Tornando pois aos pontos: algumas vezes o periodo inteiro, é acompanhado de admirasam, ou interrogasam: e em tal cazo o ponto se-acompanha, com o final proporcionado. A admirasam, nota-se asim, (!) v.g. Morreo, cazo admiravel! dezesperado. ou em qualquer outra parte, em que entre a admirasam, ou simplez exclamasam. A interrogasam, ou progunta, distingue-se com este final, (?) v.g. E porque nam poderei eu fazer isto? qual de vos outros mo-pode impedir? Muitas vezes sucede, que a înterrogasam é acompanhada de exclamasam. v. g. Ó que grandes consequencias, seám-de seguir de um tal fato! ou tambem: E como é posivel, que te-occorrese fazer isto? e nestes cazos, é licito pòr um, ou outro final, como melhor lhe-parecer. É porem de advertir, que quando a progunta é mui comprida, e que na longueza, perde a forsa de progunta; os omens mais doutos, nam costumam pòr-lhe no-fim, o final de interrogasam: mas se lho-poem, é no-principio, ou no-fim do-primeiro periodo, ou nam lho-poem. V.g. Julgas tu, que á omens de tam pouca considerasam, que siguam um tal estilo, nem fasam cazo da-palavra, nem procurem ileza a sua onra, nem tenham diante dos-olhos estas circunstancias: as quais se eu nam tivese executado, totalmente me-faltaria aquela benevolencia, que certamente me-mostram, os que examinam as minhas asoens =. Neste periodo, ou se-deve pòr ponto de interrogasam, despois de tu: ou, despois de circunstancias: ou, em nenhuma parte: vistoque o contexto mostra bem, em que sentido se-fala.

Finalmente deve-se advertir, que á outra separasam de periodo, a que chamam Paragrafo: o qual se-comesa, quando a materia que se-trata, se-acabou; e se-pasa a outra materia. Muitas vezes se-comesa paragrafo, quando o discurso tem sido comprido, e, por-nam-fazer confuzam, é necesario varialo. o que sucede, quando sobre a mesma coiza, alego muitas razoens, e cada uma ocupa uma meia pagina. Em tal cazo, para evitar a confuzam, e dar mais gosto, e repoizo a quem le; é justo comesar paragrafo. O que porem se-deve regular, pola prudencia de quem escreve: pois tam enfadonho é, comesar paragrafo, despois de trez folhas, como despois de trez ou quatro regras. Caiem no-primeiro destes defeitos, alguns prezados de doutos: que, ouvindo dizer, que os Antigos nam uzavam das-separasoens de capitulos; sem mais outra reflexam, fazem um longuisimo discurso, sem divizam de paragrafos: em modo tal, que se-perde a respirasam lendo-os. No-segundo, caiem muitos Escolasticos, que de cada texto fazem um paragrafo. Uma, e outra coiza se-deve evitar.

Alem das-ditas pontuasoens; inventáram os escritores, principalmente modernos, outra, a que chamam, ponto e virgula. e isto para variar a pontuasam, e para evitar pòr tantas virgulas seguidas, antes dos-dois pontos, nos-periodos longos. Este ponto e virgula, é uma pauza, maior que a virgula, e menor que os dois pontos. Poem-se, quando a orasam ja faz algum sentido; mas nam o que basta para se-intender, de que se-fala: e ainda a primeira propozisam, espera pola segunda, para se-poder intender. v. g. Aindaque eu nam tenha, todo o dinheiro necesario, para a compra; farei o posivel, polo alcansar: para concluir de uma vez, este negocio. No-qual periodo, quando chegamos à palavra, compra; ja temos algum sentido: e quer dizer, que nam tem dinheiro para a compra. mas fica o sentido imperfeito, por-cauza da-palavra ainda: a qual faz que eu espere, pola seguinte propozisam até alcansar, onde faz suficiente sentido.

Daqui fica claro, que ponto e virgula tem o seu proprio lugar, despois das-prepozisoens, que comesam por-como, qual, quanto, se, aindaque &c. as quais introduzem aquela dependencia, que digo. Finalmente despois de qualquer prepozisam, em que aja palavras, que unam com as palavras seguintes. Especialmente se-poem, quando se-fala de coizas opostas: ou quando se-faz enumerasam de muitas partes, e se-especificam todas. v. g. Destruia cazas, e templos; o sagrado, e profano; o seu, e o alheio, &c. Adverte-se porem, que os periodos, os quais, sendo longos, podem receber ponto e virgula; em cazo que sejam curtos, basta que tenham virgula: por-nam fazer tam enfadonha a repetisam dos-pontos e virgulas. v. g. Neste particular à duas opinioens: uma é de Cujacio; a outra seguem Joam André, e Ostiense. parecerá a muitos, que em Cujacio, basta uma virgula, o que eu nam dezaprovo: outros quererám ponto e virgula. e asim é livre a cada um, fazer o que lhe-agradar. Polo contrario, se os periodos fosem mui compridos, se-deveria pòr ponto. v. g. se eu disese: Prova-se isto com duas razoens. A primeira é, porque &c. neste cazo se a explicasam desta primeira razam, se-estendèse até metade da-folha, ou ainda mais; no-fim, deve-se pòr ponto somente: e muitas vezes pode ser necesario, comesar a segunda razam, nam só com letra grande, mas ainda em novo paragrafo. Tambem quando se-tem posto algumas vezes, ponto e virgula; costumam os omens doutos, escrever dois pontos; aindaque o sentido nam seja completo quanto ao fato: para mostrar, que se-deve fazer maior interrusam; e descansar quem le, e quem ouve.

Isto é, o que me-ocorre advertir, neste particular da-pontuasam. Devo porem declarar a V. P. que esta materia, nam é ponto matematico, que nam admite mais, ou menos: antes, polo contrario, depende muito, da-vontade de quem escreve. Porque aindaque todos convenham, na-razam das-regras; quando porem decemos aos cazos particulares, e a examinar, se neste, ou naquele cazo, deve entrar virgula, ou ponto e virgula &c. acha-se muitas vezes diversidade, ainda entre os omens doutos. Eu neste particular, propuz o que vejo praticar, aos que melhor escrevem; e que se estriba, na razam das-regras: mas nam condenarei, quem se-afastar alguma vez destas advertencias, comtantoque nam se-desvie em modo, que fasa despropozitos. Eu mesmo sou o primeiro, que as-nam-sigo escrupulozamente: antes muitas vezes, em lugar de ponto e virgula, escrevo virgula: em vez de dois pontos, ponho virgula e ponto: e quando os periodos sam curtos, nam tenho às vezes dificuldade, de escrever virgula, em lugar de ponto: ou outra semelhante mudansa. O que faso quando me-parece, que com estes sinais, fica bastantemente separado o discurso, e livre de confuzam: e porque vejo, que muitos escrevem damesma sorte, e me-intenderám tambem. Esta é a principal regra, em materia de pontuasam: evitar as confuzoens, e procurar que os outros intendam, tudo quanto eu quero dizer. Devo porem dizer a V. P. que vejo muitos autores Portuguezes bem modernos, que fazem gala, de as-desprezar: e publicam obras, nas quais em uma pagina tudo sam virgulas, e apenas se-acha um ponto. Especialmente * * * e outros que V. P. bem conhece. O Conde da-Ericeira D. Francisco Xavier de Menezes tambem seguia esta doutrina: pois em algumas suas aprovasoens de livros, que tenho visto, tudo sam virgulas: desorteque ninguem o-pode ler seguidamente, porque cansa a respirasam. E se isto pode ser louvavel, eu o-deixo julgar aos dezapaixonados inteligentes.

Muitas outras miudezas, se-podiam advertir, tanto na materia de Pontuasam, como de Ortografia: mas estas ou se-acham, nas instrusoens impresas a este intento; ou, se nam se-acham, como na verdade as-nam-vemos; aprendem-se com o uzo: e quem percebe bem, as advertencias que temos dado, escreverá sem embaraso algum com perfeisam: e poderá rezolver, qualquer das-que ocorrerem. Eu nam determinei, escrever um tratado completo: mas unicamente, sugerir a V. P. o que se-acha mais bem notado, nesta materia: e o que deve ensinar um mestre, ao dicipulo, a quem explica a lingua Portugueza. Para V. P. é isto superfluo: e para os ignorantes, é ainda muito. mas eu tomo a liberdade de falar com V. P. como com um principiante, porque asim mo-tem ordenado. Somente acrecento, que isto que dise da-Pontuasam, se-deve intender, nam só no-Portuguez, mas no-Latim; e nas-mais linguas, que desta nacèram.

Concluirei esta carta lembrando a V. P., que, para facilitar este estudo à Mocidade, seria necesario, que algum omem douto, abreviáse o Dicionario do-P. Bluteau, e o-reduzise à grandeza, de um tomo em folha, ou dois em 4.o Ninguem pode olhar para a obra do-P. Bluteau, sem ficar esmurecido, pola quantitade de volumes. Este Religiozo era douto, e infatigavel: e fez à nasam Portugueza um grande serviso; compondo um Dicionario, que ela nam tinha: e quem diser mal dele neste particular, é invejozo, ou ignorante. Mas tem alguns defeitos, que serîa necesario emendar: Era mui medrozo: e nam tinha metodo. O medo, reconhece-se em cada pagina das-suas obras. Fora maltratado por-alguns Portuguezes injustamente; e a cada paso se-queixa, e dá uma satisfasam. Os Prologos, tanto na primeira Obra, como no-Suplemento, sam insoportaveis: e apostarei, que se-nam-acha omem, de tanta paciencia, e tam mao gosto, que os-posa ler todos seguidamente: porque a cada momento, repete as mesmas coizas. E o pior é, que com dizer tanto, nam explica o que deve: pois querendo um leitor saber, o que ele faz no-Dicionario, e que razam dá da-obra; nam sabe por-onde á-de comesar. Com um só titulo dirigido ao leitor * * * compreendia todos, os que ele poem no-seu Prologo: e com um Prologo mui breve, dava razam de toda a obra. Os omens doutos, intendem mui bem as coizas: e sabem desculpar um autor, que escreve uma voluminoza obra: especialmente um que escreva um Dicionario, que seja o primeiro que aparece naquela lingua. Nam á pior trabalho que este: e nam á algum que menos paresa grande, a quem o-nam-provou, doque este. Desorteque chegou a dizer o douto Escaligero[13], que era pior este trabalho, que ser condenado às minas, como faziam os Romanos. Comque a estes, bastam poucas palavras: a os ignorantes, nam se-devem dar satisfasoens, ou digam bem, ou mal. Nem menos me-agrada o titulo da-obra, que é mui afetado, e cheio de superfluidades. Ja se-sabe que um Dicionario, compreende todas as palavras, com que se-explicam na dita lingua, todas as coizas imaginaveis. E o exemplo que ele traz de Furetiere, Moreri, Hofman, que enchèram o titulo, de semelhantes coizas, nam desculpa os seus erros: porque se-caza muito bem, que errem dois omens de diferentes Nasoens, na mesma materia.

Avulta tambem muito a obra, porque as explicasoens sam longas, e o carater é mui grande. O que tudo se-podia reduzir, a menor extensam: bastando um exemplo de um bom autor, e deitando fora tantos Latins, e citasoens superfluas. E asim, todo aquele grande Vocabulario, se-pode reduzir nas segundas-impresoens, a trez ou quatro volumes, se lhe-tirasem o que tem de superfluo: e serîa tambem mais barato, e mais util à Republica. Mas, ainda despois de tudo iso, serîa necesario, fazer um Compendio, para uzo dos-rapazes. Que é o que os Nosos tem feito, compendiando o Vocabulario da-Crusca, quero dizer, da-lingua Toscana, (sam trez ou quatro volumes) em dois tomos de 4o. Mas neste Dicionario, se-deveria acautelar outra coiza, em que caio o P. Bluteau; que foi, nam distinguir as palavras boas, de algumas plebeias, e antigas. Ele ajuntou tudo: e ainda muitas palavras Latinas, que muitos Portuguezes modernos afetadamente aportuguezáram. E este é o maior defeito que eu acho, naquele Dicionario. porque nam ensina a falar bem Portuguez; como o da-nosa Crusca, que nam tem, senam o que é puro Toscano; e nota às vezes o que é antigo, ou poetico &c. Sei, que alguma diversidade se-acha: porque os nosos autores, que fazem texto, sam os que escrevèram, em um seculo determinado: e asim tudo o que é moderno, entre nós é barbaro. Polo contrario a lingua Portugueza, como á pouco tempo que comesou a aperfeisoar-se, nam pode excluir, tudo o que é moderno. Contudo, deveria o P. Bluteau, nam abrasar senam os autores, que faláram melhor. v. g. desde o fim do-seculo pasado para cá: ou encurtar mais o tempo. E ainda neses, que talvez nam seram iguais em tudo, escolher, o que é mais racionavel: e nam tudo o que aportuguezáram alguns destes, prezados de eruditos; que, por-forsa, querem introduzir, uma mixtura de Portuguez, com Latim. Temos o exemplo da-Academia Franceza, a qual no-seu Dicionario, nam poz as vozes plebeias, e antigas; mas as puras, e que oje falam os omens cultos. Aindaque, como diz o Senhor de Furetiere,[14] é justo, que se fasa um Dicionario à parte, das-vozes antigas, e baixas: paraque, por-meio dele, posamos intender, os antigos documentos. Isto fizeram muitos na lingua Latina, compondo somente Vocabularios da-inferior Latinidade, como Vossio, Izidoro, Spelman, Du Cange: o qual ultimo fez tambem outro, para o Grego inferior. E isto mesmo deveria ter feito Bluteau: pondo em um volume, as palavras boas; no-outro, as antigas &c. O certo é, que os Nosos no-Compendio da-Crusca, somente puzeram as puras: e advertîram as que sam poeticas, e nam tem lugar na proza. O mesmo Bluteau em certa parte[15], reconhece a necesidade deste distinto livro; e deu uma ideia dele, nos-Catalogos que traz, no-Suplemento. Mas se o dito P. o-nam-fez, porque quiz compreender, tudo o que se-acha em Portuguez, ou por-outro motivo; no-Compendio porem do-dito Dicionario, nam se-deviam escrever, senam palavras puras e boas, e segundo a pronuncia mais suave. E.g. nam escrever Devaçam, porque o dise o Vieira: mostrando a analogia, que se-deve dizer Devosam: muito mais, porque asim o-pronunciam os doutos, e é mais agradavel. O mesmo digo, de Outo &c. porque escrevendo muitos omens doutos comumente, Oitenta; nam acho que tenham boa disparidade, para, no-mesmo livro, escreverem, Outo: como V. P. verá em muitos livros modernos. E asim a pronuncia melhor, sendo apadrinhada por-omens doutos, deve ser preferida. Tambem se-devia no-dito cazo, emendar a Ortografia do-Bluteau, que é variante: e establecer uma certa, e sempre a melhor. Este Compendio seria mui necesario. os que quizesem majores noticias, podiam procurálas no-Vocabulario grande. Isto é o que me-ocorre. V. P. conserve-me a sua benevolencia, e rogue a Deus por-mim nos-seus sacrificios. Deus Guarde &c.

NOTAS DE RODAPÉ:

[3] Sueton. de Cl. Rhet. C. I.