Os Romances, a que os Portuguezes chamam Novelas, sam verdadeiras Epopeias em proza; e devem ser feitos damesma sorte. Contudo acham-se poucos, que meresam este titulo: pois os Portuguezes, e Espanhoes que se-acham, nada mais sam, que istorias de amor mui inverosimeis. O Telemaco de Monsieur de Salignac é uma Epopeia das-mais bem feitas, e escritas, que tem aparecido.
Do-poema Dramatico direi pouca coiza, vistoque os Portuguezes, nam se-aplicam a ele; por-se-persuadirem que o Drama, nam tem tanta grasa em Portuguez, como em Espanhol. Mas este prejuizo comum, nam tem sombra de verosimilidade. Reconheso, que toda a Poezia soa melhor, na lingua Italiana, que noutra alguma: o que confesam os eruditos das-outras Nasoens, que chegáram a posuir bem, a lingua Italiana: e ainda alguns Francezes doutos: nam obstanteque outros queiram, que a Franceza seja propria, para a Poezia. (no-que, com sua licensa, intendo que dizem muito mal: porque nam á coiza mais insulsa, que o verso duodecasilabo, de que uzam comumente os Francezes, e o modo de rimar deles. no-Lirico, e algumas cantigas, sam mais toleraveis. Mas geralmente falando, a lingua Franceza é pouco propria, para a Poezia: porque nam tem nervo, nem armonia) Mas o certo é que, despois da-Italiana, as duas melhores linguas sam, a Portugueza, e Espanhola. E eu acrecento mais, que a Portugueza parece-me mais propria, para alguns generos de Poezia, doque a Espanhola: porque é sezuda e grave, e nam tem aquele falso brilhante, que muitos loucamente admiram, na Espanhola. Se tiramos as terminasoens em aõ, ou am; e aons, e oens &c. nam sei que melhoria tenha a Espanhola, sobre a Portugueza; para dizerem, que aquela é propria para o Drama, e esta nam. Muito mais grave que a Espanhola, é a Latina; e contudo ninguem lhe-nega, o poder servir no-Drama. Onde, os que por-este principio deixam de compor Dramas, em Portuguez; vivem mui preocupados, e nunca consideráram bem a materia. Mas a razam ultima é, porque a estes modernos nam agrada, o modo de compor, a Comedia antiga: e só se deleitam, com esta moderna: (de que parece ter sido inventor, Lope de Vega) e como esta é composta de mil sutilezas, e coizas semelhantes; por-iso gostam das-Espanholas, que abundam disto. Mas como este estilo é muito mao, e se-deve praticar outra coiza diferente; daqui vem, que devem reconhecer, que a lingua Portugueza é tam capaz para o Drama, como a Espanhola.
O Drama, ou seja Tragedia, ou Comedia, nam é mais que uma instrusam, que se-dá ao Povo, em alguma materia. A Tragedia trata, de algum cazo extraordinario, sucedido a pesoa grande. Com isto se-modéra, a grande ambisam dos-Omens, ensinando-lhe a conhecer, que as condisoens desta vida estam sugeitas, a todas as infelicidades. Alguns defeitos se-tem introduzido, na-Tragedia moderna: pois devendo ela conter somente, coizas eroicas; introduzîram muitos, imitando aos Espanhoes, eroes amantes. E ainda os nosos Italianos, para agradarem ao Povo, que tem secreta inclinasam, para ouvir estes enredos amantes; o-praticam: aindaque os omens inteligentes desprezem este estilo, que só é proprio da-Comedia. Nam é crivel, que arte particular se-requer na Tragedia, para ser boa. Nela se-á-de ver, um enredo bem ideiado: um argumento digno e nobre: uma elevasam de pensamentos grande: uma particular arte de excitar as paixoens, com pinturas exatas, e discursos proprios das-pesoas que falam: finalmente tudo á-de ser animado, grande, singular, sem ser afetado: O que na verdade é mui dificultozo: e ainda muitos omens grandes, em algumas destas qualidades; nam conseguîram, unilas todas.
A Comedia é uma pintura, do-que sucede na vida civil e domestica. Ela ensina mil coizas aos ouvintes, mostrando de nam-querer ensinar, mas somente divertir: porem nese mesmo divertimento, está o ensino: porque ela pinta desorte, os defeitos dos-Omens; que quem os-ve, ou ouve, nam pode menos, que envergonhar-se deles, e condenálos. Este é o segredo da-Comedia, saber imitar bem a natureza; porem em modo que o-vejamos, sem advertir-mos o artificio. Convem pois com a Tragedia, em tudo: só diversifica no-argumento. E asimcomo na Tragedia nam basta, enredar bem um suceso; mas é necesario observar, a verosimilidade; desfazer naturalmente, o nó do-argumento, observando escrupulozamente, os carateres das-pesoas; asim tambem a Comedia: na qual deve reinar em tudo a naturalidade, mas judiciozamente disposta: porque daqui rezulta, aquela particular galantaria e sal, que os omens de juizo acham, nas boas Comedias. quando entra nelas afetasam, acabou-se a grasa.
Por-este principio digo a V. P. que nunca achei Comedia Espanhola, que se-pudese sofrer. Raras vezes o Espanhol imita a natureza: reina a afetasam, e as sutilezas em tudo. O mesmo bobo, que deveria reprezentar, a figura de um louco; fala com tanta descrisam, como o omem mais eloquente, e judiciozo: as molheres todas sam doutoras: todos dizem grasas, e agudezas: e asim nam se-observa, a verosimilidade dos-carateres. Querendo afetar tanta grasa, sam os omens mais insulsos, que ainda vi. Porque a grasa deixa de o-ser, todas as vezes que aparece o artificio, e nam nace das-entranhas da-materia. A nosa Comedia Italiana é mais natural: e aindaque alguns tenham introduzido, outro estilo florido, os omens mais doutos o-tem desprezado. A nosa lingua é propria para galantaria, e dosura da-Comedia. O ingenho do-Poeta prepára a materia, para fazer rir: e a galantaria da-expresam, ajuda esa mesma materia, para agradar mais: o que se-acha frequentemente, na nosa lingua. Na verdade é dom da-natureza, saber inventar materias agradaveis, e expolas em modo que agradem: mas alem deste ingenho requer-se juizo, para saber distribuir as galantarias, onde devem intrar. Parece facil, o argumento da-Comedia: contudo é dificultoza a execusam: e sendo tantos os que compoem, sam poucos os que o-fazem com felicidade. A maior parte daquelas Comedias, que em Cidades inteiras tem tido, grandes aplauzos; examinadas de perto, merecem compaixam. Os Poetas ajuntáram muitas ideias ridiculas, com que pudesem divertir os ignorantes, e adular as suas inclinasoens: e como estes sam os mais, daqui nace, que se-dam aplauzos a coizas, que os-nam-merecem. O omem de juizo vai à Comedia, com outros olhos, que nam o ignorante, e rude. Este pára na superficie do-que ouve: aquele penetra com a considerasam, a intensam do-Poeta: e quando nam acha o que deve, em vez de rir, vem-lhe vontade de chorar.
Alem do-que asima disemos, acha-se outro defeito, no-material das-obras de teatro, quero dizer, na sua reprezentasam: vem aser, quererem unir em tudo a reprezentasam, com o original. Alguns, para inspirarem orror, reprezentam nas Tragedias, a morte de um omem, e outras coizas improprias. Era melhor, que o-matasem detraz dos-bastidores, para poupar esta descortezia aos ouvintes: bastando que expuzesem, o corpo morto. Vi algumas vezes nas Comedias, intrar omens acavalo em verdadeiros cavalos: vi carros triunfais tirados por-quatro cavalos brancos; com perigo de darem quatro coices, e deitarem abaixo os bastidores; ou fazerem alguma porcaria no-teatro: vi arrebentarem bombas, e foguetes: vi dar fogo a uma Cidade, e uma Armada: e muitas coizas semelhantes. Mas isto é uma impropriedade, indigna de omens prudentes. A Comedia é imitasam do-natural, e todos sabem isto: e asim nam se-devem introduzir coizas, que desmintam o que é Comedia. Muitas vezes ve-se voar um omem, na Comedia: outras vezes um diabrete vivo dece do-teto, prezo por-uma corda: parecem-me os bonifrates do-Prezepio, que tem um arame na cabesa. Tambem aquilo de introduzir um Rei, e Rainha em uma camera, rodiados de soldados armados; ou aquilo de dar uma batalha sobre o teatro, nada tem de verosimel: Porque nem o Rei, quando está falando com a Rainha, tem as guardas de corpus na mesma sala: nem uma batalha se-pode dar, em quatro palmos de terra. Um bom Poeta dará melhor ideia de uma Armada, ou batalha, com uma famoza descrisam; e poderá com ela inspirar, sentimentos mais grandes, e nobres; doque com aqueles acidentes exteriores, e improprios daquele lugar. Mas o Povo vai à Comedia, para a-ver, e nam para ouvir: e só fica satisfeito, com estas coizas. Nam asim os omens que podem julgar, do-merecimento das-obras: estes nam podem deixar, de condenar isto; e sugerir ao Poeta, que disponha melhor as suas figuras. Isto é o que agora me-ocorre. Acrecento somente, que as Comedias de Camoens nam me-agradam; aindaque uma delas parece mais sofrivel. Outras que vi modernas em Portuguez, tinham mais artificio: e na verdade eram menos más.
Tendo pois apontado a V. P. os defeitos mais comuns dos-seus Poetas; segue-se examinar, se estas reflexoens podem ser utis, e como o-podem ser aos rapazes. E quanto à utilidade, é sem duvida, que a noticia das-regras é necesaria, para intender os autores: e a dos-versos, para intender a diferente armonia das-suas obras: especialmente na lingua Latina, porque a beleza dos-versos consiste, na sua cadencia. Alem diso, a leitura dos-bons Poetas, eleva o intendimento para perceber, e ajuizar nobremente; e ajuda muito a Eloquencia: e como nam se-posam intender os Poetas, sem saber as regras; é necesario ter, alguma noticia delas.
Quanto ao modo, ja dise em outra carta a V. P. que é loucura obrigar os rapazes, a fazerem versos: e misturar os versos, com as outras compozisoens; como se fose coiza necesaria, para intender o Latim: os que fazem isto, nam intendem a materia: parece-me que o modo mais natural é este. A Poezia deve-se ensinar, em uma escola separada, em que nam se-trate outra coiza. Examinando primeiro o rapaz, se tinha ou nam genio para a Poezia; lhe-proguntaria expresamente, se a-queria seguir: e quando ele me-disèse, que sim; e eu com a experiencia vise, que tinha propensam para iso; lhe-daria uma arte Poetica Portugueza, feita por-este modo. Na primeira parte devem-se conter, as regras gerais da-Poezia, e a diversa noticia de poemas: vistoque as regras sam as mesmas, em todas as linguas: e isto istoricamente, porem ornado com algum exemplo. Na segunda parte, deve-se primeiro tratar, das-diferentes compozisoens Portuguezas, e algumas particulares do-Reino: e aqui explicar, como se-fórma a Decima, Soneto &c. apontando um exemplo, em cada coiza: notando especialmente, a cadencia dos-versos, e estilo da-fraze poetica. Isto nam parece coiza de momento, aos que nam sam da-profisam: mas é de infinito preso, aos que entram em semelhante estudo, e o-profundam. Acham-se mil Poetas, que tem veia; mas porque lhe-falta a doutrina, pecam contra as leis da-arte, e nam brilham.
Neste tempo deve-se propor-lhe uma Decima, ou Soneto escrito &c. que ele nunca vise; e obrigálo a que em escrito, fasa a analize da-dita obra, se é boa, ou má; que defeitos, ou belezas encerra. Este estilo de mandar pór a lisam por-escrito, serve infinitamente, para a inteligencia das-coizas que estudam; e para a memoria: e repetido varias vezes, quando ja tem noticia das-regras, poupa infinitas explicasoens, e faz-se com toda a felicidade: e tem o rapaz tempo de considerar, e emendar.
Desta primeira parte, deve pasar à segunda, tambem em Portuguez; em que se-trate, das-particulares compozisoens Latinas, e sua versificasam. Aqui deve-se repetir o mesmo, que disemos da-lingua Portugueza. Notará especialmente, as diferentes fórmas de versos, de que se-formam as diferentes compozisoens Latinas, como a Elegia, Epigrama, Ode, Idilio &c. Despois a cadencia do-verso, tanto a simplez, que é comua a todo o poema, como as particulares: as suspensoens, elizoens &c. e as que sam proprias, de varias paixoens do-animo. Despois o estilo e fraze poetica; que é aquele particular idiotismo, de que se-servem os Poetas: que se-compoem de expresoens elevadas, com que se-vareia muito o discurso; expondo as coizas grandes, com muita nobreza; e as pequenas, com muita galantaria. Finalmente aqueles epitetos proprios, tam belos no-verso, como afetados na proza: e mil outras coizas, que sam particulares do-estilo poetico, e que constituem a sua beleza. Estas coizas a um rapaz, que lè um poema, somente para intender a Latinidade; nam sam necesarias: mas a um que quer compor, sam sumamente importantes: e sem elas fará versos, mas nam-será Poeta.