Os que contrareiam isto, nam intendem bem a materia; nem d’onde naceo, esta particular pronuncia em aõ. Quem bem considera o ponto, reconhece facilmente, que aquele til, é um rigorozo m final: e deveria escrever-se, Falaom: porque escrevendo-se desta sorte, e pronunciando-se depresa, faz o mesmo soido, que Falaõ. Daqui naceo, aquela particular terminasam em aõ dos-Portuguezes: porque com a presa de pronunciarem, tocam tam de pasagem o o; que nam se-ouve mais, que o m: o qual, em vez de o-pronunciarem com os beisos fechados, que é a sua propria pronuncia; pronunciam com um soido fanhozo do-nariz: que é o estilo prezente de pronunciar todo o m final, em Portugal: nam avendo aqui m, que se-pronuncie como deve ser. Alemdeque bastava alguma reflexam, para conhecer isto; acha-se manifesta razam, para o-persuadir. A plica ou til, deve significar alguma letra: de outra sorte seria superflua, e nam produziria algum efeito. Esta letra só pode ser m, ou n, e ambos finais: porque de outra sorte sería, Falamo, ou Falano: o-que nam pode ser. Onde fica claro, que Falam, é uma sincope de Falaom: e que tanto se-pode escrever um, como outro. Reconhece-se isto melhor nos-plurais. v.g. Maõ, faz maons: Varaõ, varoens: nos-quais declaradamente se-ve o m, ou n, segundo a pronuncia. E eu creio, que antigamente nestes plurais, em vez de n, punham m; e que a dificuldade de pronunciar o m junto com o s; ou o som do-nariz, que pouco a pouco se-foi introduzindo no-m, o-converteo em n nestas terminasoens: pois ainda oje escrevendo-se com um m final, a pronuncia o-faz parecer, como n. O que, como dise, é um idiotismo particular dos-Portuguezes.
E esta é a razam, porque os Estrangeiros, nam podem pronunciar bem estas dezinencias; que na verdade sam feias, e asperas terrivelmente: porque nam á quem lhe-explique, que o til de aõ, é um m, que os Portuguezes, por-corrusam, pronunciam como um n; nam só no-fim, mas ainda no-meio das-palavras. Reconheci isto por-experiencia: pois tantoque dei esta explicasam a alguns, e mostrei o vicio da-linguagem; pronunciáram melhor, que os outros. Daqui concluo, que as ditas terminasoens, aõ, e am, podem-se uzar indiferentemente; vistoque uma é sincope da-outra: tendo introduzido o uzo, nam pronunciar na segunda, o o. Onde dise um erro Inacio Garcez Ferreira, e alguns outros, quando quizeram defender, que estas dezinencias eram diferentes no-soido: e quando ele lhe-chamou, sincopes das-Castelhanas. E nam sei, se confirma tambem o que ate aqui dise, ver, que na Provincia de Entre Doiro, e Minho, ainda oje se-pronuncîa, em muitas destas palavras, o o; pois dizem, Tabaliom, Escrivom &c.
Mas eu digo mais, e asento, que aindaque uma seja abreviatura da-outra, emportava muito à lingua Portugueza, que se-deitase fóra o til, e a terminasam aõ, escrevendo-se tudo extensamente: e uma de duas, ou que se-escrevese Falaom; ou, abreviando, Falam. Introduzir a primeira escritura, serîa mais dificultozo; porque estes amigos nam querem reformas utis: e asim será melhor, preferir a segunda am, que ja está recebida em Portugal. Certo é, que quando os Portuguezes escrevem, a dita terminasam am, pronunciam aõ: e tambem é certo, que muitos omens doutos servem-se da-primeira terminasam. Este modo de escrever, encostava-se mais para a pronuncia: e com ele se-evitavam confuzoens. serîa também a lingua mais facil de ler, e pronunciar, aos Estrangeiros: pois bastava advertir-lhe, que entre, o a e m, deve-se pòr um o, e pronuncialo depresa. Advertimos porem, que aindaque os Portuguezes tenham, esta pesima pronuncia na sua lingua; quando porem pronunciam a dita terminasam am, no-Latim; devem pronunciala com os beisos fechados, como em seu lugar advertiremos: poisque a lingua Latina nam está sugeita, às suas leis.
Querem alguns, que em Tempo, e outras palavras, em lugar do-m, se-ponha n, porque asim soa. Cuido, que dizem mal: porque aindaque alguns pronunciem o dito m, como n, pronunciam muito mal; pois nesta voz muito bem se-ouve o m, e em outras tambem. E aindaque em outras partes, nam seja tam sensivel o m, deve conservar-se: pois se ouvesemos de tirar todos os mm, que nam se-explicam bem, poucos mm ficariam em Portugal. Em Contigo, Consigo &c. podem tiralo. Contudo quem o-quizese tirar em todas as outras, nem por-iso o-condenaria como erro.
A terminasam an, tambem cauza duvidas, a muitos Portuguezes: e eu julgo, que nam deve ter nenhuma. Acham-se omens que asentam, que nam á tal terminasam no-Portuguez, e defendem isto, com muita forsa. Se disesem, que a terminasam an, antigamente era am, nam diriam mal: mas querer defender, que oje nam á tal terminasam, é dizer um erro. Distinguem-se oje os nomes Femininos, dos-Masculinos, com esta terminasam. Vg. Vam, e Van: Irmam, e Irman. Nem me-digam, que o til é risco, e nam letra: pois ja asima mostrei, que o til é uma letra; e que a pronuncia ensina, que á-de ser n. Por-esta razam concluo, que será necesario, pòr o dito n expreso, deitando fóra o til. Muitos Portuguezes doutos seguem esta opiniam: os quais rim-se de Duarte Nunes, que queria se-dobrasem os aa, dizendo Vaã, Menhaã.
Sobre o P, ja asima dise, que nam se deve escrever ph por-f: Agora digo, que nem menos se-pode sofrer, o que muitos fazem, pòr p, antes de t, em muitas disoens. vg. Prompto &c. Esta é uma afetasam pouco toleravel: vistoque a pronuncia Portugueza, tem ja desterrado este p. Onde nam é a mesma razam do-b, ou do-g, ou do-d, que se-conservam nas palavras, Obscuro, Significo, Adverte: porque este, ouve-se mui bem: e o p, nam se-ouve sem afetasam. E nam falta quem diga, que nas duas primeiras palavras tem ja introduzido o uzo, deixar aquelas letras na pronuncia: o que eu nam condeno: como nem menos condeno, quem as-pronuncîa. Pode ser que com o tempo, se-deixem totalmente.
Quimera por-Chimera, defende Bluteau, e alguns outros: eu julgo, que sem razam alguma; sendoque o qui, tem mui diferente pronuncia, doque a que se-ouve na palavra, Chimera. Ja asima dise, que a quem nam agrada, escrever estas palavras, por-ch, é melhor, uzar o k dos-Gregos, doque o qui; que tem em Portugal diferente pronuncia, na qual expresamente se-ouve o u.
Introduzio o uzo em Portugal, dobrar os rr, quando tem pronuncia forte: e parece-me que este uzo se-deve observar, nam fazendo cazo, do-que aconselham alguns, que um só r bastava.
Nam poso sofrer, que o Bluteau na sua Proza Gramatonomica, queira introduzir, no-principio das-palavras Portuguezas, o s antes de consoante: e escrever, Squeleto, Spasmo, Scena, Sciencia &c. Esta corresam é tam fora do-escolio, que nenhum Portuguez, que nam seja Latino, saberá pronunciar aquele s, no-tal lugar: e o que souber Latim, será necesario, que pronuncie um e mui redondo. A razam disto é, porque o s Portuguez, que nam é final, é um verdadeiro sibilo ou letra sibilante, que faz ouvir a vogal ou antecedente, ou consequente. e asim, querer escrevela sem vogal, é mudar a pronuncia da-letra, e é fazer uma ridicularia, fundada unicamente em querer mostrar, que sabe a derivasam daquelas palavras. Abrasáram algumas pesoas cegamente, a opiniam do-Bluteau: mas nem por-iso dam razam, ou fazem autoridade nesta materia. Onde, antes de consoante, nunca se-deve escrever s simplez.
Deve-se com cuidado distinguir o u vogal, do-consoante v, ou v, para nam originar duvidas. O que muitos nam fazem, ainda prezados de doutos: pois vejo escrituras deles, que merecem compaixam. Isto porem nam só no-Portuguez, mas ainda no-Latim é necesario: Pois aindaque antigamente, (que os Romanos escreviam com letras maiusculas) todos os vv tinham a mesma figura: oje que, com muita razam, se-introduzio esta necesidade, devemos, no-carater pequeno, distinguir na figura estas duas letras, asimcomo as-distinguimos na pronuncia. E fazem mui bem os Alemaens, que, ainda nas letras maiusculas, distinguem o vogal, do-consoante, nos-livros impresos.