Finalmente eu paro aqui: porque se quizese examinar todas as Oitavas, comporia um volume. Basta que V. P. o-leia, e examine, e achará que todo o livro se-compoem disto; e de palavras que nam se-intendem; e epitetos que nam significam nada. Confeso, que ainda nam vi Poeta, que escrevendo tanto, disèse tam pouco, como o Chagas. Estas reflexoens que faso a V. P. sobre o Chagas, poso fazer em outras obras; nam só de autores das-duzias, mas ainda daqueles que se-acham joeirados, na Fenix Renacida; e em outras colesoens de poemas. Mas escolhi este autor, porque é mui conhecido, e louvado, e procurado de muitos: e asim quiz apontar um, para exemplo. O que porem digo dele, deve-se aplicar a todos os outros, que seguem o mesmo estilo. O ponto está ter bem na cabesa, as regras da-Poezia; e examinar sem paixam, as obras; que facilmente se-descobrirám, os defeitos.

Se V. P. com estes principios, toma o trabalho de examinar, muitos dos-seus Poetas, ou a maior parte deles; achará, que tropesam no-mesmo defeito do-Chagas; com a unica diferensa de mais, ou menos: e ainda muitos dos-que tem bom ingenho; porque lhe-falta o juizo, para saberem examinar as materias. A regra que eu observo neste particular, é esta: quando vejo um Poeta destes, que se-serve de expresoens, que nada significam; ou que compoem de sorte, que o-nam-intendem; asento que nam quiz ser intendido; e em tal cazo, procuro fazer-lhe a vontade, e nam o-leio. Com esta sorte de omens faso o mesmo, que com os laberintos, e enigmas &c. os quais nunca me-cansei em decifrar. eles que o-fazem, que se-divirtam com iso. Se todos asentasem neste principio, veria V. P. como se-mudava a Poezia nestes paîzes: porque seriam obrigados os Poetas, a lerem somente as suas obras: e asim, ou se-dezinganariam eles mesmos com o tempo; ou, nam inganariam os outros: e poderseîam achar Poetas, de algum merecimento: principalmente se chegasem a conhecer, quais sam os requizitos necesarios, para a Poezia. A razam destes inconvenientes é, porque se-persuadem comumente, que para ser Poeta, basta saber a medida de quatro versos: e saber ingenhar conceitos exquizitos. Quem se-funda nisto, nam pode saber nada: sam necesarias muitas outras noticias. É necesario doutrina, e intender bem as materias que se-tratam. é necesaria a Filozofia, e saber conhecer bem, as asoens dos-Omens, as suas paixoens, o seu carater: para as-saber imitar, excitar, e adormecer. Aqui entra novamente a Retorica, que supoem todas aquelas coizas: entra uma pouca de istoria, para nam dizer parvoices: entra a istoria da-Fabula &c. Tudo isto se-mostra manifestamente, nos-melhores poemas que temos da-Antiguidade. Virgilio, e Oracio &c. eram omens que intendiam perfeitamente, o que tratavam: e sabiam muita coiza, que introduziam proprisimamente, nos-seus poemas; de que se-compoem, o ornamento deles. O mesmo digo, de outros Poetas modernos, e insignes. Onde, quem nam tem estes fundamentos, é versejador, mas nam Poeta: e necesariamente á-de dizer, muita parvoice.

Seguia-se despois destas reflexoens gerais, falar especialmente, nos-defeitos das-particulares: mas nem eu tenho tempo para isto, nem o-permite, a brevidade de uma carta. Onde, somente direi alguma coiza mais geral, que compreenda as compozisoens pequenas; e tambem alguma coiza do-poema Epico; vistoque o Dramatico nam tem uzo, em Portugal. Digo pois, que nestes paîzes vejo, mui radicada certa opiniam, de chamar Poeta, a quem o-nam-é: e dar estimasam a poezias, que a-nam-merecem. Uma vez que um omem faz um Soneto, com algum conceito; ou Decimas, com alguma naturalidade; acham-se logo mil admiradores, que dizem, ser famozo Poeta. V. P. terá ouvido frequentisimamente, que quando em um Oitero se-gloza um mote, com facilidade; estam promtos mil aplauzos, para o Poeta: eu o-prezenciei muitas vezes: e esta é a comua opiniam. Mas na verdade é um ingano comum, porque aquilo nam é ser Poeta, nem para lá vai. Semelhantes sortes de compozisoens, nam dam credito a ninguem: isto persuade a boa razam, e a experiencia: Quanto à experiencia, progunte V. P. (o que eu ja fiz) a um destes Glozadores, qual é o artificio da-Poezia; e verá que nam sabe de que cor é: e nam digo só destes das-duzias, mas ainda dos-que glozam felizmente: e conseguentemente nam é Poeta. A razam confirma o mesmo: porque o artificio destas obras nam é nenhum: a sua contextura é tam facil, que por-mao que seja o Poeta, sempre acerta com elas. A Decima, a Quintilha, o Madrigal, as Liras, a Silva, o Romance lirico, Quartetos puros, e de pé quebrado, Tercetos &c. nada mais pedem, que a naturalidade-do-conceito, e expresam: quando muito, algum bocadinho daquele ingenho mixto; que consiste, em ter no-fim algum pensamento meigo; explicado com alguma fraze agradavel, e delicada, ou coiza semelhante. Isto nam pede talento, mas somente alguma imaginasam: a qual nam se-acha omem tam desgrasado, que a-nam-tenha. Onde, posto isto em trages de Poezia, saie uma Decima, ou coiza semelhante.

Nam digo, que um bom Poeta, nam posa fazer estas coizas tam bem; que agradem aos omens, de melhor penetrasam: sendo certo, que quem tem juizo o-mostra, ainda nas coizas pequenas; como fizeram os Antigos: o que digo é, que explicando um pensamento, polo modo que aponto, pode qualquer fazer Decimas &c. que agradem. Antes é muito de advertir, que quando estes poemas pequenos se-estudam muito, e neles querem mostrar muito estudo; cheiram a Filozofia, e perdem toda a grasa. Este defeito tenho observado, em muitos Espanhoes, e Portuguezes; que se-preparam para fazer uma Decima, a uns olhos azuis; ou a uma Dama que deixou cair, uma luva em terra; ou a um sinal que se-despegou do-rosto; e outros semelhantes asumtos; como se ouvesem de cantar a guerra dos-Romanos, com Mitridates, ou com Cartago. Isto é um defeito esencial: e é nam saber aplicar o poema, ao asumto: sendo certo, que semelhantes compozisoens só se-inventáram, para asumtos ou burlescos, ou amatorios; ou de coizas domesticas, que nam permitem estudo particular: e asim todo o merecimento de semelhantes obras consiste, n’um conceito delicado, e natural. O Poeta perde a naturalidade, todas as vezes que procura, com grande estudo, mostrar ingenho: e nunca dezagrada mais, que quando procura agradar muito: porque o conceito a-de aprezentar-se, e nam procurar-se.

Por-este motivo sam dignos de rizo certos Poetas, e Poetezas, que fazem Romances, e coizas semelhantes; com tal estudo, que nam se-intendem sem comentario. A Madre Joana de Mexico, é uma delas: tambem Gongora nos-seus Romances: e dos-modernos Eugenio Gerardo Lobo: que tem alguns, que, ainda despois de muito estudo, nam se-percebem. Finalmente isto é defeito geral dos-Espanhoes: e dos-que eu li, nam achei algum, que nam pecase nisto. Dos-Espanhoes o-recebèram os Portuguezes, e poucos sam os que se-excetûam. O Chagas nos-seus Romances, tirando em certas partes, é dos-mais naturais: tambem o Camoens no-lirico. Vi tambem neste genero alguma coiza do-Conde de Tarouca, morto no-Imperio; que me-agradou pola naturalidade, e imaginasam: e algum outro, mas raro. Dos-oscuros nam cito exemplos, porque nam á coiza mais comua que isto: e neles poderá V. P. reconhecer, este defeito. O pior é, que se um omem faz uma Decima, ou coiza semelhante, como deve ser; nam agrada a esta sorte de Poetas, e chamam-lhe coiza trivial: querem ideia mais superlativa: e sempre o oscuro, inverosimel, arrastado, lhe-parece que encerra, melhor doutrina. Mas o sal do-negocio consiste, em mandar isto à sua Dama, ou a um amigo, que o-nam-intende: e ficarem lambendo os beisos, dos-aplauzos. Isto vale o mesmo, que se lhe-mandasem uma Ode de Pindaro, ou Anacreonte; porque umas e outras foram Gregas. Nam é crivel, quanta gente padece esta infermidade: que para mostrarem ou doutrina, ou ingenho; procuram nam serem intendidos, nam só nas compozisoens, mas ainda nos-discursos familiares. Achei-me em uma Prosisam de Freira, onde vi certo *** que sendo dezafiado por-uma Freira, despois de falar muito, lhe-falou nas precizoens objetivas dos-Logicos, e repetio muito verso Latino. Mas a Freira nam cedeo: porque se ele falava Latim, ela falava uma lingua, que ninguem intendia. Despois de falar muito tempo, com um profluvio de palavras incrivel; juro a V. P. que nam pude perceber, o que ela queria dizer: pois aindaque as palavras eram Portuguezas, a fraze porem era tal, que nam se-podia decifrar. Esta Freira tem muitos parentes neste mundo. Conclûo pois, que esta sorte de poemas, que pedem somente naturalidade, e alguma imaginasam; a ninguem podem dar nome, de Poeta.

O Soneto tambem pertence a esta regra: mas é certo, que pola qualidade do-verso, admite mais elevasam de expresoens, que os outros poemas nomiados. Contudo iso defendo, que o conceito deve ser natural: deve ter verdadeiro ingenho: e só na maneira de explicar-se, é que está a galantaria do-Soneto. Consiste pois a obrigasam do-Soneto, em propor na 1.ᵃ quadra o asumto: na 2.ᵃ explicálo com algum conceito: de que se-tire o argumento, para os tercetos. Os Poetas, que tem mais cabedal, expoem o asumto nos-primeiros dois versos: nos-dois segundos comesam a discorrer. Tal é o Soneto feito à morte de uma Senhora, cuido que polo Bacelar, e diz asim:

Venceo a Morte, o Fabio, a Formozura.

Amarilis a bela é cinza fria.

Procura Amor fazer, que o-nam-sabia,

E esconde o cazo, nesta pedra dura &c.