que é em carne o mesmo primeiro verso. E onde acha V. P. a galantaria? o mesmo digo dos-outros. E tudo isto provèm, de que tais Poetas intendem, que o-fazer um Soneto segundo as leis comuas, é coiza ridicula: e asim querem, esquipasam particular.
Se os omens considerarem, que coiza era a Poezia: se tivesem bem intendido, os principios dela: se quizesem decifrar, em que consiste a beleza e armonia, que nos-eleva, quando ouvimos um bom poema: nam podiam menos, que desprezar todas estas compozisoens; que sam indignas, até dos-proprios rapazes. Só os que nam sabem, que coiza é ingenho, se-aplicam a estas ridicularias. Dezesperando de chegar, à magestade dos-antigos compozitores; nam acháram outro meio de serem atendidos, que fazendo ridicularias. Sucedeo-lhe o mesmo, que aos Godos, com a Architetura: nam tendo sido instruidos nas boas artes,como foram os Gregos, e Romanos; e nam podendo chegar, à nobre simplicidade da-antiga Architetura: ornáram as suas fabricas, de tudo o que lhe-ofereceo, a sua mal regulada imaginasam. Desorteque os omens, que no-seculo prezente observam, os monumentos que nos-ficáram, destes barbaros; nam cesam de admirar, a pouca proporsam que se-descobre, em todas as suas fabricas: e o mao gosto que aparece, em todos os seus ornamentos. Muitos deles viviam em Roma: tinham debaixo dos-olhos, as famozas fabricas dos-Romanos: e desprezando tudo isto, produziam monstruozidades. Asim sam os autores destas Poezias: tem os bons livros: podiam neles observar, o que devem: e desprezam tudo isto, para seguirem fantasticas imaginasoens. Onde dise com galantaria, um autor moderno; que se a gloria de belo ingenho, se-conseguîra somente, com o trabalho que empregam, naquelas ridicularias; ele nam queria ser belo ingenho: pois era melhor, ser forsado da-galè, que conseguilo com tanto custo. E eu acrecento, que se estivese na minha mam, condenaria estes tais Poetas, a pasarem a sua vida fazendo Acrosticos, Anagramas, Laberintos; retirados do-comercio dos-omens; e felicitar-se com os seus inventos.
Tenho ainda outra coiza que advertir, que tambem é efeito, de mao ingenho; e sam aqueles ditos, que chamam agudos, e jogos de palavras; que se-acham frequentemente nos-Prozadores, e frequentisimamente nos-Poetas. Verá V. P. pesoas, que cuidam dizer grasas, e coizas ingenhozas; e dizem insipidas ridicularias. Outros, servem-se de uma palavra com um c, que posta com um l, significa coiza diferente: e daqui formam uma caraminhola, a que chamam ingenho; e ficam mui satisfeitos, da-sua agudeza. O pior está, em que á omens que escrevèram, sobre a agudeza; e quizeram ensinar isto, aos leitores. Li á anos um livrinho pequeno, de um Espanhol, que cuido era Gracian; e se-intitulava Tratado de la Agudeςa: lembro-me que o autor no-prologo, dezejava ao livro a boa fortuna, de cair em maons, de quem o-intendèse. Polos meus pecados eu fui um, dos-que nam se-cansáram em intendèlo: porque logo intendi, que o livro nam merecia que se-lese. Querer ensinar a dizer grasas, e agudezas; é o mesmo que querer ensinar, a mudar a natureza: quem nam é proprio para estas coizas, nam as-pode aprender. As grasas, pola maior parte, tem beleza respetiva: em boca de uns, tem grasa; na dos-outros, nam: a agudeza quando nam é pura, é o mesmo. Pola maior parte, as que pasam com este nome, nam meresem este titulo: sam meros jogos de palavras, que agradam infinitamente aos ignorantes. Neste particular a verdadeira regra é esta: Se o conceito traduzido em outra lingua, conserva a mesma forsa; pode-se chamar pensamento ou agudo, ou ingenhozo, segundo as circunstancias: se a-perde, pronuncie V. P. livremente, que é uma ridicularia: e que só pode ter lugar, entre gente que gosta daquilo.
Acham-se, é verdade, nos-Antigos muitas, e mui insulsas. Aristoteles na sua Retorica aponta algumas, a que chama Paragramas. Cicero no livro 2.ᵒ de Oratore, tratando das-facecias do-Orador, indica outras muitas: e ele mesmo em varias partes das-suas obras, serve-se delas: porque este era o seu defeito, ser mui faceto: e com as suas facecias aquistava, perigozos inimigos. Mas devo dizer, em obzequio da-verdade, que as que ele aponta, quazi todas sam frioleiras, e ridicularias; que nam merecem nome, de pensamento ingenhozo: e se V. P. me-nam-cre, leia o dito livro, e achará que lhe-digo a verdade. Estas venialidades em que caîram estes grandes omens, sam recompensadas com infinitas boas qualidades, que neles vemos: e sam tambem desculpaveis, por-outro principio; que é a falta de Critica, que tiveram os Antigos. Aqueles ingenhos elevados dos-primeiros autores, nam faziam todas as reflexoens necesarias, para procederem com exasam: polo contrario, os que os-seguîram, aindaque inferiores na grandeza de ingenho, excedem no-metodo, e na critica: e souberam evitar, os defeitos dos-primeiros.
Omero é grande, é natural, tem pensamentos elevadisimos, e excede nisto a Virgilio: contudo este, que escreveo despois, aindaque tenha menos natureza, mostra mais arte que Omero: pois soube evitar um defeito, que frequentemente se-acha em Omero, que é, amontoar superfluos epitetos, e às vezes insulsos: como tambem as digresoens, e coloquios insipidos, sem necesidade alguma. Cicero no-seu livro de Claris Oratoribus, em que censura, tudo o que ouve de bom na Antiguidade; traz belisimas reflexoens, sobre os defeitos de alguns Oradores: e bem procurou nas suas obras, fugir dos-tais defeitos. Contudo Quintiliano, que floreceo um seculo e meio despois, aindaque muitos furos abaixo, do-merecimento de Cicero; advertio coizas, que a Cicero tinham fugido. A verdade é, que os escritores que escrevèram, despois dos-primeiros; refletindo sobre as primeiras obras, examináram melhor, que coiza era bom ingenho; e deram regras, que os primeiros ignoravam. Quintiliano é um destes: mas sobre todos Dionizio Longino, que floreceo no-meio do-3.ᵒ seculo cristam. Este omem, que alem de Filozofo, e Retorico, era um perfeitisimo Critico; ensinou no-tratado, que nos-deixou de Sublimi stilo, como se-devia julgar nestas materias: e que coiza se-devia chamar Ingenho: e todo o mundo douto, concordou com ele. A ignorancia, que pouco despois se-introduzio no-Imperio; fez com que se-esquecesem, deste metodo de julgar: o qual se restableceo nos-fins do-seculo XVI. mas principalmente no-pasado, e no-prezente; em que as coizas se-estimam, nam polo que parecem, mas polo que sam. Mas como nem todos tem juizo, para intenderem as coizas; daqui nace, que neste mesmo seculo XVII. e ainda prezente, se-acham pesoas, que confundem as ditas coizas: e que, se acazo chegam a ler os Antigos, nam sabem advertir, o que neles se-deve imitar, ou desprezar: e por-iso chamam pensamentos ingenhozos a coizas, que estam mui longe diso: o que frequentisimamente se-incontra, neste Reino.
Um destes Poetas, observando as desprezantes maneiras de olhar, da-sua Dama; e convencido no-mesmo tempo, da-eficacia que os seus olhos tinham, para inspirar-lhe amor; os-considera como espelhos ustorios, feitos de caramelo: mas podendo ele viver, nos-maiores ardores que o-abrazavam; conclue, que a zona torrida é abitavel. Quando a sua Dama tem lido a carta, que lhe-escreveo, com sumo de limam, posta ao calor do-fogo; lhe-pede, que a-torne a ler, à luz das-chamas de amor. Quando ela chora, dezeja que um suave calor, excitado polo amor, fasa destilar aquelas lagrimas, pasadas polo alambique do-seu corasam. Quando ela está auzente, acha-se alem do-oitentezimo grao de latitude; quero dizer, quarenta graos mais vizinho do-Polo, doque quando se-acha com ela. O seu amor ambiciozo é um fogo, que sobe naturalmente para sima: o seu amor afortunado, parece-se com os raios do-Sol: e o seu amor dezafortunado, asemelha-se às chamas do-inferno. Quando o amor lhe-tira o sono, é uma chama, de que nam saie fumo: e quando a prudencia o combate, é um fogo asoprado polo vento. O seu corasam é um Etna, que em vez da-oficina de Vulcano, oculta aquela de Cupido. Às vezes, o corasam do-Poeta acha-se nevado, no-peito de todas as belas: outras vezes asado, na vizinhansa dos-seus olhos. Umas vezes, afoga-se dentro das-lagrimas; e no-mesmo tempo arde, entre os brasos de amor: semelhante a estes foguetes de nova invensam, que ardem, e estoiram debaixo da-agua. Em todo este discurso vé V. P. que o Poeta supoem, que o amor é verdadeiro fogo de cozinha; e que une estas duas ideias, fogo, e amor; para delas deduzir, todos os seus conceitos; a que ele chama sutis, e ingenhozos. Isto agrada ao comum dos-omens, namobstanteque seja uma fantazia impropria, e estravagante. Porem ja eu lhe-perdoára este ingenho mixto; se uzasem dele com moderasam: o que nam poso sofrer é, que sem prudencia o-introduzam por-tudo: e nos-queiram persuadir, que é grande ingenho, chamar a uma coiza com diverso nome: e que a dita coiza é tal, como a-pintam.
Acho tambem mui radicado nestes paizes, (aindaque tambem em alguns estrangeiros) aquilo de servir-se sem reflexam, das-divindades dos-Pagaons, em toda a sorte de poemas, Sagrados, e Profanos: e cuidam muitos, que fazendo ao principio a solita protesta, de que os-nomeiam no-estilo poetico; tem feito a sua obrigasam. Pode-ser que a-tenham com a religiam: mas certamente nam a-tem, com os bons Poetas. Com grasa dise um omem douto, que toda a ciencia de muitos modernos Poetas, nam pasava, das-Metamorfozes de Ovidio. A verdade é, que os Poetas modernos, sam prodigos desta mitologia. Se louvam uma molher formoza, ocupam-se mais em descrever Elena, ou Venus; Leda, ou Europa; doque a dita beleza. Se elogiam um eroe, entra logo Mavorte, e Alcides; e pola maior parte nam saiem daquî. Mas isto é sem duvida ridicularia. Em um poema burlesco, tem grasa a dita mitologia, porque só se-trata de divertir, com a aplicasam: mas em um poema serio, é fantazia condenavel. Que o-fizesem os Etnicos, tinham desculpa na sua cegueira: mas que o-fasa um Catolico, em cuja religiam nada significam, tais nomes: que introduza D. Joam de Castro, como grande amigo de Marte; e establesa boa conrespondencia, entre Belona, e Diniz de Melo; é um erro que nam se-pode perdoar a um Poeta, que pasa de 15. anos. Os que nam sabem engrandecer, as verdadeiras virtudes; é que recorrem às fabulas, para ornamento do-seu poema.
Nunca pude sofrer um Poeta, no-principio de um poema moderno, invocar as Muzas, e Apolo; para lhe-inspirarem os pensamentos: mandar Mercurio, com algum despacho de importancia: obrigar Minerva, a que tome a figura, de algum conselheiro: chamar do-Inferno Plutam, para excitar discordias, entre algumas pesoas: nam permetir tempestades, semque Venus vá pedir a Eolo, que fasa das-suas: nam consentir perda de batalha, semque o Destino atire alguma, das-suas solitas pedradas. Isto é uma afetasam, digna de compaixam. Nós temos na nosa religiam coizas, que podem suprir, a todas as ideias dos-Antigos. Temos Deus, temos Anjos, temos Santos, que nos-podem inspirar o bem: e temos Diabos, para inspirar o mal. O Poeta mostraria mais ingenho, se ele fizese os seus versos; doque pedindo a Apolo, que lhos-inspire. Um furiozo vento excitado polo Diabo, pode fazer o mesmo espalhafato, em uma armada; que Eolo, com todas as suas Furias. Para dar razam de uma batalha perdida, é mais natural e verdadeiro, recorrer à polvora, balas, e prudencia do-General; doque ao Destino, ou Fado, que sam palavras sem significado. O Diabo nam é menos prejudicial, à paz e quietasam dos-Omens, que pode ser Plutam, com Cloto, e as suas companheiras. Quem dece ao Inferno, para tirar de lá Lachesis, e outras destas Furias; nam lhe-era mais barato, tirar um diabrete, para concluir tudo aquilo? Os Gregos nam se-servîram das-divindades dos-Ebreos, ou Sirios, para explicarem as suas coizas; mas daquelas que estavam establecidas, no-seu paîz: E porque avemos nós servir-nos das-Gregas, tendo outras melhores? O que suposto, merecem rizo os Poetas, que se-ocupam com estas ridicularias: porque ou querem significar com aqueles nomes, alguma coiza; e isto é sacrificar o seu catechismo, à mitologia dos-Antigos: ou nam significam coiza alguma; e novamente merecem rizo, por-falarem em coizas, que nam pode aver: e é perder a verosimilidade do-poema, servindo-se de coizas, e vozes, que ninguem pode intender. Que o Poeta em uma metafora, em uma semelhansa, ou em alguma breve aluzam, tocáse algum destes pontos; poderseîa alguma vez perdoar: mas introduzilos em todo o corpo do-poema, como faz o Camoens na Luziada, que introduz Venus, e Baco por-toda a parte, sem descrisam alguma; ou tambem o Chagas, e o comum deste Reino; isto é mostrar; que nam tem juizo ou dicernimento, na aplicasam dos-ornamentos poeticos. E é muito de admirar, que os que sabem tambem descrever Venus, e Baco; nam saibam descrever, um omem seu contemporaneo, sem recorrer à Antiguidade. Pode-se porem sofrer, que o Poeta fale com as coizas inanimadas, como com pesoas: v. g. com os Ceos, Terra, Elementos, Morte &c. e fasa outras destas figuras de Retorica: isto nam ofende nem a religiam, nem a boa razam: aquilo, ofende ambas as coizas.
Estes defeitos nos-Poetas sucedem, porque lhe-faltam os dois principais requizitos, Criterio, e Retorica. Chamo Criterio, a uma boa Logica natural, exercitada na lisam de bons autores: Retorica ja se-sabe, que é a arte de persuadir, sem a qual nam se-pode ser bom Poeta: a qual supoem Juizo, e Criterio. A simplez propozisam destes dois requizitos basta, para atarantar estes Poetas ordinarios: os quais se-rim de todo o corasam, quando ouvem dizer, que sem ter singular Retorica, nam se-pode ser bom Poeta; ou ao menos intender, o artificio da-Poezia. Estes ingenhos das-duzias, páram na superficie das-coizas. Julgam que Retorica, é falar em proza; Poezia, falar em verso. Mas os omens que intendem a arte, rim-se ainda mais, da-sua ignorancia. Cuido que facilmente persuadirei a V.P. o que digo, se lhe-puzer diante dos-olhos, que coiza é Poezia; e isto a que chamamos, arte Poetica.
A Poezia é uma viva descrisam das-coizas, que nela se-tratam: outros lhe-chamam pintura que fala, e imita o mesmo que faria a natureza, e com que agrada aos omens. O artificio da-Poezia tem por-fim, agradar: e por-iso só se-emprega em dar regras, com que posa ocupar gostozamente um ingenho. A isto consagram os Poetas, todo o seu ingenho, e juizo. Se buscam argumento elevado, é para agradar, com a ideia de grandeza: se procuram imitar a verdade, é para agradar, com a galantaria da-imitasam: se nam dizem coizas contrarias às nosas inclinasoens, isto mesmo é para agradar: se propoem movimentos apaixonados, com que pintam ao vivo, diferentes afetos da-alma; tambem iso é para agradar: desorteque este é o idolo, do-artificio poetico. E como isto nam se-pode conseguir, sem saber procurar pensamentos, ou argumentos proprios, para mover as nosas paixoens: saber servir-se de palavras proprias, para pintar aquela coiza que se-quer; o que encerra as Figuras da-voz, e do-animo: Fica bem claro, que para fazer tudo, o que pede a arte, se-requer boa Retorica. Mas esta razam se-intenderá melhor, se-observarmos as diferentes especies, de Poezia.