Qualquer dos-nosos juizos, (o mesmo digo das-propozisoens, que sempre correspondem aos juizos) afirmativo, ou negativo, ou explica o nome; ou explica as nosas ideias; ou explica alguma outra coiza que existe: ao primeiro chamamos, juizo Nominal: ao segundo, Ideial: ao terceiro, Real. v.g. Quando eu digo: O oiro nam é pedra: este juizo é real. quando digo: A ideia que eu tenho de pedra, é diferente da-ideia, que tenho de oiro: este juizo é ideial. quando digo: Este nome Amor significa, um afeto da-alma, ou um juizo que formo, da-excelencia de uma pesoa em algum genero, e utilidade que me-pode rezultar dela: este juizo chama-se nominal. Do-conhecimento destas trez sortes de juizos, depende o bom ou mao uzo, que fazem os Omens, das-suas faculdades, em qualquer materia que se-lhe-propoem. A maior parte das-disputas nace, de que nam intendemos bem, as definisoens dos-nomes: e cadaum as-toma, no-seu sentido. O mesmo digo das-definisoens, que explicam as ideias dos-outros, principalmente dos-mortos. Atribuimos aos autores que lemos, mil coizas que eles nunca diseram. Servimo-nos dos-Dicionarios, como de oraculos: sem advertir, que aqueles que os-compuzeram, podiam sofrer o mesmo ingano, procurando a verdadeira inteligencia deste nome. O mesmo sucede nas definisoens reais, tanto nas da-esencia, como de algum acidente ou modo. Persuadimo-nos, que sempre sam verdadeiras: e deste modo abrasando-as sem exame, establecemos um principio, que por-forsa nos-á-de conduzir ao ingano.
Sobre isto das-definisoens, é bem vulgar o erro dos-Logicos comuns, que dizem, que a definisam se-pode fazer por-uma ideia, ou simplez percesam, a que eles chamam, Apreensam. Isto é falso por-muitos principios: nem se-pode fazer definisam alguma, que nam seja, reconhecendo a conveniencia dela, com o seu objeto. Quando dizemos, Animal racional: (suponho agora, que esta seja a verdadeira definisam do-Omem: de que duvido muito, e com razam) ou a mente conhece a conveniencia daquela ideia, com a ideia de Omem; ou nam. Se a-conhece, define: mas em tal cazo produz um conhecimento, ou consentimento, a que chamamos Juizo: porque o expremir, ou nam expremir, com a boca o Est, nam faz ao cazo. Se a-nam-conhece, nam define; mas profere duas ideias separadas. É necesario intender, e advertir tudo isto muito bem, para nam se-inganar, com o que eles dizem.
Alem destes juizos, fórma a mente infinitos outros, damesma sorte, que disemos das-ideias. Temos juizos simplezes, compostos, singulares, e universais. A estas se-reduzem todas as sortes de juizos, ou propozisoens vocais. Conhece-se a especie a que pertence, pola qualidade do-sugeito.
Faz tambem a mente juizos verdadeiros, e falsos. E aqui é necesario o criterio, para nam se-inganar. Consiste o criterio da-verdade, na evidencia com que se-propoem uma coiza, desorteque nam deixe duvidar, de ser asim. Nisto se-inganavam manifestamente os Pirronicos; que chegáram, ou fingîram de duvidar daquilo mesmo, que viam com toda a evidencia. Sobre isto da-evidencia, á diversos graos: se a propozisam é evidente sem prova, chama-se axioma: se em vigor das-provas se-faz evidente, chama-se ilasam, ou concluzam evidente. Tambem estas concluzoens evidentes, segundo as materias recebem diversos nomes: umas vezes dizemos, que tem evidencia metafizica; outras fizica; e outras moral; as quais sem muito trabalho se-intendem. Finalmente acham-se juizos duvidozos, verosimeis, e inverosimeis: cuja natureza se-intende, com a simplez explicasam, e um breve exemplo.
Estas sam as duas operasoens diferentes da-mente, Percesam, e Juizo. nem á alguma outra de diferente especie. Tudo o que a mente faz é, variar estas duas em diferentes maneiras: fazendo de muitas ideias, uma composta: e reconhecendo a conveniencia ou disconveniencia, de uma com outra: e pondo-as em ordem proporcionada, para se-conhecerem. Quando os Dialeticos dizem, que nestas trez afirmasoens.
Todo o omem é animal.
Pedro é omem.
Logo Pedro é animal.
a ultima propozisam é de diferente especie, das-primeiras; dizem uma coiza, que nam poderám nunca provar. O que eu acho é, que tanto a ultima, como as primeiras, sam juizos, com que o intendimento reconhece, a conveniencia de duas ideias. Se o estar em ultimo lugar, ou reconhecer esta, porque ja tenho reconhecido as outras, faz mudar de especie; serîa necesario admetir, outras muitas operasoens do-intendimento.
Isto suposto, a principal operasam livre da-mente, é o Raciocinio, ou Discurso. Consiste ele em que, dadas duas, ou trez, ou dez, ou vinte ideias, se a primeira convem à segunda; e esta à terceira; e esta à quarta &c. a primeira á-de convir à ultima. Desta sorte o intendimento corre da-primeira, para a segunda: desta, para a terceira &c. E ao juizo com que reconhece, a conveniencia da-primeira com a ultima; se-dá o nome, de raciocinasam, inferencia, concluzam, discurso, e alguns outros nomes: o que nam faz mudar a especie: pois na verdade é um juizo, com que eu afirmo esta coiza, porque tenho afirmado, as antecedentes. Onde pode a consequencia ser boa, e ser falsa, se uma das-premisas é falsa: e somente será verdadeira, se as premisas o-forem tambem. O que importa pois é, julgar primeiro bem, e nam se-inganar nas premisas: porque só asim é, que nam se-inganará na concluzam. Para fazer isto, é necesario notar, com infinita diligencia, as cauzas e ocazioens dos-nosos erros, para os-poder evitar.