Dos-Enigmas de palavras, entre os Povos do-Oriente achamos muito. Era entre eles, uma principal parte da-sabedoria; saber propor, e decifrar os Enigmas. Os mesmos Reis se-divertiam, em propor uns a outros, estas advinhasoens: e às vezes nos-convites, este era o ultimo prato. Mas destes omens nam falamos, porque ignoráram, o que era bom gosto. Mas ainda entre os Gregos ouve algum, que fez algum enigma: mas foram raros, como mostra o noso Lilio Gregorio Gyraldi, nos-seus Opusculos. Os Romanos mais advertidos, fugîram disto. Sobre a outra sorte de Enigmas pintados &c. algum vestigio vemos, nos-Antigos: mas eles tinham outro diferente motivo. Em Roma era proibido, que um particular puzese a sua efigie, que era o mesmo que a sua arma, no-dinheiro corrente. Caio Cezar, que era o Provedor da-Caza da-moeda, mandou esculpir nelas, a figura de um Elefante: porque a palavra Cezar em lingua Punica, significa Elefante. Tambem entre os Gregos, principalmente Ateniezes, era proibido severamente, que os estatuarios, e artifices puzesem o seu nome, nas estatuas &c. Mas dois Architetos, tendo feito um grande palacio, esculpiram em varias partes, uma Lagartixa, e uma Ran, que eram os seus nomes. Observei eu tambem muitas vezes, na famoza estatua equestre de bronze, do-Imperador Marco Aurelio, que se-acha em Roma na prasa do-Capitolio; que as crins do-cavalo entre as orelhas, reprezentavam uma coruja: que sem duvida era o nome do-autor: que verosimelmente era Ateniez, vistoque em Atenas avia grande abundancia delas. Mas isto que os Antigos fizeram, por-necesidade, alguns Modernos o-fazem, por-eleisam: e se-cansam em inventar um enigma, como em fazer alguma obra eloquente. Nam poso deixar de escrever aqui um epitafio, que cita um autor de bom juizo, que se-poz na lapide sepulcral. O morto chamava-se: Nicolao Antonio Simeoni: e querendo-lhe fazer um epitafio ingenhozo, escrevèram isto: Hic jacet Barium, Patavium, de Nunc dimittis. Barium aludia a S.Nicolao Arcebispo de Bari: Patavium a S.Antonio de Padua: e Nunc dimittis ao canto do-velho Simeam. Veja V.P. que tal era o enigma, e que tal serîa o autor! Disto ainda oje se-acha muito, entre os ignorantes: e eu tenho visto bastante, em Portugal. Intrei uma vez na caza, de certo cavalheiro Portuguez, que estava lendo um livro de Epigramas Latinos, in 4.ᵒ proguntei-lhe, que coiza lia: e respondeo-me, Que lia o melhor Epigramatista, e o melhor Enigmatico. Que o autor era um Portuguez moderno, o qual em cada Epigrama ocultára um enigma, com tanto estudo; que toda aquela menhan procurára decifrar um, sem o-conseguir. Que ja tinha alcansado, o segredo de outros: e que reconhecia, que neles avia muito ingenho. Ofereceo-se para me-emprestar o livro, e decifrar algum. Eu agradeci a atensam: e respondi-lhe, que tinha mais que fazer: e que nam queria priválo do-gosto, de se-ocupar em coizas tam ingenhozas. E a isto chama-se ingenho! e á quem publique tais livros, neste seculo!

Ponho na mesma clase os Ecos, Equivocos, Anagramas, Acrosticos, Cronogramas, Consoantes forsados, Laberintos &c. Tudo isto aindaque tivese seus vestigios, em alguns menos advertidos da-Antiguidade; resucitou, ou se-inventou, nos-seculos da-ignorancia. Eu sei que Ovidio, em uma parte das-suas Metamorfozes, quando fala da-Ninfa Eco, antes de ser mudada em puro eco, introduz algum. Mas alem de que o-pedia, a necesidade da-materia; visto ser ela o argumento, da-sua descrisam; os omens de juizo rim-se, da-sua puerilidade: sendo certo que Ovidio, caio em muitos defeitos, e escreveo com mais facilidade, que reflexam. Mas nam se-pode sofrer, que omens modernos, e que mostráram doutrina em muitas coizas, caisem nesta rapaziada, condenavel ainda em um rapaz: e que fizesem compozisoens, expresamente para mostrar, que sabiam fazer eco. Eu vi ecos, que respondiam em Latim, e outras linguas: e tive compaixam do-Poeta, que se-cansára com aquilo. Os Equivocos nam os acho na Antiguidade, separados dos-Enigmas, tirando rarisimo, que em outra parte direi: sam invensam moderna. V. P. sabe muito bem, que só reináram, no-tempo da-ignorancia; e que os Espanhoes, e Portuguezes mais advertidos, fogem oje deles. Com efeito nam á coiza mais ridicula, que chamar conceito, a um ingano: e procurar aquilo, que se-devia evitar. Quando eu li algumas das-Jornadas, de Jeronimo Baîa, tive compaixam do-dito Religiozo: e asentei, que a jornada que devia fazer, era de sua caza para o Ospital. Esta sorte de Poetas sam doidos, aindaque nam furiozos. Mas nam cuide V.P. que isto está totalmente reprovado: eu ainda conheso, quem o-pratica: e quando se-lhe-oferece ocaziam, de dizer um equivocozinho, banham-se em agua de Cordova. Nam falo dos-idiotas, porque estes nam cuidam niso: mas destes chamados doutos, Frades, Seculares, Sacerdotes, Estudantes &c. entre estes acha-se muito disto: porque nam se-incontra uma alma cristan, que dezinganadamente lhe diga, que aquilo é uma parvoice.

Mas o pior é, que ja o Equivoco pasou do-Portuguez, para o Latim: e muitos que deviam saber, que coiza era Latim, nam fazem escrupulo, de introduzirem nele equivocos; compondo um Latim novo, cheio de todas estas arengas. Um autor de credito, a quem eu estimei muito, pola sua doutrina, e piedade, tambem tropesou nesta materia; compondo uma descrisam do-Ceo, por-equivocos. Esta obra, que fora prometida anos antes, com diferente titulo; teve muita gente em grande esperansa; e eu fui um deles: mas despois que a-li, confirmei-me no-conceito em que estava, de que nam é obra para este seculo; mas cento cincoenta anos antes, serîa um prodigio. Todo o artificio consiste, em ter buscado nomes de Santos, que signifiquem varios oficios da-Republica, de que se-acham carros nos-martirologios &c. e descrever uma Cidade ideial, introduzindo em seus lugares, os ditos nomes. Contudoiso esta obra teve mil adoradores, e apologistas; que mostram abrasar, a mesma opiniam. Eu porem que dezejo cooperar, para o credito deste omem, quizera que se-nam-tivese publicado: porque me-parece, que nam é digna de estar ao pè, de outras obras do-mesmo autor: e que defender o contrario, é mostrar mais paixam, que dicernimento: e deste meu parecer foram, os Estrangeiros de juizo, a quem a-mostrei. Mas o que este fez em uma só materia, fazem outros em toda a ocaziam: e desculpam-se com um ou dois Estrangeiros, que sam os gavadinhos. Como se os Estrangeiros, nam fizesem tambem parvoices! ou como se naquelas Nasoens nam ouvese, quem abomináse tal metodo! Com efeito o Tezauro, mas principalmente o Juglar, de quem se-servem neste genero de equivocos, e agudezas; é insoportavel: e tem sido o que arruinou muita gente, que nam peza bem o que abrasa. Ele compoz uma certa coiza, a que chama Elogios: feitos em um Latim, que nam se-sabe de que seculo é; porque é todo cheio de sutilezas, e equivocos; e cada palavra se-deve tomar, em sentido diferente doque soa. O primeiro Elogio feito ao Verbo Eterno, comesa asim:

Amicus silentii Deus est.

Semel in tota æternitate locutus Deus,

Uno omnia dixit in Verbo.

Prima sui fecunditate facundus,

Ipsa sui conceptione fit parens;

Veja V. P. o que aqui vai! A palavra silentium é aqui tam impropria, que nam pode ser mais: porque silentium é um termo relativo, que significa estar calado, ou quieto; quem primeiro falou, ou fez rumor: e isto nam se-pode aplicar ao P. Eterno, o qual sempre fala a mesma palavra, que entam falou. Onde nam á coiza mais contraria ao silencio, que o falar do-Eterno Pai: e, seguindo a sutileza do-Juglar, deve-se dizer, que nam á quem seja, mais amigo de falar, porque nunca se-cala. A palavra semel tambem é impropria. Ela nam significa uma coiza, que sempre se-faz: mas que se-faz uma vez só: e no-noso cazo, que já é pasada: e isto nem menos se-pode aplicar, ao Padre. Tambem o nome locutus, rigorozamente falando, nam significa, quem pronuncîa uma palavra, como ele supoem; mas quem faz um discurso. Uno omnia dixit in Verbo, nam é fraze Latina, no-sentido em que ele a-toma: porque uno verbo, ou verbo dicere, de que uzam os Latinos; nam significa, pronunciar uma voz, como supoem o elogio; mas dizer poucas palavras, e explicar muito em pouco: a palavra Verbum, aqui é rigorozo equivoco. Prima sui fecunditate, nam sei o que quer dizer: porque eu nam acho, que o Padre Eterno geráse mais, que um filho: e a palavra prima é relativa. Alem diso a palavra fecunditas, nam significa, gerar uma só vez; mas muitas, e ser fertil: e nem menos isto se-aplica, ao P. Eterno. O mesmo digo da-palavra facundus, que nam significa, quem pronuncia uma só palavra; mas quem é eloquente, e sabe fazer muitos e bons discursos: e tudo isto está longe do-sentido, em que o-toma Juglar. A palavra conceptio, é outro equivoco. Ela nam significa, conhecer e intender alguma coiza; mas compreender, como um vazo compreende o licor, que lhe-deitam: e neste sentido se-transfere, para explicar o modo, com que o utero das-molheres, recebe a semente; de que rezulta a gerasam. Significa tambem, excogitar: e em nenhum destes sentidos se-pode aplicar, ao P. Eterno: pois nem o Pai excogita o Filho; nem se-concebe a si, mas ao Filho. Asimque toda esta arenga se-reduz, a um trocadilho e jogo de palavras: como V. P. poderá reconhecer, se quizer ler o dito autor.

E que diriam os nosos antigos Romanos, se visem abuzar da-magestade dos-Elogios: destruir a naturalidade, e simplicidade da-lingua Latina: perverter a propriedade das-suas expresoens: somente para dizer quatro sutilezas, que nam concluem nada? Contudo iso este autor, bandido de outros Reinos, achou muitos imitadores, e idolatras neste: aos quais será mais facil persuadir, que os antigos Romanos nam souberam, escrever com elegancia; doque que o P. Juglar nam seja, um milagre de doutrina, e facundia. Mas permita-me V. P. repetir o versinho, quisque suos patimur manes: o certo é, que este estilo, com mais razam se-deve evitar no-Latim, que no-Portuguez.