(Irado)

Ora vamos senhora! Ponha fim
Á comedia tão mal representada,
E diga como essa alma envenenada
Concebeu a pequena creatura{44}

Arminda

(Apontando para Henrique e Margarida)

No desvario do pae e na loucura
Da mãe!...

Margarida

(Levantando-se e avançando para Henrique)

Que sou eu! Sim! Sou eu, senhor,
Que na ancia de vingança e de rancôr,
Me desfiz da creança que me deu.
A mãe maldita, está aqui, sou eu,
Que em cegueira da minha profissão
Atirei com a nossa creação
Ao sabôr dos instinctos d'esta vida.
A mãe, que tem por nome Margarida,
E por mister o vicio infamante,
Sou eu! Esta que foi a sua amante,
E de cuja união sahe oriundo
Esse fructo que vê a luz do mundo.
A mãe, sou eu, que na brutalidade
Do meu sentir e tão baixa maldade,
Apunhalou por fórma audaciosa
O socego do lar, e o bem da esposa!
A mãe senhor, sou eu, esta mulher,
Que um pedaço de carne faz viver
P'ra orgia, palpitando em sangue vil!
A mãe sou eu, eu, uma d'essas mil
Clientes de tão indigna alla mundana,
E que, vivendo sob a fórma humana,
Só renegam os dons da Natureza
Por bem degeneradas em baixeza!
A mãe sou eu, que tal nome invocando,
Se affronta um predicado venerando.
Alma não a tenho; odios ha alguns;
Nada d'amor e meritos nenhuns.
A mãe? a mãe, sou eu, eu, este horror!...

Henrique

(Mal comprehendendo a situação)