Aos Predicamentos, e Sinais, segue-se o enfadonho tratado de Enunciatione, ou Propozisam. Aqui fazem eles infinitas disputas, tam fóra de propozito; que eu fico pasmado. Confundem a propozisam vocal com a mental, ou ato do-intendimento: ora disputam de uma, ora de outra: desorteque nam se-pode saber, o que eles querem explicar. Sendo aquele um tratado, que se-deve explicar mui claramente, para intender os seguintes; eles o-fazem com tal negligencia, e confuzam, como quem nam cuidáse neste fim. O melhor que eu acho é, que em vez de proporem as coizas, em que todos convem; disputam tudo o que propoem: e a cada propozisam acrecentam, uma longa cadeia de argumentos; e às vezes tam embrulhados, que um omem adiantado teria trabalho, em lhe-responder. E como á-de o principiante, formar conceito das-coizas, e executar os ditames que le; se ele nada acha, em que todos convenham: mas em cada propozisam acha, quem o-contradiga? Isto è o mesmo, que se um carpinteiro tomáse um aprendiz, e em lugar de lhe-ensinar, como se-á-de servir dos-instrumentos; fizese longuisimos discursos, sobre a diversidade de instrumentos de Carpinteiro: contando-lhe miudamente, que a alguns nam agradam, aqueles instrumentos: que outros escrevem, que se-deviam fabricar de outra maneira: e todo o tempo pasáse com isto.

Este é o grande defeito que eu acho, nestas Logicas: nam buscarem aquelas coizas, em que todos convem, para as-explicar aos estudantes. nam acharem um metodo de ensinar Logica, comesando por-documentos claros, que todos intendam: fugindo todo o genero de disputas, que nam servem para principiantes. Pois este devia ser, todo o seu cuidado: e quem nam pratica este metodo, nam quer ensinar Logica. Isto conhecerá V. P. melhor, olhando para as longas disputas, que eles aqui introduzem, sobre os atos verdadeiros e falsos. Nam é crivel, a confuzam com que aquilo se-trata. nam é menos admiravel, a quantidade de coizas falsas, que ali se-supoem, como se fosem demonstrasoens matematicas. Disputa-se com fervor, se o mesmo ato do-intendimento, posa pasar de verdadeiro, para falso: e outras coizas destas. Isto supoem manifestamente, que o dito ato dura algum tempo, na alma; porque se nam duráse, a questam serîa de nada. Mas isto que eles supoem, é manifestamente falso. Basta olhar, para as muitas distrasoens involuntarias, que um omem tem; para conhecer, que a nosa alma está em continuo movimento de conhecimentos: e que devemos dizer, que ela nam pára em algum juizo, ou ato. Ainda quando nos-parece, que sempre cuidamos na mesma coiza, creio eu que nam perziste, o mesmo ato: mas que a alma muitas, e muitas vezes considera, a mesma coiza: que é o mesmo que dizer, com atos diferentes. A razam disto nam me-parece oscura: pois vejo a violencia, que é necesario fazer ao intendimento, para o-fixar no-mesmo objeto: pois um minuto que nos-descuidamos, ja estamos em outro objeto. E ainda quando nos-parece, que consideramos um só, v. g. um painel; é certo que fazemos muitos atos: pois nam vemos só um ponto, mas diferentes pontos, e partes do-mesmo todo: o que se-faz, com diversos atos. Nam é crivel, com quanta velocidade a alma conhece, e pasa de um objeto para outro. Fazemos todos os instantes mil asoens, que nam advertimos: e contudo é certo, que a alma as-conhece todas: mas falas com tal velocidade, que parece as-nam-conhece. Deste genero é o continuo movimento de pestanas, que nós fazemos; e a alma, por-obediencia da-qual se-faz, o-conhece: e contudo nenhum de nós adverte tal coiza. O que mostra bem, quam veloz é a nosa alma, em pasar de um conhecimento para outro. E sendo isto tam claro, os-Peripateticos, sem fazerem cazo disto, introduzem as suas longas disertasoens, fundadas sobre um suposto falso. Demos-lhe, que seja materia duvidoza; sempre é coiza ridicula, propor como coiza certa um fundamento, que tem tantas aparencias de falsidade: e ocupar o tempo com isto, devendo ensinar outras coizas.

Mas, para abreviar este exame, pase V. P. comigo, ao tratado de Priori resolutione. Na primeira parte se-disputa eternamente, sobre os termos, e diversos modos, com que significam as coizas. Isto explicado bem com clareza, e brevidade, podia servir ao estudante de alguma coiza: mas iso é o que eles nam fazem: e todo o tempo pasam em disputar, se o verbo Est pode ser termo; e outras galantarias destas. O que dizem das-Propozisoens, da-sua Conversam, das-Modais, é tam embrulhado, e tam inutil; que nam sei, que pior coiza se-posa dizer. Seguro a V. P. que ja achei Peripateticos, que ingenuamente me-confesáram, que a maior parte daquelas coizas eram inutis.

Mas sem grande trabalho, cuido que mostrarei a V. P. que tudo aquilo, que nestas escolas se-disputa, se-deve totalmente pór de parte. apontarei uma unica razam, que compreende o Priori, e Posteriori, da-Logica vulgar. Examine V. P. com toda a atensam, quanto se-disputa naquelas duas partes da-Logica, e fasa-me a merce de notar mui distintamente, algumas coizas. 1.a Se o que ali se-disputa, é materia inteligivel. Cuido, que a resposta será clara, se olhar-mos para o que sucede nos-estudantes: pois é certo, que despois de muitas, e muitas explicasoens, comumente nam intendem, o que ali se-diz. Apelo, para o que cadaum experimenta em si, e para o que os mestres experimentam, nos-dicipulos. Sei polo contrario, que os meninos intendem muito bem as coizas, se lhas-explicam bem: e sabem dar razam do-seu dito. v.g. se diserem a um rapaz: Aquele ramo que ves naquela porta, é sinal que ali se-vende vinho: porque em todas as partes em que se-vende vinho, se-costuma pòr aquele sinal; porque asim determináram, os nosos antigos: estou certo, que á-de intender facilmente, o que lhe-dizem. Ora fale-lhe V. P. por-estas palavras: Aquele ramo é sinal ex instituto do-vinho: que se-constitue na razam de sinal, por-um respeito de dependencia do-ato da-vontade, que o-deputou para significar vinho: polo que se-distingue do-sinal natural, que se-constitue, por-um respeito de independencia: Despois de toda esta arenga filozofia, o tal rapaz intenderá muito menos, o que lhe-dizem, doque se lhe-falasem em Caldeo. De que vem, que ainda as coizas que se-deviam dizer, se-dizem de um modo tal, que nam se-intendem. Isto é quanto ao modo de se-explicar: pasemos à materia.

A 2.a coiza que V. P. deve notar é, a serventia que tem aquelas regras, para discorrer sem ingano, em toda a materia. Traga V. P. à memoria, tudo o que tem estudado de Priori, e Posteriori, e tenha o sofrimento de considerar; se lhe-servem, ou nam, para intender, e discorrer bem em qualquer materia: ou para provar alguma coiza, que lhe-seja necesaria; nam só nos-atos publicos quando argumenta, ou defende; mas ainda no-seu bofete, quando compoem em alguma materia: ou ainda no-discurso familiar. Tenho tantas provas, da-sua candura de animo, que nam tenho receio que diga, ter experimentado utilidade. Mas eu nam quero por-agora, um juiz tam alumiado como V.P. contento-me que me-respondam os mesmos, que perdem os anos com estas arengas. Eu os-faso juizes nesta disputa: e lhe-deixo considerar, se, quando eles provam o que lhe-negam, ou discorrem familiarmente; o-fazem porque se-lembram das-regras; ou se o-fazem, porque asim se-costuma discorrer no-mundo: e a lisam que tem tido, lhe-suministra os argumentos e meios termos: e a natural penetrasam que cadaum tem, lhe-mostra, com a maior promtidam, a conexam das-partes? O que eu poso dizer neste particular é, que muitos Escolasticos, como ja apontei, me-diseram, que era inutil toda aquela machina de regras: e li alguns, damesma opiniam. O P. Arriaga no-prologo da-sua Filozofia diz claramente, que nam ditou muitas questoens da-fórma Silogistica, porque lhe-parecèram escuzadas: e que avendo vinte anos que era mestre; nunca vîra, que pesoa alguma se-servise da-ponte dos-Asnos, para argumentar, ou responder. E quanto a esta parte da-Ponte dos-asnos, achará V. P. muitos, que dizem ser inutil.

Mas eu paso adiante com o discurso, e creio, que nem menos me-mostrarám omem, que se-sirva das-Figuras, ou de alguma das-outras regras; quando quer provar alguma coiza seria. Conheso, que os que argumentam nesta materia, para mostrarem que a-tem estudado; ou os que nam querem argumentar com razoens, mas com palavrinhas, àmaneira dos-sofistas; poderám fazer algum uzo delas: o que digo é, que quando um omem quer provar, o que lhe-negam, nunca se-serve, de tais arengas. Se ele tem ingenho, e doutrina, mais de presa se-lhe-oferece o meio termo, e modo de o-dizer; doque a regra, que o-ensina. Se nam tem ingenho, estou certo que nem regras, nem figuras, nem modos, nem coiza alguma lhe-ocorrerá; com que posa discorrer fundadamente. Nunca me-sucedeo que, discorrendo comigo, me-viese à imaginasam, servir-me do-silogismo. nunca vi tratar negocio algum grave, com o meio da-Dialetica: ainda sendo as partes, pesoas de toda a penetrasam; e tendo perdido muito tempo, com a Dialetica. Isto da-Logica é o mesmo, que a Retorica: os ignorantes das-regras, se tem ingenho e alguma lisam, oram e provam melhor o que dizem, doque os Logicos e Oradores da-Escola. O omem ignorante das-regras, nam perde tempo com palavrinhas, mas vai direito à razam, e busca aquelas que conduzem, ao seu intento. Ora é sem duvida, que as razoens, e nam as palavras, sam as que persuadem, e provam o que se-quer. Poderám as palavras, e modo com que se-diz, dar mais luz às razoens: mas palavras sem razoens nada provam. E esta é a razam, porque os Logicos finos discorrem pior, que os que nam sam Logicos. E esta mesma razam me-dá fundamento para dizer, que é melhor que nam se-fale, em tais regras.

Acho ainda outra razam, e cuido ser mais forte, para nam seguir este metodo do-silogismo; vem aser, que o silogismo nam serve em modo algum, de ajudar a razam, para que aumente os seus conhecimentos, e neles discorra bem. Quando se-á-de persuadir, e discorrer bem, o primeiro e principal ponto está, em descobrir as provas: o segundo, em dispolas com tal ordem, que se-conhesa clara e facilmente, a conexam e forsa delas: o terceiro, em conhecer claramente, a conexam de cada parte da-dedusam: o quarto, em tirar uma boa concluzam do-todo. Estes diferentes graos se-conhecem muito bem, em qualquer demonstrasam matematica. Uma coiza é, perceber a conexam de cada parte, ao mesmo tempo que um mestre vai explicando a demonstrasam: outra coiza diferente, conhecer a dependencia, que a concluzam tem, de todas as partes da-demonstrasam: terceira coiza muito diferente, conhecer por-simesmo clara e distintamente, uma demonstrasam: e finalmente uma quarta coiza, totalmente diferente das-trez, ter achado as provas, de que se-compoem a demonstrasam. O que suposto, o silogismo nam faz mais, que mostrar a conexam das-partes, sem ensinar a buscar as provas: onde fica claro, que nam é de grande socorro à razam. Muito mais, porque a alma pode conhecer, e conhece, muito mais facilmente por-simesmo, a conexam das-partes; doque por-nenhum silogismo. Quantos omens nam vemos todos os dias, que intendem mui bem, toda a forsa de uma razam; a falacia, e eficacia de um discurso comprido; e discorrem mui acertadamente; sem terem ouvido falar em silogismos? E nam digo somente, entre os omens de boa educasam; mas quem quizer considerar, a maior parte da Africa, e America; achará omens que discorrem tam sutilmente, como os nosos Europeos; sem saberem reduzir um argumento à fórma. Achei negros vindos de la, tam maliciozos, e fingidos; que nam se-pode dizer mais. Ja eu dise a V. P. em outra parte, que me-tem feito muitas vezes mais forsa, as razoens de muitos rusticos, doque de alguns Logicos, e Oradores de profisam.

Ainda daqueles mesmos que estudam Logica, rarisimos sam que cheguem a conhecer, por-que razam trez propozisoens, combinadas de um certo modo, produzam uma conduzam justa: e que saibam com toda a individuasam, por-que razam de mais de 60. combinasoens diferentes, só umas 14. sejam boas. A maior parte destes estudantes contentam-se, com uma Dialetica tradicional: e nada mais fazem doque crer, o que lhe-dise seu mestre, que certos Modos reduzidos a certas Figuras, sam bons; outros, sam maos: sem chegarem a certificar-se, que na verdade asim é. Ora daqui saie por-legitima consequencia, que, se é verdade o que eles dizem, que o silogismo é o verdadeiro e unico instrumento da-razam, com o qual é que se-pode chegar, ao conhecimento das-coizas; antes de Aristoteles, ninguem raciocinou bem, nem teve conhecimento certo; e despois dele, entre vintemil omens nam se-achará um, que goze esa fortuna.

Mas eu creio que serîa louco, quem tiráse tal consequencia: observando-se claramente, que os Omens intendem as coizas bem, sem o dito socorro. Tomára que me-disesem, com que outra Dialetica conheceo Aristoteles, que muitos daqueles Modos eram certos, e outros falazes; senam com a penetrasam da-sua mente, que reconheceo a conveniencia que se-dava, entre umas ideias, e disconveniencia entre outras? A nosa mente tem de sua natureza a facilidade, de conhecer a conexam destas ideias, a polas em boa ordem, e tirar delas concluzoens justas; sem que para isto a-preparem, com artificio algum. Dizei a uma molher rustica, convalecente de uma grande infermidade, que asopra um nordeste agudo, e que o Ceo ameasa grande chuva: ela facilmente perceberá, que nam é tempo para sair de caza. O seu juizo une com toda a facilidade, estas diferentes ideias; Nordeste, Nuvens, Chuva, Umidade, Frio, Recaida, Perigo de morte: e isto em um abrir de olhos; sem ter necesidade daquela fórma artificial, e embarasada de quinze ou vinte silogismos. Ora é certo, que o silogismo nam suministra esta faculdade de perceber, e ordenar as ideias; nem suministra as ideias para iso: e como destas duas coizas dependa tudo; fica bem claro, que nam serve para discorrer bem.

Se V. P. observa o que dizem os doidos, achará, que eles nam se-inganam nas consequencias, mas nos-principios: e por-iso discorrem mal. Unîram-se por-alguma cauza, no-intendimento de um doido, duas ideias; v. g. a que tem de si, e a que tem de um Rei: postas as quais, discorre o omem mui bem: quer Magestade: quer gentilomens, e treno de soberano &c. Estas consequencias decem mui bem, daquele principio: todo o mal está, nas ideias que ele abrasou, e unio mal. Damesma sorte os que nam sam doidos: nam consiste o ingano nas consequencias, porque a alma com toda a facilidade as-infere, e percebe a conexam delas com os meios: todo o ponto está, nos-principios, e pòr as ideias em boa ordem. Isto nam suministra a Silogistica, e asim nam me-parece que pode servir, para o que se-pertende.