Do grande soffrimento e minha dôr!{40}
Mas como Deus em tudo dá coragem,
Eu propria mostrarei toda a miragem
Do espelho que pretende descobrir.
(Com altivez)
Mas veja bem, que só vae reflectir
A verdade, e ella, saiba, que aniquilla
Os infames, tornando mui tranquilla
A consciencia accusada! E a verdade,
Chamando os villões á realidade,
Vae prostra-los na immensa confusão
De crimes, sem desculpa, nem perdão!
A verdade, esse grande dom do mundo,
No peito dos malvados crava a fundo
O punhal do castigo merecido!
E ai de si, miseravel! se vencido
Ficar na falsa lucta que travou!
Ai de si, se, p'ra mim, Deus evocou
A redempção, á face do mysterio
Que lhe auctorisa tão cynico imperio
D'insidiar, lançando-me labeus
Que apenas tanto o attingem e são seus!
(Com arrogancia)
Pois bem! Perante mim, e n'este instante,
Se defrontam marido e sua amante!
Margarida
(Surprehendida)
Senhora!? Que dizeis?! É seu marido
Este homem que comigo tem vivido
E que, não sei porquê, aqui me trouxe?!...
Arminda
É! Mas melhor seria que o não fosse!
Vamos : Perante mim e n'este instante,
Se defrontam marido e sua amante.
Procurando em vilissima baixeza
O mal que tão sómente a elles lhe peza!
E se era meu dever escorraçar
Quem se arroja e atreve a enxovalhar
Com descáro, a virtude d'esta casa,
Só muito antes a minha alma se empraza
A repudiar bem altivamente
Os instinctos de tão ignobil gente,
Ordenando que fiquem, por minutos,
Na expiação de feitos e seus fructos.{41}