Se o-disèse ao principio, e dele deduzise alguma coiza boa; serîa menos mao: mas rezerválo para o fim, é nam intender este oficio. Esta especie de conceitos, nam é necesario dizelos: estam ditos por-si, e todos os-diriam. Neste mesmo fecho do-Camoens, noto outra impropriedade. A palavra cedo no-primeiro verso, refere-se a tempo; e quer dizer, depresa e logo, sem reparar em idade, ou coiza semelhante. O que posto, compara muito mal o Camoens um cedo, com outro cedo, sendo coizas diferentes; e vale o mesmo que dizer: Asim como tu partistes na flor da-idade deste mundo, asim eu parta logo &c. a qual propozisam manifestamente se-ve, ser uma parvoise. Toda a grasa pois do-dito conceito, se-reduz à palavra cedo: que aqui é um rigorozo equivoco: coizas indignas de um Soneto. Onde conclûo, que no-Camoens nam vejo, o espirito do-Epigrama; porque a sua naturalidade talvez afetada, o-faz languido: e o Epigrama, aindaque natural, deve ter outra elevasam. E asim os que querem fazer bem Sonetos, devem evitar nam só a inverosimilidade, e oscuridade; mas tambem a frialdade.
Muitas coizas reduzidas a Decima, ou outra tal compozisam, parecem bem; que em Soneto parecem muito mal. No-estado em que está oje a Poezia; pode intrar no-Soneto, alguma coiza de ingenho mixto: porque estes costumam agradar mais. Creio porem que é melhor, fazer poucos e bem, que muitos dos-comuns. Esta sorte de poemas imperfeitos valem pouco, e nam sam capazes de darem nome, a um Poeta. Onde quando nam sam superlativos, nam se-podem sofrer. Este porem é o defeito, de muitos Portuguezes; que, fazendo Sonetos mal, ainda asim nam cesam de fazèlos: faram dez e doze a uma roza, e asumtos semelhantes: outros em um Oiteiro fazem bastantes glozas, a um só mote: e se os primeiros sam maos, os ultimos sam peste. Mas, tornando ao ingenho, concluo, que em toda a sorte de poemas pequenos, deve o Poeta ter sempre diante dos-olhos; que o esencial deles é, a naturalidade, unida a um pensamento galante, exposto com delicadeza. Esta pode consistir, em um sentido oculto, que diz muito, quando parece que nam diz nada: em alguma pancada picante, coberta com um veo modesto: em uma grasa, exposta ironicamente com maneira seria: em um pensamento fino, coberto com uma palavra groseira. No-Soneto porem deve praticar-se isto, com menos meiguise, e mais elevasam. No-que reprovo o estilo de muitos, que se-servem dos-Sonetos, ou Romanses Eroicos, para coizas amatorias; nas quais nam entram bem: porque o verso endecasilabo, pede emprego mais sezudo: o Lirico é proprio para estas coizas.
O que digo do-Epigrama Portuguez, digo tambem do-Latino, porque as regras sam as mesmas: e com mais razam se-devem nele evitar, os equivocos &c. porque a lingua Latina nam sofre, semelhante estilo. Os Epigramas dos-Gregos eram naturais, aindaque com grasa: este estilo seguio Catûlo. Porem Marcial no-tempo dos-Vespazianos, principalmente de Domiciano; que era a declinasam da-eloquencia Latina; e quazi o principio da-idade de bronze, segundo os que intendem melhor; foi o que comesou a introduzir, ou rafinar as agudezas, e equivocos, nos-Epigramas: o que agradou entam, porque se-comesava na-Corte a perder, o bom gosto da-Eloquencia. Com efeito alguns dos-seus Epigramas podem pasar, em obzequio daquele tempo; e tambem do-nosso, que ainda está alguma coiza ocupado, com sutilezas: mas sam rarisimos, e apostarei que nam chegam a quinze, os bons. A maior parte porem sam frialdades, e parvoises, que os omens de juizo tem desprezado; e reconhecem estar muito abaixo, da-nobreza de Catûlo. Mureto, que imitou tambem Catûlo, que parece o mesmo autor, chama a Marcial, Bobo de Comedia: e o noso Lilio Gregorio Giraldo, a quem todos os doutos reconhecem, por-omem de juizo exatisimo nestas materias; diz deles com galantaria, que só podem agradar, aos asnos. Temos mais alguns antigos Epigr. que podem pasar. Dos-modernos acham-se alguns bonitos: mas incontrei tambem, colesoens de Epigramas modernos, indignisimos; e a maior parte sam asim: e asim é necesario lelos, com muita advertencia. O ingenho mixto reina, nestas compozisoens; principalmente desde o fim do seculo XVI. a esta parte. Chamo felicidade fazer um Epigrama, que seja bom. Onde diz com grasa o douto P. Rapin, que o Epigrama se nam é excelentisimo, nada vale: e que tam dificultozo é, fazer um bom, que se-pode contentar, quem chega a fazer um, em toda a sua vida.
Esta materia dos-Epigramas, que sam rigorozas inscrisoens funebres na sua origem; aindaque ao despois se-aplicasem, a outras materias; me-conduz a falar, nos-Elogios lapidares: que sam um quid medium, entre a proza e o verso; e o Juglar lhe-chama, libera Poësis. Nesta materia tenho pouco que advertir a V. P. porque o-reduzirei a duas palavras. Nenhum omem de juizo, deve seguir o estilo, do-Tezauro, Juglar, Masenio, Labbé &c. se é uma rapaziada condenavel, introduzir na lingua vulgar equivocos, e sutilezas; e que nenhum omem douto faz; que será introduzilos na Latina, em que nós nam temos jurisdisam? Alem diso, a lingua Latina nam permite isto. os que estimam a bela Latinidade, devem escrever, como os da-idade de oiro; ou quando muito de prata; e nadamais se-deve imitar. Nos-fins da-idade de prata, é que se-comesáram a introduzir tais agudezas, por-culpa de Seneca Filozofo, e seu sobrinho Lucano: mas principalmente de Marcial, que floreceo pouco despois. Motivo porque muitos bons criticos querem, que a idade de prata acabe com Nero, no-ano 67. de Cristo: vendo quanto dali para diante, descaio a Eloquencia. Mas ainda nos-fins da-idade de prata, nam estava o cazo tam arruinado: o que alcanso, das-inscrisoens dese tempo. Do-tempo dos-Antoninos para diante, quero dizer, desde os principios do-segundo seculo de Cristo, é que totalmente se-comesou a arruinar, e intráram as sutilezas: mas pior que tudo, desde a metade do-dito seculo para baixo. Finalmente arruinou-se a lingua Latina, com o imperio Romano, no-quinto seculo: daî para diante reinou a ignorancia, até o meio do-decimoquinto seculo. Contudo atrevo-me a dizer, que nam só nos-fins do-Imperio, mas nem ainda nos-seculos da-ignorancia, se-acha muita sutileza, e equivocos; se os-comparamos com os nosos. Somente nos-fins do-decimosexto seculo, comesáram a aparecer: mas totalmente se-rafináram, nos-principios do-decimosetimo: e duráram quazi até os fins do-dito: até que aparecèram omens, que reprováram este estilo, e seguiram a Antiguidade. Isto basta para mostrar, que se-deve desprezar esta novidade; que é incompativel, com a beleza das-expresoens, e magestade da-antiga Eloquencia. Os ingenhos pobres, é que vam detraz destas ridicularias, para serem estimados; visto nam o-poderem conseguir, por-outro estilo. No-tempo de Augusto, em que cozinheiros, pasteleiros, e mosos dos-moinhos, sabiam mais de Eloquencia, e bom gosto; doque a maior parte destes modernos doutores; nam se-escrevia asim: as inscrisoens eram naturais, claras, e em poucas palavras. Abra V. P. o. Grutero, Reinecio &c. e verá provado o que digo. Ainda na idade de prata, e bronze, a maior parte das-inscrisoens sam naturalisimas: o que eu observei muitas vezes, examinando os antigos monumentos, que existem em Roma; esculpidos no-quarto, e quinto seculo: como tambem uma infinidade de sepulturas particulares, dos-seculos inferiores, escritas com toda a naturalidade, e grasa. E isto deve fazer, quem quer mereser louvor: e nam seguir os pasos destes ignorantes, que fazem Latins novos.
Quanto às divizoens de regras em grandes, e pequenas; é certo, que algumas se-acham na Antiguidade; mas raras: e regularmente por-necesidade, de comesar outro capitulo &c. Comumente escreviam sem divizoens, e muito menos divizoens afetadas; como quem escreve carta. O que eu observei muitas vezes: e nam só nas antiquisimas; mas ainda nos-monumentos escritos, atè a ruina do-Imperio, e inferiormente. No-fim do-XVI. seculo, é que comesáram a introduzir, esta ridicularia. Comesou polos titulos dos-livros: pasou aos arcos triunfais &c. De entam para cá estilo lapidar significa, um Latim escrito em diferentes regras maiores, e menores, segundo a eleisam de quem escreve. Eu certamente nos-principios de livros, &c. deixaria as coizas como estam: mas nas inscrisoens lapidares, nam me serveria destas divizoens de regras à moderna: porque se aquilo nam é verso, que necesidade á, de dispolo daquela sorte? Alem diso, as inscrisoens lapidares devem ser brevisimas, e clarisimas: e asim nam é necesario divizam, porque nam á motivo, para se-confundir a gente. Isto é o que eu nam poso sofrer, nestes modernos pouco advertidos; que fazem inscrisoens eternas. Mas isto é contra o bom gosto: a Antiguidade explicava-se em duas palavras: a simplicidade, e brevidade, era toda a galantaria das-inscrisoens. Li muitas vezes, e sempre com particular gosto, as inscrisoens que ainda oje vemos,nos-antigos monumentos, que existem em Roma. No-portico do-Pantheon ainda oje lemos: M. Agrippa L. F. Cos. Tertium Fecit: que quer dizer, Marco Agripa, filho de Lucio, terceira vez consul, fundou este portico. Esta é do-seculo de Augusto. Mas ainda as inferiores sam asim. Vencèra Tito Vespaziano os Judeos: demolîra Jeruzalem: concluîra uma das-mais obstinadas guerras, que tiveram os Romanos: o Senado, levantando-lhe um arco Triumfal perpetuo, nam dise uma arenga sempiterna; contentou-se de escrever estas palavras: Senatus Populusque Romanus Divo Tito, Divi Vespasiani F. Vespasiano Augusto. No-frontispicio do-templo consagrado polo Senado, ao Imperador Antonino, e sua molher; lem-se estas palavras: Divo Antonino, & D. Faustinae. S. C. No-pedestal da-coluna Antonina, le-se: M. Aurelius Imp. Armenis, Parthis, Germanisque bello maximo devictis, triumphalem hanc columnam rebus gestis insignem Imp. Antonino Pio patri suo dedicavit. E na coluna Trajana triumfal lemos ainda: Senatus P. R. Imp. Cæsari Divi Nervæ F. Nervæ Trajano Aug. Germ. Dacico Pontif. Max. Trib. Potest. XVII. Imp. VI. Cos. VI. P. P. ad declarandum quantæ altitudinis mons, & locus tantis operibus fit egestus. Deixo de citar outras, porque é coiza bem vulgar. Nestas inscrisoens ve V. P. a naturalidade, simplicidade, brevidade: sem divizoens, mas com fraze continuada. Se porem algumas vezes, eram as inscrisoens mais compridas, provinham dos-titulos dos-Imperadores, que se-costumavam escrever: ou porque nela se-nomiavam varias pesoas, cadauma com o seu titulo; que é o mesmo que diferentes inscrisoens: mas isto é raras vezes: o comum era polo contrario. Nam asim nos-modernos, que fazem inscrisoens eternas, sem nobreza, ou grasa alguma; e com divizoens importunas e afetadas. Mas quando quizesem seguir estas divizoens, pouco importaria; contantoque fugisem, dos-vicios apontados. Uma coiza porem nam poso sofrer, e vem aser, escreverem livros em estilo lapidar, com as divizoens ditas. Se eles intendem, que este estilo é tam proprio das-lapides, que nam pode aver lapide, por-outro estilo; quizera que me-disesem, porque compoem livros asim: ou é lapide, ou é livro. Nam á coiza mais ridicula que esta. Mas o que merece mais rizo é ver, que quando algum compoem um destes livros, saiem logo os censores, canonizando o dito estilo; e dizendo mal, dos que desprezam estas rapaziadas. * * * Um bocadinho de melhor gosto na lingua Latina, e um bocadinho mais de reflexam, pouparia estas criticas injustas.
Pasando agora às compozisoens modernas, pouco me-fica que dizer. As mais consideraveis entre as pequenas sam, a Egloga, Elegia, Ode. A Egloga nam tem uzo em Portugal: em que nam se-aplicam a descrever, a imagem da-vida pastoril, cujo carater é a simplicidade, e moderasam: nem tambem esta compozisam, pede muito ingenho: basta ser acertado. Camoens nas suas Eglogas, introduz tanta variedade de versos, que nam se-pode ler com gosto; porque faz perder, a ideia da-Egloga. Alguma delas consta de Oitavas, Cansam, Tercetos &c. mas isto nam se-deve imitar. Pode alguma vez variar-se, a uniam das-rimas: mas na mudansa de versos, deve-se proceder com cuidado; porque é muito impropria. As outras duas compozisoens, sim se-uzam em Portugal: mas comumente debaixo de outros nomes. A Elegia, tem por-emprego, descrever sentimentos ou amores; ou expremir qualquer paixam amoroza. Donde vem, que o seu carater deve ser, o enternecido, explicado por-um modo animado; mas quanto mais pode ser natural: que é o que faz quem chora, ou ama: e aqui tem lugar, as Figuras proprias desta paixam. Cuido que para isto é mais proprio, o Romance Lirico, e a Silva; porque sam compozisoens naturais, e que se-podem animar, como cadaum quer: o Endecasilabo nam me-parece tam proprio para isto; porque as de Camoens em Tercetos, nam soam bem. Neste particular acho um notavel defeito, em alguns Poetas, que querem fazer do-Soneto Elegia: e afetando um só conceito final, mostram tanto estudo; que destruem a ideia da-Elegia. Uma paixam nam se-dezafoga, em 14. versos: pede compozisam mais comprida, e livre de afetasoens: acrecentando a-isto, que nem menos o verso os-ajuda. Mas ainda o Lirico, se se-compoem de discursos separados, como sam as Decimas; nam permite liberdade da-expresam, para dezafogar a paixam. Tambem nam aprovo os quartetos Liricos, porque mostram afetasam. Com efeito muitas que eu vi, nestes dois generos, cuido que mais moviam as Damas a rizo, que a compaixam.
A Ode é aquela compozisam, com que se-louvam as asoens dos-Deuzes, ou omens ilustres. Esta explicasam basta para mostrar, que pede um grande ingenho, imaginasam elevada, expresam nobre e correta; e toda a galantaria e vivacidade, que se-acha na arte de persuadir. Quer-se juizo, para tecer uma Ode com magestade, e sem defeitos. A Antiguidade nos-propoem Oracio, como o melhor exemplo nesta materia: porque soube unir duas coizas bem dificultozas, a elevasam, com a delicadeza e dosura. Para isto na lingua Portugueza parece proprio, o Romance Eroico, a Cansam, Tercetos Eroicos, quero dizer, endecasilabos: mas o Lirico nam creio que posa satisfazer, toda a grandeza do-argumento. Sobre tudo reprovo muito, elogiar as asoens de um omem, em um Soneto: este só pode servir, para uma asám. O verso endecasilabo é sezudo, grave, e parece proprio, para estes argumentos: mas deve a compozisam ter, o comprimento necesario, de outra sorte sofóca-se: motivo porque nunca pude perdoar a Camoens; principalmente fazer compozisoens amatorias, com o titulo de Ode. Estas trez compozisoens, que aqui nomiamos, reduzem-se ao poema Narrativo Epico, de que sam partes, ou dependencias.
A Satira é parte da-Comedia, para a qual se-reduz: contudo muitos que nam fazem Comedias, divertem-se em fazer Satiras. Mas é necesario muita advertencia, nesta materia. A Satira nam deve repreender, senam o que verdadeiramente é viciozo; para instruir os Omens, do-que devem fugir: e para conseguir isto, quer-se muita delicadeza. Quem repreende o Vicio abertamente com invetivas, conclûe pouco: por-este motivo nam agrada Juvenal, que é um declamador. O melhor é, pintar com galantaria, o ridiculo do-Vicio, quazi como quem o-nam-quer mostrar. Este foi o metodo de Oracio; que por-iso agradou muito: mas nam foi ele o inventor; foi o Filozofo Socrates, que tinha uma arte particular, de descobrir as ignorancias dos-Omens, mostrando de o-nam-querer fazer. Os modernos que seguîram este metodo, conseguîram melhor que outros, o seu intento. A istoria de D.Quixote, é neste genero famoza, e galante: gostei muito de a-ler. Polo contrario, os que fazem Satiras oscurisimas, como Persio, e dos-modernos Gracian no-seu Criticon, e Barclai no-seu Euformiam &c. nam se-podem sofrer: e eu creio, que eles mesmos em varias partes, nam intendem o que dizem. Os nosos Italianos tem um gosto particular, para as Satiras; porque em duas palavras dizem muito, e com galantaria; deixando intender mais, doque nam explicam. Tenho visto algumas Latinas belisimas, e bem modernas: como tambem Comedias, no-seu genero famozas.
Isto digo da-Satira em comum: nam aconselho a ninguem, que fasa Satiras a pesoas particulares, aindaque sejam viciozas; porque é contra a caridade. Em Portugal ainda nam li uma Satira bem feita, ainda das-particulares: as que vi eram afrontas e injurias, nam Satiras. Conclúo dizendo, que o verdadeiro modo, que os omens inteligentes tem achado, para compor estes pequenos poemas; é, despois destas gerais reflexoens, aprezentar-lhe os melhores exemplos na materia: e mostrar-lhe com o dedo, o artificio, e toda a galantaria. Só asim se-observa, que coiza é ingenho, e agudeza; como, e quando se-pode uzar dela.
Finalmente tendo pasado brevemente, polas compozisoens pequenas; direi alguma palavra da-Epopeia, ou poema Epico. Se ouvèse de falar nisto como devo, faria um tratado: e asim nam saindo do-meu estilo, farei somente algumas reflexoens. Este poema, como ja dise a V. P., é a coiza mais dificultoza, da-Poezia: quer tal ingenho, tal erudisam, tal juizo, que quem o-considera bem, nam se-atreve a fazèlo: muito mais se observa os defeitos, em que caîram muitos, dos-que o-tem emprendido. Asima dise a V. P. qual é o artificio deste poema, que compreende em si, todas as especies do-Narrativo: e que por-iso pede, grandisimo fundamento de Retorica, para o-poder tratar bem. Nam é esta a fruta dos-Sonetos, e Decimas, que nacem a cada canto; é coiza mais dificultoza: as regras sam tantas, e tam dificultozas, que sam poucos os que se-atrevam, e rarisimos os que nam pequem, contra algumas. Este é o motivo, porque nam produzirei muitos testemunhos, principalmente sendo o meu argumento, conter-me nos-limites de Portugal. Certamente neste Reino, é rarisimo o poema Epico. O Condestavel de Francisco Rodriguez Lobo, o Macabeo de Miguel da-Silveira, a Ulisea de Gabriel Pereira de Castro, por-confisam dos-mesmos Portuguezes de melhor doutrina, nam merecem este nome: algum outro que posa aver manuscrito, e que agora nam me-ocorre, pertence à mesma clase. Asim parece, que com razam se-dise; que a unica Epopeia que apareceo em Portugal, foi a de Camoens. Mas isto mesmo confirma o que digo, da-dificuldade do-poema Epico.