Outras vezes o Poeta expoem na primeira palavra, o asumto: e desta sorte é o Soneto, que citei a V. P. em outra carta, feito a uma cara mui feia. Mas nem todos os asumtos, se-podem propor asim; e podendo, nem todos os Poetas sam capazes, de o-fazerem. Porem é grande beleza do-Soneto, que na primeira quadra diga algum conceito; que dè materia a todo o discurso da-segunda; e encadeie naturalmente com os tercetos. E sem sair do-tal Soneto, o-repitirei novamente; porque me-parece que prova, o que digo:
Es feia: mas desorte, que orroroza
À tua vista é bela a feialdade:
Mas tens fortuna tal, que a enormidade
Te-consegue, os tributos de formoza.
Cara tam feia, coisa tam pasmoza
Todos observam, e move a raridade.
Nam desperta o comum a curzidade:
Ser rara, é que te-adûla vaidoza.
Ama-se o Belo, e cega o mesmo afeto.