Conheso, que algumas vezes se-pode uzar do-dito metodo, com utilidade; quando se-quer introduzir um dialogo, para evitar os discursos compridos, e oratorios. Mas em tal cazo sam necesarias varias cautelas, para ser util o dito metodo: porque se deixamos provar a cadaum o que quer; caimos no-defeito, que queria-mos evitar. Deve pois evitar-se toda a superfluidade, e tocar unicamente o ponto da-questam. Mas neste cazo, nam é tanto estimado o tal metodo, por-ser Escolastico, mas por-ser metodo de dialogo: no-qual se-propoem a dificuldade, por-uma parte, e da-outra se-lhe-dá a resposta. Temos um belo exemplo, no-Concilio geral Florentino, congregado por-Eugenio IV. Como nele se-avia tratar, da-uniam da-Igreja Grega, com a Latina; sobre alguns pontos em que diversificavam; escolhèram-se seis omens de cada parte, para examinarem a questam, e dizerem o que se-avia propor, por-uma e outra parte: e lhe-ordenáram, que, deixados os discursos compridos, seguisem um metodo breve, e dialetico. Mas quem examina nos atos do-tal Concilio, que coiza era este metodo dialetico, acha, que nada mais era, senam um dialogo sem rodeios, nem prolixidades: no-qual de uma parte, um punha a dificuldade: e da-outra, o seu opozitor respondia sim, ou nam: ou brevemente dava a razam, porque duvidava &c. Esta foi toda a Dialetica, que se-praticou na dita disputa: o que bem mostra, que muitas vezes se-chamou dialetico, o estilo de falar concizo e breve; sem aquelas Figuras que constituem, o estilo retorico: e isto é o mesmo que eu digo, ser muito util. Mas nam achará V.P. que se-fizese cazo, das-ridicularias da-Logica vulgar: ou que, fazendo-se, rezultáse daî utilidade alguma: que era o que eu asima dizia.

Nem cuido que V. P. me-mostrará, que às Ciencias rezultase utilidade alguma, do-uzo do-silogismo. A falar verdade, nenhum omem douto cuidou nunca nestas ridicularias: os sofistas sim. Os seculos do-silogismo foram os mais barbaros, e ignorantes. Ele comesou cá no-Ocidente no-IX. seculo: aumentou-se com muito mais exceso no-XI. e durou até o meio do-XVI. E que coiza boa acha V.P. neses tempos? Polo contrario, desde o principio do-XVII. em que o silogismo se-comesou a deixar, e se-procurou outro metodo; o aumento é tam sensivel, que serîa loucura mostrálo: muito mais neste ultimo seculo, em que os olhos estam mais abertos. Asimque, com estes exemplos à vista, nam parecerá maravilha que eu diga, que o silogismo vale pouco, e tem servido de muito pouco: e que avendo outra ideia melhor, é loucura, demorar-se com ele. De tudo isto concluo, que a Logica que pode servir no-mundo, é mui diversa, desta chamada Logica das-escolas: a qual por-muitos principios nem menos se-deve ler. Creio que V.P. me-perdoará esta digresam, com que interrompi, o que lhe-queria dizer da-Logica; se-quizer refletir, que nam é alheia do-meu argumento: antes justifica o que abaixo lhe-direi, e me-poupa algumas repetisoens. Torno à ideia, que lhe-queria dar da-Logica.

Digo pois, que o metodo de filozofar nam se-deve seguir, porque o diz este, ou aquele autor: mas porque a razam e experiencia mostram, que se-deve abrasar. Isto é o que eu nam poso meter em cabesa, a muita gente: porque a maior parte do-mundo, nam examina os principios das-coizas; mas vam uns detraz dos-outros como carneiros; sem mais eleisam, que o costume: e antes querem errar, por-cabesa alheia, que acertar pola propria. Persuadem-se, que os velhos nam podem ensinar, coiza alguma má: e recebem os tais ditames, com a posivel venerasam. Nenhum toma o trabalho de examinar, se a opiniam é boa, ou má: uma vez que a-diseram os antigos mestres, é o que basta. De que nace, que omens de ingenho mui perspicaz, seguem doutrinas contrarias a toda a boa razam; e que eles mesmos dezaprovam, quando lhas-explicam bem. Entre tantos Peripateticos, que V.P. conhece, nam achará algum que duvidáse uma só vez, se Aristoteles na sua Logica dise bem, ou mal: como conste que o-dise Aristoteles, é o que basta: nam faltará modo de explicar, a dita doutrina, ou texto. E deste principio nacem, aqueles grandes comentarios, com que amofinam a paciencia ao mundo; e fazem perder o tempo, nas escolas.

Bem claro é que um omem, que escrupulozamente comenta um autor, supoem ser verdade, quanto ele diz: pois de outra sorte, devia fazer um rigorozo exame, na materia que comenta. E eisaqui tem V.P. que estes tais, querendo ensinar aos outros a discorrer bem, eles sam os primeiros, que discorrem muito mal. Falava eu em certa ocaziam, com um mestre Peripatetico, e caindo o discurso sobre uma destas materias, me-produzio ele um texto do-Filozofo, em uma questam bem controversa. Respondi eu, que nam me importava, o que dizia o Filozofo, mas o que ele na dita conversasam me-provava. Aqui admirado o omem clama logo, V.P. nam pode negar o texto: deve explicálo. ao que eu pontualmente respondi: Quem lhe-dise a V.P. que eu nam poso negar o texto? dise-lho algum concilio Ecumenico, ou algum texto da-Escritura? Se V.P. me-citáse, alguma propozisam de Euclides; em tal cazo lha-admetiria; nam porque Euclides o-dise, mas porque a evidencia mostra, que dise bem; e todos reconhecem a verdade, das-ditas propozisoens: fóra daqui nam admito senam aquilo, que me-provam com clareza, e verdade. Onde é necesario que V.P. primeiro que tudo, me-prove trez coizas. 1. Que Aristoteles nam podia dizer uma parvoice, advertidamente. 2. que nam podia inganar-se. 3. que o que nós oje achamos nos-seus escritos, seja verdadeiramente o que ele dise: postas estas circunstancias considerarei entam, o que ei-de responder ao texto. Até aqui o discurso, que eu tive com o dito Padre. Agora acrecento, que o dito mestre, ouvindo estas minhas razoens, nam se-aquietou: mas continuou de admirar-se damesma sorte, que se nam lhe-tivesem respondido coiza alguma.

Concluo pois, que é necesario seja bem louco, quem nam conhece, quam grande impedimento seja, para discorrer bem, seguir as pizadas de um autor só, ou seja Aristoteles, ou algum moderno. A Verdade, e a Razam é uma só. Todos podemos discorrer, e intender o que nos-dizem: e quem fala em maneira que melhor o-intendam, e prova melhor o que diz, ese é que se-deve seguir, com preferencia aos outros. Se acazo nam prova o que diz, antes o que diz nam parece bem, ou á razoens para se-intender, que é mao; nam se-deve fazer cazo, de tais discursos. Esta é a pedra de toque, nam só da-Logica, mas de qualquer outra Faculdade: tomar por-principios coizas tais, que as-intendam todos, os que dam alguma atensam às ditas regras: mas principalmente é necesario, na Logica. Certamente que a Logica nam foi feita, para Clerigos, ou Frades, ou pesoas de uma exquizita erudisam: deve servir a todos os que falam, e raciocinam: e nam só em discursos estudados; mas em qualquer sorte de discurso, publico ou particular; serio ou agradavel. Se ela serve, para ensinar a discorrer bem, deve dar ditames, que posam servir em toda a parte, em que se-discorre, e se-deve discorrer bem. Importa pouco, o que dise este ou aquele, da-Logica: o que importa é, facilitar os meios, para nam se-inganar: e buscar para isto um metodo, que a boa razam persuade ser util, e os omens que tem voto na materia, reconhecem com razam, e experiencia, ser o unico meio, para conseguir aquele fim. Alem diso propolo de um modo, que qualquer pesoa de juizo, se-capacite da-dita verdade. Isto suposto, farei a V.P. algumas reflexoens, sobre o metodo de dirigir o juizo. Mas devo supor, que falo com um omem, sem nenhuma preocupasam: e que nam tenha lido Logica alguma: ou, se a-tem lido, que procure esquecer-se de tudo: mas no-mesmo tempo que tenha juizo claro, para conhecer as coizas. a este omem farei, as seguintes reflexoens.

IDEIA DA LOGICA

Nós temos uma alma capaz de conhecer, todas as coizas deste mundo. Recebemos do-Criador esta alma, dotada de maior perspicacia, doque oje nam temos. O pecado de noso primeiro pai, nos-trouxe por-castigo, sermos sugeitos ao ingano: e por-pena do-mesmo pecado se-nos-limitou, a esfera da-nosa perspicacia: nam conhecemos tam bem como ele, e somos mais sugeitos, a conhecer mal. Contudo a alma é a mesma, que era ao principio: foi criada para conhecer a Verdade, e ficou-lhe sempre a propensam para ela: em modo que, quando a alma ve uma verdade clara, nam pode deixar de conhecèla, e abrasála. Nenhum omem de juizo duvîda, se é omem: nenhum duvîda, se fala, ou está calado; se está em pé, ou asentado: por-forsa á-de admetir uma destas coizas, porque sam mui claras; e uma delas á-de ser verdade. Por-iso nós pecamos, e pecando nos-desviamos da-verdade da-lei divina, que é tam conforme à boa razam; porque nam damos atensam, à dita verdade: que se a-desemos, sem duvida ficariamos persuadidos, que se-devia praticar, o que ela diz. Mas a rebeldia que experimentamos, no-noso corpo, que com dificuldade se-sugeita, aos ditames d’alma; é a cauza deste mal. Ele nos-inclina sempre, para a parte contraria, com a isca de coizas agradaveis: e a alma, divertida com outras considerasoens, dificultozamente volta os olhos para a verdade: e por-iso a-nam-recebe: e por-iso peca. Esta é a origem, de todos os nosos inganos, e de todos os nosos danos. Se a alma nam fose arrastada, polos tumultos da-fantezia, que comumente a-ingana; conheceria mui bem toda a verdade: nam só aquelas que conduzem, para posuir um bem eterno; mas tambem, estas verdades indiferentes das-coizas naturais: e discorreria sem ingano, em toda a materia: mas as cauzas dos-inganos sam tam frequentes, nesta vida mortal; que nam é maravilha, se os omens ajuizam tam mal: e ajuizando asim, obrem em tudo mal.

Isto suposto, a unica medicina que se-tem achado, para ajuizar bem, é desviar as cauzas, que nos-conduzem ao ingano. Ponho de parte, o ajuizar bem para conseguir, a bemaventuransa sobrenatural: (aindaque daqui posa receber muita luz; contudo como necesita de outras coizas, e nam é ese o meu argumento; por-iso o-deixo) e falo somente do-discorrer bem, em todas as outras materias. Digo pois, que o verdadeiro segredo de ajuizar bem, é desviar as cauzas que nos-inganam, e fazem julgar mal. Para fazer isto, é necesario examinar os modos, com que a alma conhece; e meios de que se-serve, para se-explicar.

Nós nam trazemos da-barriga da-maen, conhecimento algum: todos os-adquerimos despois de nacidos. Basta olhar, para o que faz um menino; para ver a sua ignorancia, e que nace despido de todo o conhecimento. Ele aprende a sua lingua, como nós aprendemos uma lingua estrangeira: quero dizer, asimcomo nós, aprendendo uma lingua estrangeira, só formamos ideia dos-nomes que vamos aprendendo, e nam daqueles que ainda nam ouvimos: asim tambem um menino, só tem ideia das-palavras que ouve, e nenhuma das-outras, que nunca ouvio. Mas alem diso nem menos tem ideia das-coizas, que significam os tais nomes, senam das-que ve, ou ouve. Um menino nam profere, senam as palavras que ouve: só intende e fala daquilo, que lhe-tem dito, ou visto. o que mostra claramente, que nam tem outros conhecimentos, senam os que entram polos sentidos. Os que defendem ideias inatas, que mostrem alguma, que nam entre polos sentidos; ou nam se-deduza das-ideias, que intráram por-eles: estou certo, que nam aparecerá alguma, a que nam posamos descobrir, esta origem.

Sam pois os sentidos, as principais portas, polas quais entram as ideias, na alma. Umas destas ideias entram, por-um só sentido: v. g. a Solididade dos-Corpos, que entra polo tato: outras entram por-dois sentidos: v. g. a figura, que pode intrar polo tato, e juntamente polos olhos. Algumas ideias originam-se em nós, com a meditasam, ou reflexam: deste genero é a vontade, percesam &c. Outras entram umas vezes por-sensasam; outras, pola reflexam: v.g. o gosto, dor, existencia, unidade, potencia, sucesam. Finalmente muitas ideias simplezes, se-originam em nós, por-meio das-cauzas privativas; tais sam as ideias que nós temos, das-qualidades dos-corpos: v.g. a ideia de negrura &c. O exame dilatado deste negocio, pertence a outro lugar: basta por-agora que o Logico conhesa, que por-todas estas vias podemos receber, ideias simplezes.