A Compozisam serîa a ultima coiza, que eu mandáse fazer aos rapazes: porque pede uma memoria, cheia de muitas especies: o que nam pode ter um rapaz. Deve-se comesar, polas compozisoens Portuguezas: dando asumtos facis, e nam mandando compor, senam obras breves; para terem ocaziam, de as-emendar. E nesta ocaziam pode o mestre explicar-lhe melhor, quais sam as expresoens proprias, para expremir o que quer: e dar-lhe por-este meio, uma boa noticia da-sua lingua. Com o tempo, e observando a capacidade do-estudante, pode ir aumentando, o numero das-compozisoens: sendo sempre melhor, mandar compor uma obra boa, a um certo asumto, doque muitas más, a diferentes. Feito isto, nam é crivel, quanto se-facilita a compozisam no-Latim. Será pois esta a ultima parte da-compozisam: tendo a mesma advertencia, de comesar por-Disticos, Epigramas &c. asumtos brevisimos: pois nam enfastiam os rapazes; antes com eles se-dezembarasam muito, para as outras obras. E aqui, quando o mestre lhe-ensina, a compozisam Latina; lhe-deve ensinar tambem, o modo de pronunciar o Latim. Certo é, que a Lingua Latina, despois da-Grega, excedeo muito as modernas todas, na armonia das-suas expresoens: a qual coiza como nós nam sabemos, por-iso nam achamos nela a beleza, que achavam os Antigos. Contudo devemos procurar de imitar, a boa pronuncia: o que principalmente é necesario, no-verso. Quanto aos exemplos, devem eles ser poucos, e bons: e deve o mestre fugir de Regia Parnasi, e outros livros destes, que estragam o bom gosto da-Eloquencia, e Poezia: porque na leitura dos-melhores autores, aprende-se melhor. Asimque, nam achando isto feito, pode o mestre nos-mesmos autores mostrar os lugares, que sam necesarios: e encomendar muito aos rapazes, que os-leiam, e decorem: pois só asim se-faz algum progreso, na Poezia. Desta sorte pode ser, que ouvesem mais Poetas bons, doque nam á; entre tantos mil versejadores, que V.P. está ouvindo todos os dias.

A Poezia nam é coiza necesaria, na Republica: é faculdade arbitraria, e de divertimento. E asim nam avendo necesidade de fazer versos, ou fazèlos bem, ou nam fazèlos: por-nam se-expor às rizadas, dos-inteligentes. Se eu vise que o estudante, nam tinha inclinasam à compozisam, explicaria brevemente, as leis poeticas; que é uma erudisam separada da-compozisam, e que todos podem aprender; ao menos para intenderem as obras: e o-deixaria empregar, no-que lhe-parecèse. Desta sorte, livres os estudantes daquele cativeiro, podiam empregar-se em coizas utis, e dar outro lustre à Republica. Sei, que nem todos os mestres sam capazes, de escreverem semelhante arte: mas se alguem a-fizese, e se-imprimise; podia ajudar muito a todos. Certo amigo meu, omem mui douto, me-dise um dia destes, que um seu conhecido, avia pouco tempo tinha acabado um manuscrito, polo estilo que dizemos. Eu ainda o-nam-vi: mas formo tal conceito de quem mo-dise, que julgo nam será mao: se o-puder conseguir, nam deixarei de avizar a V. P.

Finalmente com isto acabo esta carta, que ja me-parece longa: aindaque se olho para o que devia dizer, é curta. Tenho dito nela a V.P. o que me-ocorreo sobre uma materia, que averá bastantes anos que deixei: e conseguentemente nam sei se terei satisfeito, a sua expetasam, sobre a Poezia Portugueza: da-qual, como ja protestei, tenho pouca noticia. Mas V.P. que me-obriga a falar, em todas as materias; deve estar preparado, para ouvir coizas boas, mediocres, e algumas mal ditas. E asim agradesa-me somente a boa vontade, e promtidam com que obedeso, ao que me-manda. Deus Guarde &c.

CARTA OITAVA.
SUMARIO.

Trata-se da-Filozofia. Mao metodo com que se-ensina, em Portugal. Advertencia das-outras Nasoens, em procurar a Ciencia. Necesidade da-istoria Filozofica, para se-livrar de prejuizos. Ideia da-serie Filozofica. Danos, e impropriedades da-Logica vulgar. Da-se uma ideia, da-boa Logica.

Meu amigo e senhor, Dirá V. P. que eu sou mui preguisozo em responder, e conservar a conrespondencia, com os amigos: mas se-soubèse como eu tenho estado, reconheceria, que nam falto, senam com justificada cauza. Eu sou filho da-obediencia; e esta me-ocupou bastantes dias: a isto se-seguio, a minha costumada indispozisam da-cabesa, que me-impedio ler coiza alguma. Tambem me-lembrou, que tinha remetido a V. P. um proporcionado livro, com o titulo de carta; e que nam lhe-faltava que ler. Agora livre de algum modo, de um e outro impedimento; pego na pena para continuar, o noso comercio literario.

Nas duas ultimas me-pede V. P. com instancia, que me-dilate bem sobre a Logica, e que nam me-poupe, a nenhuma outra parte da-Filozofia. Eu nam sei, se poderei dignamente satisfazer, a curiozidade que V. P. mostra, nestas materias: porque finalmente á muito que dizer nelas; e muitas coizas, que nam am-de agradar: mas finalmente direi. Lembro-me, que na nosa ultima conversasam me-dise V. P. que as escolas de Filozofia deste Reino, necesitavam ainda maior reforma, que as outras: porque o mao metodo das-escolas baixas, alguma coiza se-pode emendar com o tempo: porem uma vez que o estudante comesou a provar, o ergo, e atqui, e a brincar com eles, e excogitar sofismas, e metafizicas oscuras; de tal sorte se-ocupa, com aquele negocio, que nam é posivel por-lhe remedio: de que nace, a confuzam na Medicina, Teologia, e mais Ciencias. Como V.P. reconhece de antemam esta verdade, me-animo a dizer-lhe sinceramente, o meu parecer.