(Sentando-se junto do berço)
E aqui 'stou sendo mãe, mãe adoptiva,
Do gérmen d'essa orgia productiva!
(Pausa){15}
Não quiz Deus dar-me um filho que pedia,
E que n'este deserto tanto urgia,
Para que n'um momento, n'um instante.
Tenha d'acalentar o que é da amante!
Não quiz Deus conceder-me tal mercê!...
(Pausa)
Marido... foge ao lar por onde a fé
Do amor pode ser a unica sincera...
E lá vae, lá vae elle como a féra
Viciada, em procura do covil,
Onde recebe o goso d'essas mil
Desgraçadas sem alma, sem consciencia!
Lá vae elle, deixando esta innocencia
Do altar que a pura Egreja solidou,
Em troca do que nunca, nunca amou;
Porque amar, nunca e nunca sabe, quem
Se ausenta de tão santo amor de mãe!
Lá vae, lá anda n'essa podridão
Que rouba o sentimento e a razão!
Que destroe, injuría e enxovalha,
Que infecta, que corrompe, prende e emalha
A noção do respeito p'lo dever!
Lá anda n'esse impudico prazer,
Cujas garras tão vis, cynicamente
Arrebatam do puro e casto ambiente
Todo esse bem, que n'elle se creara;
Cujas garras, de força bruta, avára.
Arrebatam do lar santificado
O descanço e o bem que lhes é dado!
Lá anda, lá vegeta no monturo
Mais ignobil, mais baixo, mais impuro,
Que a desgraça creou, sustenta e nutre;
Filando com intuitos só de abutre,
E attributos de farça e d'ironia,
As prezas de tão grande vilania!
Vilania,--que em seu lubrico espasmo,
Chasqueia da virtude, com sarcasmo,
Ri da fé, desvirtua a honestidade,
Deprava o sentimento e a dignidade.
Insulta, zomba e rasga sem respeito
O véu do precioso preconceito!
Suja, quebra, dissolve e inutilisa,
Macúla, estraga e já esterilisa
A pureza e o brilho do que é são!
Abala, derrue, prosta em confusão,{16}
Det'riora, desfaz, calca e elimina
A graça do bom lar, graça Divina!...
(Pausa, deixando tombar a cabeça sobre as mãos e exclamando dolorosamente)
E foi... foi assim que essa vilania
Me roubou o socego e a alegria!
Foi assim, assim, que ella aqui entrou,
E que de mim se riu e só zombou!
(Encosta-se sentidamente ao berço)