Despois de ter escrito isto, me-veio à mam, uma Gramatica Portugueza, composta polo P. Argote, Teatino. Verdadeiramente nam é Gramatica completa: mas o autor declara, que só dá regras, para facilitar a inteligencia da-lingua Latina. O juizo que formo desta Gramatica, é este. O autor, introduzindo um dialogo enfadonho, dise, em muitas folhas, o que podia dizer, em poucas regras. Os dialogos nam servem mais, que de fazer mil repetisoens sem necesidade. servem de cansar á memoria aos rapazes, sem fruto: ensinando-os a falar como papagaio: vistoque nam intendem o que dizem. quando polo contrario poucos preceitos, bem explicados com a viva voz do-Mestre, ensinam mais, com menos trabalho. Isto, quanto ao metodo. quanto às regras: O que diz da-Analogia das-vozes, parece-me mui bem; e pode-se ensinar com utilidade. A Sintaxe de concordar, pode pasar: a de reger, nada me-agrada. O P. Argote dezemparou o seu mesmo metodo, por-seguir os erros de Manoel Alvares, e multiplicar regras sem necesidade; asinando regencias falsas: quando tudo aquilo se reduzia, a explicar a regencia dos-Cazos, polas regras fundamentais; que sam mui poucas. Isto é o que deve cuidar o Mestre: reduzindo as regras, às verdadeiras cauzas da-regencia: apontando algum particular idiotismo &c. porque isto basta: vistoque a Gramatica Latina, tambem se-deve explicar em Portuguez, e com poucas regras. A terceira parte, da-sintaxe Figurada, tirando a extensam, tambem pode pasar. Na quarta parte, o que diz dos-Dialetos &c. pode pasar: aindaque tudo aquilo se dizia, em duas palavras. o que diz do-modo de reger a lingua Portugueza, é uma grande superfluidade, e pedanteria: vistoque nam á mestre tam tolo, que nam saiba, como á-de reger, uma carta Portugueza. Isto se-faz, quando o estudante nas escolas, vai lendo a lingua dita: e o mestre lhe-explica, o dialeto da-proza, e do-verso. Antes seria loucura, querer explicar ao principio, o dialeto do-verso. porque os Poetas, que pola maior parte nam pezam bem as coizas, sem excetuar o Camoens; caîram na parvoice, de aportuguezar mil palavras Latinas, sem necesidade alguma: e asim nam é coiza para rapazes. Antes, polo contrario, deve o mestre advertir-lhe, que ese estilo, nam se deve uzar. Finalmente, a Ortografia do-P. Argote nada vale, como abaixo direi. Mas, em quanto nam aparece outra, ou se-reforma esta arte; pode o mestre uzar dela, com as ditas cautelas.
Devo tambem dizer a V. P. alguma coiza, sobre a Ortografia Portugueza. noticia que me-parece mui necesaria, e que com todo o cuidado se-deve comunicar aos principiantes: pois da-falta desta doutrina nace, que em toda a sua vida, escrevam mal: e, ainda despois de estarem em lugares de letras, é lastima ver, como muitos escrevem. E estas reflexoens, servirám para emendar, o que diz o P. Argote, nas suas Regras Portuguezas, e algum outro.
Isto suposto, e compreendendo em pouco, o muito que outros escrevem nesta materia, digo, que os Portuguezes devem pronunciar, como pronunciam os omens de melhor doutrina, da-Provincia de Estremadura: e, posto isto, devem escrever a sua lingua, da-mesma sorte que a-pronunciam. Esta é uma singularidade da-lingua Portugueza, que só se-acha nela, na Italiana, e na Castelhana: aindaque esta tenha sua variedade: ponho de parte a Latina, que é morta. Daqui fica claro, que devem desterrar-se da-lingua Portugueza, aquelas letras dobradas, que de nada servem: os dois SS. dois LL. dois PP. &c. Na pronuncia da-lingua, nam se-ouve coiza alguma, que fasa dobrar, as ditas consoantes. Que se-escreva Terra, Perra, com dois rr, intendo eu a razam: e o ouvido me-aviza, que a pronuncia é fortisima no-r. pois quando nam é forte, como em Pera, Caracol, escreve-se um só r. mas em Elle, Essa, é coiza superflua: porque ou tenha um, ou dois ss. sempre seá-de pronunciar, da-mesma sorte. Nas linguas mortas, faso escrupulo, de mudar uma letra: mas nas vivas, em que nós temos todo o poder, e uzo, quando a boa pronuncia nam ensina o contrario, sam superfluas as repetisoens.
Os nosos Italianos somente dobram as letras, quando a pronuncia é diferente: e sam tam escrupulozos observadores da-pronuncia, que nam á Nasam, que os-iguale. De que nace, a grande dificuldade que os Estrangeiros tem, em pronunciar bem a nosa lingua, nam obstante ser labial. porque nam tendo eles, ouvido tam esperto, para poder perceber, a diferente pronuncia das-letras dobradas; na pronuncia delas, servem-se de uma pronuncia doce e simplez; a qual os-acuza, por-Estrangeiros. O motivo que os Nosos tem, para pronunciarem asim, é uma antiga tradisam, desde o tempo em que a lingua Latina, era viva e domestica entre os seus antepasados. pois é sem duvida, que os Romanos cuidavam muito, em pronunciar bem a sua lingua; e que os mestres, ensinavam isto aos dicipulos com cuidado. Esta tradisam conservou-se sempre em Italia. e nacendo o Italiano, da-corrusam do-Latim, conserváram sempre as mesmas letras dobradas, que os Latinos tem: e talvez acrecentáram mais alguma. Donde vem, que os Italianos, achando no-Latim as letras dobradas, pronunciáram-nas como dobradas: e, por-este mesmo principio, pronunciando o Italiano, com alguma semelhansa do-Latim, dobráram tambem as letras da-sua lingua por cuja razam, sam nela desculpadas, as repetisoens. Os Francezes dobram algumas letras, por-necesidade, para distinguirem as pronuncias: outras dobram, porque tomáram os ditos nomes, dos-Gregos, e Latinos, entre os quais antigamente se-pronunciavam, e escreviam asim: como mostram os omens, que escreveram nesta materia. Tambem nisto tem variado muito: e nam sam aprovados, polos melhores criticos. E oje os Francezes mais doutos, regeitam muitas letras, que parecem escuzadas, por se-nam-pronunciarem: como adverte o P. Lima, na sua Arte Portugueza, e Franceza. Muitos Francezes sam de parecer, que se-devam desterrar todas. e talvez com o tempo, escrevam como falam: vistoque ainda nam á muito tempo, que esta lingua se-comesou a purificar: o que nam excede o tempo, de Luiz XIV. Mas concedamos-lhe o mesmo, que oje concedemos, aos Ebreos, Caldeos &c. é certo, que a lingua Portugueza, todos asentam, se-deve escrever como se-pronuncîa: e asim, nam deve receber letras, que se-nam-proferem.
Deste meu parecer, sam muitos Portuguezes de boa doutrina, com quem tenho conversado nesta materia: os quais nam podiam sofrer, que, sendo a pronuncia a regra da-Ortografia; ainda asim ouvesem omens prezados de doutos, que embrulhasem a Ortografia, com a preocupasam de quererem seguir, a derivasam e origem. Se eu ouvese de escrever, tudo o que me ocorre nesta materia, ou tudo o que se-pode dizer nela, faria um longo tratado; que seria contra o meo asumto, e tambem contra a necesidade da-materia, a respeito de V. P. Direi somente, o que pertence ao meu argumento. Nam obstante que eu á muitos anos, viva nesta opiniam, que a Ortografia comua é muito má; e, com esta ideia, tenha feito um tratadinho dela, para uzo, e regulamento meu; contudo nam me-atrevia, a declarar a todos, o meu animo, como faso a V. P. sabendo, que ainda os mais doutos se-ririam, de que um Estrangeiro, viese dar regras, nesta materia: Sem se-lembrarem, que tambem os que nestes ultimos seculos, escrevèram sobre a Ortografia Latina, eram Estrangeiros nela: semque por-iso, sejam mal ouvidos. Mas agora, devendo dizer a V. P. o meu parecer nela, puz de parte, todos os respeitos politicos; e nam só quiz apontar, o que condeno; mas, para o-fazer melhor, tive a curiozidade de ler, o que dise nesta materia o P. Bluteau. cuja leitura me-confirmou, no-meu propozito, e me-convida, a abrir-me mais promtamente: porque alfim vejo, que tenho mais padrinhos, doque nam cuidava[6].
Digo pois, que da-observasam que asima fiz, e maxima que estableci, se-devem tirar as reflexoens, para as outras letras, e para todas as mudansas e corresoens da-Ortografia. E comesando pola letra A, dobram alguns esta letra, em Menhaan, Vaan &c. e deste parecer, é Duarte Nunes de Leam. Nam se-pode intender, a razam destes omens. Na pronuncia, nam se-ouve aquele segundo A, e seria verdadeiro ridiculo, quem o-quizese pronunciar. e asim porque se-aja de escrever, eu nam intendo. O certo é, que a regra da-pronuncia, ensina o contrario. Daqui pasando ao B, digo, que esta nam se deve conservar, senam naqueles nomes, que especialmente a-tem na pronuncia, como obstaculo, obstante &c. mas naqueles, que oje se-pronunciam sem ela, parece-me escrupulo demaziado. Sobre o C, acha-se alguma diversidade entre os mesmos Portuguezes, em que lugares deve entrar quando tem cedilha, ç. Comumente antes das-terminasoens em ão o-escrevem, e mais em outras partes: sobre o que nam á regra alguma mais, que o uzo. Nisto alguns sam tam escrupulozos, que se encontram escrito com s, Sapato, fazem um orrivel espalhafato. Outros desterram o dito c, e em seu lugar escrevem dois ss. Mas para falar a verdade, e examinar as coizas sem paixam, tudo isto sam iluzoens. Nenhuma diferensa na pronuncia se-acha entre o c, e o s: se alguem contrareia isto, que me-fasa a merce de mo-provar: porque o meu ouvido, que é bastantemente advertido, nam conhece esta diversidade. Isto suposto, pór dois ss, em lugar do c, é uma solenisima ridicularia, sem mais razam, que querer distinguir-se dos-outros. Mas, nam merecem mais indulgencia, os que se-escandalizam de lerem, Sapato, Surrador &c. com s: porque na minha estimasam asim se-deve escrever. Eu verdadeiramente nam sei donde veio, que o ça, se-pronunciáse sa: mas se é permitido conjeturar em materia tam oscura, suponho que foi, por-engano de quem escrevia, que pintava mal o s: e asim com o tempo tomáram-no por-c: Porque a falar a verdade o c com cedilha sam dois cc contrapostos, e que imitam bastantemente um s, asim
: onde continuando a pronuncia do-s por-tradisam; e achando-se escrito o dito ç; intendèram que era uma particular especie de c, e asim o-escreveram. Seja como for, o c, em tais cazos vale um s. e por-esta razam cuido, que é mais proprio, e mais natural, servir-se desta letra simplez, que do-dito c. Desta sorte averia menos confuzam na Ortografia Portugueza, se asentasem todos, a nam escrever antes de a, ou o, ou u, senam um s, e nunca o dito c. Dirmeám alguns, que tambem o c antes de e, ou i, vale um s: e que será tambem necesario desterralo, e convertelo em s. Mas eu respondo, que á mui diferente razam. porque o c, antes de e, ou i, tem o seu proprio soido, sem violencia alguma: e aindaque se-posa compensar com s, contudo neste cazo deve-se permitir alguma coiza ao uzo, que o-introduzio. Nam asim o c antes de a: pois para fazer o soido que eles querem, deve violentar-se, sem ter analogia com as linguas, de que deriva, a nosa Portugueza: e asim parece-me grande superfluidade. Este é o meu parecer: Contudo se alguem ateimáse a servir-se do-dito c, nam faria disto um cazo rezervado: comtantoque confesase, que igualmente se-pode escrever com s: e que nam se-escandalizase, de quem fizese o contrario.
Desta regra, de escrever conforme a pronuncia, crejo que se-pode achar excesam no-Ch. Tem esta letra aspirada com o h, uma pronuncia em Portugal semelhante ao x. e asim dizemos Choro, Chove &c. como se estivera escrito, Xoro, Xove. Contudo algumas vezes se-deve pronunciar; como se-fose um k. o que intendo dos-nomes que vem do-Grego, e nos-quais se-ouve o k na pronuncia. vg. Architetura, Machina, Chimica &c. O Bluteau nam admite isto, nos Opusculos; e defende, que sempre o ch se-deve pronunciar quazi semelhantemente ao x. Mas ele mesmo se-contrareia no-Dicionario: pois diz, que em Portuguez se-deve escrever, Archanjo, Patriarcha &c. com ch, aindaque se-pronuncie o k: Tomára pois que me-dese a diversa razam, porque em outros nomes oriundos da-mesma Grecia, se-deva escrever com qui v.g. Monarquia &c. O certo é, que em ambas as partes a razam é a mesma. Antes parece-me, que com maior razam se-deve fugir o qui: porque em Portuguez despois do-q, sempre se-pronuncia o u, desorteque o q por-si só nam une com as vogais, sem se-pronunciar o u. E como seria erro pronuncialo, em Monarchia, Chimica &c. daqui vem que também é erro, escrevelo. A quem nam agradar esta minha opiniam, de escrever estes nomes por-ch, sou de parecer, que adóte o k dos-Gregos: pois é melhor chamar de fóra, uma letra Estrangeira, doque escrever o q, que em Portugal geralmente tem diferente pronuncia: o que nam sucede no-ch, que ja em muitas disoens está recebido em Portugal, com privilegios de k.
E nam obsta, que a maior parte dos-Ortografos Portuguezes digam, que o k é superfluo no-Portuguez: nam é o mesmo dizelo, que provalo: aqui nam á meio, ou se-deve admitir o ch com privilegios de k; ou adotar o k, em seu lugar. Sei que podem argumentar com Aquele, Aquilo &c. em que parece nam se-ouve o u: mas isto provèm da-pronuncia, que o-toca levemente; porque em todas as palavras Portuguezas o q faz pronunciar o u: Quando, Quanto &c. E principalmente avendo-se de introduzir, em disoens novas, ou Gregas, deve sempre observar-se o uzo mais comum. Duarte Nunes poem sempre c antes de t, como em Docto, Doctrina &c. Desta afetasam zomzombam os omens de melhor juizo; e cuido que com razam: pois se aos nosos ouvidos é insoportavel, quem fala asim, porque á-de ser toleravel, quem o-escreve? Bluteau admite o tal estilo alguma vez, para evitar o equivoco; v.g. Compacto, e Compato: mas eu nam vejo nisto equivoco, pois na segunda disam o Com, deve estar separado. Mas aindaque ouvese equivoco, o contexto o-tira. Outros em lugar do-c, sempre poem u, e dizem, Auto &c. tambem esta afetasam é condenavel: porque Ato, é mui boa palavra, e todos a-intendem. Em Douto &c. pode-se conceder alguma coiza ao uzo.