Os Anagramas sam invensam nova, e tambem agradam muito, nestes paizes. Que divertimento nam é, ver um perfeito anagramatista, dezentranhar daquela palavra, mil coizas diferentes! Eles convertem o branco em negro; o dia em noite; o omem em besta. Se o tempo que aplicam, a esta rapaziada, o-aplicasem a coiza seria; podiam fazer um poema Epico bem grande. Acham-se alem disto mestres, que fomentam isto; dando premios aos rapazes, que nas escolas, ouvindo alguma palavra, descobrem nela um anagrama puro. Serîa isto nada, se se-contivese dentro das-escolas: mas o mao é, que saie para fóra, e se-introduz nos-discursos graves. Asisti uma vez a um sermam da-Conceisam, pregado polo P. * * * o qual fora muitos anos mestre, e tinha fama de grande Teologo; que provou o que dise, com anagramas, tirados do-nome da-Senhora, e de algumas palavras do-Evangelho. Creio que é necesaria mui pouca reflexam, para conhecer o ridiculo, deste estilo. Os Acrosticos sam primoscomirmaons dos-Anagramas, e nacèram no-mesmo seculo. Acham-se ingenhos mariolas tam infatigaveis, que no-mesmo Soneto poem trez vezes, o mesmo nome: duas nas extremidades, e uma no-meio. Para fazer isto ja V. P. sabe, quantas palavras é necesario voltar, e revoltar. E como as palavras se-buscam, polo comprimento, &c. segue-se que se-ám-de desprezar as melhores; só para achar aquela, em que esteja aquela letra inicial, e aquele numero de silabas. E daqui fica claro, que coiza pode ser, a dita compozisam. Os Ebreos despois do-Talmud, sam os que se-aplicáram a estas ridicularias, de Anagramas &c. mas fomente para achar misterios, nas Escrituras. Porem estes modernos, procuram somente o divertimento.
Dos-Cronogramas vi algum em Portugal, mas raro. Os Tudescos sam insoportaveis nesta materia, e tambem os Ebreos modernos. Consiste pois o Cronograma, em pòr no-principio, ou fim de um livro, ou em alguma inscrisam, certas palavras; parte das-quais letras sejam maiusculas: as quais juntas declarem a era, em que foi feito o livro. Omens á, que perdem mezes, para buscar as ditas palavras. Onde, quando V. P. vir algumas destas inscrisoens, em medalhas, ou livros; nas quais entre letras miudas se-achem majusculas; nam se-canse em buscar o conceito, que nam á: busque o ano, do-milezimo corrente.
Mais vulgar é em Portugal, outra sorte de ingenho falso, a que chamam Consoantes forsados. Quando querem experimentar um omem, se tem ingenho; dam-lhe consoantes estramboticos, paraque complete os versos: e como isto seja o mesmo, que obrigar um omem, a que diga despropozitos; ja se-sabe que saiem compozisoens, indignas de se-verem. Se um omem quando quer fazer um Soneto, polos consoantes de outro, ao mesmo asumto, e sem se-incontrar no-mesmo conceito; lhe-custa: se despois que um Poeta faz, uma boa quadra de um Soneto; nam acha às vezes os consoantes proprios, para a segunda; e para explicar o que tem ideiado: considere V. P. que coiza poderá fazer, quando o-obrigam, a dizer despropozitos? O mesmo digo, quando dam os motes com finais dezuzados, e que nam tem outras vozes consoantes. Sempre me-pareceo ridiculo este estilo: e nunca pude sofrer, que vindo quatro amigos, elogiar outro em um oiteiro; lhe-ajam de dar motes, para os-tormentar. isto é recompensar uma fineza com uma injuria; e querer uma satira, em lugar de louvor. Deviam dar ao Poeta, somente o asumto; e deixar-lhe a liberdade, de fazer a Decima como quizese: porque o entuziasmo deve ter, liberdade na expresam: sem a qual nam é posivel, deixar de dizer parvoises. Ou, em cazo de lhe-darem o mote, devia ser com algum final, que tivese muitas vozes consoantes da-lingua: paraque pudese contrafazer-se menos, e produzir coizas dignas. Porem sempre direi, que é efeito de um ingenho mui mao, dar consoantes estramboticos: e que todo o omem de juizo deve fugir, desta rapaziada.
Em outros Reinos, sempre se-deixa a liberdade, a quem gloza: e na minha Italia, onde sabem que coiza é Poetar; a estes glozadores, a que la chamam Improvizadores, nunca dam motes, mas só o asumto. E por-iso á alguns, e vi tambem molheres, que discorriam prodigiozamente: e cujas obras escritas, mereceriam grande louvor. Especialmente incontrei um omem, de mente tam fecunda, que polo espacio de trez oras despois de jantar, fez continuamente versos; variando eu sempre os asumtos. Versejava em oitava rima, conforme o costume dos-versejadores de Italia: e com tanta promtidam; que cheguei a suspeitar, que as-trazia estudadas: desorteque me-vi obrigado, a variar infinitamente os argumentos: mas o omem sempre era o mesmo: e o profluvio de palavras nam tinha limite. Notei especialmente duas coizas singulares: nunca errou verso, ou na quantidade, ou no-consoante: e nam uzava de palavras sem significado, de que frequentemente uzam os Poetas; mas dizia coizas bem ditas, e de sustancia. Mas este grande omem, querendo-lhe eu dar um mote, nam se-quiz sugeitar a glozálo. Nele fiz algumas reflexoens, das-que a V. P. aponto.
Vemos ainda outra coiza pior, que é, introduzir os consoantes, ou rimas, no-verso Latino. Nos-seculos da-ignorancia, ouve um Poeta destes, que reduzio a metade da-Eneida, em verso Latino rimado. Acham-se ainda alguns Imnos ecleziasticos, feitos no-undecimo, duodecimo, e seguinte seculo, com consoantes e toantes. vi alguns Portuguezes, que gostavam disto. Mas tudo é efeito de suma ignorancia; e é nam conhecer, qual é a beleza, e armonia da-lingua Latina. Ingenhos ordinarios, que nam podem chegar à galantaria, dos-antigos e bons Poetas; querem-se singularizar, com tal estilo: e por-iso se-devem desprezar.
Tambem os Laberintos de letras, sam mui mimozos em Portugal: e Poeta conhece V.P., que estimou mais um laberinto que fez, doque se fizera alguma famoza compozisam. Outros tem por-coiza grande, fazer laberintos de quartetos, dispostos em certa figura, de-sorteque se-lem por-todas as partes; e sempre conservam, a mesma consonancia. Outros fazem versos, que se-lem para diante, e paratraz: de uma parte, fazem um sentido: da-outra, outro contrario: empregam nisto tempo consideravel, nam só em fazèlo, mas em decifrálo: e chamam a isto, emprego de sublime ingenho. Que omens! O simplez nome de laberinto basta, para desprezar esta sorte de compozisoens: olhar para eles, deve confirmar este propozito. Decifrado um laberinto de letras, comumente acha-se o nome de uma pesoa, e nada mais: e onde está aqui o ingenho? Custa às vezes ao Poeta, fazer um laberinto de um quarteto, um mez; e como nam pode chegar a encobrir a compozisam, de modo que outro em um abrir de olhos, a-nam-decifre; todo o ingenho do-Poeta, que lhe-custou um mez, excede outro, com um abrir de olhos. Os outros laberintos de quartetos &c. nenhum tem conceito: porque nam podem unir-se duas coizas, poetar bem, e poetar em laberinto. E asim com muito trabalho consegue o Poeta, que os outros conhesam; que ele nam sabe fazer, versos bons.
Igualmente é estimada neste paiz, uma especie de Sonetos, em que se-repete a mesma palavra, em todos os versos: que é o mesmo que a galantaria, dos-consoantes forsados. Porque obrigado o Poeta, a introduzir a dita palavra em cada verso, nam pode ideiar livremente; nem unir um verso com outro; nem sair com alguma compozisam, que seja digna. Podia citar mil exemplos: mas nam queira V. P. nenhum melhor; que o Soneto que se-atribue ao Chagas, e comesa:
O tempo ja de si me-pede conta.
Em todos os versos entra, a palavra tempo: que é uma embrulhada terrivel: e o conceito do-fim consiste nisto:
E que se-chega o tempo de dar conta.