Costumam muitos Portuguezes dobrar os ee finais em muitas vozes, especialmente em Fée, Sée &c. e alguns dobram-nos em muitas outras palavras, inclinando-se, segundo dizem, a uma antiga pronuncia. Mas ou seja antiga, ou seja de novo inventada, deve-se fugir esta introdusam, pola mesma razam que disemos, de ser contraria à pronuncia. Concorda o Bluteau dizendo, que em algumas palavras se-supre, com um acento sobre o é. Mas eu digo, que nam sò em algumas, mas em todas se-deve escrever um só e. e quanto ao acento agudo, digo, que se-lhe-deve pór, nam para mostrar, que falta um e; mas para mostrar, que se-deve carregar a vogal; porque asim ensina a pronuncia.
Pola mesma razam da-pronuncia, se-deve desterrar das-palavras ou Portuguezas, ou aportuguezadas o Ph, em lugar de F. Muitos Portuguezes introduzem, sem advertencia, em lugar do-f, o dito ph: outros dam longuisimas regras para distinguir, quando se-deve escrever um, quando outro. mas uns e outros discorrem muito mal. O ph dos-Gregos era um p, aspirado com muita forsa, e que alguma coiza declinava para f. e nam avendo em Portugal semelhante pronuncia, é erro introduzir o dito p, quando temos cá o f, que tem o seu próprio soido. Daqui vem que aindaque Filozofia, Triumfo &c. na sua origem tivesem o ph, contudo oje que sam palavras Portuguezas, nam só adotadas polos doutos, mas de que indiferentemente se-servem todos; devem-se escrever com simplez f. Temos o exemplo nos-mesmos Latinos, que, quando adotavam algumas palavras Estrangeiras, pronunciavam-nas com a pronuncia Romana: e davam-lhe as proprias declinasoens Latinas. Talvez lhe-conservavam algumas proprias letras, em atensam de serem linguas vivas. E muitas vezes, para se-livrarem da-impropriedade, escreviam, e pronunciavam as ditas letras em Grego puro: como todos os momentos encontramos nos-seus escritos, principalmente nas cartas de Cicero, e alguns outros. Esta liberdade de acomodar as palavras, ao estilo da-propria lingua, tiveram sempre todos os Povos cultos: e devem ter tambem os Portuguezes. e asim significando o ph um p aspirado, com algum soido de f; nam o-devemos uzar, vistoque nas palavras Portuguezas, nam temos tal pronuncia.
Quanto aos nomes, que ainda nam estam em uzo por-todos, mas que somente uzam, ou para melhor dizer, algumas vezes se-servem deles os literatos; deve-se praticar outra regra. Se sam nomes (falo dos-Latinos, Gregos, Ebreos &c.) de coizas pertencentes a Artes, ou Ciencias, parece-me que se-devem escrever, com as suas letras originais. Vg. se quizer-mos explicar, ou escrever os nomes pertencentes à Anatomia, que sam todos Gregos, segundo o estilo do-Portuguez; escreveremos palavras, que se-nam-intenderám: e asim é melhor, seguir a derivasam Grega. O mesmo digo, de algumas partes da-Medicina, da-Filozofia &c. Muitos destes nomes ou nam se-podem escrever de outra maneira, v.g. Pneumatologia &c. ou, aindaque se-posam escrever, nam estam geralmente recebidos, nem ainda polos mesmos eruditos: e asim nam gozam, do-privilegio Portuguez. Se sam nomes Proprios, entra a mesma regra: ou sam pouco uzados; e em tal cazo é obrigasam escrevelos, com as suas proprias letras. Onde nam condeno quem escreve, Homero, Herodoto, Herodes &c. aindaque estes trez, e outros semelhantes que estam ja muito em uzo, podem mui bem escrever-se sem h: o que ate os nosos Italianos ja fazem: Mas sempre é mais desculpavel, se em semelhantes nomes se-uzam letras da-origem. Quanto porem aos outros, que servem de diferenciar as pesoas Portuguezas, e já estam totalmente naturalizados; devem-se vestir, com o traje de Portugal. E este uzo acho praticado, em todas as Nasoens de melhor doutrina. Quazi todos os nomes da-Sagrada escritura, se-acham mudados na nosa Vulgata. Vg. nós dizemos, o Mesias: e se ouvesemos pronunciar como está no-texto Ebreo, deveria-mos dizer, Maxiaggh com pronuncia forte, e gutural no-g. o que fizeram os Latinos, para adosar a pronuncia forte, e aspera dos-Ebreos. Traduzindo os Gregos este nome, escreveram, Christos: os Latinos, Christus: de que nós tomámos a palavra, Cristo. Podia apontar mil exemplos, que deixo por-brevidade. Os Gregos quando pronunciavam os nomes Latinos, faziam-no com o dialeto Grego. e por-iso nós achamos, que nas medalhas Gregas dos-Consules, e Imperadores Romanos, os nomes estam transformados. Vg. este nome, Marcus Tullius Cicero, os Gregos escreveram-no nas medalhas, Markos Tyllios Kikeron, que tem bastante diferensa do-Latino. Os Latinos, como ja disemos, davam a terminasam Latina, aos nomes Gregos: e muitas vezes deitavam-lhe fóra algumas letras. basta abrir os Dicionarios, para reconhecer esta verdade. Os nosos Italianos italianizam todos os nomes Estrangeiros, que lhe-chegam às maons, quando eles sam tais, que se-podem pronunciar à Italiana: e, seguindo a pronuncia Franceza, desterram da-escritura, os ditongos, e tritongos; pondo somente a letra que conresponde ao tal ditongo. outras Nasoens fazem o mesmo. Se pois em todos os tempos ouve esta liberdade; tambem se-deve praticar em Portugal. E asim parece-me escrupulo ridiculo, querer conservar em Ieronimo, o h, e y: e em Iozé, o ph &c. tudo isto se-deve evitar, escrevendo os nomes com as letras, com que-se pronunciam em Portugal.
Emfim a regra é geral, que todos os nomes de origem antiga &c. ou sejam Proprios, ou Apelativos, que estam naturalizados, e sam frequentemente uzurpados, ou por-todos os omens, como Ieronimo, Triumfo, &c. ou polo comum dos-doutos, como Filozofia, Teologia, Fizica, Metafizica, e mil outros; devem-se escrever como se-pronunciam. Os nomes ditos que nam sam geralmente uzados, v.g. Themistio, Theopompo &c. por-nam escandalizar os ouvintes, ou confundir os ignorantes, é melhor escrevelos com as letras originais. Os nomes, em que entra duvida se sam, ou nam uzados, podem-se escrever, com as letras da-sua derivasam; pois a duvida mostra, que nam é uzual. Isto digo dos-nomes, que sam puramente antigos, ou que se-derivam de linguas mortas, como a Latina, Grega, Ebraica, Caldaica &c. Quanto pois aos nomes de linguas vivas, principalmente das-linguas do-Norte, em que se-acham muitas consoantes seguidas &c. acho que é melhor, e às vezes preciza necesidade, escrevelos com todas as suas letras: porque sem isto, nam se-poderám distinguir e reconhecer, os Autores, as Cidades &c. e nacerá grande confuzam. Aquelas consoantes que a nós parecem superfluas, nam o-sam para eles, porque as-pronunciam, supondo-lhe vogais: onde tirando-as, nem os-intenderemos pronunciar, nem os-saberemos procurar nos-livros.
Esta doutrina que atè aqui establecemos, deve-se aplicar, a todos os outros cazos que ocorrerem, de quaisquer letras que se-nam-pronunciam: E asim nam é necesario repetila especialmente, em todas as palavras: pois qualquer por-simesmo pode aplicála. Onde, seguindo a ordem do-Alfabeto, deve-se desterrar o G. de Madalena &c. Polo contrario deve conservar-se em Significar, Magnifico &c. porque na pronuncia s’exprime.
A mesma razam persuade, que nenhum Portuguez deve servir-se do-H, senam quando tem diferente pronuncia. v.g. despois de c, como em Chave, despois de n, como em Minha &c., nunca porem quando se-diz, He, Hei &c. Desta opiniam foram alguns antigos Portuguezes, como Joam Franco Barreto na sua Ortografia; que quer se escrevam, sem h: e o P. Bento Pereira na sua Grammatica Linguæ Lusitanæ, que concede, que em algumas partes se-pode deixar. Muitos Portuguezes que atualmente vivem, e de mui boa doutrina, defendem fortemente, que se-exclua o h. e achei um, que somente o-admitia, quando distinguia uma disam da-outra. v.g. Ouve pode significar, teve, e também, está ouvindo: onde no-significado de teve, punha-lhe o h, para nam cauzar confuzam. Conheso, que o contexto mostra bem, em que sentido se-toma: e sei que no-Latim, á infinitas palavras, que tem terminasoens equivocas, cujo verdadeiro significado se-alcansa, polo contexto. E ainda no-Portuguez Amára, e Amará, se acazo nam tem acento, somente se-distinguem polo contexto. da-mesma sorte Cria verbo que significa, Tirar do-nada: cria verbo que significa, Produzir a terra: cria verbo que significa, Dar leite ás criansas: e cria, imperfeito do-verbo crer: nam se-distinguem senam polo contexto: o que tambem sucede em muitos outros. Digo somente, que nam condenaria, quem o-escrevese nestes cazos: aindaque eu pratique comumente o contrario. Fóra daqui, julgo que nam se-deve escrever, em nenhuma outra disam; porque todas se-distinguem mui bem, sem ese sinal de aspirasam. O Bluteau, que no-Dicionario diz, que em algumas partes se-podia deixar de pòr o h no-principio; em outros lugares porem defende, a introdusam do-h, querendose desculpar, com a lingua Italiana. Mas erra manifestamente no-que diz. porque nam só os omens mais doutos na lingua Italiana desterráram o h do-principio, e de muitas partes do-meio das-disoens, deixando-o somente despois de c, e g, como em Bianche, Vaghe; porque aqui é verdadeiramente aspirasam forte, e tem seu particular soido: mas tambem a mesma Academia da-Crusca no-seu Vocabulario Compendiado e Correto, declara, que somente uza do-h, para evitar algum equivoco. v.g. Hanno, Verbo que quer dizer, tem; de Anno, nome que significa, o ano. Como tambem em, Ho, Hai, Ha, inflexoens do-mesmo Verbo; para as-distinguir de algumas Particulas, que tem a mesma terminasam. aindaque neste cazo nam condenam, quem deixa o h. Quando muito admitem o h, em Hui, Hoi, exclamasam de quem se-queixa, ou outro semelhante monosilabo: declarando porem, que aqui, e em quatro vozes que apontam, s’introduzio por-erro antigo dos-impresores, e nam por-alguma fundada razam. O que é muito de notar: sendoque os Toscanos aspiram fortemente todos os monosilabos, semque por-iso escrevam h. Fóra destas circunstancias, nenhum Italiano douto escreve h: onde falsamente se-serve o Bluteau do-seu exemplo.
Mas, deixando o que fazem os outros, e pasando ao que devem fazer os Portuguezes, digo, que nam devem escrever h senam, quando cauza diferente pronuncia, como em Minha, Diz-lhe &c. O é quando é Verbo, muito bem se-distingue do-e Conjunsam, pondo-lhe emsima um acento. Nem eu poso intender porque razam é Verbo, deva escrever-se com h, e era, eram &c. que sam inflexoens do-mesmo Verbo, sem ele. Também o ás, á, Verbos que significam ter, mui bem se-distinguem de às, à Particulas, com a diversidade do-acento grave. Tudo isto asim distinguem os nosos Italianos, que participam mais que ninguem da-lingua Latina, e que sam mui advertidos nestas pronuncias. Onde é erro dizer, Huma, Humilde &c. mas deve-se escrever, Uma, Umilde &c. Nem é obscura a razam: basta olhar para à pronuncia, para saber, que é erro, pòr o h. Antigamente o h era sinal de uma forte aspirasam[7]. (intendo por esta palavra aspirasam, deitar para fóra o ar que se-recebeo, para refrescar o interior, e ajudar a circulasam do-sangue: o que advirto, porque me-parece, que entre muitos Portuguezes, nam é bem certa a significasam desta palavra, aspirasam) Deste final pois somente se-serviam, para suprir as letras aspiradas dos-Gregos. Onde somente s’escrevia antes das-vogais, cuja pronuncia era bem aspirada, e gutural, como adverte Cicero[8]. e talvez antes desas nam se-punha. Mas no-tempo da-pureza da-lingua Latina, nunca os omens doutos escreveram h despois de consoante: mas somente no-principio da-disam, e antes de vogal: e nam escreviam Pulcher, mas Pulcer: nam Charitas, mas Caritas &c. o que ainda oje vemos, nos-melhores manuscritos, e inscrisoens lapidares. Mas se alguma vez a-punham despois de consoante, somente o-faziam nas palavras Gregas, ou que de lá traziam origem. De que fica claro, que na lingua Portugueza, em que nam á aspirasam alguma nem forte, nem branda; nam se-deve pòr aquele sinal, que só serve de avizar o Leitor, que aquela letra deve ser aspirada. Somente do-U duvidei por-algum tempo, se admitia antes de si h: porque, a falar verdade, parece-me ser aquela letra, que em Portugal se-pronuncia, com alguma aspirasam; porque a mesma natureza da-letra o-permite. mas dezenganáram-me os meus Italianos, que, sendo tam escrupulozos observadores da-pronuncia, nam poem h antes de disam alguma, que comece por-u: falo dos-que escrevem com a ultima perfeisam. Onde nem menos os Portuguezes devem ter escrupulo, de os-escrever sem h.
Sobre as diferentes especies de II. é incrivel a bulha que alguns fazem, especialmente para determinar, quando se-deve pòr j rasgado, ao principio das-disoens. Cuido que esta grande bulha, se-pode reduzir a duas palavras. Distinguir o i vogal do-consoante, é mui necesario, para saber quando fere, ou nam fere a vogal. chamamos rasgado, ao consoante; pequeno, ao vogal; e distinguem-se pola figura. Quanto ao escrevelos ao principio, pouca dificuldade pode nacer, em quem escreve em Portuguez; vistoque rarisima palavra Portugueza comesa por-i vogal, antes de outra vogal. Onde tirando, îa Verbo, ou alguma outra rarisima, que agora nam me-ocorre; em todas as palavras Portuguezas, que comesam por-i antes de vogal, a dita letra é consoante, e deve-se escrever rasgada; ou de forma pequena, ou maiuscula, segundo a necesidade. Alguma dificuldade pode nacer, no-principio das-palavras impresas. Neste cazo nam dezaprovo, que o i de Joannes v.g. e outros semelhantes seja rasgado, para evitar alguma confuzam. Mas isto intende-se nos-nomes de fórma pequena: porque nos-de fórma grande, que é a maiuscula Romana, pouca necesidade temos de escrever i rasgado no-principio: pois com o outro, igualmente se-pronuncia bem. Quem porem em ambas as partes quizese pòr i rasgado, nam o-condenaria: principalmente se comesasem por-alguma das-duas Portuguezas, que asima aponto.
A maior dificuldade consiste em determinar, quando se-poem G, quando I, antes de e, ou i, nas palavras Portuguezas. v.g. Gente escreve-se com g: Ereje uns o-escrevem com g, outros com i, Ieronimo com i: Giro escreve-se com g: E outras vezes antes do-e &c. poem-se um j consoante. Para dar razam destas variasoens, tem alguns escrito longas paginas: mas nenhuma Regra das-que li, deixa de ter suas excesoens. Dizem, que em Gente, Giro &c. a derivasam aponta o g. concedo: mas que derivasam aponta a letra, que devemos escrever em Ereje, e outros semelhantes, que nam tem analogia alguma, com as letras da-sua derivasam? O meu parecer é este: Que os doutos, sigam a derivasam Latina, especialmente no-principio; e tanto nos-Apelativos, como Proprios, que sempre comesam por-i: tirando quando despois se-segue outro i, que entam é melhor, converter o primeiro em g, como Ginja. Que no-meio, uzem mais do-g, que do-i: vistoque nisto tambem á diversidade, ainda nos-que derivam do-mesmo Latim. Mas, nam se-lembrando da-derivasam, &c. posam servir-se indiferentemente de ambas. Os ignorantes sigam o costume e a pràtica, dos-que melhor escrevem. Nem devemos admirar-nos, se em alguma letra nem todos concordem: nam sendo posivel, que convenham todos, em materia tam duvidoza e arbitraria.
Tambem sobre as terminasoens, am, e aõ, fazem alguns longuisimas disputas, e mui superfluamente. Confesa o Bluteau na sua Proza Apologetica, que ja saîram livros inteiros, para deitar fóra o aõ: e que outros lhe respondèram dizendo, que o til nam era letra, mas risco. O Bluteau protege a pose do-aõ. mas declara, que o til supre a letra n: e defende constantemente, que nam se-deve tirar o til, porque a terminasam aõ, segundo ele diz, é mais engrasada, que o am; e por-este motivo deve-se conservar: muito mais porque seria necesario tambem, desnaturalizar as palavras, Birimbao, Catimbao, Pao, &c. Mas o Bluteau nesta materia, deixou-se guiar por-alguns prejuizos. Dizer, que o til é risco, e nam letra, é o mesmo, que nam dizer nada. O certo é, que este risco faz, que eu pronuncie um n demais, que as letras que ali vejo: onde, chamem-lhe como quizerem, é um verdadeiro n. Dizer, que a terminasam am, é diferente na pronuncia, de aõ, é outro engano: pois em qualquer disam Portugueza, que se-ache a terminasam am, todos a-pronunciam como aõ: e Portuguezes mui doutos servem-se indiferentemente de ambas: e cuido que com muita razam; se è que a segunda se-deva tolerar.