Quem viu a vermelha rosa N'um ramalhete de flôres De todas a mais formosa Quer nas formas, quer nas côres: Quem da noute socegada No silencioso véo Viu a lua prateada Entre as estrellas do céo: Quem na belleza prestante Do palacio, ou templo santo Viu a corinthia elegante Que remata o molle achanto: Quem entre a familia leve, Habitante da espessura, Viu a pomba côr da neve, Vivo emblema da candura: Não viu mais que uma imperfeita Imagem das maravilhas, Com que Fatima deleita Os olhos, do seu povo entre as mais filhas.

Porem, já sequiosos da vingança Os Christãos se aparelham p'ra peleija. Em batalhas o Rei divide as lanças, Marcando a cada uma quem a reja: P'ra o assalto prescreve sem tardança De cada Capitão qual dever seja, A qual compete de ir na frente a gloria, A qual mais tarde ha de colher victoria.

A aquelle, que no nome, qual no peito Tem dos fortes a nobre galhardia, Entrega o grande Affonso satisfeito. Entre as batalhas, a que a frente guia: Na mesma linha põe e de igual geito A que o pendão de Mem Moniz seguia; Bem como a forte gente, cujo ousado Valor tem vido a Sousa confiado.

As reservas intrepidas e ardentes, Onde a lucta attrahir maior perigo, Viegas com Martim, e outros valentes Promptos conduzirão sobre o inimigo; Porem de Pedro Affonso armipotente Braço e conselho o Rei quer ter comsigo; Nem desdenha reter junto a seu lado O Joven Escudeiro denodado.

As trompas guerreiras O signal entoam, Ao combatte voam As bravas fileiras. Os mouros defendem Debalde a campina, Debalde pretendem, Que os Christãos bradando Co'a lança arremetem, A quanto accommettem Rompendo e prostrando.

Qual da serra alpina Partiu destacada A rocha gelada, Que o valle domina, E em forças crestando Na queda espantosa Co'a massa assombrosa Vai tudo rompendo; Assim as batalhas Aos mouros forçavam, E em fuga os lançavam Ao pé das muralhas.

Na rocha escarpada O mouro confia; O Christão porfia, E a rocha é trepada. Embora, galgando Por entre os rochedos, Inteiros penedos Descendem troando: As penhas, nas penhas Caindo, arrebentam; Heroicas façanhas Façanhas sustentam; Setas sibilantes Cruzam por milhares Das fundas girantes Com os tiros nos ares.

Em quanto os archeiros A morte arremedam, Mais brava os lanceiros Já lucta começam, O escudo, a couraça, A malha cerrada, De morte esfaimada A lança transpassa, E aos golpes da espada O elmo partido No craneo fendido Lhe franqueia a entrada.

A escada tremente Á muralha erguida Já foi erigida Pela ousada gente; Do escudo coberto, Com o ferro empunhado, Mais de um segue ousado No ár trilho incerto, E sobre as ameias Mais de um temerario, Entrega ao contrario O sangue das veias.

A pugna engrandece, Redobra a fereza, Do ataque e defeza A teima recresce. Já os muros altos Por todos os lados Sentem renovados Continuos assaltos; Hauzeri no emtanto Resiste esforçado, Fero e denodado Desconhece o espanto; Tal, já quasi exangue, Javali ferido Com o dente buido Derrama inda o sangue, E a um tronco acuado, O collo cerdoso Revolve animoso A um, e outro lado.