Para tam longo amor, tam curta a vida.

outro comesa:

Alma minha gentil que te-partiste:

e acaba:

Roga a Deus, que teus anos encurtou,

Que tam cedo de cá me-leve a ver-te,

Quam cedo de meus olhos te-levou.

Considere V. P. sem paixam, estes dois Sonetos; e observe se acha neles, o carater do-Epigrama. Eu digo que nam: porque o Epigrama deve concluir, com algum conceito que agrade, e arrebate com a novidade; e deixe intender mais, doque nam diz: e iso é o que eu nam acho, em nenhum deles. O primeiro contem uma istoria, sem artificio algum poetico: e conclue com um comprimento bem uzual. Um amante logrado, que menos podia dizer que isto: Mais servîra, se nam fora pouco todo o tempo, para empregar no-seu serviso? Contudo iso, nam obstante ser uma coiza fria, eu observo outro defeito maior, que é a impropriedade. Para fazer uma antiteze, de amor longo, vida curta; serve-se de uma fraze impropria: pois amor longo, é parvoice; porque refere-se a tempo: e aqui deve-de referir a grandeza; e dizer, amor grande: no-qual cazo vai por-terra, o conceito. Do-outro Soneto digo o mesmo: todo ele se-reduz a isto = Tu que estás la no-Ceo, pede a Deus, que me-leve a ver-te depresa: e que menos se-pode dizer, a um morto amado? Este é outro fecho semelhante ao do-Borges, que fazendo um Soneto, à morte da-Infanta D. Francisca, falando com a Morte, conclûe asim:

Se nam podes ja ter igual projeto,

Pendura a fouce, e deixa de ser Morte.