A introdusam das-Academias Experimentais, deu novo esforso, a esta Filozofia. Despois da-morte de Cartezio no-ano 1640., e a de Gazendo no-de 1655.; tinham comesado as ditas Filozofias, a aquistar credito: mas ainda com algum medo; pois nam tinham toda a necesaria protesám, que tiveram pouco despois. Nam foi senam despois que se-abrio, a Academia de Londres no-ano 1662. ou 63. e a de Pariz no-1666., que as Ciencias naturais se-continuáram, com empenho: asistindo-lhe os Reis, com o dinheiro e protesám. Dilatou-se aindamais este costume, porque o Imperador Leopoldo no-ano 1670. movido do-bom suceso das-duas Academias; fundou tambem, ou, melhor direi, protegeo uma Academia ja comesada, com o nome de Academia dos-Curiozos da-Natureza. El-Rei de Prusia em 1700. fundou tambem a sua Academia experimental. Os nosos Italianos fizeram o mesmo. O Conde de Marsilli em 1712. instituio uma em Bolonha, que tambem é famoza: em Padua e outras partes abrîram-se outras. Em 1725. a Imperatriz Catarina abrio em S.Petroburgo em Moscovia, outra famoza: deixando por-agora outras muitas, que se-abriram em diferentes partes da-Europa.
Esta dilatasam de estudos naturais chamou a si, todos os melhores Filozofos, principalmente os Seculares. Tambem alguns Regulares, nos-fins do-pasado seculo, comesáram a deixar, as sutilezas de Aristoteles. Porem neste XVIII. seculo infinitos se-tem declarado, contra o antigo estilo; e ensinam publicamente, a Filozofia moderna. Em Italia, e ainda em Roma, por-toda a Fransa, Alemanha &c. se-tem divulgado este metodo: e os mesmos Regulares, que ao principio o-tinham proibido, nam tem oje dificuldade alguma, em defendèlo. Verdade é, que algumas Religioens anda o-nam-aprováram: mas tambem é certo, que muitos leitores delas sam declaradamente, Filozofos modernos. Os doutisimos Dominicanos, e Jezuitas, que pareciam os mais empenhados, polo antigo metodo; comesáram a admetir, a nova Filozofia: nam só em Fransa, mas ainda em Italia. E eu sei de certo, que em algumas partes de Italia os Jezuitas, vendo que nas suas escolas e colegios, faltavam consideravelmente os estudantes, que concorriam a outros estudos publicos; se-vîram obrigados, a reformar o antigo metodo, e introduzir os estudos novos. Tam persuadidos estam todos oje, que o antigo metodo nam serve, para coiza alguma.
Esta, em poucas palavras, é a serie da-Filozofia: na qual se-compreende mui bem, com quam pouca razam estes mestres de Portugal, condenem uma coiza; que está tam bem introduzida: e nam entre Erejes, como eles dizem, mas entre Catolicos mui pios, e doutos. E tambem se-conhece, com quam pouca razam queiram persuadir-nos, que os SS. PP. aprováram, a doutrina de Aristoteles: pois nam sendo ela, ou polo menos esta que pasa, com o nome de Aristoteles; conhecida antes do-seculo XIII. é bem claro, que os PP. nam podiam aprovar uma coiza, que nam conheciam, nem intendiam, que naceria no-mundo. Seguro a V. P. que se estes mestres, que oje exaltam tanto Aristoteles, conhecesem os PP. nam polo sobrescrito, mas por-dentro; e tivesem bem examinado as suas obras; ficariam envergonhados, da-sua grande ignorancia, e talvez temeridade: pois veriam nos-escritos dos-Padres, que nada mais encomendam, que deitar fóra das-escolas Aristoteles: evitar todos os sofismas da-Dialetica: e propor as suas razoens, com a maior clareza posivel. Aprovavam na verdade, a boa Dialetica; mas despida totalmente de arengas. E nesta paz se-continuou, até o undecimo seculo: no qual, como asima digo, introduzîram nas escolas, estas embrulhadas. Desorteque a examinar bem o negocio, Aristoteles é mui moderno, nas escolas Catolicas: e ainda nesas nam durou, senam até o Concilio de Trento: pois de entam para cá pouco a pouco se-abrîram os olhos ao mundo: e oje todos os-tem mui bem abertos.
Intendido isto muito bem, com o que se-poupam mil respostas, e embarasos a cada momento; deve o estudante pasar, para a Filozofia. Mas é necesario, que primeiro intenda, que coiza ela é; para nam se-embrulhar, com as costumadas confuzoens da-Escola. Eu suponho que a Filozofia é, Conhecer as coisas polas suas cauzas: ou conhecer, a verdadeira cauza das-coizas. Esta definisam recebem os mesmos Peripateticos, aindaque eles a-explicam, com palavras mais oscuras: mas chamem-lhe como quizerem, vem a significar o mesmo. v. g. Saber qual é a verdadeira cauza, que faz subir a agua na siringa, é Filozofia: conhecer a verdadeira cauza, porque a polvora aceza em uma mina, despedasa um grande penhasco, é Filozofia: outras coizas a esta semelhantes, em que pode intrar, a verdadeira noticia das-cauzas das-coizas, sam Filozofia.
Mas como no-conhecer as cauzas das-coizas, principalmente naturais, pode aver ingano; e muitas vezes nos-inganemos, tomando uma coiza por-outra: alem diso como nos-mesmos discursos, com que nos-querem persuadir alguma coiza, suceda frequentemente ingano, cuberto com aparencia de verosimilidade; ao que chamam Sofisma, ou Paralogismo: daqui vem, que cuidáram os omens, em fugir estes inganos, e descobrir o vicio do-discurso, paraque nam caisemos nele. Isto primeiro comesou, sem arte alguma: mas cazualmente um omem descobrio um erro, outro descobrio outro, e asim os mais. Alguns dos-quais, fazendo uma colesam destas observasoens, fizeram tratados, em que se-pudese aprender, o modo de nam se-inganar. A isto chamáram Logica ou Dialectica: que é muito mais antiga que Aristoteles: mas ele foi o que a-compilou com melhor metodo, a respeito do-seu tempo: aindaque muito imperfeita, se olhamos para o noso. Quem fose o autor desta colesam, notará o estudante, quando ler a istoria da-Filozofia. Os Antigos dizem, que foi Zenam Eleates, que a-ensinou a Socrates: este a Platam: do-qual a recebeo Aristoteles. Mas esta Logica Socratica, era por-outro estilo, e convencia com proguntas. Platam era um pouco mais dogmatico. Comumente se-cre, que Speusippo, e Aristoteles, ambos dicipulos de Platam, guiados polos discursos dele, fizesem no-mesmo tempo, e cada um parasi, esta nova colesam, e acrecentasem muita coiza sua: os Estoicos com o tempo, acrecentáram muitas mais. Seja como for, o cazo é, que os Antigos reconhecèram, que para conhecer, e discorrer sem ingano, sobre as cauzas de todas as-coizas; é necesario observar algumas regras, a que quizeram chamar, Logica. Desorteque esta chamada Logica, nenhuma outra coiza é mais, que um metodo e regra, que nos-ensina a julgar bem, e discorrer acertadamente. Asimque establecido este importante ponto, fica claro, que se-deve abrasar aquela Logica, que conduz a este fim: e fugir qualquer outra, que nos-desvia dele.
Tendo percebido este ponto, nam pode aver duvida, sobre o cazo que devemos fazer, desta chamada Logica dos-Escolasticos: basta examinar, se o que se-ensina com este nome, é util, ou prejudicial, para julgar, e discorrer bem. Porque se achamos, que nam conduz; saie por-legitima consequencia, que se-deve deixar, e estudar outra coiza mais util. Ora eu creio, que sem grande trabalho se-conhece, que esta Logica vulgar, nam dá nenhuma utilidade, antes cauza suma confuzam. Os Proemiais sam a coiza mais inutil do-mundo. Com a simplez explicasam, do-que é Logica; sabe um estudante quanto basta, para intrar nela, e ser um grande Logico: toda a outra noticia util se-pode aprender, em uma advertencia, a que chamam notando. Que a Logica tenha por-objeto, os atos do-intendimento, ou as coizas, ou os modos de saber; nada serve para discorrer bem: o que importa é, ter boas regras, e sabèlas uzar bem.
Aqueles Universais, e Sinais sam coizas indignas de se-lerem: o menos que neles acho, é a inutilidade: o pior é o metodo: parecem a mesma confuzam: e de talsorte embrulham a mente, de um pobre principiante, que nam é facil ao despois, intender bem coiza alguma. Em lugar de facilitarem a um rapaz, a inteligencia das-coizas; o-confundem com uma quantidade de sofismas, e sutilezas, tam fóra de propozito; que eu nam sei, como os mestres nam fazem escrupulo, de perderem tam inutilmente o tempo. Acrecento a isto, a inutilidade: pois para nenhuma parte das-Ciencias serve aquilo. O mais que se-tira dos-Sinais é saber, que as vozes servem, para declarar as ideias da-mente, e os afetos da-alma: e que mediante as vozes comunicamos aos outros, o que intendemos, e queremos. Que as vozes nam excitam nos-que ouvem, as ideias de quem as-profere, por-virtude alguma natural, que tenham para iso: mas porque asim o-determináram, os omens de uma Nasam. Sendo certo que as vozes, que em Portugal significam uma coiza, em outro Reino significam coiza diferente, ou nada significam. Esta é toda a noticia util, que se-tira dos-Sinais: e isto é coiza que se-aprende, em um quarto de ora: tudo o mais que dizem dos-Sinais, sam arengas ridiculas, que espremidas na mam, nam deitam uma gota de doutrina. V.P. que perdeo bastante tempo, com estas arengas; fasa-me a merce de me-mostrar, alguma questam util, entre tantas que no-tal tratado se-incluem: estou certo que, uzando da-sua costumada ingenuidade, me-dirá, que nam acha alguma. De que fica bem claro, que o tal tratado, é somente divertimento de omens ociozos. Nem me-faz forsa que o P. * * * me-disèse um dia, que os Sinais eram o Apex Philosophiæ: e o seu P. Colegial * * * me-disèse mui sezudamente, que os Sinais tinham seu uzo na Teologia: poisque na Trindade se-falava, em priori signo &c. nem um, nem outro sabia o que dizia, como as suas respostas mostram: e, aindaque fosem leitores de Filozofia, tinham necesidade, de a-estudar outra vez.
Quanto aos Universais da-Escola, comque se-gasta tanto tempo, nam sam melhores que os Sinais: todos sam talhados, pola mesma medida. Pase V.P. ligeiramente com os olhos, por-aqueles tratados; e me-dirá, o que acha em tantos cadernos. Ali disputa-se mui largamente, se se-dá Universal a parte rei, como eles lhe-chamam: se a Unidade de precizam, e Aptidam sejam da-esencia do-Universal: e outras coizas destas, que quando eu as-considero, fico persuadido; que os que falam nisto, nam intendem iso mesmo que proferem. Que bulha nam se-faz, sobre a divizam em cinco especies! que arengas, sobre cada especie em particular! que confuzoens, sobre as precizoens! Ora eu tomára que me-disesem, o que se-tira de todo aquele negocio; e que noticia util para discorrer se-colhe, de todas aquelas confuzoens? Achei muitos, que, despois de alguns anos de Filozofia, e despois de terem defendido concluzoens publicas, e com grande aceitasam; nam sabiam, por-qual razam se-introduzîram os Universais, na Logica. O que digo dos-Universais, deve-se aplicar aos Predicamentos; que uns introduzem na Logica, outros na Metafizica: e sobre os quais se-disputa, com igual fervor.
Os omens mais advertidos entre os Peripateticos, reconhecem a verdade do-que digo, e sinceramente confesam, que se-deviam cortar, estas longuisimas disputas, que para nada servem. Peripatetico, e bem Peripatetico, era o Suares Granatense, o Barreto Portuguez &c. contudo sam do-meu parecer: e o tal Barreto acrecenta[82], que o aumento que se-deo aos Sinais, é vicio dos-Portuguezes. Mas tornando aos Universais, de que falavamos, a unica razam que eles alegam, para introduzirem esta longa arenga de Universais, e Predicamentos; é, porque as propozisoens de que se-fazem os silogismos, constam de predicados universais. Digo pois, se aquilo nam tem mais serventia, que mostrar, que um nome pode ser universal, ou particular &c. de que serve aquela arenga sempiterna, que nam conduz para iso? Certamente que, seguindo os seus mesmos principios, tudo aquilo se podia reduzir, a meia folha de papel.
Nem cuide V. P. que eu reprovo, toda a sorte de exame, das-propozisoens universais, e particulares: conheso, que iso pode ter seu uzo, e tem utilidade: mas tambem conheso, que se-deve tratar de outra maneira, como em seu lugar direi. Somente condeno muito, o que dizem os Peripateticos; porque nem serve para o intento, que eles propoem; nem para outro algum: confunde as especies, e intendimento dos-rapazes: e é o mesmo a que nos chamamos, perder tempo sem interese algum, e sem saber por-qual razam. Mas prosigamos o curso, da-Logica Peripatetica.