No-fim da-sua carta, repete V. P. uma circunstancia, que ja me-pedio em outra sua: vem aser, que diga alguma coiza, da-Poezia. Eu me-lembro mui bem, da-sua petisam: a qual nam deixei por-esquecimento, mas com suma advertencia: vistoque só despois da-Retorica, se-deve tratar da-Poezia: a qual nada mais é, que uma Eloquencia mais ornada. Só me-resta uma dificuldade, quero dizer, se poderei eu dezempenhar, o que V. P. me-encomenda. Eu tenho pouca noticia de Poetas Portuguezes: ou nam tenho toda, a que é necesaria, para formar juizo exato deles. Desde que li alguns, os-desprezei quazi todos, porque me-nam-agradáram. Contudo lembrando-me, que a medida do-verso Portuguez, é a mesma do-Italiano; e que as regras em todo o mundo culto, sam as mesmas; direi alguma coiza que me-ocorre: se errar, deverá desculpar-me; lembrando-se que só o-faso, para lhe-obedecer.
Digo pois, que o estilo dos-Poetas deste seu Reino, e desta sua lingua, pouquisimo me agrada: porque é totalmente contrario, ao que fizeram os melhores modelos da-Antiguidade, e ao que ensina a boa razam. A razam disto é, porque os que se-metem a compor, nam sabem que coiza é compor: onde, quando muito sam Versificadores, mas nam Poetas. E disto nam queira V. P. melhor prova que ver, que nenhum até aqui se-rezolveo a escrever, uma boa arte Poetica Portugueza: todos se-remedeiam com esta Espanhola, que é muito má fazenda. Certo meu conhecido me-mostrou á tempos, uma manuscrita: mas nada mais era, que um compendio da-dita Espanhola; em que somente se-trata, das-medidas dos-versos, e combinasoens de consoantes: o que está mui longe de se-chamar, arte Poetica. Onde concluo, que ainda nam vi livro Portuguez, que ensináse um omem, a inventar, e julgar bem; e formar um poema como deve ser. De que nace, que os que querem poetar, o-fazem segundo a forsa da-sua imaginasam: e nam produzem coiza, digna de se-ver. Com efeito verá V. P. muitos, que quando escrevem dez versos, lhe-chamam Decima: e quando unem quatorze, chamam-lhe Soneto: e asim das-mais compozisoens. Desorteque compoem antes de saberem o que devem dizer, e como o-devem dizer: e quando tem formado uma caraminhola, em trajes de Poezia, ficam mui satisfeitos; e comesam a dizer mal, de tudo o que nam intendem. Destes se acham, nam duzias, mas centos.
De nam terem profundado a materia, nacem todos os defeitos da-Poezia: de que se-acham infinitos na Espanha, e tambem em Portugal. Geralmente intendem, que o-compor bem consiste, em dizer bem sutilezas; e inventar coizas, que a ninguem ocorresem: e com esta ideia produzem partos, verdadeiramente monstruozos; e que eles mesmos, quando os-examinam sem calor, dezaprovam. Os mestres de Retorica, em cujas escolas é que se-faz algum poema, e que deviam ensinar estas coizas; sam os primeiros que se-calam, e deixam fazer, o que cadaum quer. Envergonham-se, de poetar em Portuguez: e tem por-pecado mortal, ou coiza pouco decoroza, fazelo na dita lingua. Imaginasoens, e prejuizos ridiculos! A Poezia nam é pecadora: a aplicasam é a que a-pode fazer condenavel, se nam é reta: e como iso pode suceder tanto na proza, como no-verso; daî vem, que estes que julgam asim, nunca deviam escrever em Portuguez. Em todos os tempos os omens de virtude, se aplicáram a este exercicio. Os Santos Padres mais doutos, compuzeram muita coisa em verso. S. Bazilio, S. Gregorio Nazianzeno foram grandes Poetas. O primeiro, compoz expresamente um tratado, no-qual ensinava o modo, de ler os Poetas com utilidade. O segundo, vendo que Juliano Apostata Imperador Romano, proibîra aos Cristaons, ler os Poetas Etnicos; compoz algumas poezias, imitando Omero, Pindaro, Euripides, Menandro &c. para instrusam da-mocidade Cristan. E isto nam o-fizeram em Persiano, ou Arabio; mas na sua lingua materna, que era a Grega. O mesmo fez Apolinario Bispo de Laodicea, e alguns outros. S. Inacio de Loyola, e outros modernos tambem fizeram, versos vulgares. Se damos um paso atraz, acharemos, que muitos escritores Sagrados, escrevèram em verso. O que é tam claro, que ninguém pode menos que rir-se de ver, que um Portuguez se-envergonhe de poetar na-sua lingua, fazendo-o em Latim. Como se na lingua Latina, nam se-pudesem dizer todas as loucuras, que se-dizem na Portugueza! De que vem, que, segundo o estilo das-escolas, um Portuguez é obrigado a nam saber, que coiza é Poezia. Alem disto, aquilo que lhe-ensinam de Latim, nada mais é, que a medida de quatro versos; e fazer alguma breve compozisam. Desorteque em nenhuma lingua se-fazem, as reflexoens necesarias, para ser bom Poeta. Antes praticando-se na Latina, uma sorte de versos feitos à moderna, com muitas sutilezas, e conceitozinhos; este estilo se-difunde, nas compozisoens Portuguezas, com geral dano da-Poezia.
Duas sam as partes, que compoem o Poeta, Ingenho, e Juizo. Ingenho para saber inventar, e unir ideias semelhantes, e agradaveis: Juizo para as-saber aplicar, onde deve. E nestas duas partes pecam, nam só os modernos, e mediocres Poetas; mas pecáram ainda os antigos, e grandes omens; nos-quais nem tudo é igual: como mostram, aqueles, que criticáram com juizo, os Antigos. Achamos omens com muito ingenho, e com pouco juizo: porque estas duas coizas, podem-se unir muito bem: e para nam parecer falsa, a minha propozisam, permita-me V. P. que me-explique melhor. O Ingenho consiste, em saber unir ideias semelhantes, com promtidam, e grasa; para formar pinturas que agradem, e elevem a imaginasam: desorteque nam basta que sejam semelhantes; é necesario que divirtam, e arrebatem. v. g. Quando o Poeta diz, que a garganta da-sua amada, é branca como a neve: nisto nam aparece ingenho: se porem acrecenta, que é igualmente fria; nisto está o ingenho. Polo contrario o Juizo, é aquela faculdade da-alma, que peza exatamente todas as ideias: sepára umas das-outras: nam se-deixa inganar da-semelhansa: e atribûe a cada uma, o que é seu. Isto, pede uma exata meditasam, e prudencia fundada: aquilo, só pede uma memoria cheia de muitas, e diferentes ideias. E daqui vem, que vemos frequentemente, omens de imaginasam fecunda, e ingenho vivo; sem um escrupulo de juizo: antes comumente tem menos juizo, os que tem mais ingenho: motivo polo qual produzem obras, que merecem rizo. Os que nam distinguem isto, confundem Ingenho, e Juizo: e chamam omens de juizo, aos que dizem mil ridicularias, e produzem infinitas monstruozidades, e despropozitadas imaginasoens.
O verdadeiro ingenho pois, é uma semelhansa de ideias, que diverte, e eleva. Polo contrario o falso ingenho consiste, na semelhansa de algumas letras, como os Anagramas, Cronogramas &c. às vezes na semelhansa de algumas silabas, como os Ecos, e alguns consoantes insulsos: outras vezes na semelhanzas de algumas palavras, como os Equivocos &c. finalmente consiste tambem, em compozisoens inteiras, que aparecem com diferentes figuras ou pinturas, como abaixo diremos.
Destas duas especies de ingenho bom, e mao, se-compoem uma terceira, que participa de ambas, a que alguns doutos chamáram Ingenho mixto: que consiste, parte na semelhansa das-ideias, e parte das-palavras. v. g. Imagina o Poeta, que o Amor tem, semelhansas de fogo: e une estas duas ideias, na sua imaginasam. Serve-se das-palavras de fogo, e chama; para explicar esta paixam do-animo: e como elas tem significasam incerta, rezulta daqui um todo, que tem parte de ingenho, e parte de aparencia: o qual é mais ou menos estimado, segundo que domina mais ou menos, um que outro: quero dizer, segundo que a semelhansa caie mais, sobre as ideias, que sobre as palavras. Na idade de oiro da-Latinidade, apenas se-acha vestigio diso, tirando em Ovidio, que tem alguma coiza: na idade de prata, Marcial cuido que foi o inventor: e nestes ultimos seculos, nam se-ve outra coiza.
Mas a verdade é, que um conceito que nam é justo, nem fundado sobre a natureza das-coizas, nam pode ser belo: porque o fundamento de todo o conceito ingenhozo, é a verdade: nem se-deve estimar algum, quando nam se-reconhesa nele, vestigio de bom juizo. E como os Antigos observáram muito isto, por-iso neles se-observa, certa maneira natural de escrever, e certa simplicidade nobre, que tanto os-faz admiraveis. Polo contrario, os que nam tem ingenho para fazerem:, que um conceito brilhe, com a sua propria luz, sem a-pedir emprestada; vem-se obrigados, procurar toda a sorte de ornamentos, e apegar-se a quaisquer agudezas boas, ou más; para com elas fazerem figura, e parecerem ingenhozos. Nas obras dos-Antigos nam distinguem o bom, nem o mao: abrasam os mesmos erros, como se fosem maravilhas: sem advertirem, que aindaque fosem nosos mestres, nam os-devemos seguir, com os olhos fechados; mas abrasar neles, o que nam repugna à boa razam.
Deste principio naceram, aquelas ridiculas compozisoens, que tanto reináram, no-seculo da-ignorancia, digo no-fim do-seculo XVI. de Cristo, e metade do-XVII. e desterradas dos-paîzes mais cultos, ainda oje se-conservam em Portugal, e nas mais Espanhas. Os omens daqueles seculos ignorantes, nam observáram nos-Antigos o bom, mas o mao. Vîram, que neles se-achavam vestigios, de um mao ingenho; e ese foi o que abrasáram: de-sorteque ainda oje tem os doutos grande trabalho, em desterrar isto, da-mente dos-omens. Alguns Poetas Gregos ridiculos, autorizáram este uzo. Atribue-se a Theocrito, mas falsamente, uma especie destes poemas, a que nós podemos chamar pintados, ou figurados. Reprezenta um, o Ovo; outro, uma Machadinha; outro, um Altar &c. Isto é uma puerilidade, indigna de um Poeta tam grande, como Theocrito. Certamente para fazer semelhantes versos, deve o Poeta andar detraz, nam do-bom conceito, mas da-palavra longa, ou curta: vistoque os versos nam sam, de igual medida e grandeza. Este pesimo gosto se-restableceo, no-seculo pasado, nam só no-verso, mas tambem na Proza. Eu vi um Ecce Homo, feito de letrinhas miudas, que continham o testamento Novo. vi um retrato do-Imperador Jozé, cuja cabeleira, e vestido era feito de versos. finalmente acha-se muito disto, nos-Poetas tolos do-seculo XVI. e XVII.
O que me admira neste particular é, que o Padre Bluteau, que nacèra em um Reino, no-qual se-sabe, que coiza é Eloquencia, e bom gosto; quizese introduzir tambem isto, em Portugal. Li averá anos um papel avulso, que ele compuzera nas exequias, da-Rainha D. Maria de Saboia, molher d’El-Rei D. Pedro II. e o-intitulou Protheus doloris; em que se-continha bastante disto. Avia um epitafio piramidal, cujo artificio consistia, em ter algumas regras mais compridas que outras. Avia tambem variedade de disticos, em que se-aludia às letras todas do-A. B. C.: e muita desta ridicula fazenda. Tinha tambem uma enfiada daqueles titulos, que ele costuma pór nos-seus prologos, e que embrulham o estomago, aos leitores de perfeito juizo. Com efeito eu ja dise a V.P. que este era o estilo, do-tal Religiozo: metodo, criterio, bom gosto, nam sabia de que cor era. é o mais cansado escritor, que eu tenho visto. Na verdade era infatigavel, em algumas coizas: mas nam era autor para se-imitar: porque bebèra desorte, este estilo de Portugal; que até em Pariz quiz defender a um Cardial, que o estilo de pregar dos-Portuguezes, era excelente: o que cuido ter lido, em uma das-suas obras predicaveis. Emfim tudo isto é efeito, de mao gosto, e nenhum criterio.
Daqui tambem nacèram, as outras compozisoens mais ridiculas. Conta a Istoria, de um certo Tryphiodoro; que compoz uma Ode, sobre os trabalhos de Ulizes; e dividio este poema em 24. livros, a que deo o nome das-24. letras do-Alfabeto, pola razam contraria: vistoque no-primeiro livro, faltava o A. no-segundo, o B. &c. e em nenhum se-achava a palavra, que tivese a dita letra do-titulo. Eu vi uma compozisam moderna, que seguia o mesmo metodo. Certamente nam á coiza mais ridicula, que estes Lipogramas. Serîa um belo divertimento, observar este Poeta, empenhado a revolver todos os Dicionarios; só para deitar fóra, a letra escomungada. Serîa necesario, desprezar a voz mais propria, e mais elegante; somente por-ter a desgrasa, de se-achar nela, a dita letra. Mas que coiza serîa a tal compozisam! que palavras ridiculas! que fraze inaudita! que conceitos improprios! Foi fortuna, que o tal autor teve poucos sequazes, na Antiguidade.