Se a tanto me-ajudar o ingenho, e arte.

Tudo o que se-compreende nestas duas Estancias, é propozisam: e tudo isto ele promete cantar. Mas aindaque na propozisam de um poema se-posam acrecentar, alem da-asám, algumas coizas; estas devem ficar fóra da-fabula, e nam deve o Poeta cantálas; e somente nos-epizodios do-dito poema, é que se-toca alguma delas. v. g. O novo Reino que se-fundou entre gente remota &c. é acrecentamento, que rezulta da-asám; e somente se-canta por-epizodio. O Camoens porem inclue tudo na propozisam, e asim o-executa: desorteque considerando os que inculca, na segunda Estancia; bem se-ve que entram, nam por-acrecentamento, mas direitamente. Contudo os Reis de Portugal, de que trata no-Canto III., e IV., nada tem que fazer, com a principal asám, e entram por-epizodio. Os que por-obras valorozas se-vam da-lei da-morte libertando, que sam todos os outros Portuguezes ilustres, tanto antigos, como modernos; tambem estam fóra da-principal asám, que é a navegasam do-Gama. Com efeito o Camoens lá os-introduz por-epizodio, no-principio do-Canto VIII. mas nam obstante iso, na propozisam do-poema mete-os direitamente, com os outros. Os que foram governar a India, tambem entram por-epizodio, no-principio do-Canto X. mas sem reparar niso, ele os-propoem com os outros, no-5. e 6. verso da-2. Estancia. Asim na primeira Oitava confunde, os que foram com o Gama conquistar a India, com os que ao despois foram governála: e de uns e outros diz, que edificáram novo Reino. Este defeito é de toda a considerasam, nesta materia. Garcez os-reconhece em Camoens: mas querendo desculpar nele, o ter proposto muitos varoens, com o exemplo de Caio Valerio Flaco; é mostrar que ignora, o pouco conceito que os eruditos tem, das-obras de Flaco; nas-quais acham mil defeitos contra a arte; e nenhuma grasa, ou beleza: desorteque os seus erros, nam podem servir de desculpa, aos de Camoens.

Errou alem diso o Camoens, em nam sustentar sempre o carater, e grandeza do-seu eroe: que abaixa sensivelmente no-Canto VIII. do-meio para diante. Errou, nas enfadonhas digresoens que introduz, por-toda a parte. Errou, em acabar quazi todos os Cantos, com esclamasoens mui fóra de propozito, e muito contra o estilo da-Epopeia. Tambem errou consideravelmente, introduzindo no-seu poema, as Divindades dos-Etnicos: nam alegorizando a coizas santas, como puerilmente pertende o Faria: nam aos Planetas personalizados, como benignamente interpreta o Garcez; o qual fingio uma nova constelasam para Baco, que nam se-intende o que é: mas em sentido proprio, damesma sorte que faláram os-idolatras Romanos; pois mete Venus, e Baco imprudentemente por-toda a parte. Isto é tam claro no-seu poema, que me-admiro muito, que aja quem o-queira desculpar, nesta materia. Se nam quizer-mos dizer, que se-servio de palavras sem significado; que serîa outro erro.

Mas deixando muitos outros erros, em materia do-Epico, que se-podiam apontar; tem outros nam menos censuraveis, em todo o genero de Poezia. Muitos versos errados, por-exceso de silabas: outros por-falsidade das-rimas, que nam sam consoantes &c. muitas palavras Latinas sem necesidade alguma; vistoque em Portugal á bastantes igualmente boas. Tem alem diso outros defeitos, comuns neste Reino: entre eles a prezunsam, de dizer sempre sentensas: o que nam nega o Garcez, nega porem, que Camoens seja oscuro; e afirma, que os seus versos sam canoros. E eu confeso a V. P. que acho estes dois defeitos expresamente no-Camoens: e que reconheso, que um douto Francez, que o-censura nisto, tem muita razam. Os versos de Camoens sam languidos, e pola maior parte sem grasa. Escreve comumente muitas vogais seguidas: e como os Portuguezes costumam na pronuncia, comer as ditas vogais, umas com outras; é necesario, para nam errar o verso, tomar frequentes respirasoens, e fazer muitas pauzas no-meio do-verso: o que faz perder a armonia. A prova disto é ler o Camoens: pois a cada paso se-incontram os exemplos: que se eu quizese citar, serîa necesario fazer um livro. Mas deixando outros muitos, observe V. P. estes, no-principio do-primeiro Canto.

O quarto, e quinto Afonso, e o terceiro.

Em vós os olhos tem o Mouro frio.

Dai-me agora um som alto, e sublimado.

E costumai-vos ja a ser invocado.

Com uma coroa e cetro rutilante.

Guerra Roma tanto se-afamáram.