O Feio, pois nam liga o pensamento,
Deixa miudamente ver o objeto.
Isto faz que se observe ese portento.
Quanto estás obrigada, a ese aspeto;
Se no-enorme te-dá merecimento!
Neste Soneto, que em tudo é natural, o conceito dos-dois ultimos versos da-primeira quadra, prova-se na segunda, e se-confirma nos-tercetos: dando materia ao conceito do-fecho, que é nobre e natural, e diz mais doque soa. Mas nem todos seguem este parecer: e verá V. P. infinitos Sonetos, ainda de omens que prezumem ser Poetas, que pecam contra tudo isto. Eles tem dois extremos: ou dizem conceitos inverosimeis, e encarecimentos tam fóra do-escolio, que ninguem os-pode sofrer; ou dizem frioleiras; ou finalmente servem-se de conceitos, que nam é fácil intender: e o melhor da-galhofa está, em que ornam tudo isto com frazes, que nam se-percebem. De tudo achará V. P. exemplos, sem sair do-Chagas: o qual tem Sonetos em que se-acham, estas trez coizas: inverosimilidades, oscuridades, e frialdades.
Quanto às inverosimilidades, nam queira V. P. melhor prova, que o Soneto Espanhol, feito ao pè pequeno d’aquela Senhora &c. mas ainda á outros. Faz ele alguns Sonetos, a que chama Eroicos, e entre eles algum ao Conde da-Torre, que matou de um golpe um toiro. Asumto mui mimozo dos-Portuguezes, ao qual tenho lido infinitos Sonetos, de diferentes autores. Intende V. P. que este titulo Eroico, promete um pensamento nobre e admiravel? asim devia ser; mas nada menos é: e nestes eroicos entram igualmente as sutilezas, e impropriedades. Se me-nam-dá credito, ousa o primeiro, que diz asim:
Tam grande golpe, o Conde ilustre, dèstes
Nese amante de Europa que matastes;
Que só o estrago, que ao ferir cauzastes,