Todo o Poema se-divide em Dramatico, e Narrativo. Compreende o Dramatico, a Comedia, Tragedia, e tudo o mais em que os que entram no-poema; reprezentam com a viva asám, tudo o que se-diz: o Narrativo compreende, todas as mais especies de poemas, em que se-faz discurso, sem asám viva. Estas sam infinitas; mas ainda se-reduzem, a duas principais especies: uma, compreende as poezias, que se-cantam: outra, aquelas que se-lem. Na primeira, entram as Odes, Imnos, e todas as especies de cantigas: na segunda, entram todas as outras compozisoens: que ainda se-dividem em trez, Doutrinais, Istoricas, e Oratorias. Nestes trez generos se-tem composto, famozisimos poemas. v.g. O poema de Lucrecio, é um tratado em que expoem, a Fizica de Epicuro: os Fenomenos de Arato, que Cicero traduzio em Latim, sam um tratado de Astronomia; o mesmo digo do-Poeta Manilio: as Georgicas de Virgilio, sam um tratado de Re rustica: os Fastos de Ovidio, sam a istoria das-antiguidades Romanas: e o poema de Lucano, é uma istoria das-guerras civis. O que suposto, quem pode negar, que um tratado de Doutrina, ou de Istoria, pede uma exata noticia de Retorica? E com efeito para escrever semelhantes tratados em verso, nam dezejam os mestres outra erudisam; senam a que é necesaria, para escrever em proza; tirando alguma expresam metrica.

Pasando ao 3.o genero, tudo o que os Oradores fazem, no-genero demonstrativo; que compreende os louvores, e vituperios, de uma determinada pesoa, ou asám; fazem tambem os Poetas. Os Epitalamios sam louvores, que se-dam a uma pesoa, no-dia do-matrimonio: os Epicedios sam louvores, despois de morto: as Apoteoses sam quando se-louvam desorte, que se-finge colocárem-se, entre os Deuzes: e tudo isto é em carne, um panegirico. As Satiras sam repreensam do-vicio; e tambem pertencem ao genero demonstrativo. as mesmas cartas se-escrevèram antigamente, em verso: de que nos-deixou bons exemplos, Ovidio &c. Nam ignora V. P. que a estes trez generos se-reduzem, todas as compozisoens, nam só Latinas, mas Vulgares. Fazem-se Sonetos, Silvas, Quintilhas, Elegias &c. em louvor, e vituperio: escrevem-se Cartas em Silvas, Decimas, Tercetos, Quartetos, Romances &c. finalmente todos os discursos de proza, se-podem reduzir em verso. E asim a mesma Retorica que é necesaria, para regular os nosos discursos, na proza; o-é tambem, no-poema. Onde vem, que a Poezia, é uma Retorica mais florida: e a quem falta esta, nam pode ser bom Poeta. Como é posivel, que o Poeta exprima na Elegia, a sua paixam, desorteque mova; se ele nam sabe, a arte de mover? como pode nos-dialogos expremir, o que cadaum quer, e deve dizer; se ele nam sabe o que deve, e como o-deve dizer? Torno às Comedias, e Tragedias, e delas progunto o mesmo: Como pode o Poeta fazer, que cadaum dos-reprezentantes exprima, a paixam de que está posuido; se ele nam sabe, que coiza é paixam, nem como se-move? nam pode ser que um omem, que ignore isto, fasa uma Comedia boa. Tambem a Tragedia nam consiste somente, em inventar um argumento nobre: em saber embrulhar uma quantidade de sucesos, que cauzem maravilha, quando se dezintrigam: mas sobre tudo é necesaria a propriedade, e carater, em cada parte; para mover o animo: o que pede, particular Retorica.

Quanto ao poema Epico, é certo que compreende, todas as outras especies de poemas narrativos: e nele se-pode empregar, tudo o que á de fino na Retorica. O principal asumto dele é, um panegirico. Nele se-acham arengas famozas: algumas sam deliberativas, outras judiciais. acham-se acuzasoens &c. acha-se a istoria do-eroe. acham-se muitos conceitos de doutrina, e outra erudisam. entram nele cartas, epigramas, dialogos: e finalmente tudo o que á melhor, na Poezia. Motivo porque se-dise, que era a coiza mais dificultoza, da-arte Poetica. Onde, compreendendo todas as outras especies de Poezia, se cada uma delas pede Retorica, que fará o poema Épico?

Daqui fica claro, que conceito se-deve formar, destes vulgares Poetas, que V. P. incontrará todos os dias. Eles nam sabem, que coiza é Retorica, e bom gosto em materia nenhuma; como lhe-mostrei na minha ultima carta: e asim que coiza boa podem fazer, na Poezia? Se fazem alguma coiza menos má, é porque cazualmente sucedeo; ou asim o-lèram em em algum livro, d’ onde o-roubáram: mas ignoram a razam, porque asim se-faz. E isto nam é ser Poeta, nem para la vai. E nam cuide V. P. que falo por-conjetura: mas com experiencias mui certas: e ja me-sucedeo pedir a um mestre, que explicava um paso de Virgilio a um dicipulo; que me-explicáse a mim, porque se servîra o Poeta daquelas expresoens: e nam só nam mo-explicou, mas nem menos me-intendeo. Desorteque incontrando-se todos os dias, tantos Poetas; nam á coiza mais rara, que um Poeta.

E com efeito o segredo particular da-Poezia, principalmente Eroica, nam o-pode conhecer, senam quem é bom Retorico. Consiste ele, segundo dizem os mestres da-arte, em saber propor desorte, o argumento que se-escolheo; que só aparesa, o que tem de extraordinario, e nenhum defeito: e em saber inspirar ao leitor, curiozidade de ler todo o poema: nam declarando tudo logo, mas confuzamente: fazendo nacer uma dificuldade da-outra, paraque se-esporeie o dezejo: dilatando a leitura, e enchendo a istoria, por-meio dos-Epizodios; paraque o leitor nam perca de mira, o seu principal argumento: e finalmente nam dezatando o nó da-dificuldade, senam quando tem conduzido o leitor, ao fim do-poema. Tudo isto pode V. P. observar, na Eneida de Virgilio, ou na Jeruzalem do-Tasso. Eles propoem ao principio em breve, o argumento da-sua obra; e prometem coizas grandes. Nam comesam polo principio da-vida do-eroe; mas por-uma asám famoza, que empreendeo no-meio da-sua vida: da-qual com artificio particular, fazem recuar o leitor, até os primeiros trabalhos do-seu eroe. Uma dificuldade excita outra: demaneiraque o leitor nunca se-cansa, na leitura. E que outra coiza fazem os Retoricos, quando querem excitar, a atensam dos-seus ouvintes? Ja eu dise a V. P. que ese era o principal artificio, das-Orasoens de Cicero, e ainda de muitos Oradores da-Antiguidade. donde concluo, que só um bom Retorico o-pode fazer. Alem diso os Retoricos encomendam muito, que o Orador nam diga, senam coizas verosimeis: porque com falsidades manifestas, ninguem se-eleva. E isto mesmo dizem, todos os bons Poetas: antes nada mais cuidam, que representar verosimel, tudo o que propoem. Desorteque quanto mais se examina a Poezia, tanto mais claramente se-reconhece, a Retorica.

E esta é a razam; porque vemos todos os dias, que muitos, querendo ser Poetas, sam uns ridiculos: porque lhe-falta o principal fundamento; que é, saber pezar as coizas, e dar a cada uma o seu preso. observando aquilo, a que os Latinos chamam, decorum: que consiste no-introduzir cada um, a falar segundo o seu carater. Todos os defeitos apontados, sam esenciais, e frequentes: mas este ultimo da-inverosimilidade, é mais geral, doque se-nam-intende. Acham-se poucos Poetas, que nam pequem contra isto: pecam no-Drama, e pecam no-Epico: aindaque neste menos; porque sam rarisimos os que compoem, poemas Epicos. Mas em toda a outra sorte de poema Narrativo, sam mui frequentes em Portugal. Nas Comedias pouco caiem os Portuguezes, porque nam se-aplicam a elas: raras vi, fóra das-de Camoens: mas os Espanhoes caiem muito nisto. Verá V. P. um pastor, que fala com mais filozofia e prudencia, que um Cipiam Nasica, ou Catam Uticense. Acham-se relasoens, com encarecimentos tam despropozitados, que nam merecem outro nome, que uma enfiada de manifestas mentiras. Algumas vezes, um omem vulgar faz uma Decima, ou Oitava derepente: outras vezes, dá melhores conselhos, que um consumado Jurisconsulto. Finalmente em tudo se-ve pintada, a inverosimilidade. Nam digo eu só Calderon, mas o mesmo D. Antonio de Solis; que em outras coizas mostrou mais juizo, que Calderon; nesta o-perde. E finalmente todos os Espanhoes sam o mesmo: porque tropesam a cada paso na sutileza, que é impropria na boca, de semelhantes pesoas: e tambem impropria da-Comedia: que nada mais é, que uma imagem da-vida, proposta aos olhos dos-omens, para repreender as asoens ridiculas dos-mesmos.

Dos-Espanhoes o-aprendèram os Portuguezes: e comumente se-persuadem, que quem sutiliza melhor, e diz coizas menos verosimeis, é melhor Poeta. Metaforas mui fóra de propozito, encarecimentos inauditos, sam os seus mimozos. Ouvi gavar muito um Soneto do-Chagas, feito a um cavalo do-Conde de Sabugal, pola metafora da-Muzica, e comesa asim:

Galhardo bruto, teu acorde alento

Muzica é nova, com que aos olhos cantas:

Pois na armonia de cadencias tantas,