(Humilde e avançando um pouco)

Não sei! Olhe? não sei!... Bem vê, bem vê,
Que nós obramos sem alma nem fé.
Pois eu sei lá senhor! sim, eu sei lá
O que fiz? Foi apenas o que dá
Esta vil creatura! Foi sómente
A pratica d'um acto inconsciente!...{46}

Arminda

(Interrompendo)

E que, talvez, por essa inconsciencia,
Um porvir se consiga da innocencia...

(Apontando para o berço)

Descança ella no leito que lhe dei,
Embalada p'la dôr que alimentei.
E nas minhas canções, mesmo chorando,
A pouco e pouco irei sempre insuflando
A redempção. Depois, quando mais tarde,
Ao bom Deus eu imploro que m'a guarde
E d'esta virgindade faça alguem,
Já que o mesmo Deus d'ella me fez mãe.

(Approximando-se do berço)

Vejam? Sonha decerto na ventura
Que o acaso lhe trouxe, e na candura
Do berço onde dormita! Berço pobre
De brocados, mas rico, rico e nobre
Do bem! Sonha decerto na esperança
Com que se entrega á minha confiança:
Sonha, quem sabe? na libertação
Da cadeia que traz humilhação!...

Margarida