do-P. Antonio Vieira: escolhendo as mais facis: ou alguma istoria pequena, digo, que tivese capitulos pequenos, e periodos nam mui compridos: e mandaria, que a-lesem: e no-mesmo tempo apontaria, quais eram as partes da-orasam. o que se-observa, com grande facilidade. Ajuntaria a isto, as regras mais principais de Sintaxe: porque como tudo isto, se-á-de recozer na Latinidade, basta nesta ocaziam, uma noticia geral. Feitos estes principios, ensinaria duas coizas, mui principais em materia de linguas. a primeira é, a propriedade das-palavras: mostrando-lhe, a forsa de cadauma daquelas, que sam menos comuas. a segunda é, a naturalidade da-fraze: ensinando-lhe, que a afetasam, se-deve fugir em tudo: e que se-deve cuidar em explicar tudo, com palavras mui naturais. Alem disto, ensinaria aos rapazes, pronunciar bem, e ler expeditamente. Este ponto, é mui necesario: achando-se todos os dias omens feitos, que lem soletrando, e cantando: e que dizem mil barbarismos. o que tudo procede, de nam terem tido mestres, que lhes-ensinasem bem. Quando os rapazes estivesem mais adiantados, obrigálosia, a escrever algumas cartas, a diversos asumtos. e introduziria entre dois, uma conrespondencia epistolar: ensinando-lhe os tratamentos, e modo de escrever, a diversas pesoas. Nesta ocaziam tem lugar, ensinar-lhe a boa Ortografia, e Pontuasam. É incrivel, a utilidade que daqui rezulta, nam só para a inteligencia da-Latinidade; mas para todos os estudos da-vida. Este estudo pode-se fazer, sem trabalho algum: e se-pode continuar no-mesmo tempo, emque se-explica o Latim: bastando meia ora cada menhan, ler, e explicar o Portuguez. Isto se-pratica oje, em algumas partes da-Europa. e só os que nam tem juizo, para conhecerem a utilidade, que daqui rezulta, é que negam, a necesidade deste metodo.

Mas aqui, deixe-me V. P. lamentar, e admirar, a negligencia dos-Portuguezes em promover, tudo o que é cultura de ingenho, e utilidade da-Republica. Ainda até aqui, nam tem cuidado nestas coizas: e será rarisimo, o que souber, que esta Gramatica pode ser util. Especialmente nóto isto, sobre a falta de escritos, para instruir um Secretario principiante. (falo dos-secretarios dos-Grandes, e de tudo o mais, fóra das-Secretarias Reais.) Nas-outras Nasoens á livros, que ensinam a qualquer, a urbanidade e ceremonial do-seu Reino. Como escrevem os Reis, e os Grandes entre si, e às pesoas de diferentes gerarchias mais inferiores. como os inferiores escrevem, a toda a sorte de pesoas de maior esfera, tanto Secular, como Ecleziastica. &c. apontam-se os sobrescritos, e poem-se algumas cartas para exemplo. Isto ensina a todos; e impede o fazer erros. Mas em Portugal, é desconhecido este metodo. Um secretario de um Bispo, ou Cardial, ou Fidalgo, ou Dezembargador &c. governa-se por-uma pura tradisam; ou porque asim vio alguma carta; sem mais conhecimento da-materia. Comtantoque um moso, tenha um carater comprido, e dezembarasado, a que eles chamam, letra de Secretaria, é o que basta. Confeso a V. P. que ainda até aqui, nam vi secretario algum destes, que soubese escrever duas palavras, com juizo. que tecese uma carta, considerando quem escreve, e a quem escreve: emque circunstancia: se com dependencia, ou sem ela: se por-agradecimento de alguma fineza, e atensam, ou por-outro motivo. Nam consideram circunstancia alguma destas: as quais porem deveriam considerar muito; porque fazem a carta, mais, ou menos abundante de atensam: Sendo certo, que o Secretario, deve conservar o decóro de seu amo: mas no-mesmo tempo deve procurar, que paresa mais cortez que posa ser. Mas isto, é o que eles nam intendem. e nada mais cuidam, que mostrar, nam digo a grandeza, mas a soberba de quem escreve. Verá V. P. um pobre Cavalheiro das-Provincias, do-qual se pode dizer, como dise aquele noso amigo==Est res angusta domi==; escrever uma carta, com mais soberania e magestade, que nam fará o Papa. porque este, comumente poem==Dilecto filio==: e aquele, comesará uma carta ex abrupto, e imprudentemente, sem atensam alguma. Os de maior gerarchia, ainda fazem pior. e apenas se achará um, que nam queira mostrar na carta, que é mais, da-pesoa a quem escreve. Por-fóra, costumam pór==do-Bispo Fulano: do-Marquez Sicrano== &c. á coiza mais digna de rizo doque esta! As cartas mandam-se lacradas, para que ninguem saiba, de quem sam; e nem suspeite, o que contem: e estes tais poem, e asinam-se de fóra! Que o-fasa o Secretario de Estado, ou outro Ministro, que tem jurisdisam publica; é justo: paraque todos conhesam, de quem é a carta; e, se mais suceder perdela, quem a-achar, a-entregue; e lhe-tenham o respeito, que é devido. mas que o-fasam os outros, e em negocios particulares; e que o-fasam por-grandeza, merece compaixam. Tenho visto milhares de cartas, de Cardiais, Principes Soberanos de outros Reinos, e muitos outros Gran-senhores, e nenhum praticava esta rapaziada. Mas eu vi mais doque isto: porque vi carta de uma grande pesoa, que V. P. conhece, que escrevia a outro mui condecorado, que tinha no-sobrescrito: A Fulano: pondo o simplez nome, sem Senhor, nem titulo, &c. e dentro asinava-se, sem lhe-fazer comprimento, como se-faz nas Patentes.

Pertencem à clase asima, os que carregam o sobrescrito, com todas as circunstancias de Pai, Primo, Cunhado &c. o que tudo pode dar ocaziam, a abrir a carta por-curiozidade. O mesmo digo, dos-que poem: Familiar do-S. Oficio, e outras coizas destas. Basta pór um titulo principal, ou, quando muito, dois maiores: os mais ja se-intendem, ou se-supoem. Estes sam semelhantes àqueles, de que ja falámos tantas vezes, que, no-titulo das-censuras dos-livros, poem uma enfiada de empregos velhos: Ex-Provincial: Ex-Difinidor: &c. e dos-quais V. P. dizia, com tanta grasa, que lhes-faltava pór: Ex-Porteiro: Ex-Guardiam: Ex-Procurador. &c. O pior é que nisto, caiem tambem os Seculares: e poem frequentemente: Colegial que foi no-Colegio de S. Paulo: Lente que foi de Leis, ou de Instituta. &c. só lhes-falta acrecentar a prepozisam, e dizer: Ex-Colegial: Ex-Leitor: Ex-Secretario: Ex-General: Ex-Coronel. Que tendo os empregos, o-declarem; é mui justo: mas que ponham os que tiveram, e sam inferiores aos que oje tem; é uma vaidade mal fundada: e é querer ser estimado, mais polos empregos, que polo merecimento. Leia V. P. a istoria, que escreveo Alexandre Ferreira, e verá, que no-titulo da-obra, escreve toda a sua vida. Outros fazem dedicatorias de livros, a pesoas Grandes, e enchem boa meia folha de papel, de titulos: Capitam-mor de cá: Alcaide-mor de lá: &c. Quando tivesem dito: Marquez, ou Conde; Conselheiro, ou General &c. estes titulos sorvem todos os outros. Destes se-pode tambem dizer, que lhes-esqueceo escrever, todas as quintas, e cazas, que posuem em diversas Vilas, e Cidades, as pesoas a quem louvam, e dedicam as obras.

Em Italia, seria grande injuria, tratando-se com um grande Principe, por-lhe todos os titulos: porque era mostrar, que sam menos conhecidos polo nome, e pesoa. Á cazas, que tem muitos Principados, Marquezados, Condados: e nam somente de titulo, mas com inteira jurisdisam e dominio, pois tem o direito==Vitæ & Necis: e contentam-se com um só titulo, ou, quando muito, dois: Vg. Lourenso Colona, Duque de Paliano, Condestavel do-Reino de Napoles. Domingos Orsini, Duque de Gravina. Prospero Conti, Duque de Poli. Estas cazas tam antigas, que algumas contam mais de mil anos, e tem dado, alem de infinitos Cardiais, 13. Papas, outras cinco, à Igreja de Deus; nam fazem vaidade destes ridiculos titulos; porque sabem, que sam mui bem conhecidas. Mas os *** e principalmente os Portuguezes, governam-se por-outros principios. Tem alem diso estes Senhores por-injuria, se lhe-escrevem por-secretario; e quando nam vem toda a carta, de proprio carater, tocam a fogo. Veja V. P. quam diferentes sam, os costumes estrangeiros! Em Roma, aonde o ceremonial está tanto em vigor, que às vezes é excesivo, nam se-faz cazo de tal coiza. escreve um Cardial a outro, por-secretario. escrevem os inferiores &c. por-secretario. Isto nam prova descortezia, mas que um omem, é sumamente ocupado. nem pesoa alguma faz cazo disto. Somente se-pratica, escrever de proprio punho, quando é primeira carta de ceremonia a pesoa grande, ou quando respondo, a quem escreve de proprio punho: ou n’outros cazos asim. Mas aqui, seria um cazo rezervado, praticar o contrario.

Ora tudo isto, é intender mal as coizas: é falta de educasam: falta de livros bons: e é expor-se ao rizo dos-omens de juizo. Isto pois deve acautelar o mestre, quando instrue os rapazes. deve informar-se das-coizas: ensinar-lhe como se-devem regular: e finalmente dizer-lhe em poucas palavras aquilo, que, por-falta de livros, somente se-pode saber, com uma longa experiencia. Estas coizas devem-se tratar, nestes primeiros estudos.