A primeira ocaziam de ingano, sam as nosas mesmas ideias. Nós percebemos mal, e contudo queremos discorrer com seguransa: os nosos sentidos sam falazes, e suministram-nos frequentes ocazioens de ingano, em materia fizica. O notar estes erros, pedia uma longa disertasam. Basta notar, que nos-inganamos nas ideias de gravidade, levidade, aspereza, gosto, cheiro, e som &c. Cuidamos que estas coizas existem nos-objetos, quando na verdade nada mais sam, que modificasoens do-noso corpo, e espirito. As ideias que recebemos polos olhos, tem mais outra razam, para serem falsas: pois segundo a diversa figura dos-olhos, de diferentes pesoas, devem reprezentar os objetos ou majores, ou menores doque sam. E asim nam nos-devemos fiar sempre delas, para julgar.
A segunda cauza, sam as ideias que formamos: em virtude das-quais mil vezes nos-inganamos. Chamo aqui ideias, àquelas supozisoens que fazemos, para explicar os efeitos da-natureza. Uma vez que nos-ocorre, uma supozisam ou sistema, que nos-parece racionavel, sem demora alguma o-abrasamos como verdadeiro; sem advertir, que muitos sistemas diferentes, podem explicar provavelmente, a mesma coiza. Outra especie de ideias que fazemos, sam as abstrasoens: seguindo as quais, muitos julgam imprudentemente. Atribuimos a diversos efeitos, diversas cauzas: sem advertir, que a mesma cauza pode produzir diferentes, e às vezes incontrados efeitos. Daqui nacem, mil inganos na Fizica, v.g. as virtudes que atribuimos, a muitos medicamentos, que nunca sonháram telas.
A terceira cauza de ingano, sam as palavras, de que nos-servimos. Intendemos, que muitos termos significam o mesmo, quando na verdade nam sam sinonimos. As vozes servem, para explicar os pensamentos: e como nem todos intendem o mesmo, nem todos vem a explicar o mesmo. Das-sustancias inviziveis, nem todos sentîram o mesmo: temos o exemplo nestas vozes, Deus, Animus, Spiritus, Angelus &c. às quais alguns antigos unîram certas ideias, e outros unîram diferentes. O que intende um Deus, de figura umana: o que supoem, um Deus igneo: o que o-julga, de um corpo sutilisimo: o que o-cre espiritual: todos se-servem do-mesmo nome: o mesmo digo de outros nomes. Tambem os Omens se-diversificam, na ideia das-sustancias corporeas: uma ideia fórma o ignorante, do-Corpo: e outra mui diferente, o Filozofo. Tambem nas definisoens de Vicio, Virtude, Piedade, Santidade, Justisa, Obrigasam &c. se-diversificam muito os omens: de que a Istoria suministra, famozos exemplos. Os mesmos Dicionarios apontam vozes, a que nós oje damos um sentido; e antigamente tinham outro: v. g. Navis, Triremis &c. Onde quem nam distingue com cuidado isto, frequentemente se ingana, e discorre mal.
A quarta cauza dos-nosos inganos, sam os afetos do-animo; que produzem infinitos erros. Eles impedem-nos muitas vezes, examinar bem as materias, e por-consequencia, julgar bem. E muitas vezes fazem-nos amar, ou dezejar o duvidozo por-certo. Os que abrasáram de todo o seu corasam, uma doutrina; nam só nam se-cansam em examinar, as razoens contrarias; mas nem o-podem fazer, porque as-nam-vem. Acrecento a isto, que nem menos as-querem ver, aindaque lhas-oferesam: nem ainda outras obras indiferentes, que saiem damesma pena, in odium auctoris. Este justamente é o cazo que sucedeo neste Reino, a um Teologo meu conhecido, que tinha abrasado a Ciencia media. Introu em uma livraria, onde cazualmente abrio um livro, que tratava dos-prolegomenos da-Escritura: lidos alguns paragrafos, louvou muito a materia, e o metodo; e proguntou quem era o autor: e quando ouvio dizer, que era um Dominicano, fechou logo o livro, e nam dise mais palavra. Comque, será necesario despir-se, de todos os prejuizos; para intender as coizas bem, e poder discorrer com acerto.
Conhecidos os erros, é necesario evitalos, procurando a verdade. Para o-fazer, é precizo observar algum metodo. É pois o metodo aquela operasam do-intendimento, tam necesaria em todo o genero de Ciencias: e sem a qual nam se-pode discorrer bem. O discurso é aquele progreso, que o intendimento faz, de um conhecimento para outro: o metodo é o que prepara a materia, ao discurso. Desorteque a mente com o metodo dispoem as ideias, em boa ordem: e com o discurso reconhece a conveniencia delas. De duas sortes é o metodo. Dispomos as vezes os nosos conhecimentos, de uma tal maneira, que dividimos a coiza que queremos conhecer, nas suas partes: paraque asim as-posamos conhecer todas, e consequentemente o todo. Este metodo chama-se rezolutivo, ou analitico, que vale o mesmo. Emprega-se comumente, para reconhecer a verdade de muitas questoens, e para descobrir, e adquerir conhecimentos. A outra sorte de metodo é, quando devendo ensinar uma doutrina aos outros, detal-sorte dispomos, os nosos conhecimentos; que intendendo cada um deles, venha o dicipulo a conhecer, todo o corpo da-Ciencia, que se-compoem, daquelas particulares doutrinas. Este metodo chama-se compozitivo, ou sintetico, que sam sinonimos: ou tambem metodo de doutrina, ou didatico, ou didascalico: que vale o mesmo. E deste uzam comumente os bons mestres, quando ensinam alguma materia.
Para nam nos-inganarmos no-metodo, é necesario ter diante dos-olhos, que nós ignoramos a esencia, de todas as coizas. Onde ignoramos, a esencia da-Materia, do-Corpo, das-Fórmas, do-Espirito, e das-nosas mesmas ideias: é necesario antes de tudo, pór esta advertencia. Isto suposto, fazem-se questoens indisoluveis, a que nam podemos responder: que sam as que dependem, do-conhecimento da-esencia das-coizas: e destas nam falamos. Temos alem diso questoens soluveis, que se-dividem em trez especies: I. posto um atributo, progunta-se qual é o sugeito que lhe-compete. II. posto o sugeito, progunta-se qual atributo determinado lhe-compete. III. dado o atributo e sugeito, progunta-se se um compete a outro. Trez sam as fontes donde se-tiram, as solusoens de todas as questoens: Razam, Experiencia, e o Testemunho dos-autores.
As leis do-metodo Analitico sam estas. Intender os vocabulos: determinar as questoens: separar as partes delas: fugir de todo o genero de equivocos: fugir das-oscuridades: establecer termos comuns, e claros: intender os testemunhos e autoridades, em que se-funda. Alem diso, saber os requizitos que sam necesarios, para intrar em uma questam: v.g. para a Istoria, as Antiguidades, Cronologia, Geografia &c. para a Fizica, a noticia das-melhores experiencias &c. Ler o contexto, e ver as mais coizas que apontam os outros, para nam errar no-criterio. Ter prezentes os canones, que comumente se-asinam, para distinguir as obras supostas, das-verdadeiras.
O metodo Sintetico, ou metodo de mostrar a verdade, tem estas leis. Nam admetir voz sem a-explicar: nam mudar o significado das-vozes: nam concluir sem evidencia: nam inferir senam de principios provados. Quem observa estas regras, pode ter a consolasam, que tem boa Logica.
Tendo visto o modo, com que o estudante se-deve regular, no-metodo das-Ciencias; fica claro, como se-deve conter nas disputas publicas, tanto argumentando, como respondendo. Deve pois argumentar com razoens, e nam com palavras: fugindo de sofismas, como indignos de um Filozofo, que sinceramente ama a verdade. Se quizer servir-se do-silogismo para argumentar, pode fazèlo. Digo porem, que muitas vezes sem silogismo, exporá melhor as suas razoens: servindo-se de um metodo de dialogo curto, e claro.
No-que toca a responder, se o arguente se-servir de silogismos, com boas razoens, pode seguir o mesmo metodo: se pois ele comesar com o sofisma, é melhor reduzilo fóra da-Fórma, para lhe-ensinar a argumentar. Em todo o cazo nam se-deve deixar pasar propozisam oscura, que nam se-explique. Se V.P. obriga a explicar-se um sofista, e pòr em pratos limpos, o que quer dizer nesta, ou naquela propozisam; acabou-se o sofisma. Esta nam é ideia nova, de que se-devam admirar os Dialeticos: eles o-praticam todos os dias argumentando, e respondendo. Se o que distingue uma propozisam, uza de termos incognitos; ou se o que argumenta, se-serve de semelhantes propozisoens; verá V. P. que os mais advertidos Peripateticos, sam os primeiros a dizer-lhe, que explique a propozisam, ou distinsam. Julgo pois, que o mesmo deve fazer qualquer defendente, que tem a infelicidade, de ter um Dialetico por-arguente. Ponha-se o estudante neste primeiro principio, de nam deixar pasar palavras confuzas, como fazem os Geometras; e verá que se-acabam, todas as disputas: as quais comumente versam, sobre a diversa inteligencia dos-termos; e nam tem mais forsa, que aquela que lhe-dá, a dispozisam artificial do-silogismo. Desorteque reduzido a proza corrente, o que estava armado em silogismo, nam tem forsa alguma.