Se V. P. consulta os seus nacionais, os-achará tam preocupados polo Camoens; que mais facilmente ouvirám dizer mal, da-religiam, doque do-poema Epico de Camoens. Os que deviam fazer a critica do-dito autor, fazem o elogio. Um destes é Manoel de Faria e Sousa, que de comentador, se-converteo em panegirista: e em vez de explicar, o que o Poeta quiz dizer, nos-diz o que lhe-parece: vendendo-nos as suas imaginasoens, polas ideias do-Poeta: e querendo desculpálo ainda nas coizas, em que é mais condenavel. Com efeito este comentador, mostra intender pouco, a materia que trata: ao mesmo tempo em que diz mal, de todos os melhores Poetas Estrangeiros, que certamente ele nam leo, ou nam chegou a intender; nam obstante que muitos o-louvem, como um oraculo. Inacio Garcez Ferreira, que fez as notas ao Camoens, intendeo melhor a materia. Dos-livros que ele cita, se-conhece logo, que á-de ajuizar melhor; porque se-servio dos-melhores na Poetica, tanto Francezes, como Italianos. Alem diso, escreveo em Italia, onde teve tempo de consultar, os omens mais inteligentes; sobre as dificuldades, que lhe-ocorresem. E com efeito ajuiza melhor: mas nam tam bem, que em algumas partes nam se-ingane: como serîa facil mostrar, se tivese tempo. Contudo este Portuguez sinceramente reconhece, algumas faltas sustanciais no-Camoens. O que basta para me-livrar da-calunia, dos-que me-quizesem condenar, por-meter colherada, nesta materia. Mas como eu intendo bem, a lingua Portugueza; parece-me que nam sou improprio, para julgar.
Avemos de confesar, que Camoens teve muito ingenho, imaginasam fecunda e grande: e que se-tivese estudado ou tratado, com quem ensináse bem, as coizas que devia; poderia dezempenhar o argumento da-Epopeia. Com efeito o que fez de bom, tomou dos-nosos: pois nas suas obras reconheso eu, que intendia o Italiano, e que se-aproveitou bem do-Petrarca, Boccaccio, e outros. Teve finalmente muitas qualidades de Poeta: e para aquele tempo, em que nam avia, os conhecimentos que oje á, é maravilha, que escrevèse tam bem. Mas querèlo comparar com Omero, como fazem muitos: ou querèlo colocar, sobre os das-outras Nasoens todas; com a razam, de que o seu poema o-traduzio um Francez na sua lingua; e o Paggi na nosa Italiana; iso nam deixa de ser temeridade, fundada em uma prova fóra do-cazo. Tambem um curiozo se-divertio, em traduzir o Vieira em Italiano; e contudo ninguem faz cazo de tal tradusam, e autor: e o mesmo sucede ao Camoens; que a maior parte dos-nosos bons Poetas, nam sabem que o-ouve no-mundo. Alem diso, serîa necesario provar primeiro, que estes tradutores eram Poetas, e nam Versejadores: que intendiam bem a materia; e nam se alucináram na tradusam. As versoens Espanholas nem menos concluem: porque foram feitas, debaixo do-mesmo clima: Os outros Estrangeiros que o-louvam, fundam-se no-que dizem os Espanhoes, ou Portuguezes, como V. P. pode observar: e alguns que chegáram a lelo, nam dizem bem dele.
Na verdade o Camoens, entre muito boas qualidades, tem muitos defeitos, nacidos de dois pontos: o primeiro, falta de erudisam: o segundo, de juizo e dicernimento. Primeiramente, errou o titulo da-obra. Os mestres da-arte tomam o titulo, ou da-pesoa, como Odyssea, Eneide: ou do-lugar da-asám, como Iliade, que é tomado da-Cidade de Ilio primaria da-Troade. O Camoens em vez de tomar o dito titulo, de Vasco da-Gama &c. toma-o de todos os Portuguezes: buscando para isto um termo Latino, que tanto calsa aos Portuguezes navegantes, como aos que ficáram no-Reino: e o pior é, que o-toma no-plural, que nam tem exemplo, na boa Antiguidade. Errou a propozisam do-Poema: pois devendo esta conter, uma só asám principal; ele porem em vez de propor, a navegasam do-Gama, que era a sua asám; propoem todos os varoens illustres, de que se-compoem a inteira istoria de Portugal; com expresa divizam das-coizas da-Europa, Africa, e Azia: e deles expresamente promete a El-Rei D. Sebastiam, cantar as asoens eroicas: o que diz desde a Estancia ou Oitava 12.ᵃ do-primeiro Canto, para diante. Com efeito executa literalmente, o que promete: porque no-principio do-Canto III. descreve a Europa: e desde a Estancia 21. dese Canto, até o fim do-Canto IV. expoem as coizas da-Europa, e Africa até El-Rei D. Manoel. No-fim do-Canto IV. entra com o descobrimento da-India; e continua no-V. até o X. em que fala nos-Governadores da-India: e de-pasagem toca na America. Desorteque este Poeta na propozisam, inclue todas as partes da-fabula do-poema: que é um erro masicho. Isto verá V.P. nas-duas primeiras Estancias.
I.
As armas, e os varoens asinalados,
Que da-Ocidental praia Lusitana;
Por-mares nunca de antes navegados
Pasáram ainda alem da-Taprobana:
Que em perigos e guerras esforsados,
Mais doque pode a natureza umana;