Margarida

Era a voz da verdade e da razão,
Illuminando as trevas da mentira!

Arminda

(Interrompendo)

É a prova do mal que tanto aspira.
Para me confundir n'essa torpeza
Que inventou, e que sempre se despreza
Com orgulho e altivez, porque, orgulhosa,
Bem se torna a mulher crente, e ciosa
Dos seus deveres, mesmo, mesmo quando
Isolada p'lo pessimo desmando
Do marido, mesmo inda que atirada
Para o jus da vingança provocada.
Orgulhosa se torna esta mulher
Que, no direito d'um mau proceder,{43}
Em desforço do seu procedimento,
Só antes se acoberta ao sentimento
Que a sã moralidade nos indica,
E ao bem que tudo, tudo dignifica!

E é então o senhor, que, sem nobreza
D'aquilo onde se lê, estuda e reza
A melhor oração da nossa vida,
Vem hoje, perante esta alma esquecida,
Interrogar na mais dura exigencia
Quaes as razões porque tenra existencia
Se acalenta no leito de innocentes,
Com meus affagos ternos e dolentes!

E é então o senhor, é o senhor,
Que, aggravando inda mais a minha dôr,
Vem hoje aqui no intuito de saber
Porque se encontra ao lado da mulher
Desposada, a criança que acalenta?
E sabe porque? Sabe porque dentro
D'este lar se aconchega esse vivente?
Porque, sem duvida, é seu descendente!

Henrique

(Surprehendido de subito)

Meu filho?!... Que irrisoria affirmativa
Para suas desculpas e evasiva!
Meu filho, an? Com que então, meu filho? E esta?!
Só se a este lar se dá, faculta e presta
O mysierio da tal santa doutrina!
Talvez! Talvez que a Graça, a obra Divina,
Por aqui estendesse o puro manto,
E que depois, p'lo dom do Esp'rito Santo,
Eu tambem seja pae?! Talvez, talvez
O mysterio julgasse pôr-me aos pés
O filho que me indica, não é assim?...