Bertha
E que inda ri de si!
Carlos
Senhora! Que medonha crueldade!!…
Bertha
Que quer?! é um engano natural…
Suppoz, julgou que eu era uma beldade,
Conquistou-me como um grande ideal
Emanado dos Ceus, ente divino,
Mulher de formosura incomparavel,
De olhar meigo, suave e rosto fino,
Imagem linda, santa e adoravel,
Nympha, que a muza canta em dôce estylo,
Em poema sublime, em verso bello,
O quadro mais perfeito de Murillo,
E da sculptura, a estatua modello.
Sonhou-me assim, porém foi sonho erróneo
Hoje, eis apenas o ente que não passa
D'um objecto preciso ao matrimonio,
Sem que tenha sequer uma só graça
D'aquellas que o Senhor imaginou.
Hoje eis a mulher simples e vulgar,
Sem os dons d'outro tempo que passou,
E que ao vêr-me, pensára architetar.
Emfim: Mulher inutil, sem valor…
Carlos
E que ora transforma em atroz calvario
A vida do hymineu!…
Bertha
Oh! meu Senhôr:
Isso é tão futil, é tão secundario,
Que de f'rido, mostrar-se-me aparente,
Creia, revela em bôa consciencia,
Nem sêr constante, nem sêr coherente…