Eu verdadeiramente nam sei, se as escolas de Filozofia deste Reino, tem pior metodo, que as escolas baixas: sobre iso avia muito que dizer: o que sei porem é, que nestes paîzes nam se-sabe, de que cor seja isto, a que chamam boa Filozofia. Este vocabulo, ou por-ele intendamos ciencia, ou com rigor gramatico, amor da-ciencia; é vocabulo bem Grego nestes paizes. Verá V. P. que se-dá este nome, a coizas bem galantes: Universais, Sinais, Proemiais, e outras coizas destas. Os pobres rapazes pasam os seus trez e quatro anos, lendo arengas mui compridas: e saiem dali, sem saberem o que lèram, nem o com que se divertîram. Falo do-estilo das-Universidades: porque o das-outras escolas é o mesmo, quanto à materia; e ainda pouco diferente, quanto à dispozisam.

No-primeiro ano se-pasa com dois tratados, a que chamam Universiais, e Sinais; cadaum dos-quais terá quando pouco, os seus 20. cadernos, de duas folhas: e ja vi mestre, que ditou 40. cadernos, somente de Universais. No-segundo ano acabam-se os Sinais: e parte do-ano fala-se muito, em Materia Primeira, e Cauzas; ao que chamam Fizica. No-terceiro ano estudam-se Intelesoens, Noticias, Topicos, e algumas questoens de Metafizica, digo do-Ente em comum: e com estas quatro, e as duas do-primeiro ano, se-faz o Bacharel. No-quarto explica-se um tratado, a que chamam Gerasam e Corrusam: e avendo tempo, outro a que chamam de Anima in communi. Despois fazem concluzoens, nas ditas materias, ou semelhantes: que é um ato em que muitas vezes sucede, que o defendente nam tem, argumento algum. Segue-se o Licenciado, que é um exame sobre as 6. materias do-Bacharel, com mais outras que apontamos: e temos o omem graduado, Filozofo.

Se isto pode ser bom metodo; se tais materias podem formar, um bom Filozofo; eu o-deixo considerar, aos pios leitores. Progunte-lhe V. P. aqueles Universais, e Sinais, de que coiza servem, quando se acaba a Filozofia. Diga-lhe que lhe-apontem, em que parte da-Teologia sam necesarios: que dogma se-explica com tal doutrina: fasa-lhe outras proguntas destas, e verá que limpamente lhe-confesam, que tudo aquilo morre com a escola. Se repetir a progunta em outras materias, concluirá o mesmo. E eisaqui tem V.P. o que significa Filozofia, nestes paîzes.

Mas isto serîa nada: o melhor da-festa está, na satisfasam com que ficam, de terem estudado tudo aquilo. Se alguem lhe-contradiz um ponto; se alguem quer tomar o trabalho de lhe-mostrar, que nada daquilo vale um figo; ou que Aristoteles nam falou naquele sentido; ou que a Filozofia se-deve tratar de outra maneira; e que asim a-tratam naqueles paîzes, que dam leis ao mundo, em materia de erudisam; e ainda em Roma, nas barbas do-Papa &c. acabou-se tudo, e vem o mundo abaixo com gritarias. A tal propozisam é uma erezia, contraria diametralmente à Escritura, e às definisoens dos-Concilios, e Padres; e ao costume da-Igreja Catolica; que canonizou as obras de Aristoteles, e tambem a doutrina dos-Arabes. Galilei, Descartes, Gazendo, Newton, e outros destes que a-nam-seguîram, cheiram a Ateistas; ou polo menos estam um palmo distantes, do-erro. Estas Filozofias só reinam, em paîzes de Erejes. Os estrangeiros que defendem isto, sam quatro bebados, que impugnam o que nam intendem, e nam intendem o que proferem. Isto, e outras coizas semelhantes, tenho eu ouvido algumas vezes.

Proguntava eu em certa ocaziam a um mestre, que me-parecia bom omem; e cujo defeito cuido que era, nam malicia, mas ignorancia: Tem V.P. lido nos-originais, a doutrina de Descartes, Galilei, Gazendo, Newton tem examinado fundamentalmente, os que explicáram melhor, a doutrina do-primeiro; como o P. Malebranche, o Baile, o Regis, o Le Grand: ou os que expuzeram a de Gazendo, como o Saguens, Maignan &c.? diz, Nam senhor. Observou, continuei, polo menos as objesoens, que o P. Genari Dominicano propoz ao Saguens, e Monsieur Arnaldo ao P. de Malebranche em outro sentido; com as respostas destes ultimos? diz, Nem menos. Muito bem: pois diga-me, intende V.P. na sua conciencia, que pode ser juiz nesta materia, sem ter examinado, as razoens de ambas as partes: e muito mais formar uma censura tam rigoroza, como é condenar a religiam, dos-que seguem esta Filozofia? Respondeo o omem: Na verdade eu nam sou informado, da-materia: mas tenho ouvido dizer muito mal dela, a outros mestres, de quem eu formo conceito. Maravilhozamente: mas diga-me, continuava eu, tem V.P. certeza, que eses tais examinasem o que digo; ou, aindaque o-examinasem, que julgasem sem paixam, e fosem capazes de decidir o ponto: porque sem isto deve-me conceder, que nada provam? Diz, Eles alegavam certas palavras, de que eu inferi, que os-tinham visto. Mas, proseguia o dialogo, poderá V. P. mostrar-me, que dogma se-destrue, com esta nova doutrina? Os acidentes Eucaristicos, e todo o sistema da-Grasa. Muito bem: vistoiso temos, que as fórmas acidentais no-sentido de Aristoteles, sam de fè? diz, sem duvida. Vistoiso, ou na Escritura, ou por-tradisam nam interrompida, digo, polo consenso de todos os Padres, definisoens de Concilios, ou Igreja Romana, estará determinado isto: porque eu nam reconheso outros principios, para fundar propozisam de fé. Mas atreverseá V. P. a mostrar-me, esa declarasam? Declaro, que eu tambem sou catolico Romano, e creio que na Eucaristia está Cristo, debaixo dos-acidentes de pam, e vinho: o que digo é, que os tais acidentes nam sam fórmas, no-sentido peripatetico: e disto é que peso, esa declarasam de fé. Concluio ele dizendo: Iso nam poso eu fazer, porque nam tenho visto a materia. Bem, respondi eu, pois pesa V. P. a um dos-seus amigos, que lhe-descubra esta revelasam, ou decreto; e entam falaremos sobre o particular: porque agora tem pozitivo impedimento.

Este dialogo podia-se repetir, com mais alguns acrecimos; e executar-se com algumas pesoas, que ouso falar nestas materias, com tanta satisfasam; como se soubesem o que dizem, e intendesem a materia, de que falam. Eu tive alguns ratos de divertimento, conversando com alguns destes mestres. Eles confundem, todos os autores modernos; e sem mais exame os-acuzam, dos-mesmos erros: e com estranha dialetica os-condenam, de ignorancia. Como se um omem doutisimo, nam pudese uma vez, dizer um despropozito! Os que tem erudisam exquizita, sabem que no-mundo ouve um Descartes: e algum deles, mais raro que mosca branca, leo alguma coiza, dos-Principios, ou Meditasoens Metafizicas. E aqui é ela: sobe à cadeira, e vomita mais decizoens, contra o pobre Descartes; doque ele nam dise palavras: E sem examinar, se ele é seguido em tudo, intende que tudo o que Descartes dise, foi, e é recebido, com a mesma venerasam; e sam todos obrigados, a seguilo. Em certa jornada que eu fiz, incontrei em uma estalagem um Religiozo * * que tivera a felicidade, de ler Descartes: o qual, conhecendo que eu era Estrangeiro, introu logo na materia: e todo o tempo que durou á ceia, empregou ele em provar, que, segundo os principios do-tal Filozofo, a Eucaristia estava somente, nos nosos olhos. Veja V. P. como este intendia bem, a doutrina dos-Cartezianos! Mas eu que vinha cansado do-caminho, e com fome; para abreviar a disputa concedi tudo, e meti-me na cama. Nam acho melhor modo de responder, a esta sorte de gente.

Eu certamente nam sou Carteziano, porque me-persuado, que o tal sistema em muitas coizas, é mais ingenhozo, que verdadeiro: mas confeso a V. P. que nam poso falar no-tal Filozofo, sem grandisima venerasam. Este grande omem, na Matematica foi insigne, e inventou algumas coizas, até ali ignoradas; e promoveo outras com felicidade. Em materia de Filozofia, acho que foi inventor, de um sistema novo. Isto nam parece nada, aos ignorantes: mas aos omens que intendem, qual é a dificuldade de inventar, e inventar com tanta propriedade; que ainda despois de descubertas as machinas, grande parte das-experiencias esteja da-sua parte; é sinal de um ingenho elevadisimo, e de grande criterio. Alem diso ele foi o primeiro, que abrio a porta, à reforma dos-estudos: pois aindaque Bacon de Verulamio, e Galileo Galilei, tivesem indicado o metodo, de fazer progresos na Fizica; e alguns outros os-fosem imitando; é certo porem, que Descartes foi o primeiro, que fez um sistema, ou inventou ipoteze; para explicar todos os fenomenos naturais: e por-este principio, abrio a porta aos outros, para a reforma das-Ciencias. E aindaque em tudo nam acertáse; é tambem certo, que se ele nam fose o primeiro, os outros nam teriam cuidado, de emendar os seus erros, e de adiantar os estudos, como estam oje.

Onde com todos estes principios, nam poso sofrer, que omens totalmente ignorantes da-materia; e que nam sabem de Descartes mais, que o nome; e aindaque o-leiam, nam tem olhos para o-intender: ainda asim tam indignamente o-tratem; e injuriem um omem, de quem eles nam seriam capazes, de serem amanuenses. Se estes censores tivesem lido, a istoria das-Ciencias, e do-restablecimento delas, desde o Concilio de Trento a esta parte; formariam diverso conceito destas coizas: e nam vomitariam tantos improperios, contra os modernos Filozofos: como eu vejo todos os dias, em varios autores, que podendo mostrar, o seu merecimento; o-perdem todo, quando entram a falar nestas materias, com tanta seguransa, como os que as-tem bem estudado. Dizem mil falsidades, que nunca sucedèram: fingem definisoens, que nunca se-sonháram: confundem a doutrina revelada, com as opinioens da-Escola: e querem que os SS. PP. aprovasem profeticamente, a Escolastica; que se-inventou alguns seculos, despois d’eles mortos. Esta é a celebre cantilena destes mestres, principalmente deste Reino: A qual provèm, da-grande ignorancia em que se-vive, da-Istoria antiga, e moderna, e dos-estilos dos-outros paîzes: do-pouco conhecimento que tem, de livros: e finalmente de quererem ser mestres, em uma materia, em que ainda nam foram dicipulos.

Sei, que a maior parte dos-Omens, vive mui satisfeita, dos-estilos, e singularidades do-seu paîz: mas nam sei, se á quem requinte este prejuizo com tanto exceso, como os Espanhoes, e Portuguezes. Observo, que os Francezes, Inglezes, Olandezes, que nam sam dos-que tem pior opiniam, e com razam, de si; aproveitam-se com todo o cuidado, dos-excesos que lhe-levam, as outras Nasoens. Os Francezes, mandam muita gente a Roma, para se-aperfeisoarem na Architetura, Escultura, Pintura; e em tudo o que pertence, às antiguidades Romanas. Sabem que estas artes, se-conserváram sempre em Roma, com distinsam: reconhecem, que os Romanos posuem o melhor, que neste genero nos-deixou a Antiguidade; e pode fugir à barbaridade, dos-incendios de Roma: e asim mandam lá os omens mosos e inteligentes, para beberem o bom gosto, da-Antiguidade. Muitos Senhores Inglezes, Olandezes, Francezes, Alemaens, que correm o mundo, para formarem os costumes; demoram-se tempo bastante em Roma, e nas principais Cidades de Italia; para observarem escrupulozamente, todas as antiguidades Romanas: e verem com os seus olhos aquilo, de que estam cheios os livros. Eu acompanhei alguns deles, que faziam estas observasoens; e os-achei sumamente instruidos, nas antiguidades Gregas, e Romanas: e com dezejo exorbitante, de verem com os seus olhos, e aprenderem o que nam sabiam: e faziam gloria de estudar, o que ignoravam. Polo contrario vejo, que os nosos Italianos se-aproveitam bem, das-belas edisoens de livros, e outra erudisam exquizita, que se-acha nos-livros, destas nasoens Ultramontanas: e que ainda em materias de Ciencias, se-regûlam polo metodo, das-Universidades de Sorbona &c. das-Academias Regias de Londres, Pariz, S. Pietroburgo, &c. por-conhecerem, que ali se-exercitam melhor; e dali saiem as melhores obras.

Isto é verdadeiramente conhecer, o merecimento de cada coiza. Mas observo tambem, que este metodo é ignorado nas Espanhas, e mui principalmente em Portugal: onde vejo desprezar, todos os estudos Estrangeiros, e com tal empenho; como se fosem maos costumes, ou coizas muito nocivas. Lembro-me a este intento, da-istoria do-Espanhol de Amsterdam. Nela viviam em uma estalagem, um Espanhol, e um Cavalheiro Florentino. Retirando-se este um dia a caza, proguntou ao Espanhol, que lhe-parecia Amsterdam: a belisima dispozisam da-Cidade no-material, e formal: a liberdade do-trato, contida dentro dos-limites do-justo: emfim ia-lhe repetindo uma por-uma, todas as singularidades de Amsterdam; e sobre cada uma lhe-proguntava, o que lhe-parecia. Mas o Espanhol, abanando a cabesa, nam respondia palavra. Até que o Florentino enfadado lhe-dise: Valha-me Deus, só vosé a-de ser singular neste mundo, nos-seus gostos; e só a um Espanhol nam á-de agradar, uma Cidade como Amsterdam, em que todos tem tanto que admirar? A isto respondeo o Espanhol mui laconico: Vaya, para pintada. Esta mesma resposta, com pouca diferensa, me-tem dado alguns, em outras materias. Quando se-vem obrigados com exemplos a reconhecer, que os Estrangeiros lhe-levam, consideravel exceso; respondem rindo, que asim é: mas que somente é, em coizas inutilisimas.