Mas, deixando outras observasoens, com que podia provar, a insufisiencia das-ditas razoens; darei só uma, que prova por-todas: e esta especialmente serve, contra aqueles Portuguezes que dizem, que se-devem dobrar muitas letras, porque se-pronunciam dobradas; e expresamente se-ouvem os dois mm, em comum, e outras semelhantes. Digo, que para responder a estes, basta citar-lhe o exemplo, da-lingua Italiana. Nam vi ainda Portuguez algum (nam falo dos-que pasáram a Italia até a idade de 7 ou 8 anos: porque estes perdèram a sua lîngua, e falam o Italiano, como lingua propria) por-mais estudiozo, e diligente que fose, que aprendèse a pronuncia, principalmente Toscana, ou Romana: em que expresamente se-pronunciam as duas letras consoantes: todos as-pronunciam como una simplez. V. g. Distinguem os nosos Capello, que significa Cabelo, de Cappello, que significa Chapeo; com pronunciar dois pp, e dois ll no-2. Nenhum Portuguez o-chega a distinguir: e por-iso sam logo conhecidos, por-Estrangeiros. O mesmo digo em todas as outras dobradas: O mais que vi foi, pronunciar os dois zz, v.g. em Palazzo, Ragazzo: mas isto com muito esforso, e pola razam, de que se-pronunciam diferentemente: quero dizer, que os dois zz, pronunciam-se como ds: que, se tivesem soido igual, nam os-pronunciariam. Esta experiencia constante mostra, que é falso dizer, que os Portuguezes, na-sua pronuncia natural, e sem fazer um grande esforso, pronunciem as dobradas. Do-que se-segue, que sam inutis as tais letras. E em tal cazo entra a minha regra, que as letras inutis, se-devem desterrar, da-lingua Portugueza.

Sobre a pontuasam, tenho pouco que advertir a V. P. É claro, que a Virgula foi inventada, para denotar a interrusam que se-faz, quando se-toma a respirasam: e para dar alguma distinsam ao discurso, e impedir a equivocasam nele. Tem seu proprio lugar, quando se fazem distinsoens de Nomes, ou de outras palavras, que dependem do-mesmo Verbo, e se-unem em uma propozisam. v. g. Pedro foi soldado, capitam, coronel, e chegou a ser general. Uza-se tambem dela, antes da-Conjunsam copulativa, e adversativa. v.g. Pedro, e Paulo partîram: Nem Pedro, nem Paulo partio. Mas nam se deve uzar, quando a conjunsam está entre sinonimos: v. g. Antonio tem eloquencia e facundia. Pedro tem grande animo e valor. Porem muito bem se-uza entre propozisoens, que signifiquem o mesmo; a que podemos chamar sinonimas. v.g. Cezar subjogou todo o imperio Romano, e com a serie das-suas vitorias conseguio, que os Governadores, o-reconhecesem soberano. aindaque entre estas, sendo longas, podese escrever ponto e virgula, ou dois pontos.

Utilmente se-uza da-virgula, para distinguir e fazer mais claro o discurso: o que se-faz em trez cazos. I. separando as propozisoens, regidas pola mesma pesoa, ou coiza. v.g. Umas vezes ri, outras chora. Tomou uma lansa, e lhe-atravesou o peito. II. interrompendo o sentido, com outras palavras. v. g. Deus, autor do-mundo, é pai de mizericordia; e tem providencia das-criaturas; mas quando a interrusam é comprida, é melhor pór-lhe ponto e virgula; como abaixo diremos. III. separando aquelas propozisoens, emque a segunda, é objeto da-primeira. v.g. Dezejo ver, como sucederá o negocio. Quererá Deus, que iso nam se-verifique.

Finalmente se às vezes nam se-poem virgula, pode nacer confuzam no-discurso. v. g. Cuidando na minha aflisam, e ocupado neste pensamento, confuzo saî de caza. se nam ouvése virgula, em pensamento, podia unir-se com confuzo, e cauzar nova confuzam. Mas nisto das-virgulas, é necesario ter muito cuidado, de nam ser excesivo: como fazem alguns, prezados de doutos, que em cada palavra poem virgula. o exceso, e a falta igualmente se-devem evitar.

Tambem a parentezis, é especie de virgula: e consiste neste sinal, () com o qual se-compreendem algumas palavras. Escreve-se, quando dentro de uma propozisam, se-inclue outra, separada do-sentido; ou para excesam, ou declarasam de alguma coiza. v.g. Deixo de dizer (aindaque poderia com razam) as atrocidades que cometeo. O Amor, (como achamos escrito na Sagrada escritura) é tam forte como a morte. Porem, se a interrusam é breve, bastam duas virgulas. v.g O Amor, como ja dise, é uma grande paixam.

Despois da-virgula, seguem-se os dois pontos. Estes se-poem, quando o sentido da-orasam é completo, quanto à sustancia; mas nam em quanto ao fato: quero dizer, quando o que se-escreveo, faz por si só sentido perfeito; desorteque podia-se terminar com um só ponto: mas quem escreve, ainda tem alguma coiza que acrecentar, para melhor declarar a coiza, ou expremir alguma circunstancia, com a qual se-acabe de todo o periodo. v.g. Recebi o doutisimo livro que v.m. me-mandou: para me-obrigar com isto ainda mais, doque estava. Neste periodo, despois de mandou, escrevem-se dois pontos: porque o sentido, ja está completo; mas ainda á que acrecentar. E estes dois pontos se-podem replicar, em um longuisimo discurso, tantas vezes, quantas o sentido da-orasam for suficientemente completo. Mas a melhor regra que nisto se-pode observar, é esta: Se a propozisam que se-segue, nam é muito independente da-antecedente, deve-se pòr dois pontos. v. g. Estudar varias ciencias, no mesmo tempo, antes confunde, que doutrina: como tambem o comer no-mesmo tempo comeres diferentes, tanto nam engorda, que ofende. Mas se eu comesáse a segunda, por-palavras menos dependentes, deveria pòr um ponto. v. g. Estudar varias ciencias, no-mesmo dia, antes confunde, que ensina. Damesma sorte, como dizem os Medicos, mui diferentes comeres no-estomago, impedem a digestam. neste cazo ponho ponto, porque o sentido é mais separado. Porem se as propozisoens sam breves, intendo mais acertado, separalas com uma virgula. v. g. O estudar muito junto faz confusam, como tambem o comer muito.

O ponto, costuma-se pòr, no-fim do-periodo, e quando o sentido é totalmente completo. Neste particular observo, que muitos em Portugal ensinam, que despois de ponto, sempre se-poem letra grande. O que é um engano manifesto; e contra a pratica dos-que melhor escrevem: que dizem, que quando os periodos sam breves, e em certo modo dependem uns dos-outros; basta despois de ponto, pòr letra pequena: e quando isto sucede no-fim do-verso, poem-se dois pontos: vistoque o verso seguinte deve sempre comesar, por-letra grande. Onde os omens doutos advertem, que nam só se-pode escrever letra pequena, despois de ponto final; mas tambem algumas vezes, despois de dois pontos, letra grande: quando o periodo é comprido, e se-tem posto muitas vezes dois pontos: ou tambem quando se-introduz alguma pesoa que fala, ou coiza semelhante.

E aqui incidentemente advirto, que nisto de escrever letra grande, á um grande abuzo: avendo escritores que a-escrevem, em mil coizas desnecesarias: o que ofende a vista. E asim, nam avendo razam forsoza, deve-se escrever letra pequena, que é mais natural. As regras que nisto dam, os omens mais advertidos, se-reduzem a estas. Poem-se letra grande. I. quando se-comesa o discurso. II. nos-nomes proprios, e sobrenomes tanto de Pesoas, como Provincias, Cidades, Ilhas, Montes, Mares, Rios, Ventos, e Animais. III. nos-nomes de dignidade, ou abstratos, como Bispado, Papado &c. ou concretos, como Papa, Rei, Abade, Conego, Senador &c. mas nam se-poem nos-de oficios inferiores, como soldado, pintor, sapateiro. IV. nos-nomes apelativos, quando se-tomam por-alguma coiza particular. v. g. O Orador Romano, por-Cicero: o Doutor Angelico, por-S. Tomaz: Religiam, pola vida Religioza &c. V. nos-nomes do-genero, ou especie, quando significam todo o genero, ou especie. v. g. A Terra é redonda.Os Rios correm para o mar. porque significando um individuo particular da-dita especie; v.g. um bocado de terra &c. basta letra pequena. VI. as coizas inanimadas tomadas como pesoas, ou polo genero. v. g. A Ira é uma grande paixam. O Amor cega os mais doutos &c. VII. os Adjetivos tomados como Sustantivos. v.g. O Amigo, é outro eu. O Forte, aumenta o animo nos-perigos. VIII. os nomes que significam multidam. v.g. Senado, Republica, Cabido, Turcos, Inglezes &c. IX. os nomes da-materia, de que principalmente se-trata. v.g. A Incarnasam, a Simonia. ou tambem os nomes das-principais partes, em que se-divide um todo. v.g. Neste cazo pecam alguns, por-Ignorancia, ou por-Malicia. Por-Ignorancia, pecam aqueles &c. X. quando no-discurso se-introduz alguma pesoa, que fala. v.g. Voltando-se entam para o ceo S. Paulo, dise, Senhor, que quereis que eu fasa? mas se o discurso que se introduz, fose mui longo, serîa mais acertado, separalo com um ponto sinal. E a palavra que se-segue, despois do-ponto interrogativo, nam deve ter letra grande; porque nam comesa um sentido novo.

Estas sam as regras, establecidas polo melhor uzo. Contudo á alguns, que ainda às vezes as-limitam, quando intendem, que nam sam necesarias. v. g. Vindo juntos dois nomes, um generico, e outro particular, como Seita Turquesca, Igreja Catolica, Senador Romano, Academia Real, Concilio Toletano, Concilio Geral, &c. deitam fóra a letra grande dos-primeiros, e somente a-conservam nos-segundos, que distinguem os primeiros. Porque ainda-que em outras ocazioens, achando-se somente a palavra, Igreja, oncilio, &c. tenha letra grande; neste cazo porem, parece ser escuzada: o que eu aprovo. Outros ainda fazem mais, que, achando muitas destas ultimas palavras, que aponto, como Senador, Consul, &c. escrevem-nas com letra pequena: principalmente se está unida a algum sustantivo Proprio. v. gr. Joannes rex. Cicero consul. E isto achamos mui praticado, em antigos manuscritos; e belisimas edisoens de livros modernos, emendadas por-omens mui doutos. Onde nam se-deve condenar, se algum o-praticar em alguma conjuntura, para evitar tanta letra grande.

Outros ainda limitam, o que se-diz nos-numeros V, e IX. porque intendem, que nem sempre é necesaria, a dita letra grande. E em tal cazo, ou escrevem letra grande, só na primeira vez: ou poem uma risca por-baixo, escrevendo; o-que na imprensa convertem em letra cursiva: ou nam a-poem: Nam parecendo muito bem um papel, em que repetidas vezes se-encontram as mesmas palavras, com letra grande: o que ofende a vista.