Mas o que me-dá mais vontade de rir é, ver as cautelas que praticam, para dizerem, Porco. Uns dizem, o Gado mais asqueroso: outros dizem, Carne suina: e louvam muito isto em alguns antigos escritores. Tudo puerilidades. Porco nam é palavra obcena: dizem-na os Latinos, e os nosos Italianos diante do-Papa. Antes creio que asquerozo, traz a memoria nam só coiza suja, como o porco, mas coiza que volta o estomago. Estas delicadas orelhas pronunciam, sugidade, escremento, lesmas, ratos, persevejos, piolhos, pulgas, e outras coizas imundisimas sem dificuldade: e acham-na grande em pronunciar, Porco. Que lhe-parce a V. P. a esquipasam?
Finalmente devo advertir a V. P. que estes seus nacionais, ainda falando, pronunciam mal muitas letras no-meio; mas principalmente nos-fins das-disoens. V.g. e final, pronunciam como i: como em De-me, Pos-me &c. todo o o final, acabam em u: v.g. em Tempo, Como, Buxo &c. cujos nomes quem quer pronunciar à Portugueza, deve acabar em u. todo o m final, e no-meio, como n. todo o e antes de a no-meio da-disam, pronunciam como se-fose um tritongo. v.g. Cea, Vea: que pronunciam Ceia, Veia: namobstanteque na escritura, comumente nam ponham o i. E nisto merecem rizo alguns Portuguezes, que nas suas Ortografias impresas ensinam, que na lingua Portugueza se-devem pronunciar algumas letras, aindaque nam estejam escritas: e que umas letras devem pronunciar-se por-outras; v.g. achando-se Outo Dous &c. se-deve pronunciar o u, como i. Isto, como digo, é querer confirmar os rapazes, nos-seus erros. Deveriam polo contrario dizer, que, pronunciando-se o i em Cea, se-deva escrever tambem com i, para se-conformar com a pronuncia: Muito mais porque eles escrevem Meio, Veio, Correio com i, e a mesma razam milita, nos-que apontamos, e semelhantes. Damesma sorte achando-se escrito Outo com u, deveriam ensinar aos rapazes, a conformar-se com a escritura, se intendem que é arrezoada: se porem intendem, como na verdade é, que parece aspera e dura; deviam dizer, que se-escrevèse com i; e nam enganar os rapazes na pronuncia.
E na verdade nam poso intender, por-que razam, pronunciando os omens doutos nos-seus discursos, Dois, Oito, Oitenta, Toiros, Coizas &c. devam na escritura mudalo em u; se nam é por-se-conformar com quatro velhos impertinentes, que intendem e julgam mal das-coizas. Este é o mesmo cazo de Optumus, Maxumus, Dividundo, Faciundo, e outros semelhantes dos-Latinos. Cicero, Cezar, Nepote, e outros omens cultos, nam puderam sofrer aquela pronuncia; e convertèram aquele u em i, para fazer suave a lingua: Salustio, que nos-ultimos tempos o-quiz conservar, foi criticado: e nem menos agradou Varram, que era o protetor das-antiguidades. Onde deve isto tambem ser permetido na lingua Portugueza, que filha damesma maen, tem as mesmas qualidades. Parece coiza galante, que estes omens, em vez de facilitar aos Estrangeiros, a pronuncia da-sua lingua; só busquem meios de aumentar, a aspereza dela. Certamente que o Camoens no-XVI. seculo, apurou muito a sua lingua, servindo-se da-Italiana &c. e isto devemos nós tambem fazer, emendando os erros de Camoens, nam só no-que digo; mas em outras coizas, em que ele pecou, e eu podia advertir. Concluo dizendo, que na lingua Portugueza, nam só se-devem tirar as letras superfluas, onde nam se-pronunciam; mas escrever outras, que se-pronunciam, e até aqui se-deixavam. Onde, todas as vezes que se-pronuncîa o i entre e, e a; deve-se escrever. V.g. Cadeia, Ideia, Ceia, Veia &c. vistoque os Portuguezes escrevem comumente, Meia de calsar, meia duzia &c. e a razam é a mesma em ambas as partes. Por-esta mesma razam se-deve escrever em todos os Verbos, como Leia, Paseia &c. porque se os-pronunciasem como Ceo, Plebeo, Chapeo &c. neste cazo era justo que lho-tirasem: mas levando o i na-pronuncia, tambem o-deve ter na escritura. Desta sorte somente, se-poderá introduzir uma Ortografia certa, e geral, que nam necesite dar diversas razoens em todas as palavras. Repare V. P. que eles escrevem Aia, Maia &c. com i, porque o som desta vogal é claro: e porque nam faram o mesmo com outros nomes, que sam puros Portuguezes?
Acho alem disto omens, que aconselham, se-tire de Arrecadar, Arrematar &c. o arre; e se-diga, recadar, rematar. Sam deste parecer o Bluteau, e algum outro. Mas estas orelhas tam delicadas e escrupulozas, que se-ofendem com tais minucias; nam tem dificuldade, de se-servirem em todas as paginas destes termos, Com noticia; &c. o que abunda no-Bluteau: ou, como diz o Vieira, Por razam, e outras tais. Parece-me, que estas cacafonias menos sofriveis, se-deveriam evitar; deixando as outras que nada ofendem. Este metodo de reformar a Ortografia, era melhor que se-nam-impremise.
Ora deste dano de pronunciar mal o Portuguez, de que até aqui fizemos mensam; rezulta outro, de conservar no-Latim os mesmos erros. onde serîa mui util, que se-emendasem quanto pudesem. Sei, que isto tem sua dificuldade, porque os ignorantes sam muitos, e pronunciam mal: mas Roma nam se-fez em um dia. Seja V. P. um dos-primeiros a dar exemplo: persuada isto mesmo aos seus amigos: que os outros os-imitarám. Deste modo introduzirám em Portugal uma Ortografia, quanto mais poder ser, constante; o que até aqui nam tem avido: e asim será mais bela, e facil a pronuncia; e mais armoniozos os versos Portuguezes.
Isto me-parece basta advertir, sobre a Ortografia Portugueza, visto nam fazer tratado dela. muito mais, porque com estas poucas regras, se-pode responder, às outras dificuldades que ocorrerám. Algumas observasoens de menor momento, podem-se ver, nas Ortografias Portuguezas: tendo a advertencia, de nam se-deixar enganar, das-regras que dam, porque comumente sam mui más. O P. Bento Pereira, que cuido foi dos-primeiros que escrevèram nesta materia, dá muito más regras; e só proprias para destruir, o que cada um sabe. O Barreto, o Leam, o Vera, tem algumas coizas boas, entre outras muito más. Na mesma clase ponho, o que diz o P. Argote, nas suas Regras Portuguezas; e algum outro. Tais autores copiaram-se fielmente uns a outros, sem examinarem a materia.
Sei que alguns, dam em razam do-que escrevem, acharem-no asim escrito, nos-antigos Portuguezes. Mas esta razam, é de caboesquadra. Porque tratando-se de linguas vivas, que nam estavam purgadas polo pasado, mas que na nosa idade, se-vam reduzindo à perfeisam; e desta, da-qual no-noso tempo, apareceo o primeiro Vocabulario; nam devemos estar, polo que diseram os Velhos: mas examinar, se á razam, para se-dizer asim. Observe V. P. que os que asim respondem, contrareiam-se na pratica: porque nam uzam daquelas palavras toscas, que ainda lemos nas leis antigas, nos-testamentos, doasoens, e outros documentos, que deixáram os Antigos. Serîa uma ignorancia manifesta, e afetasam indesculpavel, falar oje com muitas palavras, de que uzáram os antigos Portuguezes. E isto, nam por-outra razam, senam porque a lingua se-foi purgando, e os omens mais capazes intendèram, que se-devia falar de outra maneira. E se isto se-pratîca, com inteiras palavras, porque o-nam-praticaremos, com melhor pronuncia?
Alem disto, é ja coiza muito antiga, que o uzo e juizo dos-omens doutos, e de boa eleisam, decida neste particular. E como ajam muitos Portuguezes inteligentes, que escrevem polo contrario; e asinam boa razam do-que dizem; nam tem lugar nisto, uma prescrisam sem fundamento. No-tempo de Cicero, a lingua Romana tinha de idade, polo menos, uns setecentos anos; (contando somente da-fundasam de Roma: porque sabemos, que a lingua do-Latio é muito mais antiga) e contudo ele, e outros omens doutos, a-purgáram muito bem. Observe V. P. os fragmentos que temos, de Livio Andronico, Enio, Estacio Cecilio, Pacuvio &c. e as obras de Catam o velho, de Plauto; e achará, palavras dezuzadas, e mui toscas; e, em algumas obras, uma compozisam languida, e sem grasa. Prosiga mais para baixo, examine as obras de Terencio, Lucrecio, Varram, Catúlo, Salustio &c. achará neles a lingua mais mudada, e palavras mais polidas. Desa finalmente à ultima fineza da-idade de oiro da-Latinidade, quero dizer, aos que melhor faláram, no-seculo de Augusto; e sempre lhe-crecerá a admirasam, porque crece a mudansa. Pacuvio, e Estacio tem tanta semelhansa com Cicero, Cezar, Cornelio Nepote, Virgilio, Oracio &c. como o dia com a noite. naqueles, tudo é inculto: e nestes, tudo é polido, palavras, fraze, e metodo. E mais todos entram na idade de oiro! O mesmo Cicero, em alguns seus tratados, adverte, quanto trabalhára neste particular, para apurar a lingua. Oracio tambem adverte, que o bom uzo, é o que emenda as linguas. Finalmente advertiram os Gramaticos, e Oradores de melhor nome, que a Ortografia, está sugeita ao costume[11]: e um douto Latino, deixou escrito nesta materia: Antiquitatem posterior consuetudo vicit[12]. E nem somente encontrará V. P. palavras mudadas, mas novas. Os Romanos nam tinham palavras para tudo: e asim foi necesario tomalas prestadas: principalmente em materias de Ciencias, e Artes: as quais adotáram como Latinas. Este é o privilegio das linguas vivas. Mas certamente nam conhece este privilegio, quem se-escandaliza, como vi alguns, de que se-recebam palavras estrangeiras em Portugal. Se os Portuguezes as-nam-tem, que mal fazem, em pedilas aos outros? Nam aprovo porem, o que muitos fazem, servir-se sem tom nem som, de vozes estrangeiras, e palavras puramente Latinas, tendo outras Portuguezas tam boas. O que observo em muitos, que prezumem de Criticos, e Poetas: especialmente no-dito Inacio Garcez Ferreira. O que digo é, que nam se-achando proprias, nam é delito, procuralas em outras linguas; ou fazelas novas: e que, quando as proprias sam asperas, se-devem adosar.
Este mesmo uzo, de purgar as linguas, melhorando na boa pronuncia, e enriquecelas com palavras novas, quando á necesidade; está geralmente introduzido. Achei livros, ainda impresos, Inglezes, Francezes, Espanhoes, e Italianos, com infinitas palavras, que ja oje nam estam em uzo, e com um estilo de fraze pouco uzada. e lembro-me agora, ter visto á anos, um livro de Genealogias de Flandres, escrito polos anos de Cristo 1400., em um Francez tam embrulhado, que o-tinham imprimido, com a versam de Francez moderno a lado: sem o qual socorro, nam era facil intendelo. Os nosos antigos Poetas tem palavras, que oje se-nam-recebem. Em Dante, e Petrarca, acham-se coizas nam mui finas; e tambem em outros. Os Modernos de todas estas Nasoens, melhoráram sobre os Antigos, e serviram-se do-seu direito, para emendar a lingua. os mesmos Portuguezes o-fizeram. Finalmente isto é tam claro, que me-envergonho de o-provar. E com efeito, a estes que asim respondem, ou asim argumentam, seria mais acertado, nam-lhe-responder. É fazer-lhe muito favor mostrar, que tais argumentos tem resposta. Mas eu o-faso aqui, porque a amizade de V.P. me-obriga a obedecelo: e escrevo isto, mais para satisfazer ò seu dezejo, doque à materia.
A outra razam, que outros afinam, para se-desculparem dos-seus erros é, que umas vezes dobram as letras, para mostrarem donde se derivam: outras, para a significasam, quero dizer, os diversos tempos: E asim escrevem Escritto com dois tt, para mostrar, que vem de Scriptus: e Amasse com dois ss, para o-distinguir do-prezente Ama-se. Esta razam achará V. P. em alguns livros impresos. Mas, com todo o respeito que devo, a quem uza dela, digo, que nada vale. A maior parte das-palavras Portuguezas, tem origem Latina: o que até as criansas sabem: quizera pois que me-disesem, porque se-devem dobrar em vinte, ou trinta palavras, e nam nas mais? Alem diso se V. P. observa, muitas palavras Portuguezas, achará, que nam só tem origem, mas sam puras Latinas. V.g. Aplaudo, Aplico &c. e nestas será tambem necesario dobrar os pp, e escrever trez consoantes seguidas, como no-Latim. Será tambem necesario pòr o s, antes de Ciencia. e finalmente comesar muitas disoens, por-duas consoantes, mn, pn, sp, ps: porque tudo isto á no Latim. O c antes de t, tambem se-deve pòr, em muitas palavras, como em Benedicto, Doctor, &c. E nam sei, se, os que seguem o dito parecer, admitirám todos estes acrecimos: o que nem menos o Italiano, que se-preza de filho primogenito do-Latim, admite em tudo. Crece o argumento se observamos, que o Portuguez tem palavras Arabias, Goticas, Inglezas, Tudescas &c. o que suposto, será necesario em cadauma, pòr a sua diferensa original: ou ao menos nas Latinas, para as-nam-confundir com as outras. Finalmente se a tal razam valese, nam deveria quem uza dela; pòr h, em é verbo, e outros destes: porque na sua origem nam o-tem.