Diz Alvaro Ferreira Vera, que nenhuma disam Portugueza, deve acabar em x. Muitos porem acabam em x algumas palavras, e entre elas, Felix, Simplex &c. O que eu sei é, que a pronuncia Portugueza acaba em x, todas as palavras que acabam em s: quero dizer, que todo o s final pronunciam como x. de que nam quero outra prova mais, que cada um observe, como pronuncia o s final; e que diferensa tem do-s, que pronunciam no-meio das-disoens. O que suposto, se seja mais util, acabar em x, o que se-pronuncia como x, ou pronunciar diferentemente os ss finais; eu o-deixo considerar a V. P. Mas deixemos o s, na sua pose: observo, que nam só o s final se-pronuncîa como x, mas também o z final: o que V. P. pode ver em, Diz, Luiz, Fiz &c. E daqui cuido que naceo a facilidade, de pòr o z, em lugar de s final, naquelas vozes de que se-formam outras: como, Diz, dizes; Faz, fazes; para por-este meio fazer os plurais, somente com acrecentar es. O que eu nam condeno, mas antes aprovo, e pratîco com o exemplo, e com a razam: e cuido asim se-deve fazer. Nesta letra é digno de atensam, o demaziado escrupulo de alguns, que magistralmente decidem, que o x tem diferente pronuncia do-ch, antes de e, ou i: e que é erro dizer, Xapeo; mas que se-deve pronunciar, Chapeo, carregando muito no-ch, para o-distinguir do x: e advertem, que é erro da-pronuncia da-Estremadura, pronunciar o ch, como x. Mas, sem fazer cazo da-decizam destes Senhores, julgo, que devemos continuar, na pronuncia da-Estremadura. Nam digo, que na escritura convertamos o ch, em x: deixo as coizas como se-acham: só digo, que na pronuncia, nam á diferensa entre uma, e outra letra. Em materia de pronuncia, sempre se-devem preferir, os que sam mais cultos e falam bem na Estremadura, que todos os das-outras Provincias juntas. Ora é certo, que os ditos pronunciam docemente como um x: e nem só eles, mas muitisimos de outras Provincias, tem a mesma pronuncia. Somente alguma diversidade achei nos-Beirenses, que batem mais o dito c, encostando-se à pronuncia Romana do-c. Mas seja como for, estas nam sam razoens, para persuadir um omem, a que pronuncie o dito ch, diferentemente do-x: quando a pronuncia comua está a seu favor: a qual por-iso mesmo que é mais suave, deve ser preferida à outra. E saiba V. P. que notei outra coiza, e vem aser, que os que querem pronunciar o ch, nam como x, esforsam-se desorte, que, na violencia comque pronunciam, mostram bem, que nam é esa a sua pronuncia. O dizer, que se-devem distinguir na pronuncia, nem menos persuade: porque eles mesmos admitem que s, e c, antes de e, e i, pronunciam-se da-mesma sorte: onde nam tem que se-escandalizar. E asim o dizerem eles, é erro, nam faz forsa: devemos responder-lhe, que eles sam os que erram. Advirto porem, que no-meio das-disoens introduzio o uzo, nam pronunciar o x, como no-principio; mas segundo o estilo Latino, como se fose um cs brando, tocando ligeiramente o c: v. g. em Reflexam, Conexam &c. porque asim é mais suave. mas Paixam, ainda se-conserva em toda a sua forsa; e nam sei qual outro.

O Y tem tantos apaixonados, principalmente entre os modernos Portuguezes, que quazi abuzam dele: e acham-se livros, em que sam mais os yy, que os ii: especialmente o Curvo na sua Atalaia da-Vida, e alguns outros. O Bluteau, seguindo a Bento Pereira, diz, que se-deve admetir nas palavras, para mostrar a origem remota delas, principalmente do-Grego &c. Como se sem esta noticia, nam pudesemos saber Portuguez! Tomára porem que me-disese, se Meio, Cuidado, Saia &c. em que poem o tal y, tem alguma analogia com a origem. Outros dam outras razoens, que nam merecem reflexam, nem resposta: O certo é, que esta vogal antigamente valia o mesmo, que o u, ou tinha um soido mais semelhante a u, que a i. onde se a-quizer-mos tomar, no-seu antigo vigor, faremos uma voz desemelhante, à que queremos pronunciar: e se acazo deve valer um i simplez, tomára que me-disesem, por-qual razam a-poem, onde nam é necesaria. Daqui vem, que é erro escrever, Meyo, Ley, Hey, Rey &c. tudo isto se-deve escrever sem y, porque nam sam nomes Gregos, mas puros Portuguezes. Onde nam só os Portuguezes, mas os mesmos nomes Gregos, quando estam bem aportuguezados, como Idropezia, Ulizes &c. se-devem escrever sem y. Confeso, que nam pude sofrer o Bluteau, o qual, seguindo ao Pereira, quer, que a vogal i nam seja suficiente, para fazer ditongo com a, dizendo, Pai, Dai, &c. mas que seja de necesidade pòr o y, para o ditongo. Este parecer nam necesita de confutasam: pois quemquer conhece, que com ai, se-pronuncîa, da-mesma sorte que ay: onde o uzo serve de resposta; e nam temos necesidade do-y, para fazer o mesmo, que fazemos com o i.

Paso daqui ao Z, aquela letra desgrasada, que teve a infelicidade de dezagradar, à maior parte dos-escritores Portuguezes deste seculo: os quais nam só a-desprezáram, para introduzir em seu lugar o s; mas alguns deles com decreto asentáram, que se-devia desterrar do-meio das-disoens, e prover o seu lugar no-s. Estes Senhores escrevem quazi tudo com s. Achará V. P. em alguns dos-bem modernos * * * Cezar, Fazer, Quizeram, Miudeza, Reduzir, Fazenda &c. tudo escrito com s. Entre eles achei um, de mui boa fama, que em uma orasam * * escreve, Alteza, Solenizado com z: e pouco abaixo, Usurpáram, Lisonja com s. poem Riqueza, e logo Luminoso, Profusam. poem Fazem, e logo Religioso. Emfim a maior parte destes modernos doutisimos escrevem, Alteza, Luzes, e outras poucas palavras com z: e tudo o restante, em que devia entrar o z, vai com s. O Vieira, e outros, que nam admitem tantos ss, contudo em algumas disoens seguem o mesmo, e escrevem vg. Brazil, com z, e Reside, com s. Mas eu creio, que é necesaria mui pouca meditasam para conhecer, que todos estes erram. Os Portuguezes tem a pronuncia do-z asperisima: que creio lhe-ficou, da-comunicasam com os Moiros, e Arabios, que abundam muito diso: e eu acho em Portugual, muitos vocabulos destas Nasoens. Onde tendo o s, e z, diferentisimas pronuncias, é erro sem desculpa, pòr o s, em lugar do-z, quando este deve ter toda a sua forsa, como no-principio, ou meio das-disoens. Dezafio todos os Portuguezes, paraque pronunciem estas palavras diferentemente, vg. Luzes, e Lizonja; Abrazado, e Plauzivel; Riqueza e Religiozo. nam averá algum que se-atreva a dizer, que nas primeiras se-ouve z, e nas segundas s: mas em ambas as partes se-ouve um z mui grande, e gordo. Sendo pois esta pronuncia particular na lingua Portugueza, acha V. P. que se-pode sofrer, desterrar todos os zz, para introduzir uma letra, que soa diferentemente? a isto chamo eu destruir, nam emendar, a boa Ortografia. Alem diso, eu acho em Portugal motivo, para dizer o contrario. ponhamos exemplo nestas duas palavras, Azeite, e Aceite; ou tambem, Razam, e Raçam. Ninguem dirá, que estas duas palavras soam da-mesma sorte: porque em tal cazo nam averia motivo, para as-distinguir na pronuncia. todos tambem conhecem, que o c, com cedilha ç, antes de vogal, pronuncia-se como s; e que por esta razam muitisimos Portuguezes indiferentemente uzam delas. Daqui pois segue-se, que se z, se-deve pronunciar como s, os ditos pares de vocabulos devem pronunciar-se da-mesma sorte. Mas sem eu perguntar isto a omens doutos, mas somente ao leigo da-cozinha de V. P. sei que me-responderá, que Razam, e Raçam, sam coizas mui diferentes: Azeite, e Aceite, nam menos: E asim nam tenho lugar de duvidar, que, pronunciando-se diferentemente, devem tambem escrever-se, com letras diferentes. Se concedem, que o z se-deve conservar, em algumas vozes, como todos concedem; que razam á, para o-nam-conservar nas outras? Se dizem, que o dito s se-deve pronunciar como z, merecem rizo quando querem pòr aquele por-este. ou deitem fóra esta letra do-alfabeto; ou escrevam-na onde deve entrar. Fazer o contrario, é destruir a pronuncia da-lingua, ou batizar de novo as letras.

Somente porei z em lugar de s, no-fim de algumas disoens, de que se-formam outras, como asima dise: porque o uzo introduzio esta pronuncia do-z, semelhante ao s. o que suspeito que provèm de uma Apocope, que se-acha nas tais palavras: e que antigamente despois do-z se-punha uma vogal: como á exemplo em muitas linguas, e também na Portugueza.

Lendo eu a este intento o Bluteau nos-opusculos,[9] fiquei confirmado, que poucos omens pensam bem, ainda dos-que tem bom nome. Confesa, que muitos eram de parecer, que s’escrevese Filozofia, sem ph: e que sempre se-avia de seguir a pronuncia, pois era esta a maior excelencia do-Portuguez; no-qual as letras dobradas eram inutis. Que desta opiniam era Duarte Nules de Leam, & Joam de Barros, nas suas Ortografias; e outros muitos autores, que escrevèram da-lingua. Contudo diz, que na Academia do-Ericeira se-asentára, que nem sempre se-devia escrever como a pronuncia: Mas aqueles nomes que conhecidamente encerravam origens sem corrusam, s’escrevesem como na sua etimologia, quando as letras nam fosem como a pronuncia: e asim Coro, e nam Choro: Monarquia, e nam Monarchia: E que os zz s’evitasem muitas vezes, servindo-se do-s. Confeso a V.P. que nam pude ler isto sem rizo. Eu nunca li as obras do-Leam, ou Barros, nem me-cansei em buscalas: mas agora fico formando melhor conceito deles. Polo contrario nam sei, quais eram os votantes na dita conferencia: porem olhando para o que asentáram, formo mao conceito do-seu juizo: pois conhecendo a razam, e tendo bons autores, que os-apadrinhasem; ainda asim quizeram seguir os prejuizos e preocupasoens que mamáram, somente por-serem antigas. Isto certamente nam é emendar a Ortografia. O pior é, que o Bluteau conhecendo isto mesmo, como em algumas partes confesa, deixa-se guiar da-corrente. Asima mostrei, que Monarchia, deve-se escrever com ch, vistoque asim escrevem Archanjo os contrarios &c. e nam tem divesa razam, sem cairem em uma superfluidade. Devendo pois desterrar o ch, é melhor servir-se de k; mas nunca de q. O mais tambem ja fica advertido.

Certamente que o dizer o Bluteau, que nos-nomes se-deve observar, a Ortografia da-derivasam, como em Philosophia &c. porque de outra sorte nam se-saberám buscar nos-Dicionarios; é reflexam que merece rizo: porquanto as derivasoens, só as-procuram os doutos: e estes bem as-sabem. os ignorantes, nem asbuscam, nem necesitam de buscalas, aindaque queiram falar, e escrever puramente.

Até aqui tenho feito algumas reflexoens, principalmente sobre as coizas, que se-devem deixar: agora farei outras, sobre as que se-devem acrecentar. Nam cuide V. P. que estas sam de menor momento nesta materia: antes muitas vezes delas depende o aumento, a pureza, e elegancia da-lingua. Ponho em primeiro lugar os Acentos: que creio, sam indispensavelmente necesarios, para distinguir muitas palavras. Nam podemos sem eles saber, se Amara, é preterito, ou futuro: e damesma sorte em outras muitas palavras. Tambem para distinguir os Nomes, dos-Verbos, vg. Pronuncia nome, de Pronuncîa verbo. Asimque este deve ser todo o cuidado dos-mestres: que devem advertir aos discipulos, em que partes se-devem pòr, para bater com mais, ou menos forsa as vogais, e distinguir os tempos, e as vozes: vistoque os Portuguezes nam tem letras dobradas, que antigamente serviam a outros, para mostrar as diferentes pronuncias. Porque eles com as dobradas, pronunciavam diferentemente: e os Portuguezes, tirando em pouquisimas palavras, pronunciam como se estivese uma simplez letra.

Nam ignora V.P. que as virgulas, pontos, e dois pontos, foram inventados, para distinguir melhor o discurso. Este é um dos-defeitos da-antiga escritura, que tinha poucos sinais destes: e por-iso é às vezes bem embrulhada. Muitas vezes verá V.P. um ponto, despois de cada palavra: o que faz grandisima confuzam. Outras vezes, o lugar em que punham o ponto, mostrava a diversidade da-pontuasam: quero dizer, que o polo na cabesa, ou no-corpo, ou no-pé da-letra, mostrava que era virgola, dois pontos, e ponto. E como nam temos documentos bem claros, ainda oje vareiam muito os Gramaticos no-determinar, quando era ponto, e quando virgula &c. Com efeito eu vi uma lapide antiga, na qual os pontos todos estavam em um mesmo sitio, no-corpo das-letras: o que aumentava a confuzam. Os Modernos mais advertidos inventáram estes diversos sinais, para nam nos-enganar-mos nas pauzas, e no-sentido do-discurso. Mas ainda nisto procedèram devagar: e eu vi livros impresos nos-primeiros tempos, quero dizer, nos-fins do-seculo XV. e principios do-XVI. nos-quais nam avia mais que virgulas, e todas damesma figura: o que aumentava sensivelmente o embaraso: sendo necesario um grandisimo estudo, para distinguir os sentidos. E isto se-pratîca ainda oje nos-originais das-Bulas Romanas, escritos sem virgulas, nem pontos: os quais quem nam é pratico dos-estilos da-Dataria, nam pode ler; nam só polo carater Gotico, mas pola Pontuasam. Os Modernos evitáram isto, com a diferensa de figuras. Onde sendo os Acentos, os que tiram a confuzam à pronuncia, e ensinam, como se-devem distinguir as partes do-discurso; valem infinito preso, e devem praticar-se com cuidado. Nam digo, que escrupulozamente pratiquemos as trez sortes de acentos: pois nem os mesmos Romanos se-serviam muito do-circumflexo, que com o tempo perdèram. basta uzar do-agudo, que se-escreve asim (´) para bater mais as silabas: do-grave neste modo (`) para as particulas, que se-tocam menos: em algum cazo quem quizese podia pòr o circumflexo sobre o î, para dar lugar ao ponto desima. Ifto é o que basta.

Aos acentos seguem-se as linhas, que se-escrevem entre as disoens, para as-juntar, ou dividir na pronuncia. Os Ebreos tambem tinham estas linhas, e alguns Povos Europeos. Algum Portuguez a-uza. mas serîa justo que a-uzasem mais, e com regras determinadas: pois ajuda muito a pronuncia, e distingue muito as disoens, principalmente as compostas. Julgo, que se-deve uzar naquelas, que compoem duas palavras perfeitas, que costumam estar às vezes separadas. v.g. Fazemos-lhe, lhes-fazem, nos-dizem, dizem-no &c. Com isto se-mostra, quando os Pronomes unem com os Verbos, nam só no-sentido, mas na pronuncia: e finalmente, quando muitas disoens na pronuncia compoem uma. Deve-se tambem pòr entre a Particula se, quando é Pronome, e o Verbo. v.g. Se se-fizer. o primeiro se, é Conjunsam condicional: o segundo, é Pronome, e une com o Verbo. Onde a dita linha é de grande utilidade, para mostrar as palavras, que devem pronunciar-se unidas. v.g. o Nos, algumas vezes é Nominativo, Nós fazemos; e pronuncia-se separado, e com acento forte: outras vezes é Cazo, v.g. nos-fazem: o que se-distingue mui bem com a dita linha. Tambem às vezes serve, para distinguir os tempos. v.g. Amáse preterito, e Ama-se prezente, com esta linha se-distinguem: porque esta separasam de vozes mostra, que, quando chegamos ao a, deve correr a pronuncia, para apanhar o se: que é o mesmo que dizer, deve nam parar no-a, nem carregalo: no-que se-distingue o tempo. Sei, que com os acentos se-podem distinguir estas coizas, digo, este ultimo cazo; e por iso digo, que ou uma, ou outra coiza se-deve praticar: aindaque eu, por-intender que sam necesarias, pratîco ambas.

Quanto ao se, nam só deve ter linha, quando se-une imediatamente ao Verbo, mas tambem quando s’interrompe com a Particula negativa. v. g. se-nam-faz, quando vale o mesmo que, nam se-faz. porque aindaque a Particula paresa que separa; contudo no-dito cazo a negasam é unida ao Verbo, e faz com ele um só corpo, e sentido: damesma sorte que entre os Latinos, a particula in unida aos Verbos. Onde a separasam, é somente quanto à vista: e as duas linhas ensinam, que se-deve pronunciar tudo, como uma só palavra. Serve às vezes a dita linha nam só para unir as palavras, que ese é o seu principal fim; mas para evitar os equivocos. E asim poem-se na Particula Por, quando significa cauza &c. para distinguila do-Verbo Pôr. tambem nas Particulas no, do, da, para as-distinguir dos-Sustantivos , e , e do-Verbo , ou dás. Em todas estas, e outras semelhantes, milita a mesma razam. nas quais porem será justo pòr acento, quando deve ser.