Em outras partes tenho visto uzar estas linhas, que nam me-parecem de tanta necesidade. v.g. Fazemos: que algum douto escreve: Faze-mos: ou tambem quando uma consoante se-converte n’outra, para evitar o concurso de muitas vogais: v.g. Fazé-la, Amá-la, que vale o mesmo que, Fazer-a, Amar-a. Mas nestas primeiras pesoas do-plural parece escuzada, porque se-intendem muito bem, e estam muito em uzo. E o mesmo julgo, dos-segundos exemplos: muito mais porque nestas em que vai La, muitas nam se-acham separadas às vezes, v.g. Quere-la &c. Mas quem nestes segundos exemplos ateimáse a praticala, nam faria erro. O que porem me-parece afetasam é, querer separar esta voz Mente, dos-nomes com que faz Adverbio: Pia-mente, Antiga-mente &c. Na pronuncia destas disoens, nam pode aver engano: e quem as-separa, intende mal as coizas.

Podem opor-me uma dificuldade, vem aser, quando se-dividem as palavras no-fim das-regras, como á-de conhecer quem copeia, se na seguinte regra deve pòr a palavra inteira, ou com a dita linha. Mas a isto respondo, que se-conhece muito bem deste modo: se as palavras se-dividem por-necesidade da-regra, poem-se no-fim duas linhas asim =: quando se-dividem na divizam da-linha, basta pòr uma só linha. Primeiro exemplo asim: Fa=zia: segundo exemplo: Faz-me. Se no-fim da-regra se-acha o Fa= com duas linhas, é sinal que na imprensa, ou copia deve ser inteira a disam: se tem só uma linha, sucedendo ficar toda a disam na seguinte regra, deve ter tambem a linha: e isto é facil de praticar.

Creio que será mui justo, introduzir na lingua Portugueza, os Apostrofes: que sam umas virgulas, que se-escrevem no-alto de uma consoante antes da-vogal seguinte; para mostrar, que falta uma vogal, e que a consoante se-deve unir na pronuncia, com a vogal da-seguinte disam. Digo na proza, porque no-verso o Camoens, e outros ja os-introduzîram. Os nosos Italianos introduzîram os Apostrofes, para abreviarem as disoens: vistoque, comendo-se as ditas vogais na-pronuncia, é superfluo escrevelas: bastando ali pòr o sinal, de que deveriam estar. O mesmo fazem os Francezes: e cuido que, sem alguma censura, o-podem introduzir os Portuguezes. Onde será permetido escrever, Amor d’ Antonio: Cam d’agua &c. A razam disto é, porque ou na proza, ou no-verso nam se-faz cazo daquela primeira vogal: e asim podemo-nos dispensar de a-escrever. Em 2. lugar, porque nam se-perde com isto o sentido, nem se-faz equivoco. Em 3. porque faz a pronuncia mais doce. o que principalmente se-conhece, quando as vogais sam semelhantes: no-qual cazo pronunciar dois ee, ou dois aa, é aspero, e cansa. Asim cuido, que neste cazo, é necesario; nos-outros, mui agradavel o Apostrofe. Nem isto é tam novo em Portugal, que nam se-achem vestigios desta uniam na pronuncia: antes nam á coiza mais frequente. Considere V.P. estas palavras, Deste, Daquele, Damesma, e outras semelhantes; e verá nelas o que digo. Antigamente escrevia-se, De este, De aquela, De a mesma &c. o que facilmente alcansa quem considera, o que vale aquele d, e com que motivo se-introduzio. Mostrou a esperiencia, que, pronunciando estas particulas separadas, ficava aspera a pronuncia: e asim deitaram-nas fóra até da escritura. O que suposto, o que eu aconselho é, que pratiquem com as outras disoens, que se-unem na pronuncia, o mesmo que tem praticado com estas: e que em ambas as partes ponham o Apostrofe, para mostrar a vogal que falta; e com isto ensinar melhor a compozisam das-disoens, sabelas conhecer, e buscar. Apostarei eu, que de dezmil omens Portuguezes, a um só nam veio nunca à imaginasam, que Deste &c. é composta de De, e Este. Proguntei isto a alguns, e nam me-souberam responder: e contudo serviam-se indiferentemente destes termos. Eu teria uzado mais amiudo dos-Apostrofes: mas como ainda nam estam bem introduzidos, temo que me-nam-intendam. pouco a pouco devemos acostumalos a isto.

Outra coiza tenho que repreender, na maior parte dos-Portuguezes, e vem aser, que dividem muitas disoens, que deviam estar juntas. Vg. escrevem, Ainda que, Para que, Com que, Por que, e outras conjunsoens semelhantes. Mas erram, porque aquelas palavras quando se-seguem umas a outras, devem estar unidas, e fazem uma só palavra: e até isto pode ser necesario, para fugir de equivocasoens. Se eu diser: Para que omem me-manda! Com que razam me-persuade! neste cazo o que, é Relativo. e deve estar separado. Mas quando significa o mesmo, que etsi, ut, igitur, quia, como nas quatro asima apontadas; deve estar junto: o que servirá muito, para os-distinguir ambos. Isto mesmo praticáram os Romanos. Attamen, Etenim, sam compostos de At, tamen; Et, enim. Quamobrem é composto de trez disoens, nenhuma das-quais é Adverbio: e contudo juntas fazem de muitos nomes um. E isto mesmo devem fazer os Portuguezes nestas disoens indeclinaveis: e ainda algumas vezes nas declinaveis, que se-unem com o Articulo &c. o que o uzo ensinará; e a pratica dos-omens doutos confirmará.

Tambem sobre os Plurais serîa necesario, establecer um uzo constante. O P. Bento Pereira diz, que o plural de al, é ais, e nam aes. e parece que tem razam; porque a pronuncia mostra um i, e nam um e. Mas nisto á tanta variedade, que uns escrevem ais, outros aes: e o pior é, que o mesmo escritor serve-se às vezes, d’ambas as terminasoens. Um destes é o Bluteau: que, tendo aprovado na Proza Gramatonomica a opiniam do-Pereira, contudo escreve Misaes, e outros plurais semelhantes. Mas ja adverti, que o Bluteau é inconstante na Ortografia. Mais controversos sam, os que acabam em er, como Chanceler, cujo plural querem muitos que seja Chancereis: e nisto tropesa muita gente boa. Cuido, que é mais proprio, e mais chegado à analogia, Chanceleres: e asim todos os mais. Damesma sorte Almiscar, deve fazer, Almiscares. Tambem é mui duvidozo o plural de Simplez, como tambem Feliz. Muitos escrevem o primeiro com x, em ambos os numeros: o que aumenta a confuzam. Outros escrevem no-singular, Simplice: que parece afetasam vergonhoza. Ou acabe em s, ou z no-singular, o plural deve acrecentar somente um es: v.g. Simpleses, ou Simplezes. O mesmo digo, dos-que afetam dizer no-singular, Felice, e plural Felices. Digo, que no-singular deve-se dizer Feliz, ou com s, ou z; e no-plural Felizes: e asim dos-mais. as palavras Indice, e Index, ja oje se-recebem indiferentemente em Portugal. Que Brazil, fasa Brazis, está muito bem: mas que Malsim, Beleguim, fasam Malsis, Beleguis, como querem alguns; é contra a pronuncia boa, que mostra um n mui claro. E asim estes em im, devem acabar em ins, Malsins. Os outros plurais em aons, aens, e oens, é facil determinalos; advertindo as anomalias que se-acham nas tais regras, que nam sam poucas.

Mas nam pára a qui a reforma: deve-se dar um paso mais adiante, e acrecentar muita coiza, em que é defeitoza a lingua Portugueza. Consiste a primeira, em adotar algumas palavras Estrangeiras, para explicar melhor o que queremos. Nam acho em Portugal palavra, que explique a idea que formam os nosos Italianos, (e ainda os Francezes) quando proferem esta palavra, Penso: dizendo, Um omem que pensa bem: Que pensa mal &c. Dizer, Ajuizar, nam explica: porque ajuizar é uma especie de Pensar; mas nam compreende tudo quanto diz, Pensar. Nem menos serve, Considerar: porque considerar é o mesmo que Meditar, Examinar uma materia; e Pensar diz mais. Um meu amigo, para dezatar este nó, servio-se de Pensamentear: mas parece afetado. É mais proprio e natural, servir-se do-Verbo Pensar, que compreende todas as operasoens do-intendimento. Onde, diremos que um omem Pensa bem, quando se-serve de todas as qualidades da-mente ou intendimento, como deve ser.

A mesma dificuldade pode nacer em outras palavras. Aqui confundem Iuizo, e Intendimento: sendo coizas muito diferentes. porque cada nome destes distingue uma particular faculdade da-alma, esta de intender, aquela de julgar. A estas duas unem outras duas, Ingenho, e Talento: as quais nam só sam diferentes das-ditas, mas entre si. Ingenho, somente explica a facilidade que temos, para unir diferentes ideias, de um modo que eleve. Talento, significa a capacidade tanto de intender, como de julgar, e discorrer. Serîa bom, que se-distinguisem estes significados, e se-explicasem aos rapazes, para nam confundir as palavras. Parece-me, que para explicar aquilo, a que os Latinos chamam, Mens, Intelligentia, e algumas vezes Intellectus, se-podia adotar em Portugal a palavra Mente, como fazem os nosos: a qual explica melhor tudo. O uzo tem introduzido, que Intendimento seja sinonimo de Mente.

A estas se-podiam ajuntar outras muitas palavras Estrangeiras, que explicam melhor o que se-quer dizer; principalmente quando se-trata de Artes e Ciencias: cujos termos é necesario uzar, mas com cautela. Nam digo, que se-devam adotar cem mil termos Latinos, que no-Portuguez sam inutis: antes condeno isto muito em bastantes Portuguezes, que enchem os seus escritos, de mil palavras Latinas sem tom nem som, somente para parecerem eruditos. Este é aquele vicio dos-pedantes ou ignorantes, a que os nosos chamam, Pedanteria. O que digo é, que nam avendo termo proprio em Portuguez, se-pode, e deve buscar fóra: e muitas vezes pode-se buscar fóra, nam tanto por-preciza necesidade, quanto para maior ornato da-lingua: aqual é justo que nam seja tam pobre, que nam tenha algumas ocazioens dois ou trez sinonimos, para explicar as mesmas coizas: outras vezes para adosar a pronuncia aspera de algumas vozes antiquadas: e fazer seja mais bela, e mais suave a lingua materna. Mas aqui é que está o juízo, em sabelos adotar sem afetasam. Porei um, ou dois exemplos. Em Portugal nam á nome proprio, para nomiar aquele criado de libré, que acompanha seu amo a pé vizinho à carruagem, ou cavalo. Os nosos Italianos explicam isto com uma palavra, Staffiere, ou Palafreniere. Porque nam uzaremos destes termos em Portugal? Chamamos aqui Letrado, ao que advoga nas cauzas: chamamos aos omens doutos, Letrados. Mas isto é uma impropriedade. Letrado, Douto, Erudito, Sabio, sam sinonimos, mas de significasam mui generica. Aos que advogam, deviam chamar Advogados: que é o seu nome proprio, ainda na lingua Latina, como diz Quintiliano, e Asconio: Advocatus, i. e. Patronus, Caussidicus. Adotáram os Portuguezes estas palavras, Berlinda, Paquebote, Estufa, Sege &c. para distinguir as diferentes sortes de carruagens de que uzam: mas podiam adotar muitas mais: avendo aqui outras carruagens, que nam tem nome proprio, que em outras partes o-tem. As artes Liberais, Ciencias &c. tratando-se em Portuguez, devem ter os seus nomes Estrangeiros, mas aportuguezados. Finalmente, se eu ouvese de escrever tudo, o que me-ocorre nesta materia, faria um groso volume: e asim contento-me, de apontar estes exemplos. O que encomendo muito é, que com este pretexto, nam nos-encham a lingua de Latinismos, Francezismos, e Italianismos, como entre outros fez Inacio Garcez, nas Notas ao Camoens.

Serîa mui util, que os omens doutos introduzisem uma terminasam certa, em todos os Patronimicos de Provincias &c. no-que falta muito a lingua Portugueza. A um omem das-Provincias, chamam Algarvio, a outro Alemtejam, a outro Minhoto, Beiram &c. E ainda estes nomes nam sam geralmente, e benignamente recebidos; porque se-reputam injuria. Mas o pior é, quando pasamos aos Patronimicos de Cidades; comumente nam se-acham: mas dizem: Um omem d’Evora: Um d’Elvas &c. Neste cazo parece licito, fazer nomes novos, e dizer, Evorense, ou Eborense, Coimbrense, Portuense &c. E o mesmo dos-outros antecedentes: os quais podem terminar-se em duas maneiras: v.g. Algarviense, ou, com outra dezinencia Romana, Algarviano: Alemtejense, Alentejano: Beirense, Beirano &c. Nos-nomes de Provincias Ultramarinas, deve-se observar o mesmo. v. g. Brazileense &c. Insolense, Indiano &c.

Em todo o cazo porem, tanto na introdusam de nomes novos, como na pronuncia dos-antigos, sempre se-deve cuidar, em adosar a pronuncia, e fazela, quanto mais puder ser, facil. Nisto pois á muito que condenar em Portugal, principalmente nestes modernos eruditos; que, querendo parecer elegantes, e mui versados na sua lingua, e origens dela; dizem coizas, que é uma piedade ouvilos. V.g. Escrevem, Volumozo: sendo Voluminozo muito mais suave, e mais chegado à analogia Latina. Dizem, Exceptas: sendo mais natural Excetuadas, que vem do-Verbo Excetuar, que é mui Portuguez: quando polo contrario nam acho nela, o verbo Exceptar. Dizem, Eregia: que ofende os ouvidos com a pronuncia: sendo melhor Erezia, que é mais doce e nem por-iso menos conforme ao Latim. Dizem, Pesoa comum: que é uma verdadeira ridicularia: porque aindaque a palavra comum, signifique coiza de muitos; deve ter as suas duas terminasoens em Portuguez, asimcomo tem no-Latim, em que explica diferentemente o Neutro: e o superlativo Communissimus, tem trez mui redondas. Onde deve dizer-se, Coiza, ou pesoa comua &c. Finalmente, (deixando por-agora outras reformas destes escrupulozos) nóto que escrevem Pai, Mai, ou com y, ou com i. Quanto ao primeiro concordamos: mas nam no-segundo: porque na pronuncia ouve-se um e, e n mui redondo: e asim deve escrever-se Maen, porque asim pronunciam os omens de melhor doutrina. Nem vale o dizer, que com isto se-conformam mais, com outras semelhantes palavras Portuguezas: porque, como ja dise, o uzo, fundado sobre a pronuncia mais doce, faz lei neste particular[10]. Tambem eles dizem Catam, Varram &c. e no-mesmo tempo dizem Cicero, Pollio &c. e nam Ciceram, Polliam &c. sendo a mesma razam. No-mesmo Latim, ou Italiano vemos, que uma palavra se-pronuncîa de um modo, e outra, que vem damesma origem, diferentemente. o que V. P. pode ver nos-livros de Cicero, que apontei asima, que traz exemplos de tudo: por-nam citar agora exemplos vulgares, que sam muitos. Asim asento, que, com esta regra diante dos-olhos, é que se-deve emendar e reformar a lingua.