Onde o dia é comprido, e onde é breve.
Da-antiga tam amada sua Romana.
E outro polas onras que pertende.
Deitando paratraz medonho, e irado.
Estrangeiros na terra, lei, e Nasam.
A Natura sem lei, e sem rasam.
Quem diser que estes versos, e outros que podia apontar, sam armoniozos, e enchem bem a orelha; é necesario que tenha orelhas mui compridas. Sam poucos os versos de Camoens, que nam tenham algum defeito de disonancia. A oscuridade ninguem lha-pode negar, quando queira examinar, as suas compozisoens. Nace em primeiro lugar, de uzar de palavras Latinas aportuguezadas, sem necesidade alguma: e isto nam uma ou outra vez, o que se-podia perdoar, e podia enriquecer a lingua, multiplicando os sinonimos da-mesma palavra: mas frequentisimamente, com afetasam manifesta. Nace em segundo lugar, de introduzir palavras, e frazes, que nada significam; o que é mais frequente na Luziada: porque no-Lirico explica-se naturalmente. v.g. Estas palavras: som sublimado: furia grande, e sonoroza: esperar jugo, e vituperio: tenro gesto: Mouro frio: suprema eternidade: e outras que se-acham na-invocasam que faz, a El-Rei D. Sebastiam; sam palavras que nada significam, e cauzam confuzam em quem le. Nace tambem, de certas aluzoens forsadas, e trazidas de longe, que frequentemente uza. A 6.a e 7.a Estancia, em que comesa o comprimento ao dito Rei, é tam oscura, que nam se-pode intender sem comentario: e o mesmo podia dizer, de quazi toda a invocasam. Isto acha-se frequentemente, em todo o poema: o que unido com a negligencia do-verso, faz, como dise um omem douto, que cada Estancia seja um misterio: o que é um consideravel defeito, em um poema Epico: cuja disam deve ser, aindaque nobre, natural, clara, inteligivel. Onde quando o Garcez quer defender, a clareza de Camoens; mostra que nam está despido, de toda a paixam: e vem a cair no-mesmo defeito, que ele condena no-Faria. Estes defeitos sam mui consideraveis, neste Poeta; e mostram o pouco dicernimento que tinha, das-coizas: e quem os-nam-distingue, nam intende que-coiza é Poezia. Contudo, tirando estes defeitos, nam deixa de ser um, dos-melhores Poetas Portuguezes.
Quanto ao poema de Filis, e Demofonte, obra do-Chagas, de que asima falei; é ele tal, que eu nam sei como lhe-chame. Pola figura, parece Epopeia: mas examinado dentro, nam é mais que uma istoria de amor, mui afetada. Reconheso, que o autor o-deixou imperfeito: como se-ve do-Canto VIII. que nam tem mais que 5. Estancias; e do-X. que tem 15. mas o corpo da-obra mostra mui bem, o que o Poeta queria. O titulo é este: Filis, ou Poema Tragico de Filis, e Demofonte. e nisto se-descobre, que o Chagas nam sabia, que coiza era poema Epico, nem como dele se-faziam os titulos. A asám do-poema é, a navegasam de Demofonte, que se-retirava do-sitio de Troia: e o Poeta perde logo de vista este ponto, e ocupa o poema com amores. No-primeiro e segundo Canto, em que descreve a guerra de Troia, e o seu naufragio; imita servilmente Virgilio, quazi palavra por-palavra. Somente o-nam-imita, nas comparasoens: pois sam tam frequentes e enfadonhas, as que introduz; que nam se-podem ler sem fastio. O III. Canto é uma disputa escolastica, sobre o amor; com mil conceitos improprios, e de rapaz. No-IV. em uma casada ajusta-se o cazamento: e copeia fielmente Virgilio, na cova onde se-retiráram os amantes &c. O V. Canto consiste na descrisam do-lago Averno, caza de Plutam, e outras arengas mais; em que entra um sacrificio, que nam se-sabe o que quer dizer: e finalmente Demofonte mata Ardenio. As duas descrisoens do-Palacio de Plutam, e da-jornada que este fez; sam as coizas mais ridiculas, que eu ainda vi. O Canto VI. é uma istoria tragica, dos-amores de uma pastora; que nada tem que fazer, com a asám do-poema. Mas a melhor istoria está no-Canto VII. em que o Poeta reprezenta o seu eroe mui descansado, polo espaso de dez mezes; sem que posamos saber, o que fez nese tempo. Despois, quando ele ja nam cuidava mais em Atenas, o-chama seu pai. custa-lhe a persuadir a Filis, que o deixe partir: mas finalmente parte. O VIII. Canto nam diz nada. O IX. é uma embrulhada terrível. Comesa com as saudades de Filis: esta vai consultar a Sibila Delfica, sobre os sucesos de Demofonte. Descreve a Sibila e a sua caza mui mal. Poem na boca da-Sibila um epizodio, da-Geografia de toda a terra; em que mistura umas coizas, com outras, e comete alguns erros. Mostra-lhe a Sibila o seu Demofonte, adorando a Florisbe. Filis raivoza rompe o espelho magico; e sucede um espalhafato orrendo. Filis fica esa noite no-campo, (nam se-falando mais no-que sucedeo à Delfia) exclamando contra as ingratidoens de Demofonte: e mata-se com a sua propria mam. E aqui descreve puerilmente, os efeitos da-sua morte. No-Canto X. torna Demofonte para Tracia, e sabendo a morte de Filis, que se-convertèra em arvore, quer abrasála: e sucede milagre, que no-mesmo instante produzio a dita, folhas, frutos, e aromas: os ramos tangèram, e balháram as flores.
Esta em duas palavras é a serie, e analize do-poema: na qual verá V. P. que este Poeta nem menos sabia, o que significava poema Epico. Esta sua compozisam, nam tem unidade de asám: porque toda a asám se-acaba em poucos dias, com o cazamento: a viagem ultima, foi um divertimento. Nam tem fabula: porque se-ve claramente, que é uma istoria, sem enredo, nem solusam. A descrisam da-Terra que faz a Delfia, nam tem parentesco algum, com a asám. isto é uma embrulhada, que eu nam vi tal. A transformasam de Filis em arvore, e o milagre das-flores; é outra parvoice, que ali nam tinha lugar. Só faltou ao Poeta dizer, que Demofonte se-enforcára na dita arvore: e acabava a tragedia. Tambem lhe-falta a unidade de tempo &c. Quanto ao modo de dizer; em quazi todas as partes se-serve de palavras, que nada significam: as frazes sam afetadas: os conceitos sam pueris: e quando diz alguma coiza mais estudada, ve-se uma afetasam condenavel em tudo. Ignora totalmente o decoro, e carater dos-sugeitos: o que se-ve, quando introduz no-Canto III. um guerreiro como Demofonte, disputando uma questam amatoria; como faria um academico, a quem encarregasem este asumto: ou tambem quando deixa uma Rainha como Filis, uma noite inteira, no-meio de um bosque medonho, sem companhia; o que mostra, a suma inverosimilidade: alem de muitas coizas, que podia notar. Onde torno a concluir, que de poema Epico, o Chagas nam sabia nada: e que pode V. P. aconselhar ao noso * * * que nam tenha dificuldade, de emprestar o tal poema; porque se o-perder, perde pouco.
Outro Portuguez chamado Francisco Botelho de Morais, e Vasconcelos, publicou dois poemas: um intitulado El Nuevo Mundo: cujo argumento é, o triumfo de Osiris, na corte de Atlantide: e este nam pude ver. O que porem vi averá anos, foi o outro poema intitulado, El Alfonso: em que com XII. Cantos descreve, a primeira conquista de Portugal, por-Afonso I. Polo que agora me-lembro, cuido que nam se-pode chamar Epopeia: mas uma simplez îstoria da-dita guerra, alterada com algumas fabulas: desorteque nam tem artificio algum, de Epopeia. Este Poeta quiz imitar em tudo, Lucano: e nam o-podendo imitar naquilo, que tem melhor; somente o-imitou, nas enfadonhas digresoens, e exclamasoens, que às vezes introduz: sendo uma destas tam grande, que ocupa um inteiro Canto. Tambem o-quiz imitar na afetasam, de mostrar-se Astronomo, e Fizico: pois nos-ultimos cantos, faz sem necesidade vários discursos escolasticos, nesta materia: a qual, polo que mostra, intendia mui pouco. As fabulas sam afetadas, e com bastantes inverosimilidades: entre estas ponho a da-Deuza que vinha polo ar, acavalo em um grande leam &c. os versos sam duros: e em todo o poema reina, uma oscuridade insofrivel: o que creio provèm tambem, de escrever em Espanhol. Nunca pude intender, por-que razam um Portuguez deixa a sua lingua, para escrever na Espanhola, que pola maior parte nam alcansa bem. Mas esta afetasam é mui vulgar, em muitos destes seus nacionais, que querem parecer eruditos. Isto é o que agora me-ocorre, sobre este Poema: o que digo, porque nam sei se V.P. tem noticia dele, por-ser impreso fóra de Portugal. Dos-outros Poetas nam digo nada: porque sendo uzuais, do-que tenho dito, pode V.P. formar conceito, das-suas obras.