Admiravel é a virtude que a alma tem, para unir, e combinar estas diferentes ideias simplezes, que por-este modo recebe. Verdade é, que alma nace despida, de todo o conhecimento atual: mas fica mui bem recompensada, com a virtude de-que Deus a-dotou, de poder conseguir muitas, e novas ideias, com diferentes combinasoens. Unindo as ideias, que intráram polos sentidos, fórma a alma muitas outras ideias: outras vezes examinando as proprias ideias, nacem diferentes ideias na alma. Desta diferente combinasam de ideias, nacem todas as ideias compostas, que nesta vida experimentamos.
Mas aindaque sejam infinitas as ideias compostas, que a alma fórma, podem-se reduzir, a trez sortes de ideias: que sam as ideias dos-Modos, das-Sustancias, e das-Relasoens. As ideias dos modos sam aquelas ideias que nós formamos, de diversas coizas que nam existem por-si, mas sam dependencias de outras coizas. v.g. a ideia que eu tenho de um triangulo, de uma coluna, de um circulo &c. Estas ainda sam de duas maneiras: ou sam ideias de modos simplezes, ou de modos mixtos. Chamo modos simplezes, às ideias dos-modos, que sam compostas, de duas ideias damesma especie: v.g. a ideia que eu tenho de doze, de cem &c. que é composta das-ideias, de muitas unidades juntas: a ideia de imensidade, que é composta, da-repetisam de diferentes ideias de distancia, repetidas sem fim: e como cada distancia se-supoem ser, uma modificasam de espacio; a dita ideia é uma ideia composta. Chamo modo mixto, uma ideia composta, de modos de diferente especie: v. g. a ideia de beleza, que é um composto de diferentes cores, e proporsoens, que dá gosto vendo-se. tambem a idea de amizade, mentira, obrigasam &c. Estas ideias une o intendimento, sem examinar se existem, ou nam: e a estas dá o nome, que lhe-parece. Os omens porem comumente, recebem estas ideias dos-outros, que lhe-explicam o significado, de muitos termos. Desorteque ou por-aplicasam, ou por-experiencia recebemos as ideias, dos-modos mixtos.
A segunda especie de ideias, sam as das-Sustancias. Nam podendo nós intender, como as ideias simplezes existam por-si só, nos-acostumamos a supor alguma coiza, que as-sustenta: ao que damos o nome, de Sustancia. Digam o que quizerem, os que falam de Sustancia, como de uma coiza, que eles intendem bem o que é; certo é, que nam tem os omens, mais clara ideia de sustancia. Onde ideia de sustancia, é ideia de uma certa coiza incognita; a qual, quando nós queremos explicar, nam sabemos dizer o que é: mas somente dizemos; que é uma coiza, que nós supomos ser a baze, daquelas ideias que vemos. E esta ignorancia é aplicavel, a qualquer sorte de ideia de sustancia. Quanto às ideias das-particulares sustancias, esas formamos nós, unindo quantas ideias podemos ter de uma coiza. v.g. unindo a ideia de cristalino, durisimo &c. formamos ideia, do-diamante. Mas alem destas, devemos unir-lhe, a ideia confuza que nós temos, de uma coiza que as-sustenta: e daquelas ideias, e desta, rezulta a ideia composta, que nós temos neste mundo, da-sustancia do-diamante. Do-que se-segue, que tam clara ideia temos nós, da-sustancia do-Corpo, como do-Espirito: pois nenhuma outra ideia temos mais, que dos-modos ou efeitos, que se-observam; unidos à dita ideia de uma coiza, que supomos sustantála: cujos efeitos tam claramente se-conhecem do-Espirito, como do-Corpo. Alem destas ideias de sustancia, formamos outra ideia composta, ou complexa de sustancia, unindo diferentes ideias de sustancias. v. g. unindo diferentes ideias de naos, pesas de artilharia, marinheiros, almirante &c. fazemos a ideia complexa de armada: e damesma sorte de exercito, mundo &c. A estas damos um só nome, porque na verdade é uma só ideia.
A terceira sorte de ideias, sam as Relasoens. Estas fórma a alma, comparando uma coiza com outra: de que nacem mil denominasoens, que tem proprios nomes, e nos-conduzem a conhecer, outra coiza: e sem os tais nomes, nam conhecemos muitas relasoens. Estes nomes só se-podem dar, quando se-poem o fundamento deles. v. g. Pedro é omem: mas se ele se-caza, este contrato serve para lhe-dar o nome, de marido. Estas ideias de relasoens, sam muitas vezes mais claras, que as ideias das-coizas, que estam sugeitas às ditas relasoens; ou das-sustancias. A ideia de pai, e irmam é mais clara, que a ideia de omem: e com muita mais facilidade eu intendo, que coiza é um irmam; doque intendo, que coiza é um omem. Conhece-se mais claramente, que coiza é um amigo, doque que coiza é Deus. Porque o conhecimento de uma asám, ou de uma simplez ideia, basta muitas vezes, para me-dar o conhecimento, de uma relasam. Polo contrario, para conhecer um ser sustancial, é necesario um exato conhecimento, de uma colesam de ideias. Devemos porem advertir, que todas estas relasoens se-terminam, em ideias simplezes: aindaque nos-paresa, tudo o contrario: e os nomes que conduzem a mente, para conhecer outra coiza, alem do-sugeito da-denominasam; sempre sam relativos. Que todas as relasoens sejam compostas, de ideias simplezes, é coiza para mim certa: mas para o-provar, serîa necesario, fazer um longo discurso, sobre todas as especies de relasoens: para mostrar, donde vem a ideia de Cauza, Efeito, Lugar, Extensam, Identidade, Diversidade &c. como tambem as relasoens morais: v. g. Bem, Mal, Crime, Inocencia &c. Mas rezervo-me para explicar iso a V. P. em outra ocaziam: e agora continuo as minhas reflexoens. Esta em breve é a origem, de todas as nosas ideias.
Daqui fica claro, que das-nosas ideias umas sam simplezes, outras compostas: umas adventicias, que entram polos sentidos, e outras que a mente faz, a que chamam faticias. Destas umas sam claras, outras confuzas; umas adequadas, e outras inadequadas. Finalmente reais, e chimericas; singulares, particulares, e universais.
De todas as ideias, as que mais frequentemente faz a alma, sam as universais. Estas fórma a alma, considerando uma coiza, que tem outras semelhantes: onde considerando todas em uma masa, sem considerar diferensa alguma particular, formamos ideia universal. v. g. Temos trez sortes de triangulos: um se-chama Equilatero, outro Isosceles, e o terceiro Escaleno: cada um dos-quais tem suas particulares propriedades. Mas considerando os ditos triangulos somente, como uma figura de trez angulos, sem determinar as propriedades de cadaum, formamos uma ideia universal, que se-pode aplicar, a cada triangulo de per-si. Este modo de considerar, se-chama nas escolas precizam: palavra tirada do-verbo Præscindo, ou Præcido, que é o mesmo que cortar, separar: porque separamos os triangulos, das-suas propriedades.
Estas ideias universais tem entre os Logicos, diversos nomes. Chamam a uma, Genero: a outra, Especie, Diferensa, Proprio, Acidente. Basta intender brevemente, o significado destas vozes, para poder servir-se na ocaziam; e intender o que os Logicos, querem dizer com elas: nam considero outra utilidade, nestes cinco Predicaveis. Polo contrario, tudo quanto deles dizem os Logicos, comumente é falso: pois supoem claramente, que nós temos perfeito conhecimento, das-Esencias: o que é manifesta falsidade.
Sendo pois, que as nosas ideias, só se-podem comunicar aos outros, por-meio daqueles sinais, a que chamamos vozes; devemos fazer alguma reflexam, sobre esas mesmas vozes, ou palavras: o que pode conter, alguma coiza util. As palavras nam significam os pensamentos, por-virtude natural; mas porque asim o-determináram os Omens. A maior parte das-palavras sam gerais, quero dizer, significam ideias gerais: porque serîa imposivel, e inutil, que cada coiza particular, tivese um nome distinto: o comercio umano farseia insuportavel, e os Omens nam aumentariam os seus conhecimentos. Acostumando-se os Omens, a fazerem ideias abstratas, deram-lhe nomes, a que chamam gerais, ou universais. Á nomes para as ideias simplezes, para os-modos, e relasoens &c. e todos estes é necesario saber, como se-formam, e que coizas particulares tem. Sucede às vezes, que se-introduzam imperfeisoens nas palavras, por-cauza que as ideias que significam, sam mui complexas, e sam cauza que os nomes fiquem duvidozos. Sucede tambem, que os Omens abuzem das-palavras, servindo-se de umas, a que nam dam significado certo, ou lho-dam mui oscuro &c. Devem-se remediar estes defeitos: tendo prezente a origem deles, e o modo com que se-remedeiam: o que se-observa nos-autores, que explicam isto. Isto é o que pertence, à Percesam.
Alem da-faculdade que a mente tem, de formar ideias, a cuja damos o nome de Percesam; tem mais outra faculdade, de comparar uma ideia com outra, e reconhecer a conveniencia, e disconveniencia delas: ao que chamamos Consentimento, ou Juizo. Asimque o julgar nada mais é, que certificar-se a mente, que uma coiza convem a outra, ou nam convem: e comparando ela uma ideia com outra; reconhece, e se-certifica da-conveniencia, ou disconveniencia. Se o juizo se-explica, com as vozes; chama-se Propozisam, ou Enunciasam: e em tal cazo, tanto aquilo a que convem uma coiza, como as vozes porque se-explica; chama-se sugeito da-propozisam: e o que convem, chama-se predicado.
Decendo pois à diversidade de juizos, digo, que se a mente se-certifica, da-conveniencia entre duas propozisoens, chama-se juizo afirmativo; se da-disconveniencia, chama-se negativo. Nam digo, que aja juizos negativos, no-sentido em que o-tomam os Logicos vulgares: mas chama-se afirmativo, ou negativo, segundo a coiza que afirma. Esta diversidade de propozisoens, ou juizos, alcansa-se do-sentido, nam das-palavras: as quais sendo negativas, podem ter sentido afirmativo. O que muitos nam advertindo, fazem mil disputas, e arengas sobre coizas bem claras.